Depois do MTV
Labirintos de Espelhos e a Estrada de Vidro
O rugido das turbinas do Boeing 747 customizado era o único som capaz de abafar, ainda que por breves momentos, o caos que se tornara a vida de Marshall Mathers e Christina Aguilera. Do lado de fora, a fuselagem exibia um grafite estilizado unindo as letras "E" e "X", uma marca que agora valia bilhões e que a indústria, após tentar destruir, passara a adorar como um bezerro de ouro. A turnê "The Monster & The Muse" não era apenas um evento musical; era um fenômeno sociológico que estava parando o mundo.
Marshall estava sentado no fundo do lounge do avião, com um caderno de rimas aberto, mas seus olhos estavam fixos em Christina. Ela dormia no sofá oposto, envolta em um cobertor de cashmere, com a luz azulada da cabine destacando o cansaço que a maquiagem de palco escondia durante as apresentações. Eles estavam na estrada há três semanas, cruzando a Europa antes de voltarem para a perna final nos Estados Unidos.
A porta da cabine de comando se abriu e Paul Rosenberg entrou, segurando um maço de relatórios e um celular que não parava de vibrar. Ele parecia ter envelhecido mais cinco anos desde o incidente em Detroit.
— Marshall, temos um problema em Londres — sussurrou Paul, tentando não acordar Christina.
— Paul, se o problema não envolver uma invasão alienígena ou a Terceira Guerra Mundial, pode esperar até a gente pousar — respondeu Marshall, sem desviar o olhar da mulher à sua frente.
— É sobre a segurança. A Scotland Yard está preocupada com o volume de protestos na porta do hotel. Temos grupos religiosos de um lado chamando vocês de anticristos e, do outro, hordas de fãs que estão acampadas há quatro dias. A logística para tirar vocês do aeroporto vai ser um pesadelo.
Marshall fechou o caderno com um estalo seco.
— Deixe que eles gritem, Paul. É para isso que pagamos a segurança. O que me preocupa não é quem está do lado de fora. É quem está aqui dentro.
Ele gesticulou para Christina, que se mexeu levemente, soltando um suspiro baixo.
— Ela está exausta — continuou Marshall. — O cronograma que vocês montaram é insano. Entrevistas de manhã, ensaios à tarde, shows de três horas à noite. Ela não é uma máquina, Paul.
— E você é? — retrucou Paul. — Você está fumando dois maços por dia e mal come. Vocês dois estão se consumindo. Essa química que todo mundo vê no palco... ela tem um preço, Marshall. Vocês estão vivendo em uma panela de pressão.
Antes que Marshall pudesse responder, Christina abriu os olhos. Ela se espreguiçou, afastando o cabelo do rosto, e olhou para os dois homens com uma expressão de quem já sabia exatamente do que estavam falando.
— Eu ouvi o meu nome — disse ela, a voz ligeiramente rouca. — O que os abutres querem agora, Paul?
— Querem que vocês sobrevivam a Londres, Christina — respondeu Paul, suavizando o tom. — Só estava avisando ao Marshall sobre a recepção no aeroporto.
Christina sentou-se, esfregando os olhos. Ela olhou para Marshall e um pequeno sorriso, cúmplice e cansado, surgiu em seus lábios.
— Londres sempre foi intensa. Mas com você ao lado, Marshall, acho que eles vão precisar de tanques de guerra para nos parar.
— Eu preferia os tanques — resmungou Marshall. — Pelo menos tanques não usam câmeras com flash.
O pouso em Heathrow foi exatamente o que Paul previra: um pandemônio. O comboio de SUVs pretos foi cercado assim que cruzou os portões do aeroporto. Gritos de "Xtina!" misturavam-se a vaias e ofensas direcionadas a Eminem. Dentro do veículo blindado, os dois estavam sentados próximos, os ombros se tocando.
— Você está bem? — perguntou Marshall, notando que ela apertava as mãos com força no colo.
— É só o barulho — disse ela, olhando pela janela fumê para a massa de gente que batia nos vidros. — Às vezes parece que eles querem um pedaço da nossa pele.
Marshall pegou a mão dela, entrelaçando seus dedos.
— Eles não vão chegar perto. Eu prometi, não prometi?
— Prometeu. Mas quem vai me proteger de você quando a gente subir naquele palco hoje à noite? — Ela brincou, mas havia uma nota de seriedade em sua voz. — A energia está ficando... pesada, Marshall. No show de Paris, senti que a gente quase perdeu o controle.
— O controle é superestimado, Christina. O público quer ver o sangue. Eles querem ver a gente se destruindo e se reconstruindo em cada nota. É isso que torna o show real.
