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Depois do MTV

Entre o Ódio e o Verso: A Verdade Por Trás das Grades Douradas

A fumaça do cigarro de Marshall flutuava pesadamente no ar confinado do jatinho particular. Ele olhava pela janela, observando as luzes de Detroit se afastarem enquanto o avião ganhava altitude rumo a Los Angeles. No colo, um jornal de fofocas amassado exibia a manchete que o perseguia há semanas: "O Rapper e a Princesa: O Jogo de Sedução que Enganou o Mundo".

Ele soltou uma risada seca, um som que não carregava humor, apenas o cinismo que se tornara sua marca registrada. Depois daquela noite no VMA de 2002, onde o mundo prendeu a respiração enquanto Christina Aguilera entregava o prêmio nas mãos do homem que a havia humilhado publicamente em suas letras, algo mudou. A tensão no palco não era apenas ódio; era uma eletricidade estática que ameaçava queimar quem chegasse perto demais.

Os rumores quase destruíram o que quer que estivesse florescendo entre eles. Disseram que Marshall a estava usando para limpar sua imagem, disseram que Christina queria apenas provar que podia domar o "monstro" do rap. As mentiras se espalharam como pólvora, e por pouco, Aguilera não fechou a porta na cara dele para sempre. Foram necessárias semanas de perseguição, de Detroit a Nova York, de estúdios a bastidores de shows, até que ele a convencesse de que, por trás das rimas ácidas e da fachada de durão, havia algo real.

— Você está lendo essa lixo de novo? — A voz de Paul Rosenberg, seu empresário, cortou seus pensamentos.

— Só vendo o quanto esses abutres ganham para inventar merda sobre a minha vida — Marshall respondeu, jogando o jornal na poltrona vazia ao lado.

— Você sabe que a gravadora está preocupada. O público ama o conflito, Marshall. Eles não sabem lidar com a ideia de você e a Aguilera em um "felizes para sempre". Isso estraga a sua mística de anti-herói.

Marshall inclinou a cabeça, os olhos azuis faiscando.

— Eu não dou a mínima para a mística. Eu já disse, Paul. O que eu tenho com ela não é marketing. Se fosse por marketing, eu escolheria alguém que não tentasse me dar um soco toda vez que eu abro a boca.

A viagem foi longa, mas o destino valia a pena. Christina estava hospedada em uma mansão em Beverly Hills, preparando-se para a próxima etapa de sua turnê. Quando Marshall finalmente chegou, o sol estava se pondo, pintando o céu da Califórnia com tons de laranja e roxo que pareciam artificiais demais para um cara que cresceu no cinza de 8 Mile.

Ele entrou na casa sem anunciar, conhecendo o caminho até a área da piscina. Lá estava ela, sentada em uma espreguiçadeira, com fones de ouvido e um caderno de anotações no colo. O cabelo loiro platinado brilhava sob a luz baixa.

Marshall parou por um momento, apenas observando. Ele era o homem que desafiava o governo, que enfrentava processos da própria mãe, que não baixava a cabeça para ninguém. Mas ali, diante daquela mulher pequena com uma voz de gigante, ele se sentia estranhamente desarmado.

— Vai ficar aí parado como um stalker ou vai entrar? — Christina perguntou, sem tirar os olhos do caderno.

Marshall sorriu de canto, aproximando-se.

— Achei que você gostasse de drama. Pensei em fazer uma entrada triunfal, talvez rimar algo sobre o seu perfume caro.

Christina tirou os fones e se virou para ele. A expressão dela era séria, mas havia uma suavidade nos olhos que ela só mostrava para ele.

— O perfume é Chanel, e você não teria rimas suficientes para descrever como eu me senti depois daquela última nota que saiu no tabloide sobre você e aquela modelo em Detroit.

Marshall sentou-se na beira da espreguiçadeira, o peso do corpo fazendo o móvel ranger levemente.

— Você sabe que é mentira, Xtina. Eu estava no estúdio com o Dre até as quatro da manhã. Se eu tivesse tempo para modelos, não estaria gastando meu combustível vindo até aqui para ouvir você reclamar.

— Reclamar? — Ela se sentou, cruzando os braços. — Marshall, o mundo inteiro acha que isso é uma piada. Meus fãs acham que eu estou sofrendo de Síndrome de Estocolmo e os seus acham que você amoleceu.

— E você? — Ele perguntou, a voz baixando de tom, tornando-se mais rouca. — O que você acha?

Christina hesitou. O silêncio entre eles era preenchido apenas pelo som da água da piscina batendo suavemente nas bordas.

— Eu acho que você é o homem mais complicado que eu já conheci — disse ela, finalmente. — E eu acho que, às vezes, eu odeio o quanto eu gosto de você.

— Ódio é um bom começo — Marshall brincou, mas seus olhos eram intensos. — Foi assim que a gente começou, lembra? Eu falando merda de você em "The Real Slim Shady" e você querendo arrancar minha cabeça no palco do VMA.

