Descendentes 5
A Fúria das Flores, o Som dos Saltos e o Pânico de um Gigante
O jogo de croquet estava chegando ao fim, mas não era um jogo comum. Com Max Hatter envolvido, as bolas pareciam ter vontade própria e os arcos mudavam de lugar quando ninguém estava olhando. Luis, no entanto, apenas ria. Ele adorava a forma como Max se concentrava, a língua levemente entre os dentes, calculando uma jogada impossível que desafiava as leis da física.
— Xeque-mate, ou seja lá o que se diz no croquet de Auradon! — Max exclamou, fazendo uma pose dramática após a bola atravessar três arcos seguidos e atingir o poste final.
— Acho que você acabou de inventar uma nova regra, Mi Amor — Luis comentou, guardando o taco com um sorriso leve.
Perto dali, na grama que circundava a quadra, o grupo estava relaxado. Chloe e Hazel estavam jogadas de forma desleixada, aproveitando o sol, enquanto Felix Facilier gesticulava animadamente, explicando para as garotas alguma teoria mirabolante sobre como as sombras de Auradon eram "preguiçosas" comparadas às da Ilha.
Tudo estava em perfeita harmonia. A brisa soprava suave, o cheiro de grama cortada era reconfortante e Red parecia ter sido finalmente neutralizada. Ou era o que eles pensavam.
A paz foi abruptamente interrompida pelo som de passos rápidos e o chamado uníssono de duas vozes familiares.
— Luis! Luis Madrigal!
Luis se virou e viu suas primas correndo em sua direção. Eram as filhas de suas tias: a primogênita de Mirabel, com seus óculos redondos e uma expressão de urgência, e a filha de Isabela, que parecia ter pequenas flores brotando espontaneamente em seu cabelo devido ao estresse.
— O que houve, meninas? — Luis perguntou, sua voz ainda calma, embora um pressentimento ruim começasse a se formar em seu estômago.
— Luis, você está em apuros! — a filha de Mirabel disse, recuperando o fôlego. — A diretora ligou para Casita. Ela falou com a Tia Luisa!
Luis sentiu o sangue fugir do rosto.
— O quê? Por quê?
— Aparentemente — a filha de Isabela interveio, cruzando os braços e olhando para os lados para garantir que ninguém ouvia —, uma aluna, uma tal de Red, foi à diretoria chorando. Ela disse que você foi extremamente rude, que a ameaçou fisicamente e que ela está "traumatizada" com o seu comportamento agressivo.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Max, que estava guardando suas coisas, congelou no lugar. Hazel e Chloe se sentaram imediatamente, e Felix deixou cair a carta que estava manipulando.
— Ela fez o quê? — Max rosnou, seus olhos brilhando com uma fúria perigosa. — Aquela pequena rainha de copas falsificada ousou...
Mas Luis não estava ouvindo Max. Ele sentia suas pernas ficarem bambas.
— A diretora ligou para minha mãe? — Luis sussurrou, a voz subindo uma oitava. — Ela ligou para Luisa Madrigal para dizer que eu machuquei uma dama?
— Sim — a prima confirmou com um olhar de pena. — E a Tia Luisa ficou... bem, você sabe como ela fica quando o assunto é a honra da família. Ela disse que se o filho dela esqueceu como um Madrigal deve se comportar, ela viria pessoalmente lembrá-lo.
Luis Madrigal, o rapaz que conseguia levantar uma carroça com uma mão, o gigante que não temia dragões ou piratas, ficou pálido como um fantasma. Ele começou a tremer visivelmente.
— Ela está vindo? — Luis perguntou, a voz agora num fio. — Agora?
— Ela já deve estar no portal de transportes — a filha de Isabela acrescentou. — E como a Tia Mirabel e a Minha Mãe não deixam a Tia Luisa resolver nada sozinha quando ela está nervosa... as três estão vindo.
Luis soltou um som que parecia um guincho de um camundongo assustado.