O hotel em Park Lane era uma fortaleza. Eles foram escoltados por um corredor de seguranças até a suíte presidencial, que servia de quartel-general para ambos. Assim que a porta se fechou, o silêncio do luxo britânico pareceu quase ensurdecedor.
Christina caminhou até a varanda, observando o Hyde Park lá embaixo. Marshall foi direto para o frigobar, pegando uma garrafa de água e jogando-se em uma poltrona de veludo.
— Temos quatro horas até a passagem de som — disse ele. — Tente dormir um pouco mais.
— Eu não consigo dormir, Marshall. Minha cabeça está girando com a nova letra que você escreveu no avião. Aquela parte sobre "o espelho que reflete apenas o que a gente odeia"... foi para mim?
Marshall hesitou. Ele sabia que não podia mentir para ela. A conexão que haviam desenvolvido era baseada em uma honestidade brutal que, às vezes, beirava a crueldade.
— Foi para nós dois — admitiu ele. — Eu vejo como você se olha no espelho antes de subir no palco. Você procura a falha. E eu faço o mesmo. A gente se tornou o espelho um do outro, Christina. E o que eu vejo em você é a parte de mim que eu tentei matar por anos: a parte que ainda sente alguma coisa.
Christina caminhou até ele e sentou-se no chão, entre as pernas dele, apoiando a cabeça em seus joelhos.
— Às vezes eu sinto que estamos em um labirinto de espelhos — sussurrou ela. — Eu não sei onde termina a "Xtina" e onde começa a mulher que ama um cara que o mundo inteiro diz que é perigoso.
Marshall passou a mão pelos cabelos loiros dela, um gesto de ternura que ele nunca permitiria que fosse captado por uma lente.
— O mundo não sabe de nada. Eles veem o escândalo. Eles veem o rapper e a cantora pop. Eles não veem as noites em que você me ajuda a lembrar as letras quando minha cabeça trava. Eles não veem o jeito que você segura a minha mão quando eu tenho pesadelos com o tribunal.
— Eles nunca vão ver — disse ela, levantando o rosto para encará-lo. — Porque se vissem, a magia acabaria. O mistério é o que nos mantém vivos.
O show na Wembley Arena naquela noite foi o ápice da turnê até então. Quinze mil pessoas gritavam em uníssono. O palco era uma estrutura industrial, com andaimes e telas gigantes que projetavam imagens distorcidas de Detroit e Nova York.
Quando a introdução de "Ash and Diamonds" começou, o chão tremeu. Marshall entrou primeiro, uma explosão de energia e raiva contida, cuspindo versos que pareciam balas. Christina apareceu no topo de uma plataforma elevada, sua voz rasgando o ar com uma nota tão alta e pura que fez alguns fãs chorarem.
No meio da música, durante a ponte onde as vozes se entrelaçavam, algo aconteceu. Marshall se aproximou dela, e a intensidade nos olhos dele não era apenas parte da performance. Era um desafio. Ele começou a improvisar, fugindo do roteiro estabelecido.
— — Você acha que me conhece, princesa? — rimou ele, a voz rouca e próxima ao microfone dela. — — Você acha que pode domar o que nem eu consigo segurar?
Christina não recuou. Ela deu um passo à frente, encostando o peito no dele, o microfone firme em sua mão.
— — Eu não quero te domar, Marshall — respondeu ela, cantando em um tom improvisado que arrepiou a plateia. — — Eu quero queimar com você. Deixe o mundo assistir às chamas.
O público foi ao delírio. A eletricidade entre os dois era quase visível, uma aura de perigo e desejo que transformava a arena em um lugar sagrado e profano ao mesmo tempo. No final da música, eles não se beijaram como o público esperava. Eles apenas encostaram as testas, respirando o mesmo ar, enquanto as luzes se apagavam lentamente.
Nos bastidores, após o show, a adrenalina ainda corria solta. Marshall estava suado, com a toalha no pescoço, caminhando de um lado para o outro no camarim.
— — Aquilo foi insano — disse ele, rindo com um nervosismo raro. — — Você quase me fez esquecer a próxima estrofe.
— — Você começou, Mathers — rebateu ela, jogando-se em um sofá enquanto uma assistente tentava remover parte de sua joalheria. — — Você quis me testar na frente de quinze mil ingleses.
— — E você passou no teste. Com louvor.
A porta do camarim se abriu bruscamente. Era Paul, e ele não parecia feliz. Ele segurava um laptop.
— — Vocês precisam ver isso. Agora.
Eles se aproximaram da tela. Era um vídeo de baixa qualidade, mas o áudio era claro. Era uma gravação de segurança de um restaurante em Paris, de três dias atrás. Mostrava Marshall e Christina em uma discussão acalorada em uma mesa de canto. As imagens mostravam Marshall batendo na mesa e saindo, deixando Christina sozinha e visivelmente abalada.
