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Depois do MTV

Rimas Ocultas e Acordes Proibidos

O silêncio dentro da mansão de Beverly Hills era um luxo que Marshall raramente se permitia desfrutar. Em Detroit, o barulho era constante: o som das sirenes ao longe, o burburinho incessante de sua equipe, ou simplesmente o eco de seus próprios pensamentos martelando versos contra as paredes do estúdio. Mas ali, ao lado de Christina, o mundo parecia ter sido colocado no mudo.

Eles estavam na sala de música, um santuário de mármore e madeira acústica. Christina estava sentada ao piano, os dedos longos e delicados acariciando as teclas brancas sem pressioná-las, como se estivesse testando a temperatura da água antes de mergulhar. Marshall estava jogado em um sofá de couro preto, observando-a. Ele ainda usava o capuz do moletom levantado, uma armadura que ele se recusava a abandonar totalmente, mesmo em solo aliado.

— O que foi? — perguntou ela, sentindo o peso do olhar dele. — Você está muito quieto. Isso me assusta mais do que quando você está gritando no microfone.

Marshall soltou um suspiro curto, o ar saindo como um chiado.

— Estava pensando na ironia da coisa toda. Se alguém me dissesse, três anos atrás, que eu estaria escondido na casa da "Princesinha do Pop" para evitar que o mundo visse que a gente não se odeia, eu teria escrito uma diss track sobre a sanidade dessa pessoa.

Christina soltou uma risada melódica e finalmente pressionou uma nota. Um dó sustenido ecoou, profundo e vibrante.

— O destino tem um senso de humor doentio, Marshall. Mas admita, você adora o perigo. Você vive para o caos. Se não fosse assim, você não teria me provocado daquele jeito no palco do VMA.

— Eu não provoquei. Eu apenas... retribui a energia — ele deu um sorriso de canto, aquele que fazia as revistas de fofoca entrarem em colapso. — Mas você me surpreendeu. Achei que você fosse chorar ou me dar um tapa. Em vez disso, você me entregou aquele troféu como se estivesse me entregando uma granada sem pino.

— E foi exatamente o que eu fiz — ela se virou no banco do piano, encarando-o de frente. — Aquela granada explodiu, e agora estamos aqui, nos destroços.

A tensão entre eles mudou de forma. Não era mais a agressividade de dois titãs da indústria musical disputando território, mas a gravidade de dois polos magnéticos que lutavam contra a própria atração. Marshall se levantou e caminhou até o piano, parando logo atrás dela. O perfume de baunilha e algo cítrico que emanava de Christina era inebriante, um contraste gritante com o cheiro de cigarro e asfalto que ele carregava.

— Você disse que tinha letras novas — ele murmurou, a voz agora mais próxima do ouvido dela. — Mostre-me. Quero ver se você é tão boa com a caneta quanto é com as cordas vocais.

Christina hesitou por um segundo, a mão hesitando sobre o caderno de couro que repousava sobre o piano. Era o seu diário de guerra, onde ela despejava a frustração de ser um produto da indústria e a dor de ser incompreendida. Mostrar aquilo para Marshall Mathers, o homem que ganhava a vida dissecando as fraquezas alheias, era o ápice da vulnerabilidade.

— Prometa que não vai rir — disse ela, a voz subitamente pequena.

— Eu nunca rio de quem tem algo a dizer, Xtina. Eu rio de quem fala muito e não diz nada.

Ela abriu o caderno em uma página marcada com um marcador de seda. As letras eram desenhadas com uma caligrafia firme, mas apressada. Marshall leu os versos em silêncio. Não eram letras de música pop chiclete. Falavam sobre isolamento, sobre as câmeras que pareciam armas carregadas e sobre a sensação de ser uma estátua de ouro que todo mundo queria quebrar para ver se havia carne e osso por dentro.

— "As correntes são feitas de platina, mas ainda queimam a pele" — Marshall leu em voz alta, a voz rouca dando uma nova dimensão às palavras dela. — Isso é pesado. É real.

— É como eu me sinto — confessou ela, olhando para as teclas. — Todo mundo quer a "Genie in a Bottle", ou a garota "Dirrty" que choca a sociedade. Ninguém quer a Christina que acorda às três da manhã querendo sumir.