— As três? — Ele olhou para Max com os olhos arregalados. — Max, as três Madrigal originais estão vindo para cá. Minha mãe vai me carregar pelas orelhas até a Colômbia. Minha tia Isabela vai me prender em trepadeiras de espinhos e minha tia Mirabel vai me dar um sermão de quatro horas sobre "ajudar a comunidade"!
Max largou o taco e correu para o lado do namorado, segurando suas mãos grandes que agora tremiam como folhas.
— Calma, Luis! Respira! — Max tentou soar firme, mas até ele estava um pouco intimidado. Ele já tinha ouvido histórias sobre a força de Luisa e o temperamento de Isabela. — Nós vamos explicar. A Red mentiu! Todos nós somos testemunhas!
— Você não entende, Max — Luis disse, olhando desesperadamente para os lados, como se procurasse uma rota de fuga. — Minha mãe não aceita desculpas antes do castigo. Ela acredita na disciplina primeiro, nas perguntas depois. Eu vou levar um tapa que vai me fazer ver o Chapeleiro Maluco em dose dupla!
Felix se aproximou, parecendo genuinamente preocupado.
— Cara, você está realmente suando frio. Quer que eu tente esconder você nas sombras?
— Não! — Luis exclamou. — Minha tia Isabela tem plantas que farejam medo. Elas me achariam em qualquer lugar. Max, por favor, me leva para o País das Maravilhas! Me esconde na casa do seu pai! Eu posso ser o novo ajudante de chá, eu posso limpar bules para sempre, eu faço qualquer coisa!
— Luis, você é maior que a casa do meu pai! — Max respondeu, tentando conter o riso nervoso. — Não dá para te esconder lá!
— Então me enterra aqui mesmo! — Luis começou a andar de um lado para o outro, gesticulando freneticamente. — Chloe, você é uma princesa, ordene que fechem os portões! Hazel, me leve para o seu navio e vamos para o meio do oceano!
— Luis, se acalme! — Chloe se levantou e colocou a mão no ombro dele. — Nós vamos falar com a diretora. Vamos desmascarar a Red.
— Não há tempo para diplomacia, Chloe! — Luis parou e olhou para o horizonte. — Eu sinto... eu sinto o cheiro de arepas e flores tropicais. Elas estão chegando.
Nesse exato momento, um som rítmico e pesado começou a ecoar pelo pátio de pedra que levava à quadra. *Tum. Tum. Tum.* Eram saltos, mas não saltos delicados. Eram saltos carregados de propósito.
O grupo se virou para a entrada. Três mulheres caminhavam lado a lado, e a aura que emanavam era tão poderosa que até os pássaros pararam de cantar.
No centro estava Luisa Madrigal. Ela não parecia zangada no sentido convencional; ela parecia uma montanha prestes a entrar em erupção. Seus músculos estavam tensos sob a blusa branca e ela carregava uma expressão de decepção profunda que era mil vezes pior do que qualquer grito.
À sua direita, Isabela Madrigal caminhava com uma elegância letal, flores de cores vibrantes e exóticas brotando a cada passo que dava, seus olhos semicerrados em busca do sobrinho "rebelde".
À esquerda, Mirabel Madrigal tentava manter uma expressão séria, mas seus olhos brilhavam com uma mistura de preocupação e o desejo de resolver o conflito com uma canção ou um abraço — o que, para Luis, era igualmente assustador naquele momento.
— Luis Madrigal! — A voz de Luisa ecoou pelo campo, profunda e firme.
Luis se encolheu tanto que parecia que estava tentando ocupar o espaço de uma criança de dez anos. Ele se escondeu atrás de Max, o que era fisicamente impossível, resultando em uma cena cômica onde o gigante Madrigal tentava usar o esguio Chapeleiro como escudo humano.
— Oi, mamãe... — Luis disse, sua voz saindo fina. — Que surpresa agradável... o que traz as senhoras a Auradon com tanta pressa?
