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Descobrir

Entre o Trovão e o Pecado

A tempestade lá fora parecia querer colocar a delegacia abaixo, mas dentro daquela sala, o caos era de uma natureza muito mais devastadora. O som da chuva batendo contra o vidro era apenas um ruído de fundo para a sinfonia de prazer e desespero que as duas mulheres compunham sobre a mesa de carvalho.

Giovanna não era apenas uma delegada; naquele momento, ela era uma força da natureza, uma tempestade tão implacável quanto a que inundava as ruas do Rio. Suas mãos, acostumadas a empunhar armas e prender criminosos, agora seguravam as coxas de Maya com uma possessividade que beirava o delírio. Cada estocada era um lembrete de que, apesar dos meses de silêncio e das mágoas acumuladas, os corpos delas ainda falavam a mesma língua.

— Gio... oh Deus, Gio... — Maya arqueava as costas, a cabeça pendendo para trás. O prazer era tão intenso que chegava a ser doloroso, uma queimação doce que se espalhava por cada terminação nervosa.

Giovanna não parava. Ela aumentou o ritmo, os olhos fixos nos de Maya, devorando cada expressão de entrega da advogada. Ela queria marcar Maya, queria que a sensação de ser dela fosse tão profunda que nenhuma Mariana, nenhum outro toque, pudesse jamais apagar.

— Você é minha, Maya — rosnou Giovanna, a voz falhando pelo esforço físico e pela emoção bruta. — Sempre foi minha.

— Eu sou... eu sou... — Maya mal conseguia completar a frase, as palavras se perdendo em um gemido alto quando Giovanna atingiu o ponto exato, movendo-se com uma força que fazia a mesa de madeira vibrar contra o chão.

O clímax veio como um raio cortando o céu escuro. Maya sentiu as paredes de seu corpo se contraírem violentamente ao redor de Giovanna, um espasmo que a fez perder o fôlego. Giovanna soltou um urro baixo, sentindo o próprio ápice chegar com uma intensidade que a deixou tonta. Ela se enterrou em Maya uma última vez, segurando-a como se sua vida dependesse daquele contato, enquanto ambas desabavam em uma respiração ofegante e descompassada.

O silêncio que se seguiu foi denso, quebrado apenas pelos trovões distantes e pelo som das gotas pesadas de suor que caíam no chão. Giovanna apoiou a testa no ombro de Maya, sentindo o coração da ex-mulher batendo freneticamente contra o seu peito. A adrenalina estava baixando, e com ela, a realidade começava a se infiltrar novamente pelas frestas da sala.

Maya foi a primeira a se mover, suas mãos ainda trêmulas acariciando a nuca de Giovanna. Havia uma tristeza profunda misturada ao prazer que acabara de sentir. Elas tinham acabado de cruzar uma linha que juraram nunca mais ultrapassar.

— O que a gente fez, Gio? — sussurrou Maya, a voz embargada.

Giovanna se afastou lentamente, o olhar nublado. Ela começou a se recompor, pegando as roupas espalhadas pelo chão com uma agilidade mecânica, voltando a vestir a armadura de delegada que havia acabado de despir.

— O que a gente sempre faz — respondeu Giovanna, sem olhar nos olhos dela. — A gente se destrói porque não sabe como se amar sem se machucar.

Maya desceu da mesa, sentindo o corpo dolorido e a humidade entre as pernas, um lembrete físico da recaída. Ela se vestiu em silêncio, a calcinha de renda agora parecendo um fardo pesado. O moletom largo de Giovanna, que ela usava para se secar da chuva, ainda tinha o cheiro da delegada, um cheiro que agora parecia sufocá-la.

— Isso não muda nada — disse Maya, tentando firmar a voz. — Você ainda me tratou como um objeto na frente daquela mulher. Você ainda me afastou da sua vida.

Giovanna parou de abotoar a camisa e finalmente olhou para ela. Seus olhos não eram mais os da amante voraz de minutos atrás; eram os olhos cansados de uma mulher que carregava o peso do mundo nas costas.

— Eu fiz o que achei que era certo para te proteger, Maya. E ver você com a Mariana... ver você sorrindo para ela como se o nosso passado não significasse nada... eu perdi o controle. Eu sou humana, porra.

— Você não tem o direito de perder o controle sobre a minha vida! — Maya deu um passo à frente, a raiva voltando a borbulhar. — Você não pode me dar um gelo por meses e depois decidir que pode me possuir em cima de uma mesa de trabalho só porque sentiu ciúmes!

— E você? — Giovanna rebateu, aproximando-se. — Você vem aqui, no meu território, com esse olhar de quem está perdida e aceita cada toque meu. Você me provocou, Maya. Desde o momento em que entrou naquela delegacia com aquela agente federal, você sabia exatamente o que estava fazendo.

— Eu não provoquei nada! Eu estava tentando seguir em frente! — As lágrimas finalmente começaram a cair, quentes e salgadas. — Eu estava tentando ver se existia vida depois de você, Giovanna. E você não me deixa ir. Você me puxa de volta para esse buraco negro toda vez que eu tento ver a luz.

Giovanna sentiu um aperto no peito que nenhuma bala jamais causaria. Ela estendeu a mão para limpar uma lágrima no rosto de Maya, mas a advogada recuou, como se o toque a queimasse.

— A luz não está com a Mariana, Maya. Ela é perigosa. Você sabe como esse jogo funciona. Ela está aqui para me investigar, para achar uma falha no meu comando. Se ela descobrir sobre nós... sobre a nossa filha... ela vai usar isso contra mim. E contra você.

