Descendentes 5
Engrenagens, Afeto e o Peso do Silêncio
O sol da tarde em Auradon começava a declinar, banhando o pátio em tons de dourado e âmbar. Para quem olhasse de fora, Luis Madrigal parecia apenas o epítome da tranquilidade, um gigante gentil cujo único propósito na vida era ser o suporte físico e emocional de Max Hatter. No entanto, por trás daqueles olhos castanhos expressivos e da postura relaxada, a mente de Luis trabalhava com a precisão de um relógio que até mesmo o Chapeleiro Maluco admiraria.
Luis não era ingênuo. Ele sabia exatamente o que Red estava tentando fazer. Ele percebera o tom açucarado, a inclinação do corpo e, principalmente, o toque calculado em seu bíceps. Ele era filho de Luisa Madrigal; ele fora criado em uma casa onde a percepção era uma ferramenta de sobrevivência tanto quanto a força física. Ele sabia ler as intenções das pessoas antes mesmo que elas as verbalizassem. O problema é que a educação dada por sua mãe era um pilar inabalável em sua alma. Luisa sempre lhe ensinara que a força deve ser acompanhada de uma gentileza inabalável, e que o desrespeito era a arma dos fracos. Luis não queria, sob hipótese alguma, decepcionar sua mãe — ou pior, levar um daqueles olhares de reprovação que doíam mais que qualquer peso que já carregara.
Por isso, ele sorria. Ele ajudava. Ele era educado. Mas ele não era burro.
Enquanto Max se acomodava em seu colo na mesa dos "desajustados", agindo como se fosse o dono do mundo, Luis sentia a tensão vibrando no corpo magro do namorado. Max era uma criatura de caos e brilho, mas Luis conhecia as rachaduras na porcelana. Ele sabia que aquela possessividade quase teatral era, na verdade, uma armadura para uma insegurança que Max raramente admitia. Max viera da Ilha, onde nada era garantido e tudo podia ser tirado em um piscar de olhos. Para Max, Luis era o seu primeiro "para sempre", e a ideia de qualquer ameaça — mesmo a de uma princesa persistente como Red — fazia seus instintos de defesa gritarem.
— Você está muito quieto, Mi Amor — murmurou Luis, passando a mão grande pelas costas de Max, sentindo o tecido do paletó roxo. — No que está pensando?
Max deu uma mordida lenta na maçã que havia roubado, os olhos fixos no horizonte onde Red havia desaparecido.
— Estou pensando que o chá de hoje está com um gosto estranhamente metálico — respondeu Max, com sua voz carregada de um sarcasmo defensivo. — Ou talvez seja apenas o resíduo de audácia que ficou pairando no ar depois que certa pessoa saiu daqui.
Hazel, do outro lado da mesa, soltou uma risada abafada enquanto continuava a polir seu gancho.
— Max, você vai ter uma úlcera antes dos vinte anos se continuar assim. A Red é chata, mas ela não é páreo para o seu... brilho maníaco.
— Não é sobre ela ser páreo — Max retrucou, virando-se para olhar Hazel nos olhos. — É sobre o princípio da coisa. Existem regras não escritas em Auradon, Hazel. Você não toca no que não te pertence, a menos que queira perder a mão. E eu não estou falando de ganchos de pirata.
Chloe Charming, que até então estava em silêncio, fechou seu livro e olhou para Luis com um olhar de compreensão. Ela e Luis haviam se tornado amigos próximos, uma aliança improvável baseada no fato de que ambos eram os "estáveis" em seus respectivos relacionamentos caóticos.
— Ele tem razão em um ponto, Luis — disse Chloe suavemente. — Red não é do tipo que aceita um "não" facilmente. Ela cresceu ouvindo que o mundo é um tabuleiro de croquet e que ela é a rainha.
Luis suspirou, o som saindo como um vento pesado. Ele apertou Max um pouco mais contra si, sentindo o coração do namorado batendo rápido contra seu peito.
— Eu sei disso, Chloe — Luis respondeu, sua voz ganhando um tom de seriedade que raramente mostrava. — Mas eu também sei quem eu sou. Eu já fiz favores suficientes para metade desta escola hoje. Carreguei caixas, ajudei com o jardim, movi os bancos do ginásio... Minha cota de "ser gentil com estranhos" está quase esgotada por hoje.
Max olhou para cima, surpreso pela admissão de cansaço do namorado. Luis raramente reclamava.
— Então por que deixou ela encostar em você? — A pergunta de Max saiu mais baixa, desprovida da agressividade anterior, revelando a pequena ferida de insegurança que Luis já esperava encontrar.
Luis inclinou a cabeça e beijou a testa de Max, bem na borda da cartola.
— Porque eu sou educado, Max. Mas ser educado não significa ser cego. Eu vi o que ela estava fazendo. E eu vi como você reagiu.
— Eu não reagi — mentiu Max, ajeitando a gravata borboleta com dedos nervosos. — Eu apenas fiz uma observação social necessária.
— Claro — Luis sorriu, uma expressão que carregava uma sabedoria que rivalizava com a do próprio Chapeleiro Maluco. — E eu aprecio suas observações. Mas agora, eu terminei com os favores. O resto do meu dia pertence a um certo Chapeleiro rabugento.
