Voltar ao resumo

Descendentes

O Peso de um Madrigal e o Limite da Paciência

As olheiras sob os olhos de Luis Madrigal eram tão profundas que ele sentia que poderia guardar moedas nelas. Fazia exatamente duas semanas que Auradon Prep havia se tornado uma extensão caótica de Encanto, e o jovem sentia que sua sanidade estava se esvaindo como areia por entre os dedos. A estratégia da família Madrigal fora brilhante e cruel: para evitar que Luis voltasse a se meter em aventuras perigosas ou missões temporais suicidas, eles o cercaram. Dezessete vezes.

Ele sabia que aquilo era uma punição. Luísa, sua mãe, podia ser a mulher mais forte do mundo, mas o medo de perder o filho para o desconhecido a transformara em uma estrategista implacável. Ao enviar todos os irmãos e primos sob a tutela de Luis, a família garantiu que ele não tivesse tempo nem para respirar, quanto mais para salvar reinos. Se o objetivo era fazê-lo se arrepender de ter ido ao País das Maravilhas, eles haviam conseguido. Luis sentia um amargor crescente no peito; o respeito que ele sempre cultivou pela estrutura familiar estava sendo corroído pela exaustão. Ele não dormia mais do que quatro horas por noite, alternando entre consolar pesadelos mágicos, resolver brigas de dons e tentar manter suas próprias notas.

Naquela tarde, o sol de Auradon parecia excessivamente brilhante, quase ofensivo. Luis encontrou um raro momento de silêncio no pátio leste da escola. As mesas de pedra estavam frias, um contraste bem-vindo com o calor de seu corpo febril de cansaço. Ele se sentou e, sem cerimônia, deixou a cabeça cair sobre os braços cruzados na mesa. O mundo parou de girar por alguns segundos.

Ele só suportava Pink e Robie. Os dois eram os únicos que não exigiam nada dele, que não vinham com dramas de contos de fadas ou segundas intenções. Pink trazia chá em silêncio; Robie apenas sentava ao lado dele e garantia que nenhum primo o encontrasse por vinte minutos. O resto de Auradon? Para Luis, eram apenas ruídos brancos e irritantes. Ele via Red e Chloe de longe, notando a tensão estranha entre elas e como Hazel circulava o "triângulo" como um abutre, mas ele se recusava a se importar. Ele tinha problemas reais, problemas que pesavam toneladas.

O silêncio, porém, durou pouco.

O som de passos saltitantes e conversas paralelas começou a se aproximar. Luis apertou os olhos contra os braços, rezando para que passassem direto.

— Olha só quem encontramos, o belo adormecido da Colômbia! — A voz de Max Hatter era como uma agulha perfurando o tímpano de Luis.

— Ele parece acabado — comentou Hazel, o tom carregado daquela arrogância que Luis passara a desprezar. — Talvez a "perfeição" esteja começando a rachar.

— Luis? — A voz de Chloe era suave, mas para o Madrigal, soava como um alarme de incêndio. — Nós queríamos falar com você sobre o que aconteceu ontem no treino de esgrima com a Red...

Luis não se mexeu. Ele sentiu a presença deles ao redor da mesa. Red estava lá também, silenciosa, provavelmente observando-o com aquele olhar de quem sabe demais. Max, sempre invasivo, inclinou-se sobre a mesa, o cheiro de chá de camomila e loucura emanando de suas roupas.

— Luis, querido, eu trouxe algo que vai animar você! — Max insistiu, tocando levemente no ombro de Luis. — É um novo blend de...

Foi o estopim. A represa que segurava semanas de privação de sono, raiva contida contra a família e irritação com a prepotência dos filhos dos vilões simplesmente explodiu.

Luis se levantou com uma rapidez que assustou o grupo. O movimento foi tão brusco que a mesa de pedra rangeu. Seus olhos, normalmente gentis e acolhedores, estavam injetados de sangue e faiscavam com uma fúria fria.

— Chega — rosnou Luis. A voz saiu baixa, mas carregada de uma ameaça física que fez Red recuar um passo instintivo.

— Calma, Madrigal, a gente só... — Felix tentou intervir, dando um passo à frente com as mãos nos bolsos, um sorriso de lado.

Luis não esperou. Antes que Felix pudesse terminar a frase, o braço de Luis se moveu em um borrão. Um tapa seco e estrondoso atingiu o rosto de Felix, desferido com a força de quem herdara o vigor de Luísa Madrigal. O impacto jogou o filho do Dr. Facilier no chão de pedra com um baque surdo.

Hazel arregalou os olhos e avançou, a mão indo em direção ao seu gancho decorativo.

— Você ficou louco?! — gritou ela.

Luis apenas a empurrou. Não foi um empurrão comum; foi um golpe de ombro que a mandou cambaleando para trás por três metros, até ela colidir com um pilar, perdendo o fôlego.

Red e Chloe ficaram paralisadas. O Luis que elas conheciam — o garoto solícito que ajudara a salvar rainhas — havia desaparecido. No lugar dele, havia um homem levado ao seu limite absoluto.

