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Desabrochando

Sombras Brancas e o Gosto Amargo do Morango

A garagem de Hyuna parecia um organismo vivo, pulsando ao ritmo desenfreado da bateria. O som era físico; ele batia no peito de Sua como se tentasse reiniciar seu coração à força. Ivan estava num canto, quase irreconhecível com um meio sorriso enquanto discutia frequências de áudio com Luka e Till, mas Sua só conseguia focar em uma coisa: o calor da mão de Mizi.

Mizi estava em seu elemento. Ela balançava a cabeça, os fios rosados chicoteando o ar, e de vez em quando olhava para Sua com uma intensidade que fazia a garota de cabelos escuros querer desviar o olhar e, ao mesmo tempo, mergulhar nele.

— Tá vendo aquela sequência que o Till tá fazendo agora? — Mizi gritou, aproximando o rosto do de Sua para ser ouvida. — Ele escreveu isso depois que a gente passou a noite inteira comendo pizza fria e reclamando da vida. O barulho tem história, Sua!

Sua sentiu o hálito de Mizi — doce, sempre com aquele rastro de chiclete — e apenas assentiu. Ela não sabia como explicar que, para ela, o barulho sempre foi uma ameaça, uma invasão. Mas ali, com os dedos entrelaçados nos de Mizi, o caos parecia... protetor. Como uma barreira que impedia o resto do mundo de entrar.

— É menos pior do que eu imaginei — Sua admitiu, sua voz sendo quase engolida pela guitarra de Till.

Mizi riu, um som cristalino que nem mesmo a distorção do amplificador conseguia abafar. Ela se inclinou mais, o ombro pressionado contra o de Sua.

— "Menos pior"? Isso vindo de você é tipo um dez de dez! Eu vou transformar você numa fã de punk até o final do semestre, escreve o que eu tô falando.

Sua estava prestes a responder, talvez com um comentário sarcástico sobre o otimismo exagerado de Mizi, quando o som da porta de metal da garagem rangendo novamente cortou a atmosfera. Não foi um som alto, mas foi o suficiente para fazer Hyuna parar de bater nos pratos da bateria.

Uma silhueta baixa e quase etérea estava parada na entrada.

— Gente, cheguei! Desculpa o atraso, o ônibus decidiu que hoje era dia de greve — disse a recém-chegada, caminhando para dentro da luz amarelada da garagem.

A garota parecia ter saído de um conto de fadas de inverno ou de um filme de terror gótico. Tinha longos cabelos brancos que brilhavam como neve fresca, a pele tão pálida que parecia quase translúcida e olhos azuis penetrantes, emoldurados por cílios brancos que lhe davam um ar de boneca de porcelana.

Mizi congelou por um milésimo de segundo. Então, num movimento brusco, ela soltou a mão de Sua.

O vazio que o calor da palma de Mizi deixou foi instantâneo e gélido.

— Lexy! — Mizi gritou, a voz subindo uma oitava, carregada de um entusiasmo que Sua ainda não tinha ouvido naquela tarde.

Mizi praticamente saltou do sofá, correndo em direção à garota albina. Ela a envolveu em um abraço apertado, tirando a menor do chão e girando-a.

— Você veio! Achei que ia ficar trancada no estúdio de pintura o dia todo! — Mizi exclamou, as mãos agora nos ombros de Lexy, analisando-a com uma adoração óbvia.

— Eu não perderia o ensaio por nada, Mizi. Senti sua falta hoje na saída — Lexy respondeu, a voz suave, mas com uma doçura que parecia preencher todo o espaço que antes pertencia a Sua.

Sua permaneceu sentada no sofá velho, as mãos agora vazias descansando sobre o colo. Ela observou a cena com uma estranha sensação de desorientação. Ivan, que estava perto de Till, lançou um olhar rápido para a irmã, sua expressão voltando à frieza habitual, como se estivesse processando a mudança brusca de temperatura no ambiente.

— Lexy, você não tem noção! — Mizi continuava, puxando a amiga pelo braço em direção ao centro da garagem, ignorando completamente o sofá onde Sua estava. — O Till melhorou muito aquele riff que eu te mostrei, e a Hyuna comprou pratos novos! Vem ver, vem ver!

Lexy sorriu, um sorriso pequeno e delicado que parecia iluminar seu rosto pálido.

— Calma, Mizi. Eu quero ouvir tudo.

Mizi começou a falar sem parar, gesticulando dramaticamente, apontando para os instrumentos, rindo de piadas internas que só ela e Lexy pareciam compartilhar. Ela estava vibrante, elétrica, mas seu foco agora era um laser apontado exclusivamente para a garota de cabelos brancos.

