Descobrir
Colisão de Destinos
A chuva fina que batia no para-brisa do carro parecia ditar o ritmo frenético do meu coração. Eu dirigia de forma automática, mas minha mente estava estagnada naquela calçada, revendo a cena em looping: o braço de Mariana sobre os ombros de Maya, a intimidade casual, o sorriso vitorioso daquela agente federal que parecia ter vindo ao Rio de Janeiro apenas para destruir o pouco de paz que me restava.
— "A gatinha com quem eu estava saindo" — murmurei para o vazio do carro, sentindo um gosto amargo subir pela garganta.
Cada palavra de Mariana era como uma farpa cravada na minha pele. Eu sabia que não tinha o direito de cobrar nada. Estávamos separadas. O divórcio era um fato consumado, assinado e carimbado. Mas ver Maya, a mulher que eu conhecia em cada detalhe, cada curva e cada silêncio, sendo exposta daquela forma por uma estranha... era demais para o meu autocontrole.
Estacionei na frente do prédio de Maya com uma freada brusca. Eu precisava buscar Helena. Era o meu dia, meu momento de ser mãe e esquecer o distintivo, esquecer os crimes e, principalmente, esquecer que a minha ex-esposa estava se envolvendo com a mulher que queria roubar o meu caso.
Subi o elevador sentindo o sangue pulsar nas têmporas. Quando a porta se abriu, eu não bati; usei a minha chave. Sim, eu ainda tinha a chave. E, naquele momento, o privilégio que antes parecia um sinal de respeito mútuo parecia uma arma apontada para o meu próprio peito.
Maya ainda não tinha chegado. Helena estava na sala com a babá, brincando com alguns blocos de montar. Assim que me viu, a pequena correu em minha direção, os bracinhos estendidos.
— Mamãe Gio! — O grito dela foi a única coisa capaz de suavizar a linha dura do meu rosto.
— Oi, meu amor. — Peguei-a no colo, enterrando o rosto em seu pescoço, aspirando aquele cheiro de criança que sempre me salvava do abismo. — Pronta para ir para casa?
— A mamãe Maya disse que vinha logo — disse Helena, com a sinceridade que só as crianças possuem. — Ela falou que ia encontrar uma amiga.
Apertei os olhos por um segundo. Amiga. Então era assim que Maya estava chamando a agente Costa?
— É, eu sei, meu bem. Vamos arrumar suas coisas.
Dez minutos depois, eu estava terminando de fechar a mochila de Helena quando ouvi o som da chave na fechadura. A porta se abriu e Maya entrou. Ela parecia exausta. O coque estava desfeito, os fios loiros caindo desordenadamente sobre os ombros, e os olhos... os olhos dela estavam carregados de uma melancolia que eu conhecia bem.
O silêncio que se instalou na sala foi cortado apenas pelo som da televisão ligada em algum desenho animado. Maya parou na entrada, a bolsa ainda no ombro, observando-me com uma cautela que me irritava profundamente.
— Oi — disse ela, a voz quase um sussurro.
— Oi — respondi, sem olhar diretamente para ela. — Helena já está pronta.
— Giovanna... sobre o que aconteceu agora há pouco, na delegacia... — Ela começou a falar, dando um passo à frente, mas eu a cortei com um gesto de mão.
— Não precisa explicar nada, Maya. Você é uma mulher livre. Pode sair com quem quiser, até com agentes federais arrogantes que acham que o mundo gira em torno delas.
Maya soltou um suspiro pesado, jogando a bolsa no sofá.
— Não começa. Eu não planejei nada disso. Mariana apareceu no fórum, nós conversamos e...
— E ela te beijou no escritório? — Arrisquei, vendo o rosto dela corar instantaneamente. — Acertei, não foi? O batom dela na delegacia... era o seu.
Maya desviou o olhar, o que foi a confirmação de que eu precisava. Senti uma pontada de ciúme tão forte que precisei me segurar na quina da mesa para não dizer algo de que me arrependeria.
— Você não tem o direito de me olhar assim — disse Maya, recuperando a voz e a postura defensiva. — Nós não estamos mais juntas, Giovanna. Você deixou isso bem claro quando saiu de casa há seis meses.
