Desabrochando
Estilhaços e Silêncio
A biblioteca da escola Anakt era o único lugar onde o caos do ensino médio parecia ser filtrado por grossas paredes de concreto e prateleiras intermináveis de madeira escura. O cheiro de papel velho e cera de assoalho era o refúgio de Sua, um santuário onde as palavras dos outros não podiam alcançá-la — até aquele dia.
Sua estava sentada em sua mesa habitual, no fundo do corredor de literatura clássica, onde a luz do sol batia de forma oblíqua através de uma janela alta e estreita. Ela tentava se concentrar em um poema de Sylvia Plath, mas as letras pareciam dançar fora de foco. Sua mente, geralmente uma fortaleza de gelo e lógica melancólica, estava sofrendo uma invasão persistente de uma cor específica: rosa-choque.
— Você sabe que é falta de educação encarar o vazio com essa cara de quem está sofrendo por um fantasma, né?
A voz arrastada e cheia de uma confiança preguiçosa fez Sua sobressaltar-se levemente. Ela não precisou levantar a cabeça para saber quem era. O perfume de chiclete de morango chegou antes de qualquer imagem.
Mizi estava lá, de pé, com a mochila pendurada em um ombro e aquele sorriso que parecia desafiar a própria gravidade. Sem esperar por um convite, ela puxou a cadeira à frente de Sua e sentou-se, jogando as pernas por cima do braço do assento com uma despretensão que beirava o escandaloso para os padrões da biblioteca.
— Eu disse que vinha — Mizi sussurrou, embora seu "sussurro" ainda fosse projetado demais para o ambiente. — E eu cumpro minhas promessas, Sua. Especialmente as interessantes.
Sua fechou o livro devagar, marcando a página com o dedo. Ela olhou para Mizi, tentando manter a expressão neutra que lhe rendera o apelido de "Irmã de Gelo".
— Achei que você estivesse brincando. Ou que fosse esquecer no caminho até aqui, distraída por alguma coisa brilhante.
Mizi soltou uma risadinha baixa, inclinando o corpo para frente. A luz da janela destacou o brilho intenso em seus olhos.
— Eu me distraio fácil, é verdade. Mas você brilha mais do que qualquer coisa que eu vi hoje. É meio difícil de ignorar.
Sua sentiu uma pontada de calor subir pelo pescoço. Ela não estava acostumada com aquele tipo de ataque direto. As pessoas costumavam ter medo dela, ou pelo menos um respeito cauteloso. Mizi, por outro lado, parecia querer pular o muro da fortaleza de Sua com um salto mortal e um chiclete na boca.
— O que você quer, Mizi? — perguntou Sua, a voz mantendo aquela cadência melancólica e baixa.
— Nada demais. Só ver se você é de verdade. O Luka fala de você e do Ivan como se vocês fossem códigos de computador que ninguém consegue decifrar. E eu... bem, eu sempre fui boa em quebrar coisas para ver o que tem dentro.
Enquanto isso, em outra parte da escola, o clima era consideravelmente menos poético. No laboratório de informática, que estava tecnicamente fechado para manutenção, Ivan estava sentado em cima de uma das bancadas, mastigando um pirulito de cereja e observando Luka digitar furiosamente.
— Você está errando a sintaxe na linha quarenta e dois — comentou Ivan, a voz desprovida de emoção.
Luka parou, ajustou os óculos e suspirou, corrigindo o código.
— Obrigado. Eu estava tentando otimizar o processo de renderização, mas acho que meu cérebro está um pouco sobrecarregado com a interação social de hoje.
Ivan deu de ombros.
— Foi divertido. O Till parece que vai desmaiar toda vez que eu olho pra ele. Ele é sempre tão... tenso?
— O Till é um "emo rebelde", segundo a Hyuna — explicou Luka, voltando-se para o amigo. — Ele usa a agressividade como defesa. Mas ele é um bom artista. E a Hyuna... bem, a Hyuna é a força da natureza que mantém a gente unido.
— E a rosa? — Ivan perguntou, referindo-se a Mizi. — Ela é sempre tão... invasiva?
Luka deu um sorriso pequeno e um tanto formal.
— A Mizi é intensa. Ela vive no agora. Acho que ela decidiu que sua irmã é o novo mistério favorito dela. Você se importa?
