Descobrir
Point of View — Giovanna Torres Voltei para casa por volta das sete da noite. Estava completamente exausta. O dia na delegacia tinha sido um inferno, cheio de depoimentos, problemas e gente querendo resolver tudo em cima da hora. Tudo o que eu queria era tomar um banho quente e apagar. Assim que fechei a porta atrás de mim, ouvi uma voz conhecida. — Opa... a delegada! Antes que eu pudesse entender o que estava acontecendo, outra voz veio logo em seguida: — Mão pra cima! Fechei os olhos e me virei devagar, já bufando. — Puta que pariu, Larissa... você tinha mesmo que fazer isso? Ela abriu um sorriso enorme. — Bora, doutora! Passei a mão no rosto, cansada. — Ah, não fode, Larissa... Ela caiu na risada, se divertindo com a minha cara. — Pronto, pronto... valeu cada segundo. Cruzei os braços. — Como é que você entrou aqui? — Ué... eu tenho a chave reserva. Você esqueceu lá em casa outro dia. Aproveitei pra vir te fazer um sustinho. Balancei a cabeça, incrédula. — Um dia eu ainda troco essa fechadura. — Duvido. Olhei para a sacola que ela carregava. — Veio armada? Ela ergueu uma garrafa e duas taças. — Com bebida, obviamente. Um sorriso pequeno acabou escapando. — Claro que tinha bebida no meio... Larissa entrou de vez na sala e colocou tudo sobre a mesa de centro. — Claro, minha parceira. Você passou o dia inteiro estressada na delegacia. Tava parecendo uma panela de pressão, as fumaças fervendo na cachola. Se eu não viesse te salvar, você ia dormir de cara feia. Soltei uma risada baixa pela primeira vez no dia. — Você fala muita merda. — Mas tô errada? Suspirei, tirando a arma da cintura e deixando sobre o aparador antes de afrouxar a gravata. — Não... infelizmente não. Ela me entregou uma taça já servida. — Então senta aí. Hoje você não é a delegada Giovanna Torres. Hoje você é só a minha amiga que precisa desligar a cabeça por algumas horas. Olhei para ela por alguns segundos e, pela primeira vez desde que saí da delegacia, senti que talvez eu realmente conseguisse respirar um pouco. Peguei a taça, bati de leve na dela. — Valeu por aparecer... mesmo do jeito mais idiota possível. Larissa sorriu de canto. — Disponha. Mas da próxima vez eu entro usando uma sirene. Aí o susto fica completo. Revirei os olhos, rindo. — Você definitivamente nasceu pra me tirar do sério. Dei um gole no vinho e afundei no sofá, soltando um suspiro longo. — Caramba... eu precisava disso. Larissa sorriu satisfeita. — Eu sei. Sua cara já tá até voltando ao normal. — Minha cara tava tão ruim assim? — Parecia que você queria prender metade da cidade. Soltei uma risada nasal. — Hoje quase aconteceu isso. Ela me olhou, apoiando o cotovelo no encosto do sofá e aproximando-se um pouco, com aquele ar de quem quer arrancar a verdade mesmo. — E aí, conta direito. Essa tal Mariana Costa... além de chegar querendo tomar conta do caso, o que mais tem? Por que ficou com essa cara de quem mastigou limão o dia todo? Mexi o líquido na taça, observando a cor escura do vinho girar devagar. — Ela não pede licença, não pede permissão. Fala como se já estivesse no comando há anos, olha nos olhos como se soubesse tudo o que estou pensando. E o pior: tenho certeza que já vi ela antes, em algum lugar que não é a delegacia. Mas a memória trava, não vem o momento exato. — Talvez seja em alguma reunião, curso ou evento de polícia de outro estado? — sugeriu Larissa. — Não, não é esse tipo de lembrança — respondi, franzindo a testa. — É mais... pessoal. Mais perto. Mas não consigo colocar o dedo no ponto. Ela ficou em silêncio por alguns segundos, depois mudou de assunto com aquele tom de quem quer descomplicar a cabeça. — E falando em pessoas que mexem com você... e a Manoela? Revirei os olhos com força, quase engasgando com o próprio vinho, e cortei logo: — Quem disse que essa maluca mexe comigo? — Ah, para, vai! — ela bateu levemente na minha perna, rindo da minha cara de defesa. — Vocês são ex-esposas, tiveram um fim muito