Dependence and Fights
Frágil Vidro de Normalidade
O sol de sábado filtrava-se pelas janelas do loft, mas, pela primeira vez em semanas, não havia o cheiro pesado de fumaça ou o som de gritos ecoando pelas paredes de concreto. Charlotte havia acordado com uma disposição incomum, uma energia vibrante que parecia suavizar até as arestas mais cortantes da personalidade de Engfa e o sarcasmo defensivo de Faye.
— Hoje nós vamos sair — decretou Charlotte, pulando na cama entre as duas. — Sem jaquetas de couro pesadas, sem olhares de quem vai cometer um crime, e sem discussões sobre quem mandou quem calar a boca. Nós vamos ao shopping.
Engfa resmungou, cobrindo o rosto com o travesseiro.
— Shopping, Charlotte? No sábado? Está cheio de gente, crianças gritando e...
— E nós vamos comprar nossos anéis — Charlotte a interrompeu, puxando o travesseiro com força. — Você prometeu, Engfa. E Faye disse que o cartão de crédito dela estava implorando para ser usado.
Faye, que já estava sentada na borda da cama observando a cena com um sorriso contido, esticou-se e tocou o pé de Engfa por cima do lençol.
— Ela tem razão, "irmã". Um pouco de luz do dia pode fazer bem para essa sua pele pálida de quem vive em clubes de luta. Além disso, eu já escolhi a joalheria.
Engfa sentou-se, o cabelo castanho-escuro bagunçado caindo sobre os olhos. Ela olhou para as duas mulheres à sua frente e, por um momento, a névoa de raiva e possessividade que costumava nublar sua mente se dissipou. Elas pareciam... felizes. De um jeito simples. De um jeito que ela não se lembrava de ter experimentado desde que seus pais ainda estavam vivos.
— Tudo bem — cedeu Engfa, soltando um suspiro longo. — Mas se alguém esbarrar em mim e não pedir desculpas, eu não garanto nada.
O trajeto até o shopping foi surpreendentemente tranquilo. No carro, Charlotte insistiu em colocar músicas pop chiclete, cantando desafinada enquanto segurava a mão de Engfa, que dirigia, e a mão de Faye no banco de trás. Não havia disputa por território, apenas o entrelaçar de dedos e a promessa de um dia diferente.
Ao entrarem na joalheria de luxo, o ambiente silencioso e climatizado pareceu intimidar Engfa por um segundo. Ela se sentia deslocada entre as vitrines de veludo, mas Faye assumiu o controle com sua elegância natural.
— Queremos algo que simbolize união, mas que tenha personalidade — disse Faye ao atendente, que as observava com uma curiosidade polida. — Três anéis. Que se complementem, mas que sejam únicos.
Charlotte estava em êxtase. Ela provou dezenas de modelos, rindo enquanto as pedras preciosas refletiam a luz do teto.
— Este! — Charlotte exclamou, apontando para um conjunto de ouro branco com pequenas safiras embutidas. — Olhem, as pedras têm a cor dos olhos da Engfa quando ela está calma.
— Então elas devem ser quase transparentes, porque isso raramente acontece — provocou Faye, recebendo um empurrão leve de Engfa.
— Cale a boca, Malisorn — disse Engfa, mas não havia veneno em sua voz. Ela pegou o anel destinado a ela e o deslizou pelo dedo. — Ficou bom. É simples.
— É perfeito — corrigiu Charlotte, deslizando o dela e o de Faye.
Após a compra, elas caminharam pelo shopping como qualquer outro grupo de pessoas, embora a beleza das três atraísse olhares inevitáveis. Charlotte, sentindo-se mimada e protegida, guiava as duas pelas lojas de departamento.
— Estou com fome — anunciou Charlotte meia hora depois. — Nada de lagosta ou vinho caro hoje. Eu quero fast-food. Quero hambúrguer, batata frita e refrigerante de máquina.
— Meu estômago vai protestar contra essa gordura trans — comentou Faye, arqueando uma sobrancelha —, mas como hoje é o dia da sua ditadura fofa, eu aceito.
Na praça de alimentação, a trégua quase foi quebrada. Elas estavam sentadas em uma mesa de canto, dividindo baldes de batatas, quando o incidente ocorreu. Engfa, que estava estranhamente relaxada, viu um menino de cerca de sete anos passar correndo com uma caixa de Lego — uma edição especial de um avião de caça que ela vinha procurando para sua coleção pessoal há meses.
— Ei! — Engfa exclamou, levantando-se tão rápido que a cadeira quase tombou.
— Engfa, o que você está fazendo? — perguntou Charlotte, com a boca cheia de batata.
