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Descendentes 5

O Despertar do Relógio e o Peso da Coroa

A luz do sol em Auradon sempre parecia ter um filtro excessivamente vibrante, como se o próprio céu estivesse tentando compensar a névoa perpétua da Ilha dos Perdidos. Para Max Hatter, aquele brilho costumava ser um incômodo matinal, um lembrete barulhento de que o dia havia começado e que ele precisava colocar sua máscara de excentricidade e sarcasmo. Mas, naquela manhã, o sol encontrou um obstáculo: as cortinas pesadas do quarto e a silhueta maciça de Luis Madrigal.

Max despertou lentamente, sentindo o calor irradiando de um corpo que não era o seu. Ele não precisou abrir os olhos para saber onde estava. O cheiro de terra molhada e canela — o aroma natural de Luis que nem o sabonete mais caro de Auradon conseguia apagar — envolvia seus sentidos. Ele sentiu o peso reconfortante de um braço musculoso sobre seu quadril, prendendo-o contra o colchão com uma possessividade silenciosa e inconsciente. O outro braço de Luis servia de travesseiro para a cabeça de Max, um suporte sólido que fazia qualquer travesseiro de penas parecer insuficiente.

Por alguns minutos, Max apenas respirou. Ele se permitiu ser pequeno, ser protegido, ser apenas Max. Sem enigmas, sem cartolas, sem a pressão de ser o filho prodígio de um pai cuja sanidade era um labirinto. Ali, no casulo dos braços de Luis, a insegurança que o corroera no dia anterior parecia uma memória distante e tola.

Ele sentiu um movimento sutil. O peito de Luis subiu e desceu em um suspiro profundo, e a pressão do braço em seu quadril aumentou um milímetro, um reflexo de quem estava começando a emergir do sono.

— Eu sei que você está acordado, Mi Amor — a voz de Luis soou baixa e rouca, vibrando contra as costas de Max.

Max sorriu, fechando os olhos com mais força por um segundo antes de se virar nos braços do namorado. Ele encontrou o rosto de Luis a poucos centímetros do seu; o cabelo castanho bagunçado, os olhos ainda semicerrados e aquela expressão de paz que só aparecia quando ele não estava carregando o mundo nas costas.

— Você é um detector de mentiras humano, Luis. É irritante — Max resmungou, embora estivesse traçando o contorno da mandíbula de Luis com o dedo indicador.

— É difícil não notar quando o seu coração começa a acelerar assim que o sol bate na janela — Luis respondeu, soltando um riso curto e preguiçoso. Ele puxou Max para mais perto, enterrando o rosto na curva do pescoço do chapeleiro. — Dormiu bem?

— Como uma pedra. Uma pedra muito bem protegida — Max admitiu, relaxando sob o peso do corpo de Luis. — Mas não se acostume com isso. Eu ainda tenho uma reputação de ser uma criatura da noite e do caos.

Luis se afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos de Max, um brilho de diversão e algo muito mais profundo em seu olhar.

— Sua reputação está segura comigo, Max. Mas hoje... hoje eu acho que você deveria tirar uma folga de ser o "gênio incompreendido".

Max arqueou uma sobrancelha, o sarcasmo voltando a brilhar em seus olhos azuis.

— Uma folga? E deixar Auradon entregue à normalidade entediante? Jamais. Além disso, temos o treino de esgrima e, se bem me lembro, uma certa princesa de vermelho provavelmente vai estar lá, tentando "consertar relógios" novamente.

O corpo de Luis não tensionou, mas houve uma mudança sutil em sua expressão. Ele rolou para o lado, ficando de costas no colchão e puxando Max para que ele ficasse deitado sobre seu peito.

— Deixe a Red para lá, Max. Ela é um problema de amanhã. Ou de daqui a duas horas. Agora, é só o café da manhã.

— Você só diz isso porque sabe que ela não tem chance contra você — Max murmurou, apoiando o queixo nas mãos sobre o peito de Luis. — Mas ela mexe com a minha cabeça. Ela joga como se estivesse na Ilha, e isso me faz querer jogar de volta. E quando eu jogo, Luis, as coisas costumam ficar... barulhentas.

— Eu sei — disse Luis, passando a mão pelos fios bagunçados de Max. — Mas você não precisa jogar o jogo dela. Você já ganhou. Você me tem.

— Eu sei que tenho — Max rebateu rapidamente, uma ponta daquela possessividade ferina aparecendo. — Mas eu gosto de lembrar aos outros que o prêmio já foi entregue e a vitrine está fechada.

Eles ficaram em silêncio por um tempo, aproveitando a quietude antes da tempestade social que era Auradon Prep. Luis sabia que, por baixo de toda a bravata de Max, o medo de perder o que amava era um motor constante. E Max sabia que, por trás da gentileza de Luis, havia uma vontade de ferro que não se dobrava por nada. Eram o equilíbrio perfeito de caos e ordem.

