Descendentes
O Silêncio após a Tempestade
A luz da manhã de Auradon entrou pela janela do dormitório de Luis como uma intrusa indesejada. Ele não precisava de um relógio para saber que já passava das oito; o burburinho abafado de dezessete vozes Madrigal no corredor, contidas apenas por uma barreira mágica que ele mesmo instalara na porta na noite anterior, era o seu despertador particular.
Luis sentou-se na beira da cama, sentindo cada músculo do corpo protestar. A explosão do dia anterior ainda ecoava em seus ouvidos. Ele conseguia sentir o impacto do tapa em Felix, o peso de Max em sua mão, a expressão de terror de Chloe. O remorso tentou rastejar para dentro de seu peito, mas Luis o empurrou para baixo com a mesma força que usava para carregar os fardos da família. Ele não tinha espaço para a culpa. A culpa era um luxo para quem tinha tempo de sentir.
Pela primeira vez em anos de um histórico acadêmico impecável, Luis decidiu que não iria às aulas. Ele não suportaria os olhares de julgamento, os sussurros nos corredores ou, pior ainda, a visão de Max Hatter tentando fingir que nada tinha acontecido.
Ele se vestiu mecanicamente, pegou suas bandagens de treino e saiu pela janela dos fundos, evitando o corredor principal onde seus primos provavelmente o esperavam com uma lista interminável de problemas triviais.
O destino era um antigo ginásio de treinamento nos limites da propriedade da escola, um lugar que a maioria dos estudantes evitava por ser "rústico demais". Para Luis, era o paraíso. O cheiro de mofo, couro velho e suor era muito mais honesto do que o perfume de rosas e magia que impregnava o resto de Auradon.
Lá, ele encontrou o que precisava: um saco de pancadas pesado, pendurado por correntes enferrujadas que rangiam em protesto ao serem tocadas. Luis colocou os fones de ouvido, aumentou o volume de uma música latina frenética até que seus tímpanos vibrassem e começou a bater.
— Um por mim — murmurou ele entre dentes, desferindo um soco de direita que fez o saco oscilar violentamente. — Um pela minha mãe. Um pela Abuela.
Os golpes eram rítmicos, precisos e brutais. A cada impacto, Luis tentava expulsar a imagem de Max Hatter. Por que aquele garoto tinha que ser tão insistente? Por que ele não conseguia entender que nem todo mundo em Auradon vivia em um conto de fadas onde todos se tornavam melhores amigos após uma aventura?
Luis lembrava-se de como era sua vida apenas dois meses atrás. Ele era o Madrigal "perfeito" em Auradon Prep. Ele tinha notas altas, jogava no time de esgrima, era respeitado pelos professores e, acima de tudo, era livre. Ele amava Encanto, mas em Auradon ele podia ser apenas Luis, não o "filho da Luísa" ou o "sucessor do legado".
Agora, ele era uma babá glorificada. Ele sentia que sua identidade estava sendo sufocada pelo peso de dezessete crianças e adolescentes que não pediram para estar ali, mas que eram usados como âncoras para mantê-lo sob controle. A desconfiança de sua família doía mais do que qualquer soco. Eles não viam que ele ajudou a salvar o reino; eles viam apenas que ele colocou o "dom Madrigal" em risco.
— Eles não entendem — rosnou Luis, desferindo uma sequência de golpes que fez o saco de pancadas quase atingir o teto. — Ninguém entende.
As horas passaram. O suor encharcava sua camisa, grudando em suas costas, e seus nós dos dedos começaram a arder através das bandagens. O cansaço físico era um alívio. Era uma dor que ele podia controlar, uma dor que fazia sentido.
O ginásio estava vazio até que o som de passos leves quebrou sua concentração. Luis não parou de bater, esperando que quem quer que fosse fosse embora.
— Você vai acabar estourando esse saco, e o Diretor Beast não vai ficar feliz em pagar por outro — disse uma voz calma e familiar.