— — Quem gravou isso? — rosnou Marshall. — — Aquele lugar era privado!
— — Não importa quem gravou, Marshall — disse Paul, a voz sombria. — — O que importa é que o vídeo está sendo editado com manchetes que dizem que você é abusivo e que a Christina está sendo mantida na turnê contra a vontade dela por causa de contratos. O movimento "Save Xtina" acabou de ganhar uma força que a gente não pode ignorar.
Christina sentiu um frio no estômago. Ela se lembrava daquela discussão; era sobre Hailie e sobre o medo de Marshall de que a exposição da turnê estivesse afetando a filha. Foi um momento privado, humano, que agora estava sendo transformado em uma arma contra eles.
— — Eles estão tentando nos separar — disse ela, a voz trêmula. — — Estão usando a nossa honestidade contra nós.
— — Eu vou matar quem vazou isso — Marshall disse, as veias do pescoço saltadas.
— — Não, Marshall — Christina levantou-se e parou na frente dele. — — Se você reagir com raiva, você só prova que eles estão certos. É isso que eles querem. Eles querem o Slim Shady violento. Eles querem a vítima pop.
— — E o que você sugere? Que a gente dê uma entrevista coletiva e diga que nos amamos? Isso é um lixo, Christina!
— — Não. Eu sugiro que a gente pare de jogar o jogo deles.
Ela olhou para Paul.
— — Paul, chame a imprensa. Mas não para uma coletiva. Diga que vamos fazer uma live, agora mesmo, do nosso jeito. Sem filtros, sem editores.
Trinta minutos depois, sentados no chão do camarim, cercados por cabos e equipamentos de som, Marshall e Christina abriram uma transmissão ao vivo para o mundo. Mais de cinco milhões de pessoas se conectaram em questão de minutos.
Marshall olhou para a câmera com um olhar que atravessava a lente.
— — Olhem bem para nós — começou ele, a voz calma, mas carregada de autoridade. — — O que vocês viram naquele vídeo foi uma briga. Sim, nós brigamos. Nós gritamos. Nós somos pessoas reais com problemas reais. Eu não sou um santo e ela não é uma boneca de porcelana.
Christina assumiu a fala, colocando a mão no ombro de Marshall.
— — O escândalo que vocês tanto procuram não está em uma briga de restaurante. O escândalo é que vocês não conseguem aceitar que duas pessoas de mundos diferentes podem ser complicadas, imperfeitas e, ainda assim, estarem juntas por escolha própria. Ninguém está me mantendo aqui. Eu estou aqui porque este é o único lugar onde eu posso ser quem eu realmente sou.
— — A turnê continua — finalizou Marshall. — — E se vocês querem drama, comprem um ingresso. Mas se querem a verdade, parem de procurar em buracos de fechadura. A verdade está na música. E a música não mente.
Eles encerraram a transmissão. O silêncio voltou ao camarim, mas era um silêncio diferente. Era o silêncio de quem acabara de lançar um desafio final ao mundo.
— — Você acha que funcionou? — perguntou Christina, recostando-se nele.
— — Não sei — admitiu Marshall. — — Provavelmente eles vão inventar algo novo amanhã. Mas, por hoje, a gente venceu.
Paul entrou na sala, olhando para o celular.
— — As ações da gravadora caíram, as redes sociais estão em chamas... e a demanda por ingressos para o show de Nova York dobrou. Vocês são os piores clientes que eu já tive, e os mais geniais.
Marshall riu, puxando Christina para perto.
— — Vamos para o hotel, Paul. Eu preciso de um cigarro e de um pouco de paz antes de Londres acordar de novo.
Enquanto caminhavam para a saída dos fundos da arena, Marshall parou por um momento, olhando para o palco vazio no escuro.
— — Sabe, Aguilera... — começou ele.
— — O quê?
— — Aquela improvisação hoje à noite... "queimar com você". Você realmente quis dizer aquilo?
Christina parou e olhou nos olhos dele. O brilho da arena ainda parecia refletido em suas pupilas.
— — Marshall, eu já estou em chamas desde o dia em que você me entregou aquele prêmio no VMA. A única pergunta é: você vai ter coragem de ficar até o fogo apagar?
Marshall não respondeu com palavras. Ele apenas apertou a mão dela e a conduziu para a noite londrina, onde os flashes e os gritos os aguardavam. Eles eram o escândalo, eles eram o caos, e eles eram a única coisa real em um mundo de espelhos. A estrada de vidro à frente era perigosa e cheia de armadilhas, mas enquanto estivessem caminhando juntos, eles sabiam que, mesmo que caíssem, os cacos seriam apenas diamantes sob seus pés.