— Eu saí porque não aguentava mais as brigas, Maya! Porque o trabalho estava consumindo a gente e você não fazia questão de ceder um milímetro! — Minha voz subiu um tom, e Helena, percebendo a tensão, encolheu-se no sofá.
Percebi o erro imediatamente. Respirei fundo, tentando baixar a guarda.
— Não vamos fazer isso na frente dela — murmurei.
— Então vá embora — rebateu Maya, os olhos brilhando com lágrimas que ela se recusava a deixar cair. — Leve a Helena e vá. Amanhã a gente se fala.
Peguei a mochila e a mão de minha filha. Antes de sair, parei na porta e olhei para Maya por cima do ombro.
— Só toma cuidado — avisei, a voz rouca. — Mariana Costa não está aqui para brincar. Ela quer o caso dos Colins, e ela vai usar qualquer pessoa para conseguir o que quer. Inclusive você.
Saí sem esperar resposta.
O resto da noite foi um borrão de cuidados com Helena. Dei banho, fiz o jantar, li uma história até que ela finalmente adormecesse. Mas o silêncio do meu apartamento, que antes eu chamava de paz, agora parecia um mausoléu de lembranças. A voz de Larissa ecoava na minha cabeça: "Tu bem que gostou, safada... você pode fingir para o mundo, mas comigo não cola."
Eu odiava o fato de que Larissa estava certa. Eu odiava o fato de que, mesmo depois de tudo, o cheiro de Maya ainda parecia impregnado na minha pele toda vez que eu chegava perto dela. E odiava, acima de tudo, que Mariana Costa tivesse descoberto o meu ponto fraco em menos de quarenta e oito horas.
No dia seguinte, a delegacia estava um caos ainda maior. O caso dos Colins havia ganhado uma nova ramificação: um dos suspeitos tinha sido localizado em um galpão na Baixada Fluminense.
Eu estava debruçada sobre o mapa tático quando a porta da minha sala se abriu sem bater. Eu nem precisei olhar para saber quem era. O perfume importado e o som das botas táticas a denunciavam.
— Temos uma pista quente, delegada — disse Mariana, jogando uma pasta sobre a minha mesa.
— Eu já sei do galpão, Costa. Minha equipe está monitorando desde as seis da manhã — respondi, sem levantar os olhos.
Mariana caminhou até a minha cafeteira, servindo-se como se fosse a dona da casa.
— Ah, é? E você sabe que o suspeito não está sozinho? Que ele tem ordens para queimar os arquivos assim que sentir qualquer movimentação?
Finalmente levantei a cabeça. Mariana me encarava com um sorriso de canto, mas seus olhos tinham um brilho diferente hoje. Ela parecia satisfeita, quase radiante.
— O que você quer, Mariana?
— Quero que trabalhemos juntas de verdade — disse ela, aproximando-se da mesa. — Sem essa guerrinha de egos. Eu sei que você é boa no que faz, Torres. E você sabe que eu tenho os recursos que você não tem.
— E a Maya? — A pergunta saiu antes que eu pudesse contê-la.
Mariana arqueou uma sobrancelha, o sorriso se alargando.
— O que tem ela?
— Ela faz parte da sua estratégia de "recursos"? — Perguntei, sentindo o sarcasmo transbordar. — Sair com a ex-esposa da delegada encarregada é um jeito bem criativo de conseguir informações privilegiadas.
Mariana soltou uma risada curta, balançando a cabeça.
— Você é mais insegura do que eu imaginei. Maya é uma mulher incrível, inteligente e... muito atraente. O fato de ela ser sua ex é apenas um detalhe picante, mas eu garanto que o meu interesse nela não tem nada a ver com o distintivo que você carrega.
— Se você machucar ela... — Comecei a ameaçar, levantando-me da cadeira.
— Você vai fazer o quê? — Ela me interrompeu, ficando a poucos centímetros do meu rosto. — Vai me prender por sedução? Acorda, Giovanna. Se você ainda sente algo por ela, deveria ter lutado quando teve chance. Agora, saia do caminho e me deixe trabalhar.
Ela se virou para sair, mas parou na porta, olhando-me com um desprezo velado.
— Ah, e só para constar... o beijo dela é ainda melhor do que eu imaginei.
O estalo que deu na minha mente foi quase físico. Eu queria pular por cima daquela mesa e apagar aquele sorriso do rosto dela na base da força bruta. Mas eu era a delegada. Eu tinha uma reputação. Eu tinha uma filha.
