Descendentes
O Peso da Coroa e o Brilho da Loucura
O sol de Auradon começava a declinar, pintando o céu com tons de lavanda e dourado que pareciam ter saído diretamente de um dos livros de contos de fadas da biblioteca real. Mas para Max Hatter, a estética do entardecer era apenas um detalhe irrelevante diante da irritação latente que pulsava sob sua pele. Ele caminhava ao lado de Luis, cujos passos eram pesados e rítmicos, um contraste absoluto com a agilidade quase felina de Max.
O braço de Luis ainda rodeava os ombros de Max, um peso reconfortante que servia como uma âncora para a mente hiperativa do filho do Chapeleiro. Luis sentia a tensão no corpo do namorado. Ele conhecia cada nuance de Max: o jeito como ele apertava a aba do chapéu quando estava ansioso, ou como o sarcasmo se tornava mais afiado e rápido quando ele se sentia ameaçado.
— Você está pensando demais, Max — comentou Luis, sua voz ressoando como um violoncelo bem afinado. — Consigo ouvir as engrenagens da sua cabeça girando daqui.
Max soltou um suspiro teatral, ajustando a gravata borboleta que já estava perfeitamente alinhada.
— É um esforço necessário, Amore. Alguém precisa processar a realidade, já que você prefere flutuar por ela como um balão de hélio excessivamente musculoso e gentil.
Luis riu, parando no meio do caminho e forçando Max a virar-se para ele. O tamanho de Luis era, por vezes, intimidante para os outros, mas para Max, era apenas o seu lugar seguro. O Madrigal olhou nos olhos vibrantes do namorado, vendo além da máscara de confiança absoluta.
— Eu sei o que a Red estava tentando fazer — disse Luis, a expressão tornando-se mais séria, embora ainda doce. — Eu não sou cego, Max. E certamente não sou burro. Eu sei que ela estava procurando uma brecha.
Max arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços sobre o peito.
— Ah, então o gigante gentil tem percepção social? Que novidade refrescante. E por que, exatamente, você deixou que ela tocasse no seu braço como se fosse um corrimão público?
Luis suspirou, passando a mão pelos cabelos escuros.
— Porque minha mãe me ensinou a ser educado, não um ogro. E porque, até aquele momento, ela estava apenas pedindo ajuda com os treinos. Mas no segundo em que ela tentou cruzar a linha, você apareceu. Como sempre.
— Eu sou pontual — rebateu Max, estreitando os olhos. — É uma das minhas poucas virtudes que não envolvem caos ou chá.
— Você é protetor, Max. E eu amo isso — Luis deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. — Mas você não precisa carregar o mundo nas costas. Eu sei dizer "não". Eu já disse muitos "nãos" hoje. Favores para o Ben, ajudar o Chad com a carga de equipamentos, orientar os calouros... Eu estou cansado, Amore. A única coisa que eu quero agora é o seu silêncio barulhento.
Max sentiu uma pontada de culpa, algo raro para ele. Ele sabia que Luis herdara o "complexo de ajuda" da família Madrigal. Luisa, sua sogra, passara a vida carregando o peso literal e figurativo da vila de Encanto, e Luis seguia o mesmo caminho em Auradon. Ele era o porto seguro de todo mundo, o cara que nunca dizia não. Mas Max era o único que percebia quando os ombros de Luis começavam a ceder, mesmo que ninguém mais notasse.
— Você está sendo explorado de novo — diagnosticou Max, a voz suavizando-se. — Auradon Prep é um ninho de parasitas fantasiados de realeza. Eles veem um Madrigal e pensam "ah, lá vem o meu carregador particular".
— Talvez — admitiu Luis, sorrindo de lado. — Mas eu já encerrei meu expediente por hoje. O que acha de irmos para o meu dormitório? Podemos terminar aquele jogo de xadrez que você jurou que ganharia em dez movimentos.
— Eu vou ganhar em oito agora, só para te punir pela sua benevolência excessiva — Max estendeu a mão, e Luis a segurou com firmeza, os dedos grandes entrelaçando-se perfeitamente com os dele.
Enquanto caminhavam em direção aos dormitórios, passaram por um grupo de estudantes, entre eles Hazel Gancho e Felix Facilier. Hazel, com seu estilo pirata-chique, acenou com o gancho cromado, enquanto Felix apenas deu um sorriso enviesado, baralhando suas cartas com uma rapidez hipnótica.
— Controle seu pet, Hatter! — gritou Hazel, rindo. — Ouvi dizer que a Princesinha de Copas está de olho no território alheio.
Max nem parou de caminhar, mas gritou de volta sem olhar para trás:
— Se ela tentar colocar a mão no meu território de novo, ela vai descobrir por que meu pai prefere guilhotinas a tesouras de costura!