Ivan pulou da bancada, caminhando até a janela que dava para o pátio. Ele viu Hyuna e Till discutindo sobre algo perto dos armários, com Hyuna gesticulando dramaticamente.
— A Sua precisa de um choque térmico — disse Ivan, o tom de voz suavizando apenas um milímetro. — Ela vive enterrada naqueles livros tristes desde que nossos pais... enfim. Se a garota do chiclete conseguir fazer ela rir, eu não vou reclamar. Mas se ela magoar a minha irmã, eu apago a existência digital dela em dez minutos.
Luka acreditava plenamente naquela ameaça.
De volta à biblioteca, o silêncio entre Mizi e Sua havia se tornado algo denso, mas não desconfortável. Mizi tinha pegado um dos livros de poesia da pilha de Sua e estava folheando sem muita paciência.
— "A morte é uma arte, como tudo o mais. Eu a faço excepcionalmente bem" — Mizi leu em voz alta, fazendo uma careta. — Credo, Sua. Isso é muito pesado para uma terça-feira à tarde. Por que você gosta tanto dessas coisas?
Sua suspirou, apoiando o queixo na palma da mão.
— Porque é honesto. O mundo tenta o tempo todo fingir que tudo é colorido e barulhento, como você. Mas a verdade é que as coisas acabam. As pessoas partem. O silêncio é a única coisa que sobra.
Mizi fechou o livro com um estalo alto, fazendo a bibliotecária lá no fundo soltar um "Shhh!" estridente. Mizi nem se virou. Ela fixou o olhar em Sua, e pela primeira vez, a brincadeira sumiu de seu rosto, dando lugar a uma seriedade magnética.
— O silêncio não é o que sobra, Sua. O silêncio é o que acontece quando você para de lutar. E você parece que parou de lutar há muito tempo.
Sua sentiu como se tivesse levado um tapa físico. Ela abriu a boca para retrucar, para dizer que Mizi não sabia de nada, que ela era apenas uma garota fútil que gostava de dormir nas aulas, mas as palavras morreram em sua garganta. Os olhos de Mizi eram profundos demais, revelando uma percepção que Sua não esperava.
— Você não me conhece — conseguiu dizer Sua, o tom de voz tremendo levemente.
— Ainda não — admitiu Mizi, voltando a sorrir, mas desta vez era um sorriso mais suave, quase terno. — Mas eu sou persistente. E eu acho que, por trás desse gelo todo, tem alguém que adoraria gritar até perder a voz.
Mizi levantou-se, pegando sua mochila. Ela se inclinou sobre a mesa, o rosto ficando a poucos centímetros do de Sua. O cheiro de morango era quase inebriante agora.
— Amanhã tem um ensaio da banda do Till na garagem da Hyuna. O Ivan vai estar lá. Você devia ir.
— Eu não gosto de barulho — repetiu Sua, embora sua resistência estivesse derretendo como neve sob o sol de meio-dia.
— Mentira — sussurrou Mizi, a voz roçando o ouvido de Sua. — Você só tem medo de gostar. Te vejo lá, boneca.
Mizi se afastou, saindo da biblioteca com seu passo saltitante e desleixado. Sua ficou ali, estática, sentindo o lugar onde a presença de Mizi estivera ainda vibrando com energia. Ela olhou para o livro de Sylvia Plath sobre a mesa e, pela primeira vez em anos, ele pareceu terrivelmente sem graça.
Lá fora, Mizi encontrou Hyuna e Till.
— E aí, conquistou a rainha das neves? — Hyuna perguntou, jogando um braço sobre os ombros de Mizi.
— Digamos que eu fiz um buraco no casco do navio — Mizi riu, pegando um novo chiclete. — Onde está o Till?
— Ele foi atrás do Ivan — Till resmungou, apontando para o laboratório de informática. — Aquele cara tem uns pedais de distorção de 1990 que eu preciso ver. Ele é estranho, mas o gosto musical dele não é um lixo completo.
— O plano do Luka está funcionando — comentou Hyuna, olhando para o prédio da escola. — Quem diria que o nerd conseguiria juntar os desajustados com os intocáveis?
— Não é o plano do Luka — corrigiu Mizi, olhando para a janela da biblioteca. — É só a gravidade. Algumas pessoas foram feitas para colidir.
