Descendentes
O Silêncio de um Coração de Pedra
A poeira mágica de Auradon Prep sempre pareceu brilhar com uma promessa de recomeço, mas para Max Hatter, ela agora tinha o gosto de cinzas e chá frio. O filho do Chapeleiro Maluco, conhecido por suas cores berrantes, suas frases sem nexo e seu otimismo quase irritante, estava transformado. Ele não flutuava mais a alguns centímetros do chão; seus pés pareciam colados ao piso de madeira do dormitório, pesados como se estivessem calçados com chumbo.
Max olhou para o espelho. O reflexo não mostrava o jovem vibrante de dias atrás. Sua cartola estava jogada em um canto, amassada, e seus olhos, antes cheios de uma loucura alegre, estavam opacos. As palavras de Luis Madrigal repetiam-se em sua mente como um disco riscado, perfurando sua alma a cada repetição: *“Você me dá náuseas.”*
— Eu sou um vilão, não sou? — sussurrou Max para o quarto vazio. — Vilões deveriam ser fortes. Deveriam rir da cara do perigo. Mas por que dói tanto?
Ele sempre soube que Luis era um desafio. Um Madrigal, com sua moral inabalável e seu senso de dever, era o oposto exato do caos que Max representava. Mas Max acreditava sinceramente que, sob aquela armadura de perfeição e músculos, havia alguém que entendia o que era ser diferente. Ele estava errado. Luis não via um amigo, nem mesmo um pretendente persistente; ele via um estorvo. Uma distração barulhenta em uma vida já sobrecarregada.
Enquanto isso, nos corredores de Auradon Prep, o clima mudara drasticamente. O "incidente no pátio" tornara-se a única coisa sobre a qual se falava. Mas, ao contrário do que Luis esperava, a escola não o aplaudiu por colocar os "filhos de vilões" em seus lugares. Pelo contrário.
Luis caminhava pelo refeitório, e o silêncio que o seguia era gélido. Ele se sentou em uma mesa isolada, esperando que Pink ou Robie se juntassem a ele. Mas quando Pink passou, ela nem sequer olhou em sua direção. Robie, seu amigo mais leal, parou por um momento, observou a expressão endurecida de Luis e apenas balançou a cabeça antes de seguir para a mesa onde Red, Chloe e uma Hazel ainda dolorida estavam sentadas.
— Nem você, Robie? — murmurou Luis, a voz carregada de um cansaço que transcendia o físico.
Luis percebeu que, ao explodir, ele não apenas afastou Max; ele rompeu o fio invisível que o ligava à humanidade daquela escola. Todos tinham tomado um lado. E o lado escolhido foi o do garoto que ele quase enforcou.
A paz que ele tanto almejava finalmente chegara, mas era uma paz de cemitério. Ninguém pedia sua ajuda. Ninguém trazia problemas. Mas o peso em seus ombros não diminuiu; ele apenas mudou de forma. Agora, ele carregava o peso de ser o vilão da história de todos, enquanto tentava desesperadamente não sucumbir ao papel de babá que sua família lhe impusera.
Naquela noite, Luis não conseguiu dormir as quatro horas habituais. Ele olhou para o teto do quarto, ouvindo o ronco de dois primos no beliche ao lado. A raiva contra sua mãe, contra a Abuela e contra cada Madrigal em Encanto fervia em suas veias. Eles o tinham quebrado. Eles enviaram dezessete lembretes vivos de que ele não era dono de sua própria vida.
— Vocês venceram — disse ele para a escuridão, as lágrimas de frustração finalmente vencendo as barreiras. — Vocês queriam o Luis de volta em Encanto? Vocês vão ter. Mas não o Luis que vocês conheciam.
Na manhã seguinte, Luis Madrigal não foi para o campo de treino. Ele não foi para a biblioteca. Ele caminhou com passos decididos até o escritório da Fada Madrinha.
A sala cheirava a lavanda e magia benevolente. A Fada Madrinha olhou para ele por cima dos óculos, sua expressão usualmente gentil agora tingida de uma profunda tristeza.
— Luis, meu querido... eu soube do que aconteceu.
— Eu quero ir embora, Diretora — disse Luis, sem rodeios. Sua voz estava desprovida de emoção, um tom monocórdico que assustou a fada.
— Ir embora? Mas você é um dos nossos melhores alunos! Sua família ficaria...