— Você foi um idiota — ela rebateu, mas um pequeno sorriso brincou em seus lábios.

— Eu sou um idiota. Mas sou o idiota que viajou três mil milhas porque não conseguia parar de pensar no jeito que você me olhou quando eu saí do seu camarim na semana passada.

Ele estendeu a mão, tocando o rosto dela. A pele era macia, um contraste gritante com as cicatrizes invisíveis que ele carregava. Christina inclinou-se para o toque dele, fechando os olhos por um breve segundo.

— As pessoas estão perguntando, Marshall — murmurou ela. — A mídia, os meus agentes... eles querem saber o que é isso. Eles querem um rótulo. Existe algum "nós"? Ou isso é só diversão para você? Um troféu para o rapper que conseguiu a princesinha do pop?

Marshall sentiu uma pontada de irritação, não com ela, mas com a pergunta. Ele se levantou, caminhando até a borda da piscina, as mãos nos bolsos do moletom.

— Eu não sou de rótulos, você sabe disso. Minha vida é um livro aberto que todo mundo lê errado. Mas se você acha que eu gasto meu tempo, meu dinheiro e minha paciência com "diversão", você não me conhece nada.

— Então me diga o que é — insistiu ela, levantando-se também e indo até ele. — Porque eu estou colocando minha carreira em risco por isso. Minha imagem é de "dirrty" agora, mas o público ainda quer que eu seja a garota perfeita. E estar com o Eminem... não é exatamente o que chamam de perfeito.

Marshall virou-se para ela, a expressão endurecida.

— Nada na minha vida é perfeito, Christina. Minha infância foi um lixo, meu casamento foi um desastre, e a única coisa que presta em mim é a Hailie. Mas quando eu estou com você... o barulho para.

Ele se aproximou, diminuindo o espaço entre eles até que pudessem sentir o calor um do outro.

— Não é diversão — ele afirmou, a voz firme. — Se fosse diversão, eu estaria em um clube em Detroit agora, cercado de gente que não me questiona. Eu estou aqui porque você é a única pessoa que me desafia. Você é a única que não tem medo do Slim Shady.

Christina suspirou, a tensão deixando seus ombros.

— Você é tão difícil, Marshall Mathers.

— E você é teimosa pra cacete — ele rebateu, puxando-a pela cintura.

— Nós vamos nos destruir, você sabe disso, não sabe? — Ela perguntou, as mãos subindo pelo peito dele, agarrando o tecido da camiseta. — A imprensa vai nos triturar. Seus fãs vão dizer que eu te mudei, e os meus vão dizer que você me corrompeu.

— Deixe que digam — Marshall disse, antes de inclinar a cabeça. — Eu sempre fui o vilão da história de alguém. Não me importo de ser o vilão da sua, desde que a gente saiba a verdade.

O beijo que se seguiu foi urgente, uma mistura de toda a frustração, desejo e confusão que vinham acumulando desde que o destino decidiu cruzá-los novamente. Não era um beijo de conto de fadas; era cru, real e carregado da intensidade de duas pessoas que viviam sob o microscópio do mundo.

Momentos depois, eles se afastaram, ainda próximos o suficiente para compartilharem o mesmo ar.

— Então, o que fazemos agora? — perguntou Christina, a voz levemente trêmula.

— Agora? — Marshall deu um sorriso raro, um que chegava aos olhos. — Agora eu vou entrar, você vai me servir um copo de qualquer coisa que não seja veneno, e você vai me mostrar essas letras novas que está escrevendo. Ouvi dizer que tem uma sobre um certo rapper irritante.

Christina riu, um som cristalino que parecia desarmar todas as defesas de Marshall.

— Talvez tenha. Mas você vai ter que ser muito legal para eu deixar você ouvir.

— Ser legal não é meu forte, Aguilera. Mas eu posso tentar ser... convincente.

Eles caminharam de volta para a casa, de mãos dadas, um gesto simples que, se fosse capturado por um paparazzi, quebraria a internet antes mesmo que o termo existisse plenamente.

Enquanto entravam, Marshall olhou por cima do ombro para o horizonte escuro. Ele sabia que os rumores não parariam. Sabia que a reconciliação deles era frágil e que o temperamento de ambos era como pólvora perto de um fósforo. Mas, por aquela noite, o Eminem não existia, a Xtina não existia. Havia apenas Marshall e Christina, tentando encontrar harmonia em meio ao caos que eles mesmos ajudaram a criar.

— Marshall? — ela chamou, já na porta de vidro.

— O quê?

— Se você colocar qualquer detalhe dessa noite em uma música, eu juro que te processo.

Ele riu alto, entrando na casa.

— Querida, você sabe que o processo é metade da diversão. Mas fique tranquila. Algumas rimas eu guardo só para mim.

A porta se fechou, deixando o mundo exterior e suas especulações do lado de fora. O escândalo estava apenas começando, mas ali, no silêncio da mansão, eles finalmente tinham encontrado um ritmo que só os dois conseguiam seguir.