Naquela noite, Sua e Ivan jantaram em silêncio no apartamento minimalista e frio onde moravam. Ivan notou que a irmã não abriu o livro de poesias nenhuma vez durante a refeição.
— Ela é irritante, não é? — Ivan perguntou, sem preâmbulos, enquanto limpava o canto da boca.
Sua não precisou perguntar de quem ele estava falando.
— Ela é... exaustiva.
— Mas você vai amanhã, não vai? — Ivan arqueou uma sobrancelha. — O tal Till tem uns equipamentos interessantes. E o Luka vai estar lá para garantir que ninguém morra de inépcia social.
Sua olhou para o irmão. Ela viu nele o mesmo isolamento que ela mesma cultivava, mas percebeu que, talvez, Ivan estivesse um pouco mais disposto a deixar uma fresta aberta na porta.
— Eu não prometi nada — disse Sua, levantando-se da mesa.
— Você não precisa prometer — Ivan deu um meio sorriso, algo raro e quase imperceptível. — Você já decidiu.
No dia seguinte, a garagem de Hyuna estava enfumaçada e barulhenta. Till estava afinando sua guitarra com uma expressão de concentração absoluta, enquanto Hyuna batia as baquetas uma na outra, ditando um ritmo frenético. Luka estava sentado em um canto, com um notebook aberto, tentando captar o áudio para um projeto.
— Eles não vêm — Till disse, ajustando o amplificador. — Eu sabia. Foi um milagre eles terem sentado com a gente ontem.
— Relaxa, Till — Hyuna gritou sobre o som da bateria. — A Mizi tem um jeito de conseguir o que quer.
Nesse momento, a porta de metal da garagem rangeu. Ivan entrou primeiro, com sua expressão de tédio habitual, carregando uma mochila que provavelmente continha mais eletrônicos do que livros. Atrás dele, hesitante e parecendo completamente fora de lugar em sua blusa de gola alta escura, estava Sua.
Mizi, que estava jogada em um sofá velho no fundo da garagem, deu um pulo. Seus olhos brilharam tanto que poderiam iluminar o bairro inteiro.
— Você veio! — Mizi exclamou, correndo até eles.
Sua olhou ao redor, o barulho da guitarra de Till ecoando nas paredes de metal, o cheiro de óleo de motor e suor adolescente preenchendo o ar. Era o oposto da biblioteca. Era o oposto de tudo o que ela considerava seguro.
— O Ivan queria ver os pedais — mentiu Sua, embora sua voz não tivesse a frieza de antes.
— Sei — Mizi sorriu, pegando a mão de Sua.
O contato físico foi como um choque elétrico. Sua tentou puxar a mão, mas Mizi segurou firme, não de um jeito agressivo, mas possessivo e quente.
— Vem, senta aqui comigo. O Till vai tocar uma música nova que ele escreveu. É barulhenta, é caótica e é exatamente o que você precisa ouvir.
Ivan já tinha se aproximado de Till e Luka, e os três começaram uma conversa técnica que parecia uma língua estrangeira para as garotas. Hyuna deu uma piscada para Mizi antes de começar uma virada dramática na bateria.
Mizi puxou Sua para o sofá. Elas sentaram próximas, os ombros se tocando. O som explodiu na garagem — uma parede de distorção e ritmo que vibrava nos ossos de Sua. Ela fechou os olhos, esperando sentir a habitual vontade de fugir, de se esconder no silêncio.
Mas o silêncio não veio. O que veio foi a mão de Mizi, que deslizou para o lado e entrelaçou seus dedos nos de Sua.
Sua abriu os olhos e olhou para Mizi. A garota de cabelos rosa estava balançando a cabeça no ritmo da música, com um sorriso radiante, parecendo a personificação da vida em sua forma mais pura e descontrolada.
Pela primeira vez em muito tempo, Sua não se sentiu melancólica. Ela se sentiu... presente.
— Viu? — Mizi gritou perto do seu ouvido, para ser ouvida acima da guitarra de Till. — Não dói sentir um pouco de barulho, dói?
Sua não respondeu com palavras. Em vez disso, ela apertou a mão de Mizi de volta.
O gelo não estava apenas rachando. Ele estava começando a evaporar, transformando-se em algo novo, algo que cheirava a morango e soava como uma canção de rock mal executada em uma garagem suburbana. E, pela primeira vez, Sua achou que o silêncio talvez pudesse esperar um pouco mais.