Dês de quando amor tem gênero?
Sombras de Cafeína e o Silêncio da Floresta
O relógio de madeira na parede da cozinha parecia zombar de Tessius. O tique-taque rítmico ecoava em sua mente como pequenas marteladas, cada uma marcando a contagem regressiva para o próximo colapso. Cinquenta e oito minutos. Ele tinha apenas dois minutos de sanidade restante antes que o abismo se abrisse sob seus pés. Seus dedos, finos e pálidos, apertavam a borda do balcão de madeira rústica com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos.
Lance estava de costas, ocupado com a carne de cervo sobre a tábua de corte. O som da faca afiada batendo na madeira era a única coisa que impedia Tessius de gritar. Ele sentia a escuridão rastejando pelas bordas de sua visão, as vozes sussurrando que ele nunca seria bom o suficiente, que ele ainda era aquela "garotinha" vulnerável de anos atrás, e não o homem que lutara tanto para se tornar.
— Lance... — A voz de Tessius saiu como um grasnido seco, interrompida por um tremor involuntário nos ombros.
Lance virou-se instantaneamente. A experiência de três anos de casamento e uma vida de observação o ensinaram a ler cada nuance do humor de Tessius. Ele viu as pupilas dilatadas do marido, o suor frio na têmpora e a maneira como ele começava a levar a mão esquerda ao couro cabeludo, um gesto reflexivo de quem estava prestes a começar a arrancar os fios.
— Tess, olhe para mim. — Lance largou a faca e atravessou a cozinha em dois passos largos. — Respire. O café está quase pronto. Eu sinto o cheiro, você não sente?
— Não é rápido o suficiente! — Tessius explodiu, sua voz subindo uma oitava, carregada de uma agressividade que era puramente defensiva. — O relógio está parando, Lance! Eu sinto o cheiro do Elias... eu sinto o cheiro daquela droga que ele colocava na minha caneca... eu vou enlouquecer, eu juro que vou quebrar tudo nesta casa!
Lance não recuou. Ele estava acostumado com as tempestades de Tessius. Ele sabia que, por trás daquela fúria e daquelas ameaças, havia um homem apavorado com os próprios fantasmas. Ele segurou os pulsos de Tessius, impedindo-o de machucar a si mesmo, e o forçou a sentar-se novamente no banco.
— Elias não está aqui, Tessius. Ele está apodrecendo na cadeia, onde nunca mais poderá tocar em você. E o café que eu estou fazendo é puro. É o seu café. — Lance manteve o tom de voz baixo e firme, uma âncora no meio do caos. — Magnus e Lunna estão seguros. Alison está bem. Você está na nossa cabana. Comigo.
Tessius começou a soluçar, um som dilacerante que vinha do fundo de sua alma. O Borderline e a esquizofrenia faziam com que cada emoção fosse multiplicada por mil. Ele odiava aquela fraqueza. Ele odiava o fato de que, apesar de toda a sua barba rala e de seu corpo masculino, ele ainda se sentia pequeno às vezes.
— Eu odeio isso... eu odeio ser assim... — Tessius murmurou, escondendo o rosto nas mãos trêmulas. — Por que você ainda está aqui, Lance? Por que você não voltou para os cassinos? Para uma vida onde você não tem que cuidar de um louco que chora por causa de uma xícara de café?
Lance ajoelhou-se entre as pernas de Tessius novamente, mas desta vez não havia luxúria em seus olhos, apenas uma proteção feroz. Ele puxou as mãos de Tessius para longe do rosto dele e o obrigou a encará-lo.
— Porque eu não quero uma vida fácil, Tess. Eu quero você. Eu quero cada parte quebrada, cada surto, cada momento de clareza. Você é a única coisa real que eu já tive. Chance tem o dinheiro, Victor tem o poder, mas eu? Eu tenho o homem mais corajoso que já conheci.
O apito da cafeteira soou, quebrando a tensão. O som, que para qualquer outra pessoa seria apenas um barulho doméstico comum, para Tessius foi como o toque de um clarim anunciando o fim da guerra. Lance levantou-se rapidamente, serviu uma caneca fumegante — preta, amarga, do jeito que Tessius precisava para silenciar os demônios — e a entregou a ele.
Tessius bebeu o primeiro gole ainda de pé, quase queimando a garganta. O calor desceu como lava, e ele sentiu a química familiar agindo em seu cérebro. Os fios soltos de sua consciência começaram a se reconectar. O tremor diminuiu. O cheiro de Elias desapareceu, substituído pelo aroma terroso e reconfortante do café fresco.
— Melhor? — perguntou Lance, observando-o com cautela.
Tessius respirou fundo, fechando os olhos enquanto abraçava a caneca quente.
— Sim. — Sua voz estava estável agora, o tom ríspido voltando gradualmente. — E não se atreva a olhar para mim com essa cara de pena, Lance. Eu não sou um cachorrinho ferido.
Lance soltou uma gargalhada aliviada, voltando para o balcão da cozinha.
— Aí está ele. O meu Tessius mal-humorado de sempre. Eu estava começando a sentir falta do seu filtro inexistente.
— Vá se ferrar — retrucou Tessius, embora houvesse um pequeno sorriso brincando no canto de sua boca. Ele deu outro gole no café, sentindo-se mais seguro. — Como está a carne? Se você queimar o meu jantar depois de todo esse drama, eu vou te fazer dormir no estábulo com os cavalos.
