Dês de quando amor tem gênero?
O Peso do Olhar e o Calor da Cafeína
A cozinha estava mergulhada em um calor reconfortante, um contraste gritante com o vento cortante que fustigava as paredes de madeira rústica da cabana. Tessius estava sentado em um dos bancos altos de madeira, os pés balançando levemente, enquanto segurava a caneca com as duas mãos. O vapor subia, acariciando seu rosto e trazendo aquela paz química que só a cafeína conseguia proporcionar aos seus nervos estilhaçados. Por um momento raro, o mundo estava em silêncio. As vozes da esquizofrenia eram apenas sussurros ininteligíveis ao fundo, e a ansiedade, embora sempre presente como uma sombra, parecia ter recuado para os cantos escuros da sala.
Ele saboreava o líquido negro, sentindo o amargor queimar suavemente sua língua. Tessius era um homem de contrastes: a força de quem sobreviveu ao inferno de Elias e Mary e a fragilidade de uma mente que se fragmentava sem estímulo constante. Seus olhos, antes nublados pelo cansaço dos três empregos e pelas crises de Borderline, agora brilhavam com uma lucidez temporária. Ele se sentia seguro. Ele se sentia homem. E, acima de tudo, ele se sentia dono de si mesmo naquele pequeno santuário na floresta.
Lance, por outro lado, não estava em silêncio absoluto. Ele se movia pela cozinha com a graça predatória de um caçador, mas seus movimentos haviam desacelerado. Ele já tinha guardado a carne do cervo, mas não parecia mais interessado em cozinhar. Seus olhos, escuros e intensos, estavam fixos em Tessius. Mais especificamente, Lance não conseguia desviar o olhar do espaço entre as pernas de Tessius, onde o tecido do pijama de flanela se moldava ao corpo do marido.
Havia uma eletricidade pesada no ar, o tipo de tensão que Lance sempre sabia como cultivar. Ele conhecia cada cicatriz de Tessius, cada trauma e cada gatilho, mas também conhecia os desejos que o outro homem raramente admitia em voz alta. Lance amava a complexidade de Tessius — a grosseria defensiva, o ciúme possessivo e a maneira como ele tremia quando estava sobrecarregado.
Tessius percebeu o olhar. Ele sempre percebia quando Lance o devorava com os olhos.
— O que foi agora, Lance? — perguntou Tessius, sua voz saindo um pouco mais rouca do que o habitual, a xícara ainda escondendo metade de seu rosto. — Perdeu alguma coisa aqui ou está apenas tentando me irritar de novo?
Lance não respondeu imediatamente. Ele deu um passo à frente, diminuindo a distância. A diferença de altura entre eles era sempre mais evidente quando Lance se aproximava assim, emanando um calor que competia com o café nas mãos de Tessius.
— Eu estava apenas pensando — disse Lance, sua voz baixa, vibrando no peito — em como você fica calmo quando está bebendo isso. É a única hora em que você não parece querer morder a cabeça de ninguém.
— Não me provoque — retrucou Tessius, embora não houvesse veneno real em suas palavras. — Você sabe que meu humor depende desse café. Se você tentar tirar essa caneca de mim agora, eu juro que te corto com a faca de caça que você deixou no balcão.
Lance soltou um riso curto e anasalado, aproximando-se ainda mais, até que seus joelhos quase tocassem os de Tessius, que permanecia sentado no banco.
— Eu nunca tiraria o seu café, Tess. Eu sei o quanto você precisa dele para manter os monstros longe. — Lance estendeu a mão e tocou a coxa de Tessius, apertando o tecido grosso do pijama. — Mas eu estava pensando que talvez você precise de outro tipo de estímulo agora. Algo que faça seu coração bater rápido por um motivo diferente da cafeína.
Tessius sentiu um arrepio percorrer sua espinha, um tremor que não vinha da abstinência ou da ansiedade. Ele tentou focar no café, dando mais um gole longo, mas a presença de Lance era esmagadora. Lance era o seu porto seguro, o homem que o aceitara quando ele ainda estava tentando entender como ser um homem trans em um mundo que o queria quebrado. O amor de Lance era obsessivo à sua maneira, uma devoção que alimentava o lado possessivo de Tessius.
— Você é muito ousado para alguém que acabou de levar um tapa na cara — murmurou Tessius, mas ele abriu um pouco mais as pernas, um convite silencioso que ele nunca conseguiria esconder de Lance.
