Voltar ao resumo

Dependence and Fights

O Altar das Cicatrizes Curadas

O brilho dos três anéis idênticos sobre a mesa de centro parecia desafiar a lógica daquela casa. Charlotte os observava com uma intensidade melancólica, girando a peça de ouro branco em seu dedo anelar enquanto Engfa tentava, com uma paciência quase milagrosa, encaixar a asa do caça de Lego que haviam comprado no shopping. Faye estava ao lado, com um tablet em mãos, revisando relatórios da empresa de sua família, mas seus olhos frequentemente fugiam para as outras duas mulheres.

— Como nós vamos fazer isso? — A voz de Charlotte quebrou o silêncio, soando pequena e carregada de uma dúvida genuína.

Engfa parou o que estava fazendo, uma peça pequena ainda entre os dedos.

— Fazer o quê, pequena?

— Casar — disse Charlotte, olhando de Engfa para Faye. — O mundo inteiro vê vocês duas como irmãs. Os pais da Faye criaram você, Engfa. No papel, na vizinhança, na memória de todos... vocês são família. Como três mulheres se casam quando duas delas são tecnicamente irmãs de criação?

Faye baixou o tablet lentamente, sua expressão tornando-se aquela máscara de autoridade calma que ela usava para resolver crises.

— Charlotte, "irmã de criação" é um termo social, não um impedimento biológico ou legal intransponível — Faye explicou, sua voz assumindo o tom didático que Engfa costumava odiar, mas que agora apenas ouvia. — Eu já consultei nossos advogados e revisei os estatutos. Não há laço de sangue. Engfa nunca foi legalmente adotada pelos meus pais como filha no registro civil; ela foi acolhida. Perante o tribunal e a lei, somos estranhas que compartilharam um teto. Podemos registrar nossa união sem que nenhum juiz aponte o dedo para um incesto que não existe.

Engfa soltou a peça de plástico e olhou para Faye com os olhos arregalados, o choque sobrepujando sua habitual postura arrogante.

— Você... você realmente consultou advogados sobre isso? — Engfa perguntou, a voz falhando. — Faye, nós realmente vamos casar? Tipo, as três? No papel?

Faye deu um sorriso ladino, fechando o tablet e caminhando até elas. Ela se ajoelhou no tapete, ficando na altura das duas.

— Você achou que os anéis eram apenas para marcar território, Engfa? Eu não faço nada pela metade. Se vamos nos destruir ou nos salvar, faremos isso com um contrato assinado e uma festa que Bangkok jamais esquecerá.

Charlotte começou a chorar, mas desta vez não era para chamar atenção ou manipular. Eram lágrimas pesadas de alívio. Ela se jogou nos braços de Faye, puxando Engfa junto. Pela primeira vez, a possessividade que as unia não parecia uma corrente que as sufocava, mas um alicerce que as sustentava.

No entanto, o caminho até o altar não foi pavimentado apenas com flores. O noivado trouxe à tona o que havia de mais podre na dinâmica delas. As brigas intensificaram-se quando começaram a planejar o futuro. O ciúme de Engfa explodia a cada fornecedor que olhava demais para Charlotte; o controle de Faye tornava-se sufocante ao tentar organizar cada segundo da cerimônia; e Charlotte, sentindo a pressão, voltava a ter crises de dependência que drenavam as outras duas.

— Nós vamos nos matar antes de dizer "sim" — gritou Engfa certa noite, após arremessar um cinzeiro contra a parede. — Isso é doentio! Você quer mandar até na cor das minhas meias, Faye! E você, Charlotte, não consegue escolher um maldito prato sem entrar em colapso!

— Talvez porque vocês me tratam como uma boneca! — rebateu Charlotte, soluçando.

Faye, em vez de retrucar com sarcasmo, apenas sentou-se no chão, cobrindo o rosto com as mãos. O silêncio que se seguiu foi o mais aterrorizante de todos.

— Nós precisamos de ajuda — sussurrou Faye. — Se não fizermos algo, vamos queimar tudo o que construímos.

E assim começou a terapia.

Os primeiros meses foram brutais. Engfa odiava a psicóloga, uma mulher de meia-idade que não se intimidava com seus rosnados ou sua jaqueta de couro. Faye detestava ser analisada, sentindo que estava perdendo o controle do jogo. Charlotte chorava em todas as sessões, confrontando o fato de que usava sua fragilidade como arma.

Mas, lentamente, as engrenagens começaram a mudar.

Anos se passaram. O casamento aconteceu em uma cerimônia privada, à beira-mar, onde o vento carregava as promessas de três mulheres que decidiram que o amor não precisava ser um campo de batalha constante.

Dez anos depois do dia no shopping, o loft era um lugar diferente. O cheiro de cigarro havia sido substituído pelo aroma de café fresco e baunilha. As paredes, antes nuas e frias, agora exibiam quadros de uma galeria de arte renomada — o investimento de Charlotte, que se tornara uma curadora respeitada e uma mulher cuja autoconfiança não dependia mais apenas da aprovação de suas esposas.

Engfa não usava mais sua raiva como escudo. Ela havia aberto a "Waraha Combat Academy", um espaço dedicado a crianças com problemas comportamentais e traumas familiares. Ela ensinava a elas o que levou décadas para aprender: que a força de um soco não é nada comparada à força de controlar a própria mente.