Sentei-me novamente, as mãos tremendo levemente. Peguei o rádio.
— Equipe A, preparem-se. Vamos invadir o galpão em trinta minutos. E avisem a Federal... eles vêm com a gente.
A operação foi tensa. O galpão era um labirinto de containers e fumaça. Houve troca de tiros, correria e o cheiro metálico de pólvora impregnando o ar. Em meio ao caos, vi Mariana se movimentando com uma precisão cirúrgica. Ela era letal, rápida e não hesitava. Por um momento, senti uma pontada de respeito profissional, que foi rapidamente esmagada pela memória dela beijando Maya.
Conseguimos prender dois suspeitos e recuperar um notebook que parecia conter a contabilidade da organização. Quando a poeira baixou, estávamos todos do lado de fora, ofegantes, enquanto os peritos isolavam a área.
Mariana veio em minha direção, limpando uma mancha de fuligem no rosto.
— Nada mal, Torres. Formamos uma boa dupla.
— Não se acostume — respondi, guardando minha arma no coldre.
Meu celular vibrou no bolso. Era uma mensagem de Maya.
"Giovanna, Helena perguntou por você. Ela esqueceu o ursinho favorito no seu carro. Pode passar aqui depois do plantão?"
Eu sabia que era uma desculpa. Helena tinha vários ursos. Maya queria conversar. Ou talvez ela quisesse apenas verificar se eu ainda estava inteira depois da operação que, com certeza, já devia estar nos portais de notícias.
Olhei para Mariana, que agora estava distraída falando ao rádio com sua base. Uma ideia perigosa começou a tomar forma na minha mente.
— Ei, Costa! — Chamei.
Ela se virou, curiosa.
— Eu vou passar na casa da Maya agora. Buscar umas coisas da minha filha. Você não quer vir junto? Afinal, vocês estão "saindo", não é?
Mariana estreitou os olhos, tentando decifrar o meu jogo.
— O que você está aprontando, delegada?
— Nada. Só achei que seria educado. Já que vamos trabalhar juntas por um longo tempo, melhor integrarmos as famílias, não acha?
O desafio estava lançado. Mariana deu um sorriso de quem aceitava a aposta.
— Tudo bem. Eu sigo você.
O trajeto até o apartamento de Maya foi o mais longo da minha vida. Eu estava agindo por impulso, movida por uma mistura tóxica de ciúme e necessidade de marcar território. Eu queria ver como Maya reagiria ao nos ver juntas. Queria que ela visse que eu não estava intimidada.
Quando chegamos e tocamos a campainha, Maya abriu a porta esperando me encontrar sozinha. Ao ver Mariana logo atrás de mim, seu rosto passou por uma sucessão de cores: pálido, vermelho e, finalmente, um tom de choque absoluto.
— Giovanna? Mariana? O que... o que está acontecendo? — Perguntou ela, olhando de uma para a outra.
— Viemos trazer o ursinho da Helena — menti, entrando na sala sem ser convidada. — E a agente Costa resolveu me acompanhar. Ela disse que estava com saudades.
Mariana, percebendo o clima pesado, resolveu entrar no personagem. Ela caminhou até Maya e, com uma ousadia que me fez trincar os dentes, deu um beijo casto em sua bochecha.
— Desculpe a surpresa, Maya. A delegada foi tão insistente que eu não pude recusar o convite.
Maya parecia querer que o chão se abrisse. Ela olhou para mim com uma fúria silenciosa que prometia uma tempestade para mais tarde.
— Helena está no quarto — disse Maya, a voz tensa. — Vou chamá-la.
— Não precisa — eu disse, sentando-me no sofá de forma possessiva. — Eu vou lá. Vocês duas podem... conversar. Aproveitem o tempo.
Caminhei em direção ao corredor, mas parei antes de entrar no quarto de Helena. De onde eu estava, podia ouvir os sussurros na sala.
— Por que você veio com ela, Mariana? — A voz de Maya era carregada de reprovação.
— Ela me desafiou, Maya. E você sabe que eu não recuso um desafio. Além disso, eu queria ver você.
— Isso é loucura. A Giovanna está fora de si. Vocês duas vão acabar se matando e eu vou estar no meio do fogo cruzado.