Luis parou, o peito subindo e descendo com força enquanto ele apoiava a testa no couro suado do saco de pancadas. Ele tirou os fones e olhou por cima do ombro. Robie estava parado na entrada, com duas garrafas de isotônico na mão.
— Eu não estou nem aí para o Diretor Beast — respondeu Luis, a voz rouca.
Robie caminhou até ele e jogou uma das garrafas. Luis a pegou no ar com um reflexo puramente instintivo.
— Todo mundo está falando sobre o que aconteceu ontem — disse Robie, encostando-se em um dos aparelhos de musculação. — Felix está com um hematoma que nem a magia das sombras dele consegue esconder. Hazel está furiosa, dizendo que vai te dar o troco. E o Max...
— Eu não quero saber do Max — interrompeu Luis, abrindo a garrafa e bebendo metade do conteúdo de uma vez.
Robie suspirou, observando o amigo.
— Ele não apareceu para o chá hoje, Luis. O Max faltar ao chá é como o sol esquecer de nascer. Ele está trancado no quarto dele. A Red tentou levar uns biscoitos, mas ele não abriu a porta.
Luis sentiu uma pontada de algo que se recusava a chamar de arrependimento. Ele apertou a garrafa de plástico com força.
— Ele precisava ouvir a verdade, Robie. Ele vive em um mundo de fantasia. Ele acha que pode me seguir para todo lado, me tocar, invadir meu espaço... Eu estou no meu limite. Eu tenho dezessete pessoas para cuidar! Eu não consigo nem estudar para a prova de História da Magia porque a Maria decidiu que o dom dela de fazer flores crescerem é perfeito para decorar o meu teto às três da manhã!
— Eu sei, cara — disse Robie suavemente. — Eu vejo o que estão fazendo com você. É injusto. Mas o Max não tem culpa das decisões da sua mãe. Ele só... ele realmente gosta de você, Luis. Do jeito dele, meio maluco e intenso, mas ele gosta.
Luis soltou uma risada amarga e voltou-se para o saco de pancadas, dando um soco fraco, apenas para manter o movimento.
— Gostar de mim é um problema dele, não meu. Eu não pedi por isso. Eu não pedi por nada disso. Eu só queria paz. E olha só — ele gesticulou para o ginásio vazio —, eu consegui. Ninguém veio me incomodar hoje. Ninguém me pediu para carregar um piano ou resolver uma briga de primos.
— A que custo, Luis? — perguntou Robie. — Você é o cara mais gentil que eu conheço. Ou pelo menos era. Esse Luis que bate em amigos e empurra garotas... esse não é você. É o Luis que a sua família criou ao te sobrecarregar.
— Talvez — Luis deu de ombros, a frieza voltando ao seu olhar. — Mas esse Luis é o único que consegue sobreviver ao dia de hoje. Se eu for o "Luis gentil", eu desabo. Eu não posso desabar, Robie. Se eu cair, dezessete Madrigais caem comigo.
Robie guardou silêncio por um momento. Ele conhecia Luis bem o suficiente para saber quando não adiantava discutir.
— Pink mandou dizer que, se você precisar de um lugar para dormir onde ninguém vá fazer flores crescerem no seu nariz, o sofá do nosso dormitório está vago.
— Obrigado, Robie. De verdade.
— Só... pensa no que você fez, Luis. Especialmente com o Max. Ele é frágil, por mais que tente esconder atrás daquela cartola.
Robie saiu, deixando Luis sozinho novamente com seus pensamentos e o saco de pancadas.
Luis tentou retomar o treino, mas a música já não parecia tão alta e os golpes já não traziam o mesmo alívio. Ele se sentou no chão, as costas apoiadas na parede fria, e olhou para as próprias mãos enfaixadas. Elas eram mãos feitas para ajudar, para construir, para abraçar. Mas ontem, elas tinham sido armas.