maluco, cara… tudo por causa de trabalho, brigas, orgulho. E uma hora você dorme na mesma cama de quem diz odiar. Apertei a taça com mais força, sentindo o rosto esquentar. — Larissa… ela dormiu aqui porque não estava bem, só isso! Ela bebeu, eu não ia deixar a mãe da minha filha ir embora alterada, né? Fiz o que qualquer pessoa decente faria. Ela me olhou de lado, arqueou a sobrancelha e deu um sorriso travesso, balançando a cabeça. — Humrum… tu bem que gostou, safada. Te conheço melhor do que a palma da minha mão. — Não gostei! — rebati firme, desviando o olhar. — Gostou. — Não gostei! Ela se aproximou mais, segurou levemente o meu queixo e me obrigou a olhar para ela. — Olha pra mim, Giovanna. Agora fala de novo. Engoli seco, sentindo a garganta travar. — Que?… Não gostei. Larissa ficou me encarando por um segundo, depois soltou o queixo e sorriu com toda a certeza do mundo. — Gostou. E não adianta mentir pra mim, nem pra você mesma. Fiquei ali, sem saber o que responder, sem ter argumentos que bastassem contra aquela verdade que eu tentava esconder de mim mesma. Soltei o ar de uma vez, derrotada, e me joguei mais no sofá. — Tá, tá… foi. Mas como é que essa porra você sabe melhor do que eu mesma? Larissa deu uma risada baixa, satisfeita por finalmente me ver admitir nem que fosse um pedacinho da verdade, e bateu de leve no meu ombro. — Porque eu sou a sua sombra há anos, Giovanna. Vejo o jeito que você fecha a cara quando ela chega, o jeito que você respira fundo antes de responder, como se estivesse segurando um monte de coisa que não quer deixar sair. E quando alguém não importa de verdade… não precisa de tanta defesa, não fica tão perturbada assim. Ela aproximou a taça da minha outra vez, com um sorriso mais suave agora. — Você pode fingir para o mundo, fingir para ela, até tentar fingir para você mesma. Mas comigo não cola. Não quando o assunto é a Manoela. Suspirei, aceitando o vinho, e fiquei olhando para o líquido escuro. — Pois é… parece que não adianta nem tentar. (....) Acordei com uma leve dor de cabeça. Fechei os olhos de novo por alguns segundos, tentando lembrar o motivo, até que a conversa da noite anterior veio à mente. — Porra... nunca mais. Eu e Larissa ficamos conversando até tarde, rindo de tudo, relembrando histórias antigas e esvaziando quase duas garrafas de vinho. Parecia uma boa ideia na hora. Agora, nem tanto. Levantei devagar, fiz minha higiene, tomei um banho demorado e bem quente para tentar espantar o cansaço, e vesti a farda. Quando saí do quarto, vi que a Larissa já tinha ido embora — deixou apenas uma caneca suja na pia e um bilhete pequeno na mesa: “Bom dia, cabeça dura. Respira fundo hoje.” Balancei a cabeça, rindo sozinha. — Idiota... Guardei o bilhete no bolso da calça, preparei um café bem forte e fiz um café da manhã simples. Comi sem pressa, tentando acordar de vez. Assim que terminei, peguei as chaves do carro e saí de casa. Point off view Maya Manoela Garcia Eu já estava no fórum há algum tempo, sentada à minha mesa tentando focar nos processos, mas a cabeça não parava. Revirava as mesmas lembranças: a briga com Giovanna, o jeito frio dela, Antônia e aquela aproximação que me doía, e depois Mariana. Suspirei, fechei os olhos por um instante e pensei: Hoje vai ser um daqueles dias onde parece que todo mundo está colidindo com todo mundo… e eu bem no meio. Abri os olhos de novo, peguei os papéis, mas não consegui evitar de olhar para a porta — como se esperasse que qualquer momento chegasse uma notícia, ou uma surpresa, ou mais uma confusão. Abaixei a cabeça de novo para os papéis, tentando com todas as forças me concentrar nos autos, mas a voz que veio da porta me fez parar imediatamente. — Atrapalho a grande advogada do Rio de Janeiro? Levantei o rosto depressa, e lá estava Mariana, encostada no batente da porta, com um sorriso de canto, vestida com o uniforme da Federal, parecendo ainda mais confiante do que da última vez. Senti o rosto esquentar de