Descobertas
O Despertar da Família Improvável: Laços de Sangue e Magia
A luz suave do amanhecer filtrava-se pelas janelas altas do castelo, pintando o salão com tons de âmbar e ouro. O silêncio da manhã era apenas interrompido pelo som rítmico da respiração dos pequenos hóspedes. No grande tapete de veludo, a cena era quase surreal para qualquer um que conhecesse a hierarquia de poder daquele mundo.
Chloe e Alice foram as primeiras a abrir os olhos. Elas piscaram, tentando se situar, até que a visão diante delas as fez congelar. Deitadas no lado oposto ao de Rimuru, elas deram de cara com Guy Crimson. O Lorde Demônio mais antigo do mundo dormia com uma expressão de serenidade absoluta, seus cabelos vermelhos espalhados como chamas sobre o travesseiro de seda.
As duas meninas trocaram olhares cúmplices. Alice levou o dedo aos lábios, pedindo silêncio, enquanto apontava para o rosto de Guy. Elas se sentaram devagar, observando como o homem que ontem parecia pronto para incinerar o mundo agora parecia apenas... um homem bonito e muito calmo.
— Ele não parece tão assustador agora — sussurrou Alice, aproximando-se um pouco mais.
— É verdade — Chloe concordou em um fio de voz. — O Professor disse que ele é o namorado dele, então ele deve ser uma boa pessoa no fundo, certo?
Guy abriu um dos olhos. Não houve o brilho ameaçador de costume, apenas uma curiosidade preguiçosa. Ele já sabia que elas estavam acordadas há minutos; seus sentidos eram aguçados demais para serem enganados por crianças.
— O que vocês duas estão tramando? — perguntou Guy, sua voz rouca de sono ecoando suavemente.
As meninas deram um pulinho de susto, mas não recuaram.
— Nada! — exclamou Alice, recuperando a coragem. — É que seu cabelo é muito bonito. E muito longo.
Guy sentou-se devagar, encostando as costas na poltrona atrás dele. Ele olhou para Rimuru, que ainda dormia profundamente do outro lado, com Kenya e Ryota abraçados às suas pernas como se ele fosse um urso de pelúcia gigante. O lorde demônio suspirou, uma parte de si querendo manter sua imagem de terror, mas outra parte — a que Rimuru tinha amolecido ao longo dos séculos — cedendo à inocência das garotas.
— É um estorvo para cuidar — resmungou Guy, embora não parecesse realmente irritado.
— Nós podemos cuidar para você! — Alice sugeriu, os olhos brilhando. — Podemos fazer tranças? O Professor sempre diz que a gente precisa praticar coordenação motora!
Guy arqueou uma sobrancelha. Se Dino ou Dagruel o vissem naquela situação, ele teria que matá-los apenas para preservar sua reputação. Mas Rimuru estava ali, e as crianças o olhavam com uma expectativa tão pura que ele se viu incapaz de dizer não.
— Façam o que quiserem — disse ele, fechando os olhos novamente e cruzando os braços. — Mas se puxarem muito forte, eu transformo vocês em estátuas de gelo.
As meninas riram, sabendo que era uma ameaça vazia. Elas correram para buscar escovas e alguns elásticos coloridos que Shuna havia deixado por perto. Durante a meia hora seguinte, o Lorde Demônio do Orgulho tornou-se o modelo pessoal de duas estilistas de dez anos. Elas trançaram pequenas mechas, colocaram laços de fita que encontraram em uma cesta de costura e, para o choque absoluto de qualquer observador externo, Alice tirou um kit de pintura de unhas de sua mochila.
— Guy, você tem mãos muito grandes — comentou Chloe, concentrada enquanto passava um esmalte vermelho cintilante nas unhas dele. — Combina com o seu cabelo.
— Eu não acredito que estou deixando isso acontecer — resmungou Guy, mas ele não moveu um músculo. Havia algo estranhamente relaxante no toque cuidadoso das crianças.
Enquanto isso, do outro lado do tapete, Rimuru começou a se mexer. Ele bocejou, esticando os braços e quase acertando o rosto de Kenya.
— Bom dia, mundo... — murmurou Rimuru, sentando-se e esfregando os olhos azul-prateados. — Ai, minhas costas. Acho que não tenho mais idade para dormir no chão.
— Professor! Você acordou! — Kenya e Ryota pularam sobre ele, iniciando uma luta de travesseiros improvisada.
— Ei, ei! Calma aí, seus monstrinhos! — Rimuru ria, tentando se defender com um travesseiro enquanto agia de forma manhosa e sarcástica. — Eu sou um Lorde Demônio, sabiam? Eu deveria ser respeitado e temido, não usado como trampolim!