Engfa caminhou até a criança, que parou assustada.
— Onde você conseguiu isso, garoto? Esse Lego está esgotado em todas as lojas da Tailândia.
O menino abraçou a caixa com força, os olhos arregalados.
— Foi presente do meu pai! — o garoto respondeu, a voz tremendo.
— Engfa Waraha! — Charlotte chegou por trás, puxando-a pelo braço. — Você não pode brigar com uma criança por causa de um brinquedo! Pelo amor de Deus, tenha modos.
— É um F-14 Tomcat, Charlotte! Edição de colecionador! — Engfa protestou, parecendo ela mesma uma criança birrenta. — Ele nem vai saber montar direito, vai perder as peças em dois dias!
Faye aproximou-se com calma, observando os pais do menino que já se aproximavam com expressões defensivas. Ela colocou a mão no ombro de Engfa, um toque de contenção.
— Deixe comigo, brutamontes — sussurrou Faye.
Com seu charme diplomático e uma habilidade de negociação que faria qualquer CEO chorar, Faye conversou com os pais da criança. Ela explicou que sua "irmã" era uma entusiasta um tanto quanto... intensa, e ofereceu um valor três vezes maior do que o preço original do brinquedo, além de se oferecer para comprar qualquer outro Lego da loja para o menino.
Dez minutos depois, Engfa estava sentada à mesa, abraçada à caixa de Lego com um sorriso de orelha a orelha.
— Você é inacreditável — disse Charlotte, rindo enquanto limpava um pouco de ketchup do canto da boca de Engfa. — Faye teve que usar todo o poder de persuasão Malisorn para você conseguir esse avião.
— Eu amei o presente — murmurou Engfa, olhando para Faye com uma gratidão que raramente demonstrava. — Obrigado, Faye. De verdade.
Faye deu de ombros, mas seus olhos brilhavam de satisfação.
— Ver você quieta e entretida montando pecinhas é um investimento na minha paz mental, Engfa. Considere um presente meu e da Charlotte.
O momento era tão leve, tão distante das sombras que costumavam habitar o loft, que algo se rompeu dentro de Engfa. Ela olhou para Charlotte, que brilhava com a alegria do dia, e para Faye, que parecia mais suave sob a luz fluorescente do shopping. Sem pensar nas consequências, sem se importar com as centenas de pessoas ao redor ou com a imagem de "irmãs" que deveriam manter, Engfa inclinou-se.
Ela beijou Charlotte primeiro, um beijo profundo e cheio de carinho, segurando o rosto da menor com uma delicadeza que contrastava com sua força bruta. Charlotte soltou um suspiro de surpresa, mas logo se entregou, passando os braços pelo pescoço de Engfa.
Quando se afastaram, Engfa virou-se para Faye. A ruiva estava estática, a incredulidade estampada em seu rosto. Elas nunca faziam aquilo em público. A possessividade delas era algo privado, escondido entre quatro paredes por medo do julgamento ou simplesmente pela natureza sombria de sua relação.
— Engfa... — Faye começou a dizer, mas foi silenciada quando Engfa a puxou pela gola da camisa, trazendo-a para um beijo igualmente intenso.
Faye ficou rígida por um segundo, seus olhos percorrendo a praça de alimentação, mas ao sentir o calor de Engfa e o gosto familiar de sua boca, ela relaxou. Suas mãos subiram para os ombros de Engfa, e ela se permitiu ser beijada ali, no meio de todos, como se o mundo fosse apenas delas três.
Charlotte observava as duas, as lágrimas de felicidade ameaçando cair. Ela amava quando elas paravam de lutar uma contra a outra e focavam no que realmente importava: o fato de que eram incapazes de viver separadas.
— Vocês são loucas — sussurrou Charlotte quando Engfa finalmente soltou Faye. — Todo mundo está olhando.
— Que olhem — disse Engfa, a voz rouca, mas sem o tom de agressividade habitual. — Eu não me importo. Hoje não.
Faye limpou o batom borrado com o polegar, um sorriso ladino surgindo em seu rosto.
— Você realmente está de bom humor, Waraha. Talvez eu devesse comprar Legos para você toda semana.
O resto do dia seguiu com essa mesma aura de sonho. Elas andaram de mãos dadas, riram de piadas internas e, por algumas horas, os problemas de raiva de Engfa, o controle sufocante de Faye e a dependência de Charlotte pareceram apenas traços de personalidade, e não feridas abertas.
No caminho de volta, com o carro cheio de sacolas e a caixa de Lego no colo de Engfa, o silêncio era confortável. Charlotte acabou dormindo com a cabeça no ombro de Faye, que acariciava seus cabelos distraidamente.