Ele pensou no que tinha dito a Max. *Você me dá náuseas.*
As palavras pareceram flutuar no ar do ginásio, pesadas e cruéis. Luis fechou os olhos. Ele não se arrependia de ter pedido distância, mas a forma como fizera... ele sabia que tinha sido um monstro. Mas o que ele poderia fazer? Pedir desculpas? Voltar a ser o alvo das atenções indesejadas de Max enquanto tentava não enlouquecer com a própria família?
— Eu não posso — sussurrou ele para a escuridão do ginásio. — Eu simplesmente não tenho nada sobrando para dar a ninguém.
Ele passou o resto da tarde ali, no isolamento que ele mesmo impusera. Pela primeira vez em semanas, ele não ouviu ninguém chamando seu nome. Ninguém pediu sua força física. Ninguém exigiu sua atenção.
Era a paz que ele tanto desejava.
Mas, enquanto o sol se punha e as sombras se alongavam pelo ginásio, Luis percebeu que a paz absoluta tinha um cheiro muito parecido com o de um ginásio abandonado: frio, solitário e amargo.
Ele se levantou, desfazendo as bandagens dos nós dos dedos. Quando terminou, viu que suas mãos estavam manchadas de sangue onde a pele havia rompido. Ele olhou para o sangue e, por um breve segundo, sentiu uma vontade avassaladora de chorar. Não por Felix, não por Hazel, e nem mesmo por Max.
Ele queria chorar por si mesmo. Pelo garoto que amava sua família, mas que agora sentia que eles eram sua prisão. Pelo garoto que queria ser amado, mas que não sabia como aceitar afeto sem sentir que era mais uma obrigação em sua lista.
Ele saiu do ginásio e caminhou lentamente de volta para o prédio principal. No caminho, ele cruzou com Chloe e Red. Elas pararam e o observaram passar. Chloe parecia querer dizer algo, seus olhos brilhando com uma mistura de mágoa e preocupação, mas Red a segurou pelo braço, balançando a cabeça negativamente.
Luis não parou. Ele manteve o olhar fixo à frente, a expressão de pedra inabalável.
Ao passar pela frente do dormitório dos filhos dos vilões, ele hesitou por um milésimo de segundo. Ele olhou para a janela do quarto de Max. Estava escura. Não havia luzes coloridas, não havia fumaça de chá, não havia música excêntrica.
Era apenas um quarto escuro em uma escola cheia de luz.
Luis apertou o passo. Ele precisava chegar ao seu quarto, colocar seus primos para dormir, garantir que todos estivessem seguros e, talvez, se tivesse sorte, dormir três horas antes que o ciclo recomeçasse.
Ele tinha conseguido sua paz. Ele tinha afastado todos. Ele era, finalmente, o único Madrigal no topo de sua montanha de responsabilidades.
E enquanto ele entrava no seu dormitório e ouvia o grito imediato de um de seus primos — "Luis! O Juanito quebrou o lustre!" —, ele percebeu que o silêncio do ginásio era preferível ao caos, mas o peso no seu peito dizia que, em algum lugar entre a raiva e a exaustão, ele tinha perdido algo que não sabia se conseguiria recuperar.
Ele não se importava, ou pelo menos tentava se convencer disso enquanto pegava a vassoura para limpar os cacos de vidro. Afinal, ele era um Madrigal. E Madrigais não quebram. Eles apenas carregam o peso, até que não reste mais nada deles mesmos.
Luis olhou para o espelho do corredor e viu um estranho refletido. Um estranho com olhos cansados e punhos feridos.
— Amanhã será igual — murmurou ele para o reflexo.
Mas, no fundo, ele sabia que nada seria igual depois daquela explosão. O País das Maravilhas tinha ido embora, e ele tinha garantido que o Chapeleiro também fosse. O preço da paz era a solidão, e Luis Madrigal estava começando a descobrir que era um preço caro demais, mesmo para alguém com a sua força.