Descendentes 5
O Chá, a Coroa e o Golden Retriever de Músculos
A Ilha dos Perdidos era um lugar de privações, sombras e sobras, mas se havia algo que Max Hatter nunca sentiu falta, foi de companhia — ou de barulho. Sendo o primogênito do Chapeleiro Maluco, Max cresceu em uma casa onde o conceito de "espaço pessoal" era tão inexistente quanto a sanidade de seu pai em um dia de sol. Com quatro irmãos mais novos correndo pelas pernas, derrubando bules de chá e disputando o último pedaço de pão amanhecido, Max aprendeu cedo que a vida era um exercício constante de compartilhamento.
Ele dividia suas roupas, dividia seus livros de estratégia, dividia até mesmo seus segredos mais ácidos com aqueles que considerava dignos. Max era o epítome do carisma caótico: inteligente o suficiente para enganar um guarda de Auradon com apenas um baralho de cartas, sarcástico ao ponto de fazer Gaston se sentir um idiota, e charmoso o bastante para que as pessoas esquecessem que ele era, tecnicamente, um "vilão". Ele não era possessivo. Realmente não era. Se você precisasse da jaqueta dele, ele entregaria. Se precisasse de um plano para invadir o castelo, ele desenharia o mapa.
Mas havia uma exceção. Uma única, imensa e musculosa exceção.
— Max, você está encarando de novo. E suas pupilas estão dilatadas. Isso é sinal de amor ou de que você vai morder alguém? — A voz de um de seus irmãos ecoou ao fundo, mas Max nem se deu ao trabalho de desviar o olhar.
Sentado em uma mesa capenga do lado de fora do "Chá das Três", Max Hatter ajustava a aba de seu chapéu levemente torto, seus olhos fixos na figura que atravessava a praça da Ilha.
Luis Madrigal.
Se o termo "Golden Retriever gigante" pudesse ser personificado, seria Luis. O neto mais velho dos Madrigal era uma anomalia genética e temperamental. Ele herdara a força descomunal de sua mãe, Luisa, ostentando ombros tão largos que ele precisava entrar de lado em algumas portas da Ilha, e braços que pareciam ter sido esculpidos em carvalho sólido. No entanto, por trás de toda aquela massa muscular que intimidava qualquer valentão, havia a alma mais doce que já pisou naquelas ruas sujas.
Max sorriu, um brilho perigoso e adorável nos olhos. Ele levou anos para conquistar Luis. Anos de flertes sarcásticos, de chás compartilhados e de derrubar as barreiras de insegurança que o grandalhão carregava por se sentir "apenas um par de braços fortes". No fim, o intelecto afiado do Chapeleiro encontrou seu porto seguro na gentileza inabalável do Madrigal. Até mesmo o Chapeleiro Maluco, que geralmente não conseguia manter uma conversa linear por mais de trinta segundos, olhara para Luis, oferecera-lhe um chapéu de feltro verde e declarara: "Ele é sólido, Max. Gosto de pessoas que não saem voando com o vento".
— Ele é meu — murmurou Max para si mesmo, os dedos tamborilando na mesa.
— O que disse, irmãozinho? — perguntou o irmão, tentando pegar um biscoito.
Max bateu levemente na mão dele com uma colher de prata.
— Eu disse que o Luis está vindo para cá. E que se alguém respirar perto demais dele hoje, eu vou transformar a hora do chá em um julgamento da Rainha de Copas.
Luis se aproximou, o sol pálido da Ilha refletindo em sua pele bronzeada. Ele usava uma regata simples que lutava para conter seus músculos, e um sorriso radiante surgiu em seu rosto assim que viu Max.
— Ei, Maxie! — A voz de Luis era profunda, mas carregava uma suavidade que sempre desarmava o Hatter.
Max se levantou, a agilidade de um gato, e em um segundo estava colado ao peito de Luis. O contraste era quase cômico: Max, esguio, elegante e de estatura média, desaparecia quase completamente quando Luis o envolvia em seus braços.
