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Descobertas

O Caos das Recompensas e o Ciúme dos Lordes

O Palácio de Tempest nunca esteve tão barulhento. Normalmente, as reuniões de cúpula eram marcadas por uma tensão política palpável ou pelo tédio aristocrático de Guy Crimson. No entanto, a presença das cinco crianças de Ingracia transformou o castelo em um campo de jogos caótico. No pátio central, Milim Nava e Veldora Tempest estavam apostando quem conseguia criar a maior cratera sem destruir a cidade, enquanto Kenya, Ryota e os outros gritavam de empolgação.

— Olhem isso! — gritou Veldora, rindo de forma estrondosa. — O Sopro do Dragão... Versão Miniatura! Kuahahahaha!

— Isso não é nada, Veldora! — Milim saltou no ar, com os punhos brilhando. — Veja o meu Soco Dracônico de Impacto Suave!

As crianças batiam palmas, maravilhadas. Para elas, aqueles seres lendários eram agora apenas os tios divertidos e levemente irresponsáveis que Rimuru mantinha por perto. Enquanto isso, na sacada do palácio, Rimuru observava a cena com uma mão na testa, sentindo uma dor de cabeça iminente.

— Eles vão acabar demolindo o jardim — suspirou Rimuru, encostando-se no parapeito. — E a Shuna vai me culpar por isso.

— Meu senhor, se desejar, posso remover essas distrações barulhentas para que o senhor tenha paz — sugeriu Diablo, surgindo como uma sombra ao lado de Rimuru, com um sorriso que não chegava aos olhos.

— Se você tocar em um fio de cabelo dos meus alunos, Diablo, eu te coloco para limpar os túneis dos esgotos com uma escova de dentes — retrucou Rimuru, sem olhar para trás.

Diablo estremeceu, mas seu sorriso se tornou ainda mais devoto.

— Ah, uma punição tão criativa! O senhor é verdadeiramente magnífico.

Guy Crimson, que estava sentado em uma poltrona de veludo flutuante logo atrás deles, girou sua taça de vinho com elegância. Seus olhos vermelhos observavam as crianças com um misto de irritação e curiosidade.

— Você amoleceu, Rimuru. Trazer humanos para o coração da nossa nação... E ainda por cima crianças. O que você pretende com isso?

Rimuru virou-se para Guy, cruzando os braços sobre o peito. Sua pele branca leitosa brilhava sob a luz do sol, e ele fez um biquinho manhoso que sempre desarmava os outros.

— Eles são meus alunos, Guy. E são ótimas crianças. Na verdade — Rimuru teve uma ideia e seus olhos brilharam com um toque de travessura —, eu decidi algo. A partir de agora, estabeleci um sistema de metas.

As crianças, que tinham acabado de subir correndo as escadas para se juntar a eles, pararam para ouvir.

— Sistema de metas? — perguntou Alice, ofegante.

— Sim! — Rimuru sorriu, recuperando sua postura de mestre. — Para cada boa ação que vocês fizerem, ou se demonstrarem um excelente controle de magia durante as brincadeiras, ganharão uma recompensa. Pode ser um doce especial da Shuna, um item mágico ou até mesmo uma nova viagem para Tempest no próximo feriado.

Os olhos das crianças brilharam como estrelas.

— Vale tudo? — perguntou Kenya, já planejando como ser o "melhor aluno".

— Vale tudo que for produtivo — confirmou Rimuru.

O que Rimuru não esperava era o efeito que essa declaração teria nos outros presentes. Diablo, que estava em silêncio, endireitou a coluna instantaneamente. Guy Crimson parou de girar sua taça. Até Veldora e Milim, que tinham acabado de entrar na sala após sentirem a mudança na aura de Rimuru, ficaram estáticos.

— Uma recompensa... de Rimuru? — murmurou Diablo, seus olhos brilhando com uma intensidade maníaca. — Qualquer coisa que eu pedir?

— Espere um pouco! — exclamou Veldora, apontando para o próprio peito. — Eu sou seu irmão de juramento! Eu mereço recompensas mais do que esses pequenos humanos! Se eu ler dez livros hoje, eu ganho aquele pudim de leite que você escondeu na geladeira?