Max, no entanto, ainda estava ali, chocado demais para se mover. Luis virou-se para ele. A diferença de altura era notável, mas a diferença de presença era esmagadora. Luis agarrou a gola do casaco colorido de Max com uma única mão e o ergueu do chão. Os pés do filho do Chapeleiro balançaram no ar, e ele soltou um ganido de surpresa.

— Escuta aqui, seu palhaço irritante — disse Luis, aproximando o rosto do de Max. Sua respiração estava pesada. — Você acha que isso é um jogo? Você acha que eu tenho tempo para as suas excentricidades e para os seus chazinhos de merda?

— Luis... você está me machucando — sussurrou Max, o rosto ficando pálido enquanto a força do aperto de Luis apertava sua garganta.

— Eu não aguento mais ver a cara de nenhum de vocês — continuou Luis, ignorando o apelo. — Eu tenho dezessete Madrigais que a minha família me forçou a babar porque acham que eu sou um irresponsável. Eu não durmo. Eu não como em paz. E toda vez que eu tento fechar os olhos, você aparece com essa alegria forçada e esses dois — ele apontou com a cabeça para Felix no chão e Hazel se recuperando — aparecem com essa aura de vilões de segunda categoria que se acham donos da escola.

Ele chacoalhou Max uma vez, fazendo o chapéu do garoto cair no chão.

— Se você quer me dar um presente, Max, se você realmente quer fazer algo por mim, faça o favor de sumir da minha frente. Fique longe de mim. Não fale comigo, não olhe para mim e, pelo amor de tudo o que é sagrado, pare de me seguir como um cachorrinho carente. Você me dá náuseas.

Luis soltou a gola de Max sem qualquer delicadeza. O garoto caiu de joelhos ao lado de seu chapéu, tossindo e levando a mão ao pescoço.

— Luis, isso foi longe demais! — exclamou Chloe, a voz trêmula de indignação e medo. — Eles são seus amigos!

Luis virou o rosto para ela, e Chloe sentiu um calafrio. Não havia reconhecimento naqueles olhos.

— Amigos? — Luis soltou uma risada seca e sem humor. — Eu não tenho amigos aqui, Chloe. Eu tenho aliados de conveniência que agora se tornaram fardos. Você e a Red que resolvam a bagunça emocional de vocês. Hazel que continue tentando ser a vilã que ela nunca vai ser de verdade. E vocês três... — ele olhou para Max, Felix e Hazel — fiquem fora do meu caminho. Eu não sou o garoto gentil de Encanto hoje. Eu sou apenas alguém que está a um segundo de quebrar algo que vocês não vão conseguir consertar.

Sem dizer mais uma palavra, Luis Madrigal deu as costas ao grupo. Ele caminhou com passos pesados em direção ao prédio principal, deixando para trás um silêncio sepulcral, quebrado apenas pelos sons de Felix se levantando e limpando o sangue do canto da boca.

Max Hatter continuou no chão, a mão estendida para o chapéu caído, mas ele não o pegou. Seus olhos estavam fixos no chão, e uma lágrima solitária traçou um caminho pálido em seu rosto. Ele sempre soube que era demais para as pessoas, que sua energia era cansativa, mas ouvir de Luis — a pessoa que ele genuinamente admirava, a pessoa que ele achava que via algo além da loucura — que ele causava náuseas... aquilo foi um corte mais profundo do que qualquer espada no País das Maravilhas poderia infligir.

Hazel aproximou-se, a mão no estômago onde Luis a atingira, a expressão de choque ainda presente.

— Ele... ele realmente nos odeia — murmurou ela, a voz desprovida de sua habitual ironia.

Felix cuspiu um pouco de sangue no gramado, olhando para a direção onde Luis sumira.

— Ele não nos odeia — disse Felix, embora sua voz estivesse rouca. — Ele está quebrado. Mas isso não muda o fato de que ele acabou de declarar guerra contra a gente.

Red, que permanecera em silêncio durante todo o confronto, aproximou-se de Max e colocou a mão em seu ombro. Ela viu o tremor nas mãos do amigo.

— Vamos sair daqui, Max — disse ela suavemente.

Max não respondeu. Ele apenas pegou seu chapéu, limpou a poeira com um gesto mecânico e se levantou. O brilho maníaco que sempre habitava seus olhos estava apagado, substituído por um vazio cinzento.

Luis Madrigal entrou no dormitório sem olhar para trás, a mão tremendo de adrenalina e remorso oculto. Ele sabia que tinha passado do ponto. Ele sabia que Max não merecia toda aquela carga, nem Felix aquele tapa. Mas, naquele momento, a sensação de ter afastado o mundo parecia a única forma de não ser esmagado por ele.

Ele se trancou no quarto, ignorando os gritos de dois de seus primos que brincavam no corredor, e desabou na cama. O silêncio que ele tanto buscava finalmente viera, mas tinha o gosto amargo de uma solidão que ele mesmo construíra. E, enquanto fechava os olhos, a última imagem que viu não foi a de sua mãe ou de Casita, mas a expressão de Max Hatter sendo erguido pela gola — um olhar de completa e absoluta desilusão.

Luis dormiu, mas, pela primeira vez, o descanso não trouxe paz.