— Você demorou três minutos a mais do que o esperado — disse Max, fingindo irritação enquanto enterrava o rosto no pescoço do namorado, inalando o cheiro de canela e suor limpo. — Eu estava quase declarando guerra a algum reino vizinho por puro tédio.
Luis soltou uma risada baixa, um som que vibrou no peito onde Max estava encostado. Ele apertou o namorado com força, tirando os pés de Max do chão por um momento, como se ele fosse uma boneca de pano.
— Sinto muito, querido. Minha avó precisava de ajuda com umas vigas no porão. Você sabe como é.
— Eu sei, eu sei. Você é útil demais para o seu próprio bem — Max se afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos castanhos e gentis de Luis. — Mas agora você é meu. Pelas próximas duas horas, o mundo pode desabar, e você não vai levantar um dedo para segurá-lo.
— Prometo — disse Luis, inclinando-se para dar um beijo casto na testa de Max.
Tudo estava perfeito. O caos da Ilha era apenas ruído de fundo. Até que o ruído ganhou uma voz estridente, carregada de uma arrogância que Max reconheceria em qualquer lugar.
— Ora, ora... Se não é o Madrigal mais interessante da árvore genealógica.
Max sentiu seus pelos da nuca se arrepiarem. Ele não precisou se virar para saber quem era. Red, a filha da Rainha de Copas, caminhava em direção a eles com aquela pose de quem era dona do asfalto rachado da Ilha. Ela exalava o tipo de privilégio que só alguém criado sob a sombra de uma coroa absoluta possuía.
— Red — Max disse o nome dela como se estivesse provando leite azedo. — O que traz a realeza para o lado plebeu da rua? O estoque de corações para cortar acabou?
Red ignorou Max completamente, seus olhos vermelhos e brilhantes fixos na estrutura imponente de Luis. Ela parou a poucos centímetros dele, inclinando a cabeça de um jeito que pretendia ser charmoso, mas que para Max parecia apenas predatório.
— Eu estava pensando, Luis... — Red começou, passando a mão pelo próprio cabelo vermelho vibrante. — Há uma festa na ala leste hoje à noite. Minha mãe não estará. Eu preciso de alguém... forte para garantir que ninguém estrague a diversão. Alguém como você.
Luis, em sua infinita inocência de Golden Retriever, piscou os olhos grandes, claramente confuso.
— Ah, obrigado pelo convite, Red, mas eu já tenho planos com o Max. Vamos revisar algumas rotas de fuga e tomar chá de amora.
Red soltou uma risadinha afetada, dando um passo ainda mais próximo, invadindo o espaço que Max considerava sagrado.
— Chá? Sério? Um homem com o seu... porte... desperdiçando a noite com bules e louças velhas? — Ela estendeu a mão, as unhas pintadas de vermelho escuro tocando de leve o bíceps de Luis. — Você deveria estar onde a ação acontece. Comigo.
O clima na mesa mudou instantaneamente. O sarcasmo de Max desapareceu, dando lugar a uma frieza calculada. Ele sentiu aquela pontada familiar no peito — a única coisa que o tornava irracional. Ele podia dividir o pão, o teto e os segredos, mas ele não dividia Luis Madrigal. Nunca.
Max deu um passo à frente, interpondo-se entre a mão de Red e o braço de Luis com uma velocidade impressionante. Ele não tocou nela, mas seu olhar era como uma lâmina de guilhotina.
— Red, querida — Max começou, sua voz caindo para um tom perigosamente calmo —, eu sei que na sua casa o costume é "cortem as cabeças", mas aqui no meu território, o costume é outro.
Red arqueou uma sobrancelha, finalmente olhando para o Hatter.
— E qual seria, Chapeleiro?
— Nós não tocamos no que não nos pertence — Max sorriu, mas não havia alegria em seus lábios. — Veja bem, o Luis é uma pessoa muito educada e gentil. Ele provavelmente não te diria isso porque ele tem um coração de ouro, mas eu? Eu sou filho de um homem que fala com bules. Eu não tenho nenhuma obrigação de ser são ou educado.
Max envolveu a cintura de Luis com um braço, marcando território de forma óbvia.