As três pararam a poucos metros do grupo. Isabela olhou para Max, depois para Luis, e uma trepadeira de jasmim subiu rapidamente pelo poste de croquet ao lado deles.
— Não tente ser engraçadinho, Luis — Isabela disse, sua voz suave mas afiada. — Recebemos uma ligação muito perturbadora. Uma moça chorando? Você sendo rude? Onde foi que erramos na sua educação?
— Eu não fiz nada, Tia Isabela! — Luis exclamou, saindo de trás de Max, mas mantendo uma distância segura. — Ela mentiu! Ela é a filha da Rainha de Copas, ela adora jogos mentais!
— Mentiu? — Luisa deu um passo à frente, cruzando os braços. — A diretora disse que ela estava em choque. Luis, eu te ensinei que a nossa força serve para carregar o peso do mundo, não para assustar os outros. Se você tocou num fio de cabelo daquela menina de forma agressiva...
— Ele não tocou! — Max interveio, dando um passo à frente e ficando entre Luis e a fúria das Madrigal.
Luisa olhou para baixo, encarando o garoto de cartola. Ela estreitou os olhos, reconhecendo o namorado do filho.
— Max Hatter — Luisa disse, sua voz suavizando apenas um pouco. — Eu sei que você é leal ao meu filho. Mas isso é um assunto de família.
— Com todo o respeito, Senhora Madrigal — Max começou, tirando a cartola e fazendo uma reverência que era metade respeito e metade audácia —, este é um assunto de justiça. A Princesa Red tentou roubar o Luis de mim ontem. Quando não conseguiu, tentou hoje de novo. O Luis apenas disse "não" de uma forma muito clara e educada. Ela não suportou a rejeição e correu para a diretoria para inventar uma história que atingisse o único ponto fraco dele: o medo de decepcionar a senhora.
Mirabel, que estava observando tudo em silêncio, ajustou os óculos e olhou para Luis.
— Luis, isso é verdade? Ela estava tentando... flertar com você?
— Sim, Tia Mirabel! — Luis disse, quase chorando de alívio por alguém estar ouvindo. — Ela queria que eu consertasse um relógio, depois queria que eu fosse parceiro de projeto... ela até tocou no meu braço! O Max ficou com ciúmes, e eu apenas disse a ela que minha lealdade era dele. Eu nunca a ameacei. Eu sou um Madrigal! Eu prefiro carregar um burro nas costas por dez quilômetros do que gritar com uma garota!
Isabela e Mirabel trocaram um olhar. Elas conheciam Luis. Ele era o coração da nova geração da Casita. A ideia dele ser um agressor era, no fundo, absurda para elas.
— Luisa — Mirabel disse suavemente, tocando o braço da irmã —, você sabe que o Luis é incapaz de machucar uma mosca. Ele é igualzinho a você quando tinha a idade dele... prefere aguentar o peso sozinho do que causar problemas.
Luisa olhou para o filho. Ela viu o pânico em seus olhos, a palidez de seu rosto e a forma como ele segurava a mão de Max como se fosse sua única tábua de salvação. A dureza em seus ombros começou a ceder.
— Onde está essa menina? — Luisa perguntou, a voz agora carregada de uma proteção materna perigosa. — Se ela mentiu sobre o meu filho para a diretora, ela vai descobrir que os Madrigal não são apenas fortes. Nós somos muito, muito unidos.
— Ela deve estar na diretoria agora, "se recuperando" — Hazel comentou, ganhando coragem para falar. — Se as senhoras quiserem, podemos levá-las até lá. Eu adoraria ver a cara dela quando encontrar a mãe do Luis.
Isabela deu um sorriso gelado que fez Felix estremecer.
— Oh, eu adoraria conhecê-la. Eu trouxe algumas sementes de cactos que florescem muito rápido quando sentem... falsidade.
Luis sentiu um alívio tão grande que quase caiu de joelhos. Ele olhou para Max, que lhe deu um piscadela vitoriosa.
