Destinados
Entre as Flores de Vidro e o Som do Silêncio
O som de saltos batendo contra o mármore do hall de entrada é o metrônomo que dita o ritmo da mansão Bennett hoje. Acordei com o burburinho atípico, uma agitação que atravessa até as paredes grossas do meu quarto. Quando desço as escadas, encontro o cenário de uma operação de guerra disfarçada de etiqueta social.
Cestas de orquídeas brancas e lírios de um tom tão puro que parecem irreais estão espalhadas pelos corredores. Funcionários da empresa de decoração medem a distância entre os candelabros com trenas a laser, enquanto minha mãe, Eleanor, caminha entre eles como uma general revisando suas tropas.
— Não, as toalhas de linho belga precisam ser engomadas novamente — ouço-a dizer a uma assistente que parece estar prestes a desmoronar sob o peso da prancheta. — E as flores... eu pedi especificamente que não houvesse pólen aparente. Se algum convidado espirrar por causa de um lírio mal preparado, a culpa será sua.
Meu pai, Michael, está parado perto da janela do escritório, falando ao telefone com uma intensidade que raramente demonstra em público. Ele gesticula, a testa franzida em uma linha de concentração absoluta. Quando me vê, ele apenas faz um aceno seco com a cabeça, voltando imediatamente para a conversa sobre ações e fusões.
O café da manhã é rápido e desprovido de qualquer conversa que não envolva a logística do jantar da próxima semana.
— Este evento é o alicerce do nosso próximo semestre, Mikaela — diz minha mãe, sem tirar os olhos de uma amostra de tecido de seda. — Os Carter estarão aqui. É uma parceria que seu pai vem costurando há meses. Preciso que você esteja impecável. Sem distrações, sem aquele olhar distante que você costuma ter em jantares.
— Entendido, mãe — respondo, terminando meu café. — Os Carter. Vou me lembrar.
O nome não significa nada para mim. É apenas mais um sobrenome em uma lista interminável de pessoas ricas que cheiram a perfume caro e falam sobre o mercado imobiliário. Para mim, são apenas rostos que se fundem em uma massa homogênea de privilégio.
Sinto um alívio quase físico quando entro no carro para ir à fundação. Seattle parece mais real através do vidro do carro do que qualquer coisa dentro daquela mansão. Quando chego à fundação, o caos de flores e tecidos é substituído pelo som de risadas infantis e o cheiro reconfortante de papel e cola colorida.
— Mikaela, ainda bem que você veio! — Clara me cumprimenta, segurando uma pilha de livros ilustrados. — Hoje vamos fazer uma oficina de leitura na sala azul. Você pode me ajudar com os menores?
— Com certeza.
Passo a manhã cercada por crianças que não se importam com o meu sobrenome. Ajudo uma professora a organizar uma contação de histórias sobre um dragão que não queria soltar fogo, mas sim fazer bolhas de sabão. É um contraste gritante com a seriedade da minha casa. Ali, o maior problema é decidir qual cor de giz de cera usar para pintar as escamas do dragão.
No canto da sala, noto um menino chamado Leo. Ele é novo na fundação e sempre se mantém à margem, observando tudo com olhos grandes e cautelosos. Enquanto as outras crianças correm e gritam, ele permanece sentado em um puff, apertando um dinossauro de pelúcia contra o peito.
Eu não tento forçá-lo a se juntar ao grupo. Sei como é se sentir observado e pressionado a desempenhar um papel. Em vez disso, apenas me sento no chão, a cerca de um metro de distância dele, e começo a organizar alguns livros de figuras em silêncio.
Passam-se dez minutos. Depois quinze.
Lentamente, sem dizer uma palavra, Leo se arrasta um pouco mais para perto. Ele estende o dinossauro de pelúcia na minha direção, como se estivesse me oferecendo um tesouro secreto.
— Ele tem medo do dragão da história — sussurra o menino, a voz tão baixa que quase se perde no barulho da sala.
— É mesmo? — respondo, mantendo o tom suave, sem olhar diretamente para ele para não assustá-lo. — O meu dragão também tinha medo. Mas ele descobriu que as bolhas de sabão são muito mais divertidas que o fogo.