— Não temos cavalos, Tess. Só neve e lobos — disse Lance, jogando os bifes de cervo na frigideira quente. O chiado da carne selando preencheu o ambiente. — E eu sou um excelente cozinheiro, você sabe disso. O segredo é o fogo alto e a gordura certa.
Tessius observou as costas largas de Lance. Ele sentia uma onda de possessividade atingi-lo. Lance era dele. O homem que poderia ter qualquer pessoa, que poderia estar cercado de luxo em uma mansão, escolhera estar ali, em uma cabana isolada, cuidando de um homem trans com uma mente fragmentada. O ciúme de Tessius era uma chama constante; ele odiava quando Lance falava com qualquer pessoa da cidade, ou até mesmo quando recebia mensagens de Chance sobre o cassino.
— O que o Chance queria hoje de manhã? — perguntou Tessius, tentando parecer casual, mas falhando miseravelmente.
Lance suspirou, virando a carne com habilidade.
— O de sempre. Ele está tentando me convencer a ir até lá para o aniversário dele. Ele diz que o pai — Victor, quero dizer — está ficando velho e que a máfia está começando a cheirar sangue. Eles querem que o "filho pródigo" faça uma aparição para mostrar força.
Tessius sentiu seu estômago revirar. A simples ideia de Lance voltando para aquele mundo, mesmo que por um dia, era insuportável.
— E o que você disse? — Tessius apertou a caneca de café, a ansiedade tentando voltar.
Lance desligou o fogo e virou-se, apoiando-se no balcão. Ele olhou nos olhos de Tessius com uma seriedade absoluta.
— Eu disse a ele que minha vida é aqui. Que eu não tenho interesse em jogos de poder ou em herdar um império construído sobre mentiras. Eu disse que tenho um marido que precisa de mim, e que eu preciso dele muito mais.
Tessius relaxou os ombros. A resposta de Lance foi como um bálsamo.
— Bom. Porque se você fosse, eu iria junto. E eu provavelmente acabaria atirando em alguém se olhassem para você por muito tempo.
— Eu não tenho dúvidas disso, meu capitão ciumento — brincou Lance, começando a montar os pratos. — Agora, chega de falar de família e de problemas. Vamos comer. A carne está no ponto, e eu aposto que você ainda tem espaço para mais uma xícara de café depois disso.
Eles comeram em um silêncio confortável, quebrado apenas pelo som dos talheres e pelo vento lá fora. Para Tessius, aqueles momentos de normalidade eram preciosos. Ele pensou em sua amiga Emma na cafeteria, e em Elliot na pizzaria. Ele sentia falta deles às vezes, da rotina exaustiva dos três empregos que o mantinha ocupado demais para pensar, mas a paz da floresta era o que ele realmente precisava para sobreviver.
Depois do jantar, a atmosfera na cabana mudou. O calor da lareira e a barriga cheia trouxeram uma sonolência agradável, mas para Lance, o desejo que fora interrompido na cozinha ainda estava latente. Ele observou Tessius terminar sua terceira xícara de café da noite.
— Sabe, Tess — começou Lance, aproximando-se de onde o marido estava sentado perto do fogo —, você me prometeu algo na cozinha.
Tessius olhou para ele, os olhos brilhando sob a luz das chamas. O café o deixara alerta, e o toque anterior de Lance deixara seu corpo em um estado de expectativa vibrante.
— Eu prometi que você me levaria para a cama — corrigiu Tessius, levantando-se e caminhando até Lance. Ele colocou as mãos sobre os ombros largos do marido, sentindo a solidez de seus músculos. — Mas eu não disse que seria gentil. Eu estou de mau humor, lembra?
Lance sorriu, aquele sorriso predatório que fazia o coração de Tessius disparar.
— Eu nunca pedi que você fosse gentil, Tess. Eu gosto de você exatamente assim: indomável, afiado e meu.
Lance pegou Tessius no colo com uma facilidade que sempre o surpreendia. Tessius instintivamente entrelaçou as pernas na cintura de Lance, sentindo a masculinidade e a força do marido. Ele se sentia seguro, não apenas como um homem, mas como um ser humano que finalmente encontrara seu lugar no mundo.
Enquanto Lance o carregava em direção ao quarto, Tessius encostou a testa na dele.
— Lance?
— Sim, Tess?
— Obrigado. Por não ter me deixado quando as vozes ficaram altas hoje.
Lance parou na porta do quarto, olhando para o marido com uma adoração que beirava o religioso.
— Eu nunca vou te deixar, Tessius. Nem pelas vozes, nem pelo café, nem por nada neste mundo. Você é o meu norte.
Tessius o beijou, um beijo que carregava toda a gratidão, o desejo e a possessividade que ele sentia. Naquela noite, na cabana isolada sob a neve, o silêncio da floresta não era assustador. Era o cenário perfeito para dois homens que encontraram, um no outro, a cura para suas próprias marcas.
As sombras do passado de Tessius ainda estavam lá, escondidas nos cantos da mente, esperando pelo próximo intervalo de uma hora sem café. Mas, enquanto ele estivesse nos braços de Lance, ele sabia que não precisava enfrentar o escuro sozinho. Ele era Tessius — um homem, um sobrevivente e, acima de tudo, o dono do coração do caçador. E isso, por si só, era mais forte do que qualquer trauma ou diagnóstico.