— Você é o nosso professor! — gritou Ryota, conseguindo derrubar Rimuru de volta no tapete. — E professores têm que brincar com os alunos!
Rimuru olhou para o lado e sua risada parou abruptamente. Ele arregalou os olhos ao ver Guy Crimson sentado solenemente com o cabelo cheio de trancinhas e laços cor-de-rosa, enquanto Chloe terminava de pintar o dedo mindinho dele de um vermelho brilhante.
— Guy... o que... o que aconteceu com você? — Rimuru tentou conter o riso, mas falhou miseravelmente, soltando uma gargalhada que ecoou pelo salão.
— Cale a boca, Rimuru — disse Guy, sem abrir os olhos, embora um leve sorriso brincasse no canto de seus lábios. — Elas disseram que era um treinamento de coordenação. Eu estou apenas sendo um colaborador educacional.
— Você está adorável, querido — Rimuru provocou, aproximando-se e dando um beijo rápido na bochecha do namorado. — Acho que vou adotar esse visual para você em todas as reuniões do Walpurgis.
Nesse momento, Shuna entrou no salão, carregando bandejas de café da manhã e algumas mudas de roupa. Ela parou, observou a cena e sorriu com aquela doçura que escondia uma autoridade inquestionável.
— Vejo que todos já estão se divertindo — disse ela. — Meninas, venham comigo. Preparei algo especial para o passeio de hoje. E meninos, Rimuru-sama tem roupas novas para vocês também.
Shuna levou Alice e Chloe para um quarto anexo. Minutos depois, elas saíram usando vestidos bufantes em tons de lavanda e azul, com rendas delicadas e fitas que as faziam parecer pequenas princesas de Tempest. Os meninos receberam túnicas de seda resistentes, mas elegantes, que lembravam o traje de combate de Rimuru, mas em versões mais coloridas e juvenis.
— Uau! Eu pareço um cavaleiro! — exclamou Gale, admirando-se no espelho.
— E eu pareço um lorde! — Kenya estufou o peito, imitando a pose de Guy.
Rimuru também trocou de roupa, optando por um conjunto mais leve para o passeio. Guy, por sua vez, apenas estalou os dedos. Em um flash de luz rúnica, suas unhas voltaram ao normal e seu cabelo se desfez das tranças, mas ele manteve um dos laços de fita preso discretamente no pulso, algo que apenas Rimuru percebeu.
O grupo saiu para caminhar pela capital. As ruas de Tempest estavam vibrantes. Monstros de todas as espécies acenavam para Rimuru, mas o que realmente chamava a atenção era o grupo peculiar. O líder da nação e o Lorde Demônio primordial caminhavam lado a lado, cercados por cinco crianças humanas que corriam de um lado para o outro, apontando para as lojas e para os jardins suspensos.
— Olhem! É a barraca de espetinhos do Sr. Gobta! — Kenya saiu correndo, seguido pelos outros meninos.
Rimuru e Guy caminhavam logo atrás, em um passo mais lento.
— Eles realmente gostam daqui — comentou Guy, observando as crianças interagirem com os cidadãos sem nenhum medo. — A maioria dos humanos morreria de terror só de ver um orc, mas eles os tratam como vizinhos.
— É porque eles foram ensinados por mim — Rimuru deu um sorriso orgulhoso. — Eles não veem monstros, Guy. Eles veem pessoas.
Durante o passeio, o clima de "família" tornou-se inegável. Quando Alice tropeçou em uma pedra e ralou o joelho, não foi Rimuru quem chegou primeiro, mas Guy. O Lorde Demônio agachou-se e, com um toque quase imperceptível de magia de cura, fechou o ferimento instantaneamente.
— Levante-se — disse Guy, com uma voz firme, mas não severa. — Um guerreiro não chora por um arranhão.
Alice limpou as lágrimas, olhou para o joelho curado e abraçou o pescoço de Guy.
— Obrigada, Tio Guy!
Guy ficou estático por um segundo. "Tio Guy". O ser que era o epítome do medo estava sendo chamado de tio por uma órfã humana. Rimuru, observando de lado, sentiu o coração aquecer. Ele se aproximou e envolveu os dois em um abraço, logo sendo cercado pelos outros meninos que pularam no meio da confusão.
— Grupo de abraço! — gritou Ryota.
— Saiam de cima de mim, seus pirralhos! — Guy reclamava, mas suas mãos estavam segurando as crianças para que elas não caíssem.