— Minha família conseguiu o que queria — interrompeu ele, as mãos fechadas em punhos ao lado do corpo. — Eles me enviaram dezessete pessoas para cuidar porque não confiam em mim. Eles transformaram minha educação em um castigo. Eu não consigo mais ser o que Auradon espera de mim, e certamente não consigo mais ser o que eles esperam.
— Você tem certeza disso? — perguntou ela, levantando-se e caminhando até ele. — O que aconteceu com o Max, com o Felix... foi um momento de fraqueza, Luis. O peso que você carrega é hercúleo. Podemos conversar com sua mãe, reduzir o número de familiares aqui...
— Não — Luis soltou uma risada amarga. — Se eu ficar, eu vou acabar machucando mais alguém. Ou vou acabar me perdendo completamente. Eu preciso sair daqui. Agora.
A Fada Madrinha suspirou, percebendo que não havia como dissuadi-lo. A luz nos olhos de Luis Madrigal tinha se apagado.
— Está bem, Luis. Vou preparar os documentos de transferência. Mas saiba que as portas de Auradon estarão sempre abertas se você decidir que o fardo em Encanto se tornou pesado demais para carregar sozinho.
Luis não respondeu. Ele apenas assentiu e saiu da sala.
Ele não contou a ninguém. Durante as horas seguintes, ele agiu como uma máquina. Ele reuniu todos os dezessete primos e irmãos no pátio de entrada.
— Arrumem suas coisas. Agora — ordenou ele.
— Mas Luis, temos aula de feitiçaria! — protestou Maria, a pequena produtora de flores.
— Eu disse agora — a voz de Luis chicoteou o ar, e a menina recuou, assustada.
Em menos de duas horas, o ônibus oficial de Auradon estava estacionado em frente aos portões. Malas eram carregadas, e os Madrigais menores subiam os degraus em um silêncio incomum, sentindo que o "Primo Luis" estava diferente. Ele não estava apenas cansado; ele parecia feito de pedra.
Luis estava parado ao lado da porta do ônibus, observando a fachada da escola pela última vez. Foi quando ele os viu.
Red, Chloe, Hazel e Felix estavam no topo da escadaria. Eles observavam a partida em silêncio. No fundo do grupo, quase escondido atrás de um pilar, estava Max. Ele usava sua cartola novamente, mas ela parecia grande demais para seu rosto pálido. Seus olhos encontraram os de Luis por um breve segundo.
Luis sentiu um aperto no peito, uma vontade súbita de gritar que sentia muito, que ele estava apenas exausto, que Max não lhe dava náuseas de verdade. Mas o orgulho e o trauma das últimas semanas falaram mais alto. Ele desviou o olhar.
— Luis! — Robie correu em direção ao ônibus, parando ofegante. — O que você está fazendo? A Fada Madrinha disse que você pediu transferência permanente! Você não pode simplesmente ir embora assim!
Luis olhou para o amigo, a única pessoa que realmente tentou ajudá-lo.
— Eu tenho que ir, Robie. Se eu ficar, eu vou destruir tudo o que resta de mim.
— E o Max? — Robie apontou para o topo da escada. — Você vai embora sem dizer nada depois do que fez?
— O que eu fiz foi libertá-lo de mim — respondeu Luis, subindo o primeiro degrau do ônibus. — Ele merece alguém que tenha espaço no coração para a loucura dele. Eu só tenho espaço para obrigações.
— Você está sendo um covarde, Madrigal! — gritou Felix lá do alto, sua voz ecoando pelo pátio. — Fugir não vai tirar o peso das suas costas!
Luis não olhou para trás. Ele sinalizou para o motorista e as portas se fecharam com um som pneumático definitivo.
A viagem de volta para Encanto foi a mais silenciosa da história da família. Luis não resolveu brigas, não contou histórias e não ajudou com as malas. Ele apenas olhou pela janela, vendo a paisagem de Auradon ser substituída pelas montanhas imponentes da Colômbia.
Quando o ônibus finalmente cruzou a fenda nas montanhas e a Casita apareceu no horizonte, o coração de Luis não se aqueceu. Ele sentiu apenas uma resignação fria.
A família inteira estava lá fora para recebê-los. Luísa estava na frente, com um sorriso de alívio que rapidamente morreu quando viu o rosto do filho descendo do ônibus.
— Luis! Que surpresa maravilhosa! A Fada Madrinha nos avisou que vocês estavam vindo, mas não explicou o motivo... — Luísa tentou abraçá-lo, mas Luis deu um passo atrás, evitando o contato.