leve, mas respondi com firmeza, fechando a pasta devagar: — Não atrapalha… surpreende. Achei que ia estar na delegacia brigando com a delegada por causa do caso. Ela entrou devagar na sala, fechou a porta atrás de si e deu de ombros, aproximando-se da mesa. — A gente vai ter tempo de sobra para isso. Mas primeiro, resolvi passar aqui. Queria ver você de novo, sem pressa, sem olhares curiosos por perto. Além disso, precisava confirmar uma coisa: você não vai fugir de mim outra vez, vai? Dei uma risada baixa, cruzando os braços. — Fugir? Eu nem sabia que estava sendo perseguida. Mariana sorriu de canto. — Ah, estava sim. Desde o primeiro momento em que a gente se encontrou. Inclinei a cabeça, analisando-a. — Você costuma ser tão convencida assim ou isso faz parte do treinamento da Federal? Ela levou a mão ao peito, fingindo estar ofendida. — Nossa... essa doeu. — Sobrevive. Ela riu. — Gostei de você. — Isso pode ser um problema. — Pode. O silêncio tomou conta da sala por alguns segundos. Mariana caminhou até a janela, observando o movimento do lado de fora antes de voltar a me encarar. Deu alguns passos em minha direção, parou bem na minha frente e, sem pressa, estendeu a mão para puxar suavemente a minha cintura, aproximando meu corpo do dela. — Posso? — perguntou baixinho, primeiro fixando os olhos nos meus, depois desviando o olhar devagar para os meus lábios. Não tive tempo nem palavras para responder; apenas acenei com a cabeça, quase sem querer. Ela aproximou o rosto devagar, uniu os nossos lábios num beijo calmo, mas cheio de intenção — diferente de tudo o que eu tinha sentido nos últimos tempos. O beijo foi breve, mas deixou todo o meu corpo arrepiado. Quando nos afastamos um pouco, Mariana ficou ali bem perto, a respiração ainda levemente alterada, e sorriu de um jeito mais suave. — Maya, eu trouxe um... — começou ela, mas parou de repente ao ver a porta se abrir devagar. — Maya? — chamou Ana Clara, que entrou sem bater, parou no limiar e arregalou os olhos ao ver a cena. Eu me afastei depressa de Mariana, sentindo o rosto queimar de vergonha, e fiquei sem saber onde colocar as mãos. Mariana apenas sorriu de canto, tranquila como se nada tivesse acontecido, e acenou com a cabeça para Ana. — Desculpa interromper — disse Ana, mas já deixava claro que tinha visto tudo. — Mas tem um assunto urgente sobre o caso dos Colins que precisa da sua assinatura antes do meio-dia. Eu respirei fundo, tentando recuperar a compostura. — Claro, já vou ver. Obrigada, Ana. Mariana deu um passo para trás, mas não saiu sem antes passar o polegar levemente sobre o meu lábio, bem de leve, só para mim. — A gente continua isso depois — sussurrou, baixinho, antes de virar-se para Ana com um aceno educado. — Com licença. Assim que a porta fechou, Ana cruzou os braços e arqueou as sobrancelhas, olhando para mim com aquele sorriso travesso. — Nossa… o que aconteceu aqui? Você e a policial estavam se pegando, não é mesmo? Tá indo rápido demais, hein minha amiga! Revirei os olhos e me sentei de volta à cadeira, escondendo o rosto nas mãos por um instante. — Não, para com isso! Não é nada disso. Eu não quero me envolver com ela, nem com ninguém agora. Tenho muita coisa na cabeça, muita confusão… não é hora. Ela balançou a cabeça, rindo baixo, e aproximou-se um pouco mais. — Oxi… tu é igual a Gabriela, é? Não muda de opinião nem com nada. Tu nasceu assim, cresceu assim, e vai ser sempre assim: diz que não quer, mas os olhos e o corpo entregam direitinho. Suspirei, sem saber o que dizer, e ela continuou mais suave: — E amoré… ontem mesmo tu disse que ia tentar não ficar parada, que ia mostrar que também podia seguir em frente. E agora aparece alguém que te olha como se tu fosse a única coisa no mundo, e tu já quer fugir? — Não é fugir… é medo — confessei baixinho. — Medo de complicar mais ainda tudo, medo de me machucar de novo, ou de machucar ela. Ana tocou levemente o meu ombro. — Ou de fazer a Giovanna finalmente acordar