Eles passaram a tarde em um parque gramado perto do lago. Ali, a dinâmica de "pais e filhos" se consolidou de vez. Rimuru e Guy acabaram cedendo aos pedidos insistentes para uma "luta de treinamento".
— Tudo bem, tudo bem! — Rimuru levantou as mãos. — Eu e o Guy contra vocês cinco. Mas sem magias de destruição em massa, Kenya!
A luta foi mais uma brincadeira de pega-pega acrobática. Rimuru usava sua agilidade para desviar das investidas desordenadas dos meninos, enquanto Guy se divertia bloqueando os ataques de Alice e Chloe com apenas um dedo, provocando-as para que tentassem mais forte.
— Vocês são lentos! — Guy zombava de forma carinhosa, dando um peteleco na testa de Kenya. — Minha avó se moveria mais rápido que isso, e eu nem tenho uma avó!
— Ah é? Toma essa! — Kenya tentou um chute giratório que Rimuru ensinou, e Guy o pegou pelo pé, girando-o no ar antes de colocá-lo suavemente no chão.
As crianças estavam exaustas, mas não paravam de rir. Elas se sentiam seguras. Pela primeira vez desde que perderam suas famílias e foram levadas para Ingracia, elas sentiam que pertenciam a algum lugar. Elas olhavam para Rimuru e viam não apenas um mestre, mas um protetor, um pai que as guiava com sarcasmo e amor. E olhavam para Guy e viam o pilar de força, o "pai sério" que, apesar de resmungar, estava sempre lá para segurá-las.
Quando o sol começou a se pôr, pintando o céu de violeta e laranja, o cansaço finalmente venceu a energia juvenil. Eles voltaram para o castelo, onde Shuna já havia preparado um jantar leve.
Após a refeição, todos se reuniram novamente no grande salão. Desta vez, não houve brincadeiras. O ambiente era de pura paz. Rimuru sentou-se em um sofá largo, e imediatamente Chloe e Alice se aninharam em seus braços. Kenya e Ryota deitaram-se no tapete, apoiando as cabeças nos joelhos de Guy, que estava sentado em uma poltrona próxima.
— Professor... — Chloe disse baixinho, quase dormindo. — A gente pode morar aqui para sempre?
Rimuru sentiu um nó na garganta. Ele olhou para Guy, que retribuiu o olhar com uma expressão suave, desprovida de sua habitual arrogância.
— Vocês sempre terão um lugar aqui — respondeu Rimuru, beijando o topo da cabeça de Chloe. — Tempest é a casa de vocês tanto quanto é a minha.
— O Tio Guy também vai estar aqui? — perguntou Gale, abrindo um olho para olhar o lorde de cabelos vermelhos.
Guy hesitou por um momento, então colocou a mão sobre a cabeça de Gale, afagando o cabelo do menino de forma desajeitada.
— Eu estarei por perto — disse Guy. — Alguém precisa garantir que o Rimuru não transforme vocês em lodos preguiçosos.
As crianças riram baixinho e, uma a uma, foram se entregando ao sono profundo. Alice dormia abraçada à cintura de Rimuru, enquanto Kenya segurava a mão de Guy como se fosse um tesouro.
Rimuru olhou para a cena, sentindo uma satisfação que nenhum título de Lorde Demônio ou conquista territorial jamais poderia dar. Ele era um slime, um monstro, um rei... mas ali, naquele momento, ele era apenas alguém que amava e era amado.
— Você realmente se apegou a eles, não foi? — sussurrou Rimuru para Guy.
— Eles são persistentes — Guy respondeu, sem tirar a mão da cabeça de Gale. — E são corajosos. É uma combinação perigosa. Eles me lembram você, de certa forma.
Rimuru sorriu, fechando os olhos e deixando sua cabeça pender para o lado, encostando-se em Alice.
— É um bom tipo de perigo — murmurou Rimuru.
A noite caiu sobre a Capital dos Monstros. Lá fora, os guardas patrulhavam silenciosamente, e o Dragão da Tempestade, Veldora, lia seus mangás em algum canto do jardim. Mas dentro do palácio, o tempo parecia ter parado. Dois dos seres mais poderosos da existência estavam desarmados, servindo de travesseiro para cinco crianças humanas que, em seus sonhos, não viam lordes demônios ou ameaças mundiais. Elas viam apenas a família que o destino, de forma tão estranha e generosa, lhes havia dado.
E assim, entre roncos leves e o calor da lareira, Rimuru Tempest adormeceu, sabendo que, não importava o que o futuro reservasse, aquele pequeno pedaço de caos e amor era tudo o que ele realmente precisava proteger.