Faye, por sua vez, havia assumido os negócios da família. Mas não era apenas uma empresa de logística. O "segredo sujo" dos Malisorn — uma rede de influência que beirava a máfia — agora estava sob seu comando. No entanto, ela não era mais a ditadora doméstica. Em casa, ela aprendera a ceder o trono.

— Ela está dormindo? — perguntou Engfa, entrando no quarto principal e tirando sua jaqueta, que agora era de uma marca sustentável e bem mais macia.

Faye estava sentada na poltrona de amamentação, observando o berço de carvalho no canto do quarto.

— Finalmente — sussurrou Faye, estendendo a mão para Engfa. — Sonya deu trabalho hoje. Ela tem a sua teimosia, sabia?

Engfa sorriu, aproximando-se e beijando a testa de Faye antes de olhar para a filha. Sonya tinha apenas três anos, mas já mostrava a mistura explosiva de suas mães. Tinha os olhos grandes e expressivos de Charlotte, a postura observadora e intimidadora de Faye e o sorriso travesso que Engfa costumava dar quando estava prestes a aprontar algo.

Charlotte apareceu na porta, vestindo um pijama de seda, segurando duas taças de vinho.

— O monstrinho apagou? — perguntou Charlotte em um sussurro, entregando uma taça para Faye e outra para Engfa.

— Apagou — Engfa respondeu, abraçando Charlotte pela cintura. — Ela tentou morder o instrutor de natação hoje porque ele disse que ela precisava usar boias.

— Definitivamente o sangue Waraha — Faye brincou, dando um gole no vinho.

As três se aproximaram do berço, observando a pequena Sonya. A criança era o símbolo vivo de que a toxicidade podia ser filtrada. Elas ainda tinham seus momentos; Engfa ainda sentia uma pontada de ciúme possessivo quando via Charlotte brilhar em suas vernissages, mas agora ela apenas segurava a mão de sua esposa e dizia o quanto estava orgulhosa. Faye ainda sentia o impulso de controlar cada detalhe da vida delas, mas agora ela respirava fundo e perguntava: "O que vocês acham disso?".

— Às vezes eu olho para trás — começou Charlotte, encostando a cabeça no ombro de Engfa — e não consigo acreditar que sobrevivemos àquela fase. Nós éramos tão destrutivas.

— Nós éramos viciadas na dor — Faye admitiu, olhando para a aliança em seu dedo. — Achávamos que, se não doesse, não era amor. Demorou muito para entendermos que o amor é o que nos cura da dor, não o que a causa.

Engfa apertou a mão das duas sobre a grade do berço.

— Eu ainda odiaria qualquer uma que tentasse tirar vocês de mim — disse Engfa, e embora o tom fosse suave, a velha chama de obsessão ainda brilhava lá no fundo, agora domada e direcionada para a proteção. — Mas agora eu sei que vocês não vão a lugar nenhum.

— Nunca — disse Faye.

— Nem se você tentasse nos expulsar — completou Charlotte com um riso baixo.

Sonya se mexeu no sono, agarrando um pequeno urso de pelúcia que Engfa havia comprado — e que, ironicamente, estava vestido com uma pequena jaqueta de couro.

As três saíram do quarto em silêncio, indo para a varanda do loft que agora era cercada de plantas cuidadas por Faye. A vista de Bangkok era a mesma de anos atrás, mas a perspectiva era outra. Elas não eram mais prisioneiras de um labirinto de obsessão; elas haviam construído um jardim sobre as cinzas de seu passado.

— Sabe o que é mais engraçado? — Engfa perguntou, acendendo um incenso de sândalo em vez de um cigarro.

— O quê? — perguntou Faye.

— Que todos diziam que íamos nos destruir. Que éramos um erro geológico — Engfa sorriu, olhando para as duas mulheres que eram sua vida. — E aqui estamos nós. Mais fortes do que qualquer um deles.

— É porque nós não desistimos quando ficou feio — Charlotte disse, abraçando as duas por trás. — Nós escolhemos a terapia, escolhemos a conversa, escolhemos a Sonya... nós escolhemos ser melhores uma pela outra.

Faye puxou Engfa pela gola da camisa, um gesto que outrora seria o início de uma briga, mas que agora era apenas um convite para um beijo calmo.

— Eu ainda amo quando você faz isso — murmurou Engfa entre os lábios de Faye.

— Eu sei que ama — Faye respondeu com seu eterno sarcasmo elegante. — Algumas coisas nunca mudam, Waraha. Só se aprimoram.

A noite caiu sobre o loft, mas não havia mais medo do escuro. O amor delas, que nascera entre gritos, ciúmes doentios e uma rivalidade distorcida, havia finalmente encontrado seu ponto de equilíbrio. Elas ainda eram intensas, ainda eram possessivas à sua maneira, mas agora havia respeito onde antes havia apenas desejo de posse.

Elas eram Engfa, Faye e Charlotte. Três nomes que o destino entrelaçou de forma caótica, mas que o tempo e a vontade transformaram em uma família.

E enquanto Sonya dormia o sono dos justos, as três rainhas daquele pequeno império brindavam ao fato de que, às vezes, as relações mais tóxicas são aquelas que, quando purificadas pelo fogo da verdade, tornam-se o ouro mais puro.

— Para nós — disse Charlotte, levantando a taça.

— Para o nosso caos — completou Engfa.

— Para a nossa paz — finalizou Faye.

As taças se tocaram, um som cristalino que selava o fim de uma era de dor e o início de uma eternidade de cuidado. O labirinto havia se tornado um lar, e as correntes haviam se tornado laços que nenhuma delas jamais desejaria quebrar.