— Ela não é esse monstro que você pintou na sua cabeça — disse Maya, embora no fundo sentisse a semente da dúvida plantada por Giovanna. — Ela me trata bem. Ela é leve. Coisa que você nunca permitiu que a gente fosse.

— Leveza não resolve crime, Maya. Leveza não protege a nossa filha dos inimigos que eu fiz nesses anos todos.

— Mas a leveza me mantém sã! — gritou Maya. — Eu não sou uma das suas investigadas, Giovanna! Eu não sou um caso para você resolver!

O som de um raio particularmente forte iluminou a sala, revelando a distância emocional que agora se abria entre elas, apesar da proximidade física. Giovanna suspirou, passando a mão pelo cabelo curto, parecendo subitamente exausta.

— A chuva parou um pouco. Eu vou te levar para casa. Seu carro não vai ligar hoje.

— Eu posso chamar um guincho agora que o sinal voltou — disse Maya, pegando o celular na mesa.

— Não seja teimosa. Está tarde, as ruas estão alagadas e eu não vou deixar você sozinha no meio desse caos. Entra no carro, Maya. É uma ordem.

Maya soltou uma risada amarga.

— Uma ordem? Você esquece que não sou sua subordinada.

— Sou a mãe da sua filha e a mulher que acabou de te fazer gritar meu nome. Isso me dá autoridade suficiente por hoje.

Sem esperar resposta, Giovanna pegou sua chave e sua jaqueta de couro, caminhando em direção à porta. Maya ficou parada por um segundo, olhando para a mesa desarrumada, para os processos espalhados que agora carregavam o DNA de sua rendição. Ela se sentia pequena, usada e, ao mesmo tempo, desesperadamente conectada àquela mulher.

O trajeto até o apartamento de Maya foi feito em um silêncio sepulcral. O limpador de para-brisa da viatura descaracterizada de Giovanna trabalhava freneticamente, mas nada parecia capaz de limpar a tensão dentro do veículo. Giovanna dirigia com uma mão no volante e a outra apoiada no câmbio, os nós dos dedos brancos.

Quando finalmente pararam na frente do prédio de Maya, a chuva tinha voltado a cair com força.

— Obrigada pela carona — disse Maya, a mão já na maçaneta.

— Maya, espera.

Ela parou, mas não se virou.

— O que aconteceu hoje... — Giovanna começou, a voz rouca. — Eu não me arrependo. Mas eu sei que compliquei as coisas.

— Você não complicou, Giovanna. Você as destruiu. Como você vai olhar para a Mariana amanhã? Como eu vou olhar para ela?

— Mariana não é o problema. O problema somos nós. A gente nunca soube ser "ex", não é?

Maya finalmente olhou para ela. O rosto de Giovanna estava nas sombras, mas seus olhos brilhavam com uma vulnerabilidade que ela raramente mostrava.

— A gente nunca soube ser nada além de um incêndio, Gio. E incêndios só deixam cinzas.

Maya saiu do carro e correu para a entrada do prédio, sem olhar para trás. Giovanna ficou ali, observando-a desaparecer atrás das portas de vidro, sentindo o frio do Rio de Janeiro penetrar em seus ossos. Ela ligou o rádio, tentando abafar o som dos próprios pensamentos, mas a única coisa que conseguia ouvir era o eco do gemido de Maya em seu ouvido.

Ela sabia que a guerra estava apenas começando. Mariana Costa não era boba e, na manhã seguinte, as perguntas viriam. Giovanna teria que decidir se continuaria jogando o jogo das sombras ou se finalmente colocaria todas as cartas na mesa, mesmo que isso significasse perder o distintivo — ou o que restava do seu coração.

Ao chegar em sua própria casa, Giovanna foi direto para o quarto da filha. A pequena dormia serenamente, alheia ao turbilhão que as mães viviam. Giovanna sentou-se na beirada da cama e acariciou o cabelo da menina.

— Eu vou consertar isso, pequena — sussurrou para o escuro. — Eu prometo que vou trazer ela de volta.

Mas, enquanto as palavras saíam de sua boca, Giovanna sabia que a promessa era difícil de cumprir. No Xeque-Mate que era sua vida, ela acabara de fazer um movimento arriscado demais. Ela tinha ganhado uma batalha na mesa de carvalho, mas sentia que estava prestes a perder a guerra pela alma de Maya Manoela.

Longe dali, em seu apartamento, Maya estava debaixo do chuveiro quente, tentando lavar o toque de Giovanna de sua pele. Mas, por mais que esfregasse, a sensação das mãos fortes da delegada e o calor de sua invasão pareciam tatuados em sua memória. Ela encostou a cabeça no azulejo frio e chorou. Chorou pela perda da sua paz, pela traição a si mesma e pelo fato terrível de que, se Giovanna batesse em sua porta naquele exato momento, ela provavelmente abriria.

O telefone de Maya vibrou sobre a pia. Era uma mensagem de Mariana.

*“Espero que tenha chegado bem em casa, Maya. A tempestade está feia. Pensei em você o tempo todo. Amanhã a gente se vê?”*

Maya olhou para a tela, o estômago revirando. O triângulo estava formado, e as linhas eram feitas de arame farpado. Ela não respondeu. Apenas desligou o celular e se afundou no silêncio da noite, esperando que o amanhecer trouxesse alguma resposta que não fosse regada a sangue ou lágrimas.