Max tentou manter a fachada de indiferença, mas o canto de sua boca cedeu em um sorriso genuíno.
— Rabugento? Eu sou uma delícia de pessoa, Luis Madrigal. Você é quem tem o gosto questionável.
— Com certeza — Felix Facilier interveio, guardando suas cartas de tarô na manga. — O gosto dele é tão questionável que ele escolheu você. Mas, falando sério, Luis, fique de olho. Red tem aquele olhar de quem vai tentar uma jogada de mestre no próximo turno.
— Deixe que tente — disse Luis, e houve um peso em sua voz que fez o grupo silenciar por um momento. — Ela pode ser a Rainha de Copas em treinamento, mas eu sou um Madrigal. Nós sabemos lidar com pressão.
O grupo continuou a conversar por mais algum tempo, mas Luis notou que Max estava mais quieto do que o habitual. O Chapeleiro júnior estava brincando com os dedos de Luis, traçando as linhas das palmas de suas mãos como se tentasse ler um mapa. Luis sabia o que aquilo significava. Max estava processando. Ele estava escondendo a vulnerabilidade atrás de charadas mentais, esperando o momento em que estariam a sós para baixar a guarda.
Quando o sinal para o jantar finalmente ecoou, o grupo começou a se dispersar. Hazel e Chloe saíram de mãos dadas, discutindo algo sobre as regras do próximo jogo de esgrima, enquanto Felix desapareceu nas sombras dos corredores, provavelmente indo encontrar algum segredo para negociar mais tarde.
— Você vem para o jantar? — perguntou Max, levantando-se do colo de Luis, mas mantendo a mão presa na dele.
— Eu vou passar no quarto primeiro para tirar o suor do trabalho de hoje — disse Luis. — Mas eu te encontro no refeitório em dez minutos.
Max hesitou por um segundo, seus olhos azuis faiscando com uma incerteza passageira.
— Luis?
— Sim, Mi Amor?
— Mais tarde... no meu quarto. Eu consegui um novo blend de chá de jasmim. E talvez eu precise de ajuda com uma... uma coisa mecânica.
Luis sorriu internamente. O "chá" e a "coisa mecânica" eram os códigos de Max para "eu preciso que você fique comigo até eu parar de me sentir ameaçado".
— Eu estarei lá — prometeu Luis. — Sem relógios quebrados, sem princesas, apenas nós.
Max assentiu, parecendo finalmente satisfeito, e saiu saltitando em direção ao refeitório, recuperando sua aura de confiança extravagante.
Luis, no entanto, permaneceu parado por um momento sob a árvore. Ele sentiu uma presença antes mesmo de ouvir os passos. Não era Max, nem nenhum de seus amigos. O perfume era forte demais, doce demais.
— Ele é bem intenso, não é? — A voz de Red veio de trás do tronco da árvore. Ela não tinha ido embora; estivera esperando.
Luis não se virou imediatamente. Ele respirou fundo, invocando a paciência que sua mãe lhe ensinara a cultivar como um jardim delicado.
— O Max é apaixonado, Red — Luis disse, finalmente virando-se para encará-la. — Existe uma diferença.
Red deu alguns passos à frente, cruzando os braços. Ela não parecia intimidada pela estatura dele, o que Luis respeitava, de certa forma.
— Ele te trata como se você fosse uma propriedade dele. Como se você fosse um troféu que ele ganhou em um jogo de cartas na Ilha. Você não acha isso... limitante?
Luis deu um passo à frente, e embora seu rosto permanecesse gentil, sua sombra cobriu a princesa, lembrando-a de que ele era, de fato, o homem mais forte de Auradon.
— O Max me trata como a única coisa sólida no mundo dele — Luis corrigiu suavemente. — E eu o trato como a única pessoa que consegue ver que, por trás desses músculos, existe alguém que também se cansa de carregar o peso de todo mundo. Ele não me limita, Red. Ele me protege do tipo de exploração que você está tentando praticar.
Red arqueou uma sobrancelha, um sorriso desafiador brincando nos lábios.
— Exploração? Eu só queria ajuda com um relógio.
— Você queria ver até onde a paciência dele ia — disse Luis. — E queria ver se eu era tão ingênuo quanto pareço. Agora você tem suas respostas. Eu sou muito educado para ser rude com você, Red, mas eu sou muito inteligente para cair nos seus jogos.
— Veremos — Red deu um passo atrás, seus olhos brilhando com uma determinação perigosa. — O tempo é um mestre cruel, Luis. E as coisas mudam.
— Algumas coisas não — Luis retrucou, começando a se afastar. — Como a minha lealdade. Tenha uma boa noite, Princesa.
Ele caminhou em direção aos dormitórios, sentindo o olhar dela em suas costas. Ele sabia que ela não desistiria. Pessoas como Red viam o "não" como um convite para tentar mais forte. Mas ele não estava preocupado com ela. Sua preocupação era o garoto de cartola que, naquele momento, provavelmente estava fingindo ler um menu no refeitório enquanto contava os segundos para ver Luis entrar pela porta.