Sem dizer mais uma palavra, Lance se ajoelhou no chão de madeira entre as pernas de Tessius. O movimento foi fluido, quase cerimonial. Tessius travou por um segundo, a caneca de café suspensa a poucos centímetros de seus lábios, enquanto observava o topo da cabeça de Lance se aproximar.
Lance abaixou a cabeça bem no meio das pernas de Tessius, apoiando o rosto contra as coxas dele. Ele respirou fundo, inalando o cheiro de sabonete neutro e o calor da pele de Tessius através do tecido.
— Lance... — o nome saiu como um suspiro entrecortado.
— Shh — murmurou Lance contra o pijama dele, a voz abafada. — Apenas beba seu café, Tess. Eu não vou a lugar nenhum.
Tessius sentiu as mãos de Lance subirem por suas pernas, firmes e possessivas, prendendo-o no lugar. Era uma posição de entrega absoluta por parte de Lance, algo que sempre apelava para a necessidade de controle de Tessius, mas ao mesmo tempo, era Lance quem estava no comando daquela tensão. O caçador sabia exatamente onde sua presa era mais vulnerável.
Lance começou a deixar beijos lentos e úmidos sobre o tecido do pijama, subindo em direção ao quadril de Tessius. Cada toque era calculado para desestabilizar a calma que o café trouxera. Tessius sentia seus dedos tremerem contra a cerâmica da caneca, mas não era o tremor da esquizofrenia; era o desejo puro, cru e às vezes assustador que ele sentia pelo marido.
— Você... você não deveria estar cozinhando? — Tessius tentou recuperar um pouco de sua arrogância habitual, mas sua voz falhou.
Lance levantou o olhar, seus olhos azuis brilhando com uma intensidade travessa e predatória. Ele estava ali embaixo, olhando para cima, para o homem que ele idolatrava.
— A carne pode esperar, Tess. Você sabe que eu prefiro o meu jantar com um pouco mais de... sabor. E você está cheirando tão bem hoje.
Lance voltou a esconder o rosto entre as pernas de Tessius, desta vez usando a ponta do nariz para traçar o contorno do que estava escondido ali. Tessius fechou os olhos com força, a caneca de café agora esquecida em sua mão, perigosamente inclinada. O calor que emanava de Lance era intoxicante.
— Se você derrubar café em mim, eu vou ter que te tirar dessa roupa — disse Lance, sua língua afiada encontrando o argumento perfeito para a situação.
— Isso soa como uma ameaça — respondeu Tessius, tentando controlar a respiração. — Ou uma promessa vinda de você.
— É uma garantia — afirmou Lance. Ele se afastou apenas o suficiente para desamarrar o cordão do pijama de Tessius com uma agilidade impressionante.
Tessius sentiu o ar frio da cozinha atingir sua pele, mas logo foi substituído pelo calor da boca de Lance. O toque era elétrico. Para Tessius, que passara anos odiando o próprio corpo, que sofrera abusos que deixaram cicatrizes invisíveis e profundas, o toque de Lance era a única coisa que o fazia se sentir verdadeiramente masculino e desejado. Lance nunca o tratara como nada menos que um homem, nunca hesitara, nunca o olhara com piedade.
— Lance, para — pediu Tessius, embora suas mãos estivessem agora mergulhadas nos cabelos de Lance, puxando-o para mais perto. — Eu ainda não terminei meu café.
— Deixe o café de lado por cinco minutos, Tess — comandou Lance, sua voz subindo de tom, carregada de uma autoridade carinhosa. — Eu sou o seu vício agora.
Tessius soltou um som que era metade riso, metade soluço. A intensidade de Lance era o que o mantinha equilibrado, mesmo quando parecia que ele o estava empurrando para o abismo. Ele colocou a caneca no balcão ao lado com um movimento trêmulo e se entregou ao toque do marido.
As mãos de Lance eram grandes e calejadas pelo trabalho na floresta e pela caça, mas quando tocavam Tessius, eram de uma delicadeza surpreendente. Ele conhecia os pontos onde Tessius era mais sensível, os lugares que o faziam esquecer as vozes e o passado traumático. Enquanto Lance trabalhava com a boca e as mãos, Tessius sentia o mundo exterior desaparecer. A cabana, a neve, os três empregos exaustivos, o medo constante de Elias e Mary... tudo isso se dissipava sob o calor daquela conexão.