para a realidade? Porque convenhamos: se ela ver você com outra, com uma mulher dessas… a frieza dela vai derreter mais rápido do que gelo no sol. .... Cheguei à delegacia e mal consegui me sentar — minutos depois, a porta se abriu com força e Mariana entrou, com aquele ar de quem já manda no lugar todo. — Bom dia, delegada Torres — disse ela, sorrindo de lado, provocativa. — Dormiu bem? Ou passou a noite toda pensando em como vai dividir o caso comigo? Revirei os olhos, não perdendo a pose. — Dormi como uma pedra. Diferente de algumas pessoas, não tenho tanto trabalho assim para ficar girando na cabeça — retruquei, mas parei de repente quando meus olhos bateram nos lábios dela. Estavam brilhantes, manchados de um batom vermelho que não era o dela. — E você? Parece que passou a manhã bem ocupada… suja de batom assim. Tava se pegando com alguma mulher por aí, Agente Costa? Mariana nem se incomodou, passou o dedo levemente no canto da boca e sorriu mais ainda. — E daí? — Cuidado — alfinetei, com sarcasmo. — As cariocas não costumam ser boazinhas não, agente Costa. Elas pegam e depois deixam qualquer um. Ela ia responder, mas a rádio tocou forte, chamando as duas para uma ocorrência urgente: perseguição em via pública com suspeita de ligação ao caso dos Colins. — Depois a gente termina essa conversa — disse ela, já se virando para sair. (...) Passamos o resto do dia lado a lado, perseguindo pistas, entrevistando testemunhas, trocando farpas e provando que, apesar de tudo, trabalhávamos bem juntas — mesmo que cada uma quisesse levar a melhor. Quando a noite caiu, voltamos para a delegacia para arquivar os últimos relatórios. Saímos juntas pela porta da frente, cansadas, quando Mariana parou de repente, olhou para o lado e sorriu de um jeito que nunca tinha visto antes. — Ali está a gatinha com quem eu tava saindo — disse ela, alto o suficiente para eu ouvir. Virei depressa para a direção que ela apontava, e o coração deu um salto dolorido no peito. Era ela. Era a Maya. A minha Maya. Ela estava encostada ao carro, mexendo no celular. Vestia uma calça social bege, uma camisa branca de mangas dobradas e os cabelos presos em um coque baixo, deixando algumas mechas caírem sobre o rosto. Como se tivesse sentido meu olhar, ela levantou a cabeça. Nossos olhos se encontraram. Por alguns segundos, todo o barulho da rua desapareceu. Só existíamos nós duas. Vi a surpresa tomar conta da expressão dela — a mesma surpresa que eu sentia. Mariana não percebeu o peso daquele silêncio. Acenou animada. — Maya! Ela atravessou a rua sem pensar duas vezes e parou bem na frente dela. Vi Mariana abrir um sorriso e dar um beijo demorado no rosto de Maya. Meu estômago revirou. — Achei que você já tivesse ido embora — comentou Mariana. Maya sorriu, mas seus olhos continuavam presos nos meus. — Resolvi esperar um pouco... Mariana passou um braço pelos ombros dela com naturalidade. — Que coincidência... Estava justamente falando de você. Meu maxilar travou com força. Maya percebeu — conhecia cada reação minha, cada detalhe do que eu sentia antes mesmo que eu dissesse. Ela desviou delicadamente do abraço de Mariana, dando um pequeno passo para o lado. — Delegada... boa noite — disse ela, com a voz calma mas distante. Respirei fundo, tentando manter a postura firme, e respondi no mesmo tom: — Boa noite, doutora. Mariana olhou de uma para a outra, franzindo a testa, sem entender a tensão que pairava no ar. — Espera aí... vocês estão estranhas. Nem eu nem Maya respondemos. O silêncio ficou mais pesado ainda. Ela riu, coçando a nuca, confusa. — Tá... o que eu perdi? Olhei diretamente para Mariana, sem desviar o olhar nem por um segundo. — Nada — cortei seco, virando-me logo em direção ao meu carro. — Vou embora, tenho que buscar minha filha hoje. Com licença. Dei passos rápidos, sem olhar para trás, mas sentia o olhar delas duas queimando nas minhas costas. O silêncio dentro do meu carro era ensurdecedor, quebrado apenas pelo