Ao chegar ao seu quarto, Luis tomou um banho rápido, deixando a água quente lavar a fadiga física e o estresse da interação social. Ele pensou em sua mãe. Luisa sempre dizia que o peso que carregamos nem sempre é físico. Às vezes, o peso mais difícil é o silêncio que mantemos para proteger quem amamos.
Depois de se vestir, ele foi para o refeitório. Max estava lá, sentado com Hazel e Felix, gesticulando dramaticamente enquanto explicava alguma teoria absurda sobre por que os coelhos nunca deveriam ser usados como mensageiros. Quando Max viu Luis, sua postura relaxou visivelmente. O brilho nos olhos dele mudou de "modo de ataque" para "modo de adoração".
O jantar passou entre risadas e as provocações habituais. Max parecia ter recuperado seu humor ácido, lançando farpas sutis para qualquer um que se aproximasse demais de sua mesa. Luis apenas observava, intervindo ocasionalmente para suavizar as bordas das piadas de Max, agindo como o mediador que sempre fora.
Quando a noite finalmente caiu sobre Auradon Prep e os corredores ficaram silenciosos, Luis dirigiu-se ao quarto de Max. Ele bateu suavemente na porta, o ritmo rítmico que eles haviam estabelecido.
A porta se abriu quase instantaneamente. Max estava sem o paletó e sem a cartola, o cabelo bagunçado em todas as direções, parecendo muito mais jovem e muito mais vulnerável.
— Você demorou — Max reclamou, mas se afastou para deixar Luis entrar.
O quarto de Max era um caos organizado. Pilhas de chapéus, bules de chá de todas as formas e tamanhos, relógios desmontados e tecidos coloridos espalhados por todo lado. No centro de tudo, uma pequena mesa estava posta com duas xícaras de porcelana fina.
Luis fechou a porta e trancou-a. Ele se virou e viu Max parado no meio do quarto, os braços cruzados, observando-o com uma intensidade que beirava a melancolia.
— Ela falou com você de novo, não falou? — perguntou Max.
Luis não mentiu.
— Falou. No pátio, depois que você saiu.
Max tensionou os ombros, o queixo tremendo levemente por um segundo antes de ele recuperar o controle.
— E? O que o grande e gentil Luis Madrigal disse para a Princesa de Copas?
Luis caminhou até Max, reduzindo a distância entre eles. Ele colocou as mãos nos ombros de Max, sentindo a resistência inicial antes de o namorado se entregar ao toque.
— Eu disse a ela que você não me trata como uma propriedade, mas como sua âncora. E disse que ela está perdendo tempo tentando encontrar uma rachadura onde só existe alicerce.
Max soltou um suspiro longo, todo o ar parecendo sair de seus pulmões de uma vez. Ele encostou a testa no peito de Luis, fechando os olhos.
— Eu odeio isso — Max sussurrou, a voz abafada pelo tecido da camisa de Luis. — Eu odeio sentir que tenho que lutar por tudo o tempo todo. Na Ilha, se você não segurasse o que era seu com as duas mãos e dentes, alguém levava. E você... você é a melhor coisa que eu já tive, Luis. Eu não sei como ser "gentil e educado" quando alguém tenta tocar no meu coração.
Luis envolveu Max em um abraço completo, erguendo-o levemente e levando-o até a cama, onde se sentaram juntos.
— Você não precisa ser, Mi Amor — Luis disse suavemente. — Para isso eu estou aqui. Eu sou a força, lembra? Eu posso carregar o peso do seu ciúme, da sua insegurança e até da chatice da Red. Nada disso vai me fazer sair do seu lado.
Max olhou para cima, os olhos ligeiramente úmidos, embora ele nunca fosse admitir que estava prestes a chorar.
— Você é um idiota muito bom, sabia?
— Eu sei — Luis riu, beijando o nariz de Max. — Agora, cadê aquele chá de jasmim? Eu tive um dia longo sendo o herói de todo mundo, e agora eu só quero ser o namorado do Chapeleiro.
Max sorriu, um sorriso que não tinha nada de sarcasmo e tudo de amor. Ele se levantou para servir o chá, seus movimentos agora fluidos e calmos.
Enquanto bebiam o chá no silêncio confortável do quarto, Luis sabia que a batalha com Red ainda não tinha acabado. Ela era persistente e provavelmente voltaria com um plano novo na manhã seguinte. Mas, enquanto olhava para Max, que agora tentava explicar uma nova ideia para um chapéu feito inteiramente de colheres de chá, Luis sentiu uma paz profunda.
Ele era gentil, sim. Ele era educado, com certeza. Mas ele era um Madrigal. E se Red queria jogar, ela teria que aprender que, em Auradon, o Chapeleiro podia ser louco, mas o seu protetor era uma montanha que ninguém poderia mover.
— Luis? — chamou Max, distraindo-o de seus pensamentos.
— Sim?
— Obrigado. Por não ser apenas forte, mas por ser meu.
Luis sorriu, pegando a mão de Max e apertando-a.
— Sempre, Max. Até o último desaniversário.