Sua sentiu um nó estranho na garganta. Não era tristeza, ou talvez fosse, mas era misturado com uma irritação fria. Ela estava acostumada a ser invisível para o mundo, mas Mizi tinha passado as últimas horas — e dias — forçando-a a ser vista. E agora, com a chegada de Lexy, era como se o interruptor tivesse sido desligado.

Hyuna, percebendo o clima pesado que se formou no fundo da garagem, tentou intervir.

— E aí, Lexy! Que bom que apareceu. Conhece os novos agregados? — Hyuna apontou para os irmãos. — Aquele ali é o Ivan, o gênio que tá salvando o som do Till, e aquela no sofá é a Sua.

Lexy olhou para Sua. Seus olhos azuis eram frios, mas curiosos.

— Oi — disse Lexy com um aceno curto. — Prazer.

Sua apenas inclinou a cabeça, o rosto voltando à máscara de mármore.

— Prazer — respondeu de forma seca.

Mizi nem sequer olhou para trás. Ela estava ocupada demais ajeitando uma mecha do cabelo branco de Lexy que tinha caído sobre o rosto da amiga.

— Lexy, você trouxe aqueles desenhos? Eu quero mostrar pro pessoal como você é foda — Mizi disse, a voz cheia de orgulho.

— Trouxe alguns no tablet, Mizi. Mas a gente veio ouvir música, não é?

— A gente faz os dois! — Mizi exclamou, puxando Lexy para um par de cadeiras dobráveis perto dos amplificadores, longe do sofá onde Sua estava.

O ensaio recomeçou, mas para Sua, a música agora era apenas ruído. Ela observava Mizi de longe. Mizi não olhou mais para ela. Nem uma vez. Ela estava inclinada para Lexy, sussurrando coisas no ouvido da garota, rindo, tocando seu braço ocasionalmente. Era a mesma Mizi sedutora e intensa, mas o alvo tinha mudado.

Sua sentiu-se como uma intrusa em um território que, por um breve momento, pensou que poderia habitar.

Ivan se aproximou do sofá, fingindo ajustar um cabo no chão perto dos pés de Sua.

— Quer ir embora? — ele perguntou em um sussurro, a voz tão baixa que só ela poderia ouvir.

Sua olhou para o irmão. Ele via tudo. Ele sempre via.

— Não — Sua respondeu, endurecendo o olhar. — Eu não vou fugir só porque a "barulhenta" achou um brinquedo novo.

Ivan deu um de seus raros e cínicos sorrisos.

— É assim que se fala. Mas não se engane, Sua. Pessoas como a Mizi brilham para todo mundo. O problema é achar que o sol é só seu.

A tarde se arrastou. O grupo conversava, ria e bebia refrigerante barato entre as músicas. Lexy se integrou facilmente; ela era calma, artística e parecia ter uma conexão profunda com Mizi que vinha de anos. Mizi agia como se Lexy fosse o centro do seu universo, esquecendo-se completamente da promessa de "estudar na biblioteca" ou de como tinha segurado a mão de Sua minutos antes.

Till e Luka tentavam incluir Sua na conversa, mas ela respondia apenas com monossílabos. Seus olhos estavam fixos no contraste entre o rosa do cabelo de Mizi e o branco do de Lexy. Era uma imagem bonita, admitiu Sua amargamente.

Em certo momento, Lexy se levantou para ir ao banheiro nos fundos da casa de Hyuna. Mizi a seguiu, dizendo que precisava "ajudar a achar a luz".

O silêncio que se seguiu na garagem foi desconfortável.

— A Lexy e a Mizi são grudadas desde o fundamental — comentou Hyuna, sentando-se no chão com uma lata de cola. — Elas têm essa coisa de "almas gêmeas artísticas". Às vezes a Mizi fica meio... intensa demais quando a Lexy tá por perto.

— Percebe-se — murmurou Sua, abrindo seu livro de poesias que estava na mochila. Ela precisava de suas palavras tristes agora. Elas eram as únicas que não a abandonavam.

Luka limpou os óculos, olhando para Sua com uma expressão de preocupação nerd.

— A Mizi não faz por mal, Sua. Ela só tem muita energia. Ela se esquece do resto do mundo quando foca em algo.

— Eu não me importo, Luka — mentiu Sua, os olhos fixos em um verso de Sylvia Plath que falava sobre o vazio. — Ela é apenas barulho de fundo, lembra? Foi o que eu disse no primeiro dia.

Mas a mentira tinha um gosto amargo, como o de um chiclete que perdeu o sabor de morango e se tornou apenas uma borracha insossa.

Minutos depois, Mizi e Lexy voltaram, rindo de algo privado. Mizi parecia ter se lembrado subitamente da existência de Sua, pois lançou um olhar rápido em direção ao sofá.