— Eu também quero! — Milim pulou nas costas de Rimuru, quase o derrubando. — Se eu não destruir nada por uma hora, eu ganho o mel das abelhas apocalípticas?

— Ei, fiquem na fila! — Guy levantou-se, sua aura de Lorde Demônio começando a vazar. — Se eu for o convidado mais bem-comportado desta semana, Rimuru, eu exijo que você passe o próximo banquete sentado no meu colo.

As crianças olharam para os seres mais poderosos do mundo, que agora estavam discutindo como se fossem crianças no jardim de infância. Chloe, sendo a mais esperta do grupo, percebeu algo interessante: Rimuru parecia dar muito mais atenção a elas do que aos grandes Lordes.

— Professor Rimuru — disse Chloe, com uma voz doce, puxando a manga da túnica dele —, eu ajudei o Gale a entender o círculo rúnico lá embaixo. Isso conta como uma boa ação?

Rimuru sorriu calorosamente e afagou a cabeça de Chloe.

— Com certeza, Chloe! Você é uma menina exemplar. Pode escolher qualquer doce na cozinha mais tarde.

A expressão no rosto de Diablo e Guy foi de puro choque. Eles, seres milenares, estavam sendo "derrotados" por uma menina de dez anos.

— Isso é inaceitável! — gritou Diablo, perdendo a compostura. — Eu limpei toda a ala oeste do castelo em menos de um microssegundo! Onde está minha recompensa, Mestre?

— Eu não pedi para você limpar nada, Diablo! — Rimuru bufou, irritado.

— E eu! — Veldora interveio. — Eu não causei nenhum terremoto hoje! Isso é uma conquista monumental para um Dragão Verdadeiro!

— Vocês estão agindo como idiotas! — gritou Rimuru, sua voz ecoando pelo salão e fazendo as janelas vibrarem. — Parem com essa briga agora!

O silêncio caiu instantaneamente. Guy, Diablo, Veldora e Milim ficaram estáticos, olhando para o chão como se tivessem levado uma bronca de uma divindade (o que, tecnicamente, não estava longe da verdade).

As crianças trocaram olhares e começaram a rir. Elas achavam hilário ver o professor baixinho colocando ordem em monstros que poderiam apagar países do mapa.

— Vocês viram a cara do Guy? — sussurrou Kenya para Ryota. — Ele parece um gatinho que levou um susto.

— Shh! Ele vai ouvir! — riu Ryota.

Percebendo que a atenção de Rimuru era o bem mais precioso do castelo, as crianças decidiram se divertir um pouco. Durante o almoço, sempre que Guy tentava se sentar ao lado de Rimuru ou iniciar uma conversa romântica, um dos pequenos intervinha.

— Professor, me ajuda a cortar essa carne? — pedia Gale, com a cara mais inocente do mundo.

— Claro, Gale — respondia Rimuru, virando as costas para Guy.

Guy Crimson, o Lorde do Orgulho, estava prestes a explodir. Ele olhava para as crianças com um olhar que prometia destruição, mas assim que Rimuru se virava, ele forçava um sorriso amigável que parecia mais uma careta de dor.

— Você sabe, pequeno humano — disse Guy, aproximando-se de Kenya com uma aura intimidadora —, que é muito perigoso ficar entre um lorde demônio e seu parceiro.

Kenya olhou para Guy, depois para Rimuru, que estava distraído conversando com Shuna. O menino deu um sorriso travesso.

— O Professor Rimuru disse que se você me assustar, ele vai deixar você de castigo sem poder entrar no quarto dele por um mês.

Guy congelou. Ele sabia que Rimuru era perfeitamente capaz de cumprir essa ameaça. Ele bufou, cruzando os braços.

— Maldição... por que essas crianças são tão espertas?

— Se você não pode vencê-las, junte-se a elas — murmurou Milim, que já estava sentada no chão brincando de bonecas com Alice.