Marshall colocou a mão sobre o ombro dela. O contato foi breve, mas carregado de uma compreensão que poucas pessoas no planeta poderiam oferecer.

— Bem-vinda ao clube. A diferença é que eu transformei meu desejo de sumir em um império de ódio e rimas. Mas o sentimento é o mesmo. A gente é o entretenimento deles, Christina. Somos os gladiadores no coliseu moderno. Eles aplaudem enquanto a gente sangra, e quando a gente para de sangrar, eles jogam pedras para ver se a gente ainda está vivo.

— E é por isso que isso aqui... — ela gesticulou entre os dois — ...é tão perigoso. Se eles descobrirem que os gladiadores estão se confortando nos bastidores, a diversão acaba. Eles querem sangue, Marshall. Não querem amor.

— Quem falou em amor? — Marshall disparou, recuando um passo, a defensividade voltando como um reflexo instintivo.

Christina revirou os olhos, soltando uma risada seca.

— Lá vem você. O grande e mau Slim Shady, com medo de uma palavra de quatro letras. Relaxa, Marshall. Eu sei que você tem uma reputação de coração de gelo para manter.

— Não é medo — ele retrucou, cruzando os braços sobre o peito. — É realismo. Olha para a gente. Eu sou o cara que a mídia ama odiar, e você é a queridinha que eles estão loucos para ver cair em desgraça. Se a gente oficializa qualquer coisa, a pressão dobra. E eu tenho a Hailie para proteger. Não posso deixar que o circo da minha vida pessoal afete ela mais do que já afeta.

A menção à filha dele sempre mudava o tom da conversa. Christina sabia que Hailie era o único ponto fraco na armadura de Marshall, o único lugar onde ele não permitia que o cinismo entrasse.

— Eu respeito isso — disse ela, suavemente. — Mais do que você imagina. Mas não podemos viver nas sombras para sempre. Hoje, um fotógrafo quase pegou o seu carro entrando na propriedade. Paul e minha equipe estão tendo ataques cardíacos por hora tentando abafar os boatos.

— Deixe que tenham. Eles são pagos para isso — Marshall caminhou até a janela, observando o jardim iluminado por luzes artificiais. — O que importa é o que acontece quando a porta fecha. E agora, a porta está fechada.

Ele se virou para ela, o olhar azul agora mais calmo, quase melancólico.

— Você quer saber por que eu vim até aqui, de verdade? Além de querer ver se você tinha mesmo coragem de me encarar depois daquela última faixa?

— Por quê? — perguntou ela, levantando-se e indo até ele.

— Porque você é a única pessoa que me faz sentir que eu não preciso estar no personagem. Com o Dre, eu sou o pupilo prodígio. Com o Paul, eu sou o investimento. Com o público, eu sou o monstro. Com você... eu sou apenas o Marshall. E o Marshall está cansado, Christina.

Ela parou a centímetros dele, olhando-o nos olhos. A vulnerabilidade dele era rara, um tesouro escondido sob camadas de sarcasmo e agressividade. Ela estendeu a mão e, desta vez, foi ela quem tocou o rosto dele, contornando a linha da mandíbula com o polegar.

— O Marshall é uma pessoa muito melhor do que o Slim Shady quer que o mundo acredite — sussurrou ela.

— Não conte isso para ninguém — ele murmurou, antes de reduzir a distância e beijá-la.

O beijo foi diferente do anterior na piscina. Não havia a urgência da descoberta, mas sim a profundidade de uma aliança formada no fogo. Era um pacto silencioso. Eles eram dois náufragos na mesma ilha deserta de fama e solidão, e tinham decidido que, pelo menos por enquanto, não queriam ser resgatados.

O telefone de Marshall, jogado em algum lugar do sofá, começou a vibrar violentamente. O som estridente cortou o momento como uma navalha. Ele soltou um palavrão e se afastou para pegá-lo.

— É o Paul — disse ele, olhando para o visor. — Se ele está ligando a essa hora, ou o mundo acabou ou alguém tirou uma foto nossa.

Ele atendeu, a voz voltando ao tom áspero e impaciente.