— Talvez — disse Mariana, e eu podia imaginar o sorriso cínico em seu rosto. — Mas admita... é emocionante ver a delegada Torres perdendo o controle por sua causa.
Fechei os olhos, encostando a testa na parede fria do corredor. Eu estava perdendo o controle. Larissa estava certa, Maya estava certa, e até aquela maldita federal estava certa.
Eu ainda amava Maya Garcia. E o pior de tudo era que eu não sabia se o que eu sentia por Mariana era ódio puro ou uma admiração distorcida que me assustava ainda mais.
— Mamãe? — A voz pequena de Helena me despertou.
Ela estava parada na porta do quarto, segurando o cobertor.
— Oi, meu amor. — Peguei-a no colo. — Vamos lá na sala? Tem uma visita.
Quando voltamos para a sala, o cenário tinha mudado. Maya e Mariana estavam sentadas em poltronas opostas, mantendo uma distância profissional. A tensão era quase palpável, como um fio de alta tensão prestes a romper.
— Helena, olha quem veio te ver — disse Maya, tentando soar natural.
Helena olhou para Mariana com curiosidade.
— Você é a moça que deu o beijo na mamãe? — Perguntou a menina, com a inocência devastadora das crianças.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Maya ficou roxa. Mariana soltou uma risada nervosa. E eu... eu senti como se o mundo tivesse parado de girar.
— Helena, o que você disse? — Perguntei, a voz falhando.
— Eu vi no escritório da mamãe — disse Helena, apontando para Maya. — A tia Ana abriu a porta e eu vi.
Olhei para Maya. Ela não conseguia sustentar o meu olhar. Olhei para Mariana, que agora parecia um pouco menos confiante, mas ainda mantinha a pose.
— Acho que é a minha deixa — disse Mariana, levantando-se rapidamente. — Maya, a gente se fala depois. Delegada... vejo você amanhã na delegacia.
Ela saiu apressada, deixando para trás um rastro de destruição emocional.
Ficamos apenas nós três. Helena, confusa com o silêncio dos adultos, voltou para o quarto para pegar seu brinquedo. Eu me aproximei de Maya, que ainda estava sentada, com as mãos cobrindo o rosto.
— No seu escritório, Maya? — Perguntei, a voz baixa e carregada de mágoa. — Na frente da nossa filha?
— Foi um erro, Giovanna! — Ela gritou, levantando-se de um salto, as lágrimas finalmente transbordando. — Um erro que aconteceu porque eu estou perdida! Porque você foi embora e me deixou aqui com esse vazio imenso! E aí aparece alguém que me olha, que me quer, que me faz sentir viva de novo...
— E essa pessoa tinha que ser logo ela? — Rebati, aproximando-me até que nossos corpos quase se tocassem. — Logo a mulher que está tentando destruir a minha carreira?
— Ela não quer destruir você, Giovanna! Isso é o seu orgulho falando!
— É o meu coração falando, porra! — Gritei de volta, segurando-a pelos braços.
O silêncio voltou, mas desta vez era diferente. Estávamos ofegantes, os rostos a centímetros de distância. A raiva, o ciúme, a dor e o desejo se misturavam em uma combustão perigosa.
Maya me olhou nos olhos, e por um segundo, vi a mulher por quem eu me apaixonei no primeiro dia da faculdade de Direito. A mulher que eu prometi proteger de tudo, inclusive de mim mesma.
— Vai embora, Giovanna — sussurrou ela, embora suas mãos estivessem segurando a minha farda com força.
— Eu não consigo — confessei, a voz falhando.
E, sem pensar nas consequências, sem pensar em Mariana, no caso dos Colins ou no amanhã, eu a beijei. Foi um beijo desesperado, amargo e cheio de uma necessidade que nos consumia há meses. Maya correspondeu com a mesma intensidade, suas mãos subindo para o meu pescoço, puxando-me para mais perto.
Era errado. Era confuso. Era um xeque-mate onde ninguém ganharia o jogo. Mas, naquele momento, no meio da sala iluminada apenas pela meia-luz do abajur, éramos apenas Giovanna e Maya, tentando encontrar o caminho de volta para casa em meio a um campo minado.
A perseguição estava longe de acabar, e o perigo real ainda estava lá fora, mas o verdadeiro campo de batalha era aquele apartamento. E a guerra estava apenas começando.