— Temos que levantar — Luis finalmente disse, embora não fizesse nenhum movimento para soltar Max. — Hazel e Felix vão estranhar se não aparecermos para o café. E Chloe provavelmente vai achar que eu fui sequestrado por algum dos seus bules mágicos.

— Eles que esperem — Max declarou, aconchegando-se mais. — Deixe que o mundo gire sem nós por mais dez minutos. O tempo é uma construção social, de qualquer forma. Meu pai sempre diz que, se você pedir com educação, o Tempo até para para tomar uma xícara de chá.

Luis riu, o som vibrando através de suas costelas.

— Seu pai é uma figura, Max. Mas infelizmente a Fada Madrinha não segue a mesma lógica temporal que ele.

Relutantemente, os dois começaram a se mover. O processo de "se tornar Max Hatter" envolvia muitas camadas: o colete, o paletó roxo, a gravata borboleta perfeitamente desalinhada e, claro, a cartola. Enquanto Max se olhava no espelho, ajustando cada detalhe com uma precisão maníaca, Luis se vestia com a simplicidade prática de quem valoriza o conforto acima da estética.

— Como eu estou? — perguntou Max, virando-se com um floreio dramático.

Luis parou de abotoar sua camisa de linho e olhou para o namorado. Max parecia um sonho febril de cores e texturas, uma explosão de personalidade que iluminava o quarto.

— Você está incrível, como sempre — Luis disse, aproximando-se para ajeitar a gravata de Max, mesmo que soubesse que ele a preferia torta. — Pronto para enfrentar o mundo?

— Pronto para causar um colapso nervoso em pelo menos três professores — Max corrigiu, dando um selinho rápido em Luis antes de pegar sua bengala decorativa.

O caminho para o refeitório foi o habitual desfile. Max caminhava com uma energia saltitante, cumprimentando os quadros nas paredes e fazendo comentários ácidos sobre os uniformes dos outros alunos. Luis caminhava ao seu lado, uma presença sólida e silenciosa, um contraste que atraía olhares de admiração e curiosidade.

Quando entraram no refeitório, a mesa de sempre já estava ocupada. Hazel Gancho estava debruçado sobre um mapa de navegação, enquanto Chloe tentava explicar algo sobre ética política para um Felix Facilier que parecia mais interessado em fazer uma moeda desaparecer e reaparecer atrás da orelha dela.

— Finalmente! — Hazel exclamou, sem levantar os olhos do mapa. — Eu já estava prestes a enviar uma equipe de busca para o País das Maravilhas.

— O tempo é relativo, Gancho — Max disse, deslizando para o seu lugar com uma elegância teatral. — Nós estávamos apenas garantindo que o universo não implodisse com a nossa ausência.

— Ou eles estavam apenas sendo um casal de comerciais de margarina — Felix comentou, lançando um olhar de soslaio para Luis. — Você está com aquela cara de "eu tive uma noite ótima", Madrigal. O que me preocupa, porque o Max está com cara de quem vai aprontar.

— Eu sempre vou aprontar, Felix. É o meu estado natural — Max retrucou, pegando um bule de chá que parecia ter aparecido do nada.

Chloe sorriu para Luis, um olhar de cumplicidade entre os dois "normais" do grupo.

— Tudo bem, Luis? — ela perguntou baixo.

— Tudo ótimo, Chloe — Luis respondeu, começando a montar um prato de frutas que ele sabia que Max acabaria beliscando. — Só um pouco cansado. O dia de ontem foi... longo.

— E vai ficar mais longo — Hazel interrompeu, apontando com o gancho para a entrada do refeitório. — Olhem quem acaba de entrar no tabuleiro.

Red caminhava pelo refeitório com sua habitual confiança real. Ela usava o uniforme de Auradon, mas o havia customizado com detalhes em vermelho e corações que gritavam sua linhagem. Seus olhos percorreram o salão até encontrarem a mesa deles. Ela não hesitou; caminhou direto para lá.

Max sentiu o músculo de sua mandíbula travar, mas manteve o sorriso enigmático no rosto. Ele sentiu a mão de Luis tocar levemente seu joelho por baixo da mesa, um lembrete silencioso de que ele não estava sozinho.

— Bom dia, pessoal — Red disse, parando na ponta da mesa. Ela ignorou Max completamente, fixando o olhar em Luis. — Luis, eu estive pensando sobre o que você disse ontem. Sobre lealdade e... sobre ser uma âncora.

O refeitório pareceu ficar um pouco mais silencioso. Hazel e Felix trocaram olhares rápidos, enquanto Chloe se empertigou na cadeira.

— É um bom tópico para reflexão, Red — Luis respondeu cordialmente, mas sem o calor que costumava dedicar aos amigos. — Espero que tenha chegado a conclusões úteis.

— Cheguei — Red sorriu, e havia algo de predatório naquele sorriso. — Concluí que uma âncora é ótima para manter um navio parado, mas às vezes o navio quer navegar. E eu tenho um projeto para a aula de história das vilanias que precisa de alguém com... força física. E paciência. Pensei que você seria o parceiro ideal.