som rítmico da chuva fina que começava a cair contra o para-brisa. Eu segurava o volante com tanta força que os nós dos meus dedos estavam brancos. A imagem de Mariana — aquela agente petulante, invasiva e irritantemente eficiente — com o braço em volta dos ombros de Maya não saía da minha mente. Era como se um soco tivesse atravessado meu peito e arrancado todo o ar dos meus pulmões. — "A gatinha com quem eu estava saindo" — repeti as palavras de Mariana em um sussurro carregado de veneno. Minha mente trabalhava em uma velocidade perigosa. Maya. A minha Maya. A mulher que compartilhou anos da vida comigo, que conhecia meus medos mais profundos e que ainda era a mãe da minha filha. Ver outra pessoa tocá-la com aquela intimidade casual... doía de um jeito que eu não estava preparada para admitir. Liguei o motor e saí dali antes que cometesse a loucura de voltar e exigir explicações. Eu não tinha esse direito. Éramos ex-esposas. O "ex" deveria significar algo, certo? Mas, enquanto eu dirigia em direção à casa dela l para buscar a Helena, a única coisa que eu conseguia sentir era o gosto amargo do ciúme e uma desconfiança crescente. Mariana não sabia. Ela não fazia ideia de que a advogada que ela estava cortejando era a mulher que destruiu — e construiu — o meu coração. Point of View Maya Manoela Garcia O ar parecia ter ficado escasso no momento em que a porta da delegacia se abriu e Giovanna saiu por ela. Eu já esperava que o encontro entre as duas fosse tenso no trabalho, mas não estava preparada para ser o centro daquela colisão. Ver o rosto de Giovanna se transformar de exaustão em choque, e depois em uma fúria contida, foi como assistir a um desastre em câmera lenta. Ela me olhou como se eu tivesse cometido o crime mais imperdoável do mundo. E, por um segundo, o peso da culpa me esmagou, mesmo que eu não devesse nada a ela. — Maya? Tá tudo bem? — A voz de Mariana me trouxe de volta à realidade. Ela ainda sorria, mas havia uma sombra de dúvida em seus olhos claros. — Você ficou branca de repente. — Está... está tudo bem — menti, forçando um sorriso que não chegou aos meus olhos. — Só foi um dia longo. Mariana me soltou, percebendo que eu estava desconfortável, mas ainda mantinha uma proximidade que agora me parecia sufocante. — A delegada Torres é sempre assim? — Mariana perguntou, olhando na direção onde o carro de Giovanna tinha acabado de arrancar. — Grossa e apressada? Ela parecia que ia ter um colapso só de olhar para a gente. — Ela tem muita responsabilidade, Mariana. E hoje o caso dos Colins foi pesado — respondi, tentando manter a voz neutra. — E ela tem uma filha para buscar. Mariana deu de ombros, guardando as mãos nos bolsos da jaqueta da Federal. — Sei lá. Tive a impressão de que o problema dela era pessoal. Mas enfim... que tal aquele jantar que combinamos? Eu conheço um lugar incrível aqui perto. Eu olhei para o asfalto molhado. O beijo de mais cedo no meu escritório ainda ecoava na minha memória, mas a visão de Giovanna partindo com o maxilar travado tinha apagado qualquer rastro de entusiasmo que eu pudesse ter. — Mariana, eu... eu realmente não estou me sentindo muito bem. Acho que a pressão do fórum hoje me pegou. Podemos deixar para outro dia? Ela me estudou por um momento. Mariana era inteligente, treinada para ler pessoas, e eu sabia que ela sentia que algo estava errado. Mas, por sorte, ela decidiu não pressionar. — Tudo bem, doutora. Eu te levo até o seu carro. Mas não pense que vai se livrar de mim tão fácil. Ela me acompanhou e, antes que eu entrasse no veículo, inclinou-se para um beijo rápido no canto da boca. — Boa noite, Maya. — Boa noite — respondi, fechando a porta e sentindo um alívio imediato ao ficar sozinha. O trajeto até o meu apartamento foi um borrão. Eu só conseguia pensar no olhar de Giovanna. Era o mesmo olhar de quando brigávamos por causa das minhas horas extras, ou de quando ela sentia que eu estava escondendo algo. Mas havia algo mais: uma mág