— Ele não é seu segurança, ele não é seu acessório e ele certamente não está interessado em trocar uma noite de estratégia e carinho por uma festa de adolescentes mimados — Max continuou, o sarcasmo voltando com força total. — Agora, por que você não pega sua coroa invisível e vai brincar de carrasco em outro lugar? Antes que eu decida que seu penteado ficaria muito melhor com um pouco de geleia de morango por cima.
Red estreitou os olhos, a fúria faiscando. Ela não estava acostumada a ser desafiada, muito menos por alguém que ela considerava "abaixo" dela na hierarquia da vilania.
— Você é possessivo, Hatter. Isso é tão... deselegante.
— Possessivo? Eu? — Max soltou uma risada curta. — Eu sou a pessoa mais generosa desta Ilha. Eu deixo as pessoas usarem minhas canetas, minhas ideias e até minhas piadas. Mas o Luis... — Ele olhou para cima, para o namorado, que o observava com uma mistura de adoração e leve preocupação. — O Luis é a única coisa no mundo que é estritamente privada. Se você quer um guarda-costas, contrate um dos filhos do Gaston. Eles são grandes, burros e adoram atenção.
Luis, percebendo que a tensão estava subindo, colocou uma mão grande e pesada sobre o ombro de Max, apertando-o levemente. O toque foi como um calmante instantâneo para o Hatter.
— Red — Luis disse, sua voz firme, mas sem malícia —, o Max tem razão. Eu não quero ir à festa. Meu lugar é aqui com ele. Sempre.
Red bufou, percebendo que não ganharia aquela batalha. Luis Madrigal era imune aos seus jogos de sedução, e Max Hatter era perigoso demais para ser ignorado.
— Vocês dois se merecem — ela resmungou, virando as costas e saindo pisando duro. — Um louco e um gigante de circo. Que par romântico emocionante.
Max esperou que ela estivesse a uma distância segura antes de relaxar os ombros. Ele soltou um suspiro longo, sentindo a adrenalina baixar.
— "Gigante de circo"? — Luis perguntou, com um pequeno sorriso brincando nos lábios. — Ela foi maldosa.
— Ela foi uma idiota — corrigiu Max, virando-se para Luis e passando as mãos pelo peito largo do namorado, alisando a camisa onde Red tinha ousado tocar. — Você está bem? Ela te assustou com aquele perfume de rosas baratas?
Luis riu, puxando Max para perto novamente. Ele adorava quando Max ficava assim, todo protetor e eriçado. Era a prova de que, apesar de toda a inteligência e desapego, Max precisava dele tanto quanto ele precisava de Max.
— Eu estou bem, Maxie. Mas você sabe que não precisa se preocupar, não sabe? Eu não vou a lugar nenhum.
— Eu sei que você não vai — Max murmurou, subindo nas pontas dos pés para selar seus lábios nos de Luis em um beijo que era possessivo, sim, mas também carregado de uma ternura profunda. — Mas eu gosto de lembrar ao mundo que, se alguém tentar te levar, eu sou perfeitamente capaz de enlouquecer de verdade.
Luis o envolveu em um abraço de urso, apertando-o contra seus músculos, fazendo Max se sentir a pessoa mais protegida de toda a Ilha dos Perdidos.
— Você já é louco, Max — Luis sussurrou contra o cabelo do namorado.
— Louco por você, Madrigal. Agora, vamos. O chá está esfriando e eu tenho planos para nós que envolvem você me prendendo naquele colchão velho até eu esquecer que a Red existe.
Luis corou furiosamente, o "Golden Retriever" nele ficando tímido, mas ele não soltou a mão de Max enquanto caminhavam de volta para a casa do Chapeleiro.
— Eu posso fazer isso — Luis concordou, a voz baixa e rouca.
Max sorriu, vitorioso. Ele podia dividir o mundo, mas Luis Madrigal era seu prêmio, sua âncora e seu único segredo que ele nunca, jamais, compartilharia com ninguém. E se Red ou qualquer outra "princesinha" achasse o contrário, bem... o Chapeleiro sempre tinha um lugar extra para um novo tipo de loucura em sua mesa.