Guy suspirou profundamente. Ele era o ser mais antigo, o mediador do mundo, o lorde dos lordes... e ali estava ele, sentando-se no chão de tapete para participar de uma brincadeira de "chá de bonecas" apenas para ficar perto de Rimuru.

— Muito bem — disse Guy, pegando uma xícara de brinquedo com seus dedos longos e elegantes. — Mas eu sou o rei deste chá, entendido?

— Não, você é o mordomo malvado que se tornou bom — corrigiu Alice, sem um pingo de medo.

Rimuru, observando a cena de longe enquanto Diablo polia as pratas com uma velocidade furiosa e um olhar deprimido, não pôde deixar de rir.

— Eles estão se dando bem, não estão? — perguntou Shuna, servindo mais chá para Rimuru.

— De um jeito muito estranho, sim — respondeu Rimuru. — Eu nunca pensei que veria o Guy Crimson brincando de casinha.

A tarde passou voando. O castelo de Tempest, que antes era um lugar de política séria, tornou-se um cenário de caos controlado. Veldora levou as crianças para "voar" em suas costas — o que na verdade foi uma série de manobras acrobáticas que quase fizeram Rimuru ter um ataque cardíaco. Diablo, tentando ganhar pontos, começou a fazer truques de mágica com ilusões de alto nível que deixaram os pequenos boquiabertos.

Ao cair da noite, o cansaço finalmente atingiu o grupo. Na grande sala de estar, diante da lareira, um tapete macio foi estendido. As crianças, exaustas de tanto correr e rir, começaram a cochilar.

Chloe, como sempre, agarrou-se ao braço de Rimuru. Kenya e Ryota deitaram-se perto de seus pés, enquanto Gale e Alice usavam a cauda felpuda de Ranga (que tinha aparecido para participar do aconchego) como travesseiro.

Rimuru sentou-se no centro de tudo, sentindo-se estranhamente em paz. Ele acariciou o cabelo de Chloe, olhando para as chamas da lareira.

— Eles são cansativos, mas valem a pena — sussurrou ele.

— São — concordou uma voz baixa ao seu lado.

Guy Crimson sentou-se ao lado de Rimuru, movendo-se com a graça de um predador, mas sem nenhuma agressividade. Ele olhou para as crianças dormindo e depois para Rimuru.

— Você tem um talento especial para atrair seres caóticos e transformá-los em algo... familiar.

— É o meu charme — brincou Rimuru, recostando a cabeça no ombro de Guy. — E você se saiu bem hoje. Não incinerou ninguém.

— Eu mereço uma recompensa por isso? — perguntou Guy, com um brilho malicioso nos olhos.

Rimuru bocejou, fechando os olhos.

— Veremos. Se amanhã você ajudar o Veldora a não destruir o campo de treinamento, eu penso no seu caso.

Guy soltou uma risada curta e silenciosa, passando o braço em volta dos ombros de Rimuru. Diablo, observando do canto da sala, soltou um suspiro dramático e começou a cobrir as crianças com mantas de seda, garantindo que cada dobra estivesse perfeita. Ele também queria sua recompensa, mas ver seu mestre feliz e relaxado era, no fundo, o maior prêmio que ele poderia receber.

Veldora e Milim estavam jogados em poltronas próximas, roncando levemente após um dia de excessos. O Rei dos Anões, Gazel, tinha ido embora horas atrás, balançando a cabeça e murmurando sobre como Rimuru estava transformando o mundo em um playground.

Naquela noite, a Federação de Jura Tempest não era apenas a nação mais poderosa do mundo. Era um lar. E para as crianças de Ingracia, o professor que elas pensavam ser apenas um "lodo engraçado" tinha se tornado o centro de um universo onde até os demônios aprendiam a brincar e os dragões aprendiam a cuidar.

— Boa noite, pequenos — sussurrou Rimuru, antes de adormecer cercado por seus alunos, seus amigos e o lorde demônio que, apesar de todo o poder, só queria um lugar ao seu lado.

O silêncio finalmente reinou no palácio, quebrado apenas pelo estalar da lenha na lareira e pelo som da respiração tranquila daqueles que, por um breve momento, esqueceram suas coroas e títulos para serem apenas uma família improvável.