Ele esperou que todos os primos e irmãos descessem e entrassem na casa, correndo para os braços de seus respectivos pais. Mirabel, Isabela, Julieta... todos estavam lá, celebrando o retorno da "tropa".
Quando o último primo entrou, Luis ficou sozinho diante de sua mãe e da Abuela Alma.
— Luis, por que essa cara? — perguntou a Abuela, franzindo a testa. — Você deveria estar orgulhoso. Você cuidou de todos, manteve a família unida em solo estrangeiro. Você honrou o seu dom.
Luis olhou para a mulher que comandava o destino dos Madrigal há décadas. Depois, olhou para sua mãe, que o observava com uma preocupação que agora ele via como sufocante.
— Eu honrei o dom? — a voz de Luis era um sussurro perigoso. — Eu perdi minha sanidade. Eu perdi meus únicos amigos. Eu agredi pessoas que se importavam comigo porque vocês decidiram que eu não era digno de ter uma vida própria. Vocês me usaram como uma ferramenta de contenção.
— Luis, nós só queríamos que você estivesse seguro... — Luísa começou, a voz trêmula.
— Mentira — cortou Luis. — Vocês queriam controle. Vocês ficaram com medo porque eu fui para o País das Maravilhas e percebi que o mundo é maior do que este vale. Vocês ficaram com medo de que eu não quisesse mais carregar as pontes que você carrega, mamãe.
Ele deu um passo à frente, entrando no pátio da Casita. A casa pareceu vibrar, as telhas batendo em um cumprimento que Luis ignorou solenemente.
— Eu estou de volta — anunciou ele, sua voz ecoando por toda a construção. — Vocês venceram. Eu vou ficar aqui. Vou carregar o que vocês mandarem. Vou ser o Madrigal perfeito que vocês tanto desejam.
Ele parou e olhou diretamente nos olhos de Luísa.
— Mas quero que saibam de uma coisa. No momento em que vocês me transformaram em uma babá para me punir por ter sido livre, vocês perderam o meu respeito. E vocês perderam a minha admiração. Eu estou aqui de corpo, mas não esperem encontrar o filho que vocês tinham. Aquele garoto ficou em Auradon, enterrado sob o peso de dezessete Madrigais.
O silêncio que caiu sobre a Casita foi absoluto. Até as flores de Isabela pareceram murchar diante da frieza nas palavras de Luis. Luísa levou a mão à boca, as lágrimas finalmente caindo. Ela tentou tocar o braço do filho, mas ele se esquivou novamente.
— Onde é o meu quarto? — perguntou ele. — Tenho certeza de que há algo pesado que precisa ser movido amanhã de manhã.
Luis caminhou para dentro da casa, sem olhar para as fotos da família nas paredes, sem sorrir para os primos que o chamavam. Ele subiu as escadas e trancou a porta.
Deitado em sua cama, no silêncio de Encanto, Luis fechou os olhos. Ele esperava sentir paz por estar em casa. Mas tudo o que ele conseguia ver era o rosto de Max Hatter, encolhido atrás de um pilar em Auradon.
Ele percebeu, com uma dor aguda, que em sua busca por se libertar do controle da família, ele acabara se tornando o carcereiro de seu próprio coração. Ele estava em casa, cercado por sua linhagem, mas nunca se sentira tão órfão.
Em Auradon, Max Hatter finalmente pegou sua cartola do chão e a colocou na cabeça. Ele olhou para o horizonte, onde o ônibus de Luis desaparecera.
— O chá esfriou, Luis — sussurrou Max, uma determinação sombria surgindo em seu rosto. — Mas eu sou um Chapeleiro. E nós sabemos que, às vezes, é preciso ficar um pouco mais louco para consertar o que a sanidade quebrou.
O capítulo de Auradon havia se fechado para Luis Madrigal, mas o livro de sua vida estava longe de terminar. Ele apenas não sabia que, em algum lugar entre as montanhas da Colômbia e os jardins de Auradon, a magia estava se preparando para cobrar o preço de sua partida.
Luis adormeceu ao som das telhas da Casita, que batiam tristemente, como se a própria casa estivesse chorando pelo garoto de ouro que voltara transformado em chumbo. Ele estava em Encanto, mas sua alma ainda vagava pelos corredores de uma escola onde ele fora, por um breve e terrível momento, verdadeiramente livre — e verdadeiramente amado, mesmo que ele fosse orgulhoso demais para admitir.