— Ah, Sua! Você ainda tá aí? — Mizi disse, a voz soando estranhamente casual, como se estivesse falando com um conhecido distante. — Desculpa, eu e a Lexy nos empolgamos falando de um projeto de grafite.

Sua nem sequer levantou os olhos do livro.

— Estou lendo, Mizi. O barulho aqui estava ficando um pouco... repetitivo.

Mizi piscou, o sorriso vacilando por um segundo. Ela sentiu a pontada de gelo na voz de Sua, o mesmo gelo que ela pensou ter começado a derreter.

— Ah... entendi. A poesia é mais importante, né? — Mizi tentou brincar, mas Lexy a puxou pela mão.

— Mizi, vem ver essa foto que eu achei! — Lexy chamou, e a atenção de Mizi foi desviada novamente, como uma bússola atraída por um ímã mais forte.

— Já vou! — Mizi respondeu, e o momento de conexão com Sua evaporou antes mesmo de se formar.

Ivan, vendo a cena, levantou-se e colocou a mochila nas costas.

— Chega de música por hoje. Luka, te mando os arquivos de áudio à noite. Till, seu pedal de distorção precisa de limpeza, eu levo e te entrego amanhã.

— Valeu, Ivan — disse Till, parecendo genuinamente impressionado com a presteza do garoto de gelo.

Ivan caminhou até Sua e estendeu a mão.

— Vamos. Tenho doces em casa e não aguento mais o cheiro de morango sintético.

Sua fechou o livro com força. Ela se levantou, a postura impecável e fria. Ela passou por Mizi e Lexy sem olhar para os lados, como se fossem apenas estátuas em um museu que ela já tinha visitado e não tinha interesse em ver de novo.

— Tchau, pessoal — disse Sua, a voz plana e sem emoção.

— Já vai, Sua? — Hyuna perguntou, levantando-se. — A gente ia pedir pizza!

— Tenho coisas para fazer — Sua respondeu de forma curta.

Mizi parou de falar com Lexy por um momento, observando os irmãos Baek caminharem em direção à saída. Ela sentiu um aperto estranho no peito, uma sensação de que tinha deixado algo importante escapar por entre os dedos, mas Lexy tocou seu ombro e a sensação foi arquivada.

— Ela é meio estranha, né? — comentou Lexy, olhando para a porta por onde Sua acabara de sair.

— Ela é... complicada — respondeu Mizi, mas o brilho em seus olhos estava um pouco mais opaco. — Mas o gelo dela é bonito.

— Gelo sempre derrete e vira nada, Mizi — Lexy disse com simplicidade. — Pintura é permanente.

Mizi forçou um sorriso e voltou a focar na amiga, mas sua mente, pela primeira vez naquela tarde, divagou para o sofá vazio no fundo da garagem.

Do lado de fora, o ar da noite estava fresco. Ivan e Sua caminhavam em silêncio pela calçada, as sombras se alongando sob os postes de luz.

— Você está bem? — Ivan perguntou depois de alguns minutos.

Sua apertou o livro contra o peito, o mesmo gesto defensivo que usava no primeiro dia.

— Eu estou bem, Ivan. Só me lembrei de por que eu prefiro a biblioteca. Livros não mudam de ideia sobre você quando algo mais brilhante aparece.

Ivan suspirou, colocando as mãos nos bolsos.

— Ela vai tentar falar com você amanhã. Você sabe disso, não sabe? Ela é como um vírus. Não desiste fácil.

Sua parou de caminhar e olhou para o céu escuro.

— Pois ela vai descobrir que eu sou imune. Eu não sou um projeto de arte da Lexy e não sou o mistério da semana da Mizi.

— Certo — Ivan assentiu, embora soubesse que a irmã estava mentindo para si mesma. — Mas se você quiser que eu apague o número dela do seu celular enquanto você dorme, é só pedir.

Sua soltou uma risadinha curta e sem humor.

— Não precisa. Eu mesma posso fazer isso.

Mas, ao chegarem em casa, Sua não apagou o número. Ela apenas guardou o celular em uma gaveta e abriu seu livro de poesias, procurando por um poema sobre o inverno. O gelo, ela decidiu, era muito mais seguro do que o calor que prometia e não cumpria.

Naquela noite, na garagem de Hyuna, Mizi ria com Lexy, mas de vez em quando seus olhos buscavam o canto escuro do sofá, onde o cheiro de um livro velho parecia ter ficado impregnado no ar, desafiando o perfume de morango que ela tanto amava. O estalo que ela ouvira na biblioteca agora parecia o som de algo se quebrando, e Mizi, pela primeira vez, não tinha certeza se sabia como consertar.