— O que foi, Paul? Eu já disse que estou ocupado... O quê? Onde?

O rosto de Marshall empalideceu levemente, e depois ficou vermelho de raiva. Ele olhou para Christina, que o observava com uma expressão de crescente ansiedade.

— Como eles conseguiram isso? A segurança é uma merda nessa casa? — Marshall gritou no telefone. — Não, não faça nada ainda. Eu vou resolver. Merda!

Ele desligou o aparelho e o jogou de volta no sofá.

— O que aconteceu? — perguntou Christina, o coração batendo forte contra as costelas.

— Um dos seus funcionários. Tirou uma foto nossa na área da piscina, de longe, mas dá para ver claramente que sou eu e que você está... bem, você sabe. Ele vendeu para o TMZ. A foto vai ao ar em dez minutos. O título é "O Beijo do Ano: Inimigos ou Amantes?".

Christina sentiu as pernas fraquejarem e se apoiou no piano. O pesadelo que eles temiam tinha acabado de se tornar realidade.

— Minha carreira... — começou ela, a voz falhando. — Meus patrocinadores, a turnê... eles vão dizer que eu planejei isso para ganhar publicidade.

— E os meus vão dizer que eu me vendi para o pop — completou Marshall, a mandíbula travada. — O escândalo que a gente queria evitar acabou de chutar a porta.

Ele caminhou até ela, pegando-a pelos ombros. Havia um brilho selvagem em seus olhos, o brilho de quem estava pronto para a guerra.

— Escuta, Christina. A gente tem duas opções agora. A gente pode negar, dizer que é uma montagem, que eu estava aqui para uma colaboração musical e que a foto foi tirada de um ângulo enganoso...

— Ou? — perguntou ela, seus olhos encontrando os dele.

— Ou a gente dá a eles o que eles querem. Mas do nosso jeito.

— O que você quer dizer com isso?

Marshall deu um sorriso sombrio, o tipo de sorriso que precedia suas rimas mais devastadoras.

— Eles querem um show? Vamos dar um show. Se a foto vai sair, vamos parar de nos esconder. Vamos sair daqui agora, de mãos dadas, pela porta da frente. Vamos para o clube mais movimentado de Los Angeles. Se vamos ser o escândalo do século, vamos garantir que a gente controle a narrativa.

Christina olhou para o caderno de letras no piano e depois para o homem à sua frente. Era loucura. Era um suicídio de imagem para ambos. Mas, ao mesmo tempo, era a coisa mais libertadora que ela já tinha ouvido.

— Você está sugerindo que a gente assuma isso? No meio desse caos? — ela perguntou, um sorriso começando a surgir em meio ao choque.

— Eu estou sugerindo que a gente pare de fugir de algo que a gente não consegue controlar — disse Marshall. — O mundo já nos odeia por mil razões diferentes, Christina. Deixe que nos odeiem por estarmos juntos. Pelo menos assim, a gente tem alguém do nosso lado no meio do tiroteio.

Christina respirou fundo, sentindo uma onda de adrenalina percorrer seu corpo. Ela sempre foi a garota que seguia as regras, até que decidiu quebrá-las todas de uma vez. E não havia ninguém melhor para quebrar regras ao lado dela do que Marshall Mathers.

— Tudo bem — disse ela, a voz agora firme. — Mas se eu for odiada por metade do planeta amanhã, você vai ter que escrever a melhor música da sua vida sobre mim.

— Fechado — Marshall estendeu a mão para ela. — Mas prepare-se. A partir do momento em que cruzarmos aquela porta, não tem mais volta. É o Eminem e a Xtina contra o resto do mundo.

Christina segurou a mão dele, sentindo o calor e a força daquele aperto.

— Eu nunca gostei muito do resto do mundo mesmo — respondeu ela.

Eles saíram da mansão sob o clarão dos flashes que já começavam a pipocar além dos portões. O barulho estava de volta, mais alto e mais caótico do que nunca. Mas, enquanto caminhavam em direção ao carro, o silêncio que compartilhavam entre si era a única coisa que importava. O escândalo tinha começado, e a música que eles estavam prestes a compor juntos, longe dos estúdios e sob os olhos do público, seria a mais barulhenta de todas.