— Foi um dia bom — comentou Faye em voz baixa, para não acordar a menor.
Engfa olhou pelo retrovisor, encontrando o olhar de Faye.
— Foi. Eu quase esqueci que a gente se odeia metade do tempo.
— Nós não nos odiamos, Engfa — Faye respondeu, a voz carregada de uma sinceridade rara. — Nós só não sabemos como amar sem nos machucar. Mas hoje... hoje foi fácil.
— É — concordou Engfa, apertando o volante. — Mas você sabe que amanhã tudo volta ao normal, não sabe? Eu vou me irritar com alguma coisa, você vai tentar mandar em mim, e Charlotte vai chorar porque quer atenção exclusiva.
— Eu sei — Faye suspirou, olhando para a paisagem da cidade passando rápido. — Mas agora nós temos os anéis. E temos a memória de hoje. Isso ajuda a aguentar o resto.
Quando chegaram ao loft, a realidade começou a se infiltrar novamente. O ambiente escuro e minimalista parecia exigir a volta de suas personas habituais. Engfa jogou as chaves na mesa, o som metálico ecoando e trazendo de volta a tensão latente.
Charlotte acordou, espreguiçando-se.
— Eu quero que vocês me ajudem a montar o avião — ela pediu, mas seu tom já tinha aquele toque de exigência que costumava irritar Engfa.
— Agora não, Charlotte. Estou cansada — respondeu Engfa, a rispidez voltando aos poucos à sua voz.
— Mas você prometeu! — Charlotte fez um biquinho, os olhos começando a brilhar.
Faye observou a cena, cruzando os braços.
— Deixe ela em paz, Charlotte. Engfa precisa de um tempo para digerir que foi legal por mais de quatro horas seguidas.
— Ah, agora você vai defendê-la? — Charlotte virou-se para Faye, a carência transformando-se em ciúme. — Vocês se beijaram no shopping e agora estão agindo como se eu não estivesse aqui?
Engfa suspirou, sentindo a velha pressão no peito. O vidro de normalidade havia começado a trincar.
— Ninguém está te ignorando, Charlotte. Pare de drama — disse Engfa, caminhando até o quarto para tirar os sapatos.
— Drama? Eu só quero passar um tempo com as minhas namoradas!
Faye aproximou-se de Charlotte, segurando seu queixo com firmeza.
— Amanhã, pequena. Hoje foi um dia longo. Vá tomar um banho.
Charlotte bufou e marchou em direção ao banheiro, batendo a porta com força. O silêncio que se seguiu foi preenchido pelo som de Engfa abrindo uma cerveja na cozinha.
Faye caminhou até ela, parando ao seu lado.
— Durou mais do que eu esperava — comentou Faye, pegando a garrafa da mão de Engfa e dando um gole.
— Durou o suficiente para me lembrar por que eu não saio de casa — Engfa pegou a garrafa de volta, seus dedos roçando os de Faye.
Elas ficaram ali, no escuro da cozinha, enquanto o som do chuveiro de Charlotte ecoava pelo loft. A calmaria havia passado, e o ciclo estava prestes a recomeçar. Mas, no dedo anelar de cada uma, o ouro branco brilhava, um lembrete silencioso de que, apesar das brigas, das obsessões e da toxicidade, elas haviam escolhido pertencer uma à outra.
Engfa olhou para o anel e depois para Faye.
— Você ainda é uma mandona insuportável, Malisorn.
Faye sorriu, aproximando-se para sussurrar no ouvido de Engfa.
— E você ainda é uma bruta sem controle, Waraha. Mas você adorou o anel que eu escolhi.
Engfa não respondeu. Ela apenas puxou Faye pela corrente no pescoço, trazendo-a para um beijo que já não tinha a doçura do shopping, mas sim a urgência faminta que definia a relação delas. O dia de paz havia sido um presente, uma trégua necessária, mas era na tempestade que elas realmente se encontravam.
No banheiro, Charlotte ouviu o silêncio da cozinha ser quebrado por sussurros e suspiros. Ela sorriu sob a água quente, sabendo que, em poucos minutos, ela sairia dali e se juntaria a elas, provocando, chorando e exigindo, mantendo o equilíbrio precário daquele labirinto de obsessão que elas chamavam de amor.
Amanhã as discussões voltariam. Amanhã Engfa acenderia um cigarro e Faye reclamaria do cheiro. Mas, por aquela noite, os anéis eram novos, as memórias do shopping eram frescas, e o Lego de Engfa esperava na caixa, um pequeno monumento a um dia em que elas foram, contra todas as probabilidades, simplesmente felizes.