Luis balançou a cabeça, mas não conseguiu esconder o sorriso. Ele adorava o fogo de Max. Era o que o mantinha aquecido nas noites frias de Auradon.
Ao chegarem ao quarto, Luis trancou a porta e soltou um suspiro de alívio que parecia ter sido guardado o dia inteiro. Ele jogou a bolsa de treino em um canto e sentou-se na cama, que rangeu sob seu peso. Max, por sua vez, começou a circular pelo quarto, organizando as coisas de Luis que estavam fora do lugar — uma mania que ele desenvolvera para canalizar sua energia nervosa.
— Max — chamou Luis suavemente.
O Chapeleiro parou de dobrar uma camiseta e olhou para ele.
— O que foi?
— Vem aqui.
Max hesitou por um segundo antes de caminhar até o namorado. Luis o puxou para entre suas pernas, envolvendo sua cintura com os braços fortes e encostando o rosto no peito de Max. O filho do Chapeleiro sentiu o coração de Luis batendo devagar e constante. Era o ritmo que acalmava sua própria alma tempestuosa.
— Você sabe que eu não vou a lugar nenhum, certo? — murmurou Luis contra o tecido do colete de Max. — Nem a Red, nem nenhuma princesa, nem ninguém em Auradon poderia me tirar de perto de você. Você levou três anos para me conquistar, mas eu levei apenas três segundos para saber que eu era seu.
Max relaxou, as mãos finalmente descansando nos ombros largos de Luis. A insegurança que ele tentava esconder sob camadas de sarcasmo e arrogância foi exposta pelo toque sincero do Madrigal. Na Ilha, tudo era temporário. Amizades, comida, segurança... tudo podia ser tirado de você em um piscar de olhos. Luis era a primeira coisa permanente na vida de Max, e a ideia de perdê-lo era o único medo real que ele possuía.
— Eu sei — respondeu Max, a voz baixa e sem o habitual tom de deboche. — É que... ela é o tipo de pessoa que acha que o mundo deve se curvar aos seus desejos. E você é o tipo de pessoa que se curva para ajudar os outros. É uma combinação perigosa, Luis.
Luis levantou a cabeça, olhando nos olhos de Max com uma intensidade que sempre o desarmava.
— Eu me curvo para você, Max. Para os outros, eu sou apenas uma parede de músculos. Para você, eu sou o que você precisar que eu seja.
Max sorriu, um sorriso verdadeiro que raramente mostrava a qualquer outra pessoa. Ele se inclinou e beijou a ponta do nariz de Luis.
— Você é um Golden Retriever gigante e bobo.
— E você é um gato de Cheshire com problemas de confiança — rebateu Luis, puxando Max para um beijo de verdade.
O beijo começou lento, um reconhecimento mútuo de afeto e posse, mas logo se tornou mais profundo. Luis puxou Max para cima de seu colo, e o menor sentiu a força familiar daqueles braços o prendendo. Era ali que Max gostava de estar: cercado pelo poder de Luis, sabendo que aquele poder era usado apenas para protegê-lo e amá-lo.
Momentos depois, eles estavam deitados na cama, Max com a cabeça apoiada no peito de Luis, enquanto o Madrigal acariciava seus cabelos bagunçados. O tabuleiro de xadrez permanecia intocado na mesa lateral.
— Ela não vai desistir — disse Max, quebrando o silêncio. — Eu vi os olhos dela. Red herdou a teimosia da mãe. Ela acha que você é um desafio a ser vencido.
— Deixe que ela ache — Luis respondeu, fechando os olhos. — Ela vai descobrir que bater contra um Madrigal é como bater contra uma montanha. E se ela tentar escalar a montanha, vai encontrar um Chapeleiro Maluco no topo pronto para empurrá-la lá de baixo.
Max soltou uma risadinha satisfeita.
— Gostei da metáfora. Muito poético para alguém que passa o dia levantando pedregulhos.
— Eu aprendo com o melhor — Luis deu um beijo no topo da cabeça de Max. — Agora, por favor, podemos apenas ficar assim? Sem falar de princesas, de treinos ou de Auradon?
Max se aninhou mais perto, fechando os olhos e deixando que o calor de Luis o envolvesse.
— Tudo bem, Amore. Por hoje, o mundo pode esperar lá fora.
Mas, enquanto Max caía no sono, uma pequena parte de sua mente — aquela parte que nunca parava de calcular e planejar — já estava arquitetando exatamente o que faria se Red decidisse aparecer no café da manhã no dia seguinte. Ele era Max Hatter, afinal. E ninguém, absolutamente ninguém, tocava no seu tesouro sem pagar um preço muito alto.
Amanhã seria um novo dia de jogos em Auradon Prep. E Max já tinha todas as cartas na manga, incluindo o Ás de Copas, que ele pretendia rasgar se fosse necessário.