— Mas antes — Luisa disse, caminhando até Luis.
Luis fechou os olhos, esperando o tapa ou o puxão de orelha. Em vez disso, sentiu os braços poderosos de sua mãe o envolverem em um abraço esmagador.
— Sinto muito por ter duvidado de você por um segundo, meu filho — Luisa sussurrou em seu ouvido. — Mas você sabe que a honra é tudo o que temos.
— Eu sei, mamãe — Luis respondeu, retribuindo o abraço com a mesma força. — Mas por favor, não me assuste assim de novo. Eu quase pedi asilo político no País das Maravilhas.
Mirabel riu e se juntou ao abraço, seguida por Isabela, que fez questão de deixar uma pequena flor de lótus atrás da orelha de Luis.
— Certo — Mirabel disse, batendo as mãos. — Agora, vamos ter uma conversa com essa diretora e com essa princesinha. Max, você vem conosco? Acho que seu testemunho será... interessante.
— Será um prazer, Senhora Madrigal — Max disse, recolocando a cartola com um movimento ágil. — Eu adoro uma boa cena de tribunal, especialmente quando eu sei que o veredito vai ser a favor do meu gigante.
Enquanto o grupo caminhava em direção ao prédio principal — uma visão intimidadora de três mulheres Madrigal poderosas seguidas por um bando de filhos de vilões e heróis —, Luis sentiu sua confiança voltar.
Ele olhou para Max, que caminhava ao seu lado com um sorriso de satisfação pura.
— Você ia mesmo me esconder no País das Maravilhas? — Max perguntou em voz baixa.
— Embaixo da mesa de chá, se fosse preciso — Luis admitiu.
— Você é um covarde adorável, Luis Madrigal.
— E você é um namorado terrível por estar se divertindo com o meu pânico.
— Ah, eu não estou me divertindo com o seu pânico — Max disse, pegando a mão de Luis. — Estou me divertindo com o fato de que a Red achou que podia mexer com um Madrigal e sair impune. Ela esqueceu que, quando você mexe com um de nós, você mexe com a família inteira. E a minha família é louca, mas a sua... a sua é uma força da natureza.
Ao entrarem no corredor da diretoria, o som dos passos de Luisa Madrigal denunciava que o tempo de Red estava se esgotando. E Luis, pela primeira vez naquele dia, não estava mais com medo. Ele sabia que, não importa o tamanho do problema ou a força da mentira, ele tinha as bases mais sólidas do mundo para sustentá-lo.
A porta da diretoria se abriu antes mesmo de Luisa bater. A Fada Madrinha apareceu, parecendo confusa, mas ao ver as três irmãs Madrigal, sua expressão mudou para um respeito imediato.
— Senhora Madrigal! Que surpresa... eu não esperava que as três viessem.
— Viemos resolver um mal-entendido, Diretora — Luisa disse, entrando na sala com a autoridade de uma rainha.
Red, que estava sentada em uma cadeira lateral com um lenço dramático na mão, empalideceu instantaneamente ao ver a estatura de Luisa e o olhar gélido de Isabela.
— Luis? — Red gaguejou, perdendo toda a sua pose.
— Olá, Red — Luis disse, finalmente se sentindo o gigante que era. — Eu gostaria que você conhecesse a minha mãe. E minhas tias. Elas têm algumas perguntas sobre o seu "trauma".
Max Hatter encostou-se no batente da porta, cruzou os braços e suspirou de felicidade.
— Que comece o chá — ele sussurrou para si mesmo. — E que as cabeças rolem... metaforicamente, é claro.
Naquele momento, Auradon Prep aprendeu uma lição valiosa: nunca, sob circunstância alguma, tente derrubar um Madrigal. Porque eles podem ser gentis, podem ser educados e podem até carregar o seu fardo, mas se você tentar quebrar o coração de um deles, você terá que enfrentar a montanha inteira. E a montanha estava muito, muito zangada.