Max soltou uma risada seca, o som cortando a tensão como uma faca.

— Ah, Red, querida. Você é persistente, eu admito. Mas o Luis já tem um parceiro de projeto. E de vida. E de chá. E de basicamente qualquer coisa que envolva o uso do tempo dele.

Red finalmente olhou para Max, arqueando uma sobrancelha.

— Eu não sabia que o Luis tinha perdido o direito de falar por si mesmo, Hatter. Ou a Ilha mudou as regras de etiqueta e agora os acessórios falam pelos donos?

O clima na mesa despencou para abaixo de zero. Hazel fechou o mapa com um estalo e Felix parou de brincar com a moeda. Luis sentiu a irritação crescer em seu peito, não pelo insulto a ele, mas pela forma como Red estava tentando diminuir Max.

Antes que Max pudesse lançar uma de suas réplicas venenosas, Luis se levantou. Ele não o fez de forma agressiva, mas sua altura e envergadura eram suficientes para silenciar a conversa nas mesas vizinhas.

— Red — Luis começou, sua voz soando como o trovão distante de uma tempestade que se aproxima. — O Max não é um "acessório". Ele é a pessoa que eu escolhi. E quando ele fala por mim, é porque nossos pensamentos estão tão alinhados que ele sabe exatamente o que eu vou dizer antes de eu abrir a boca.

Red recuou um passo imperceptível, a surpresa cruzando suas feições.

— Eu não quis dizer que...

— Sim, você quis — Luis a interrompeu, mantendo o tom calmo, mas firme. — Você está tentando criar um conflito onde não existe espaço para um. Eu agradeço o convite para o projeto, mas minha agenda está cheia. Com o Max. Hoje, amanhã e no futuro previsível. Se você precisa de força física, sugiro que peça ao Chad Charming. Ele adora se exibir.

Max olhou para Luis com uma mistura de choque e adoração pura. Ele raramente via Luis ser tão direto e assertivo com alguém que não fosse um vilão declarado.

Red apertou os lábios, a humilhação colorindo suas bochechas de um vermelho que combinava com seu nome. Ela olhou de Luis para Max, vendo a união inquebrável entre os dois, e percebeu que suas táticas de intriga da corte de Copas não funcionariam ali.

— Como queiram — Red disse com frieza, virando as costas e saindo do refeitório com a cabeça erguida, tentando salvar o que restava de sua dignidade.

Assim que ela se afastou, o grupo soltou a respiração.

— Caramba, Luis — Hazel assobiou. — Isso foi... intenso. Acho que até o meu pai teria ficado com medo desse olhar.

— O Madrigal tem dentes, afinal — Felix riu, voltando a embaralhar suas cartas. — Eu disse que o Louco na leitura significava novos começos. Talvez o novo começo seja o Luis parando de ser bonzinho demais.

Chloe apenas sorriu e voltou ao seu livro, parecendo satisfeita com o resultado.

Max, no entanto, ainda estava processando. Ele se levantou e puxou Luis pela gola da camisa, forçando-o a se inclinar para que seus rostos ficassem próximos.

— Isso foi... — Max começou, sua voz falhando por um momento. — Isso foi a coisa mais sexy que você já fez, seu gigante idiota.

Luis sorriu, o calor voltando aos seus olhos.

— Eu só disse a verdade, Max. Eu cansei de ser apenas o "cara gentil". Algumas pessoas precisam ser lembradas de que a gentileza tem limites.

— E eu sou o limite? — Max perguntou, um brilho travesso voltando aos seus olhos.

— Você é o horizonte, Max. Tudo o que eu faço começa e termina em você.

Max soltou um suspiro dramático e encostou a cabeça no ombro de Luis.

— Bem, agora que você destruiu as esperanças da realeza de Copas, o que vamos fazer com o resto do nosso dia?

— Eu tenho uma ideia — disse Luis, abraçando Max pela cintura. — Que tal irmos para o campo de croquet e jogarmos uma partida? Só nós dois. Sem rainhas, sem pressões.

— E eu posso trapacear? — Max perguntou, olhando para cima com esperança.

— Você deve trapacear, Mi Amor. Não seria um jogo com um Hatter se não houvesse um pouco de loucura envolvida.

Enquanto caminhavam para fora do refeitório, de mãos dadas, Max sentiu que o peso que carregara no peito por tanto tempo havia finalmente desaparecido. Ele não precisava lutar contra o mundo sozinho. Ele tinha uma montanha ao seu lado, uma montanha que não apenas o protegia, mas que o amava por cada uma de suas excentricidades.

E enquanto o sol de Auradon brilhava sobre eles, Max Hatter percebeu que, no grande tabuleiro da vida, ele não era um peão, nem um acessório. Ele era o rei de um reino muito mais valioso do que qualquer castelo: o coração de Luis Madrigal.

E para um Chapeleiro, isso era mais do que suficiente para garantir que a hora do chá nunca terminasse.