— Você é meu, Tess — sussurrou Lance entre os toques, uma afirmação de posse que normalmente irritaria Tessius, mas que ali, naquele momento, era o seu único conforto.
— Eu não sou de ninguém — retrucou Tessius, a teimosia ainda presente, mesmo enquanto ele arqueava as costas contra o banco. — Mas... você pode ficar comigo. Por enquanto.
Lance riu contra a pele dele, um som vibrante que Tessius sentiu em seus ossos.
— "Por enquanto" já dura três anos de casamento e uma vida inteira de obsessão, meu capitão. Você não vai se livrar de mim tão cedo.
— Eu nunca disse que queria me livrar de você, seu idiota — Tessius puxou os cabelos de Lance com um pouco mais de força, trazendo o rosto do marido para cima para que seus olhos se encontrassem. — Você é a única pessoa que eu suporto por mais de uma hora sem querer cometer um crime.
Lance sorriu, aquele sorriso ousado que sempre desarmava Tessius. Ele se levantou do chão, mas não se afastou. Ele se posicionou entre as pernas abertas de Tessius, prendendo-o contra o balcão.
— Eu sei. E é por isso que somos perfeitos um para o outro. Dois loucos em uma cabana no meio do nada.
Tessius olhou para Lance, estudando cada detalhe do rosto do homem que abandonara cassinos e fortunas por ele. O ciúme possessivo de Tessius rugiu em seu peito, uma chama que exigia que Lance nunca olhasse para mais ninguém.
— Se você algum dia pensar em voltar para a cidade, para o Chance ou para aquela vida de luxo... — começou Tessius, sua voz ficando sombria, um vislumbre de sua instabilidade Borderline aparecendo.
Lance interrompeu-o com um beijo profundo, um beijo que tinha gosto de café e promessas eternas.
— Eu já tenho todo o luxo que preciso bem aqui — disse Lance quando se separaram, seus polegares limpando o canto da boca de Tessius. — Agora, termine seu café antes que ele esfrie. Eu sei que você odeia café frio.
Tessius piscou, a transição abrupta de Lance do desejo para a praticidade deixando-o momentaneamente sem palavras. Ele pegou a caneca, que ainda estava morna, e deu um gole, sentindo o humor se estabilizar novamente.
— Você é estranho, Lance — comentou Tessius, ajeitando o pijama com uma mão enquanto segurava a caneca com a outra.
— E você é um viciado em cafeína com sérios problemas de temperamento — Lance deu um tapinha carinhoso na bochecha de Tessius e se virou para começar a preparar a carne. — Mas eu não trocaria isso por nada no mundo.
Tessius observou Lance trabalhar. O tremor em suas mãos havia diminuído consideravelmente. O café estava bom, mas o momento que acabaram de compartilhar era o que realmente preenchia o vazio em seu peito. Ele sabia que, em breve, a ansiedade voltaria, que as sombras voltariam a sussurrar e que ele precisaria de outra xícara em menos de uma hora. Mas, enquanto Lance estivesse ali, caçando por ele, cozinhando para ele e ajoelhando-se entre suas pernas para lembrá-lo de que ele era amado, Tessius sentia que poderia enfrentar qualquer demônio.
— Lance? — chamou Tessius de repente.
Lance se virou, uma faca na mão e um pedaço de carne de cervo sobre a tábua.
— Sim?
— Não demore com essa comida. Eu estou com fome e... eu quero que você me leve para a cama depois.
Lance ergueu uma sobrancelha, um brilho de vitória em seus olhos.
— É uma ordem, Tess?
Tessius deu o último gole no seu café, colocando a caneca vazia no balcão com um estalo definitivo.
— É um aviso. Se você me fizer esperar, eu vou começar a arrancar meus cabelos, e você sabe como eu fico de mau humor quando isso acontece.
Lance soltou uma gargalhada alta e genuína, voltando ao trabalho com uma energia renovada.
— Sim, senhor. A carne de cervo sai em dez minutos. E depois disso... eu sou todo seu.
Tessius recostou-se no banco, sentindo o calor do café e a promessa de Lance aquecerem seu interior. Naquela cabana isolada, entre o aroma da cafeína e o cheiro de sangue fresco da caça, Tessius finalmente encontrou o que o mundo sempre tentou lhe tirar: um lugar onde ele era, sem desculpas e sem medo, simplesmente ele mesmo.