Leo dá um pequeno aceno de cabeça e, pela primeira vez, relaxa os ombros. Ele se senta ao meu lado, e ficamos ali, em um silêncio compartilhado que parece ser o único momento de paz genuína que tive em dias.
Clara passa pela porta e me lança um olhar de aprovação, um sorriso discreto brincando em seus lábios. Mais tarde, enquanto guardamos os materiais, ela se aproxima.
— Você tem um dom, Mikaela — comenta ela, enquanto guardamos os puffs. — O Leo não deixou ninguém chegar perto dele a manhã toda. As crianças se sentem seguras com você. Você não as invade.
— Eu só... eu entendo como é querer um pouco de espaço — respondo, sentindo um calor no peito que nada tem a ver com a temperatura ambiente.
O almoço na copa é, novamente, o ponto alto do meu dia. Comemos uma feijoada simples que um dos voluntários trouxe. A conversa gira em torno de quem vai ganhar o jogo de beisebol no fim de semana e das piadas ruins do segurança. Eu me pego rindo — uma risada de verdade, que vem do estômago — de uma história sobre um gato que ficou preso em uma caixa de pizza.
Por um momento, esqueço que sou uma Bennett. Esqueço que existe um jantar de negócios, esqueço as expectativas de Eleanor e os silêncios pesados de Michael. Ali, sou apenas Mikaela.
Mas o relógio é implacável. Às três da tarde, o motorista já está me esperando.
Ao retornar para a mansão, o cenário mudou. A entrada agora está tomada por grandes estruturas de metal que serão usadas para uma cobertura no jardim. O som de marteladas e ordens gritadas preenche o ar. Chefs de cozinha, vestidos com dólmãs brancos impecáveis, discutem com minha mãe sobre a consistência do consommé e a temperatura ideal do cordeiro.
— Mikaela, suba agora — ordena minha mãe, sem desviar o olhar do menu. — A estilista trouxe o vestido para a prova final. Não podemos perder tempo.
Subo para o meu quarto, onde uma mulher de expressão severa me espera com uma capa de tecido preto que protege o que deve ser uma pequena fortuna em seda e bordados.
— Tire a roupa, por favor — diz ela, com a eficiência de um cirurgião.
O vestido é de um azul-marinho tão escuro que parece quase preto sob certas luzes. Ele se ajusta ao meu corpo como uma segunda pele, frio e pesado. Enquanto a estilista faz ajustes milimétricos na bainha, a porta do quarto se abre e meu pai entra. Ele está com um tablet na mão, mas para por um momento para me observar.
— Ficou bom, Eleanor — diz ele para minha mãe, que entrou logo atrás dele. — Transmite a seriedade necessária. Esse acordo com os Carter não é apenas financeiro, é estratégico. Eles controlam o setor logístico que precisamos para a expansão.
— Eu sei, Michael — responde minha mãe, ajeitando uma mecha do meu cabelo com um toque que é mais possessivo do que afetuoso. — Mikaela estará perfeita. Ela sabe o que está em jogo.
— Os Carter são pessoas exigentes — continua meu pai, voltando a olhar para o tablet. — O patriarca, Silas, não tolera erros. E o filho... bem, ouvi dizer que ele está assumindo boa parte das operações agora. Eles são a peça que falta para consolidarmos nossa posição.
— Carter — repito o nome mentalmente, enquanto a estilista espeta um alfinete perto da minha cintura.
Para mim, o nome não evoca nada além de mais uma noite de sorrisos falsos e conversas vazias. Não imagino quem seja Silas, muito menos o filho dele. Na minha mente, eles são apenas obstáculos entre mim e o silêncio do meu quarto. São apenas mais dois pratos a serem servidos, mais dois apertos de mão calculados.
— Pode tirar — diz a estilista, finalmente.
Quando eles saem, o quarto mergulha em um silêncio que parece quase ensurdecedor após o caos do andar de baixo. Vou até a janela e afasto as cortinas pesadas.
Lá embaixo, no jardim, as luzes de trabalho iluminam os operários que montam a estrutura da recepção. Eles se movem como sombras contra o gramado perfeitamente aparado. Daqui a alguns dias, este lugar estará cheio de pessoas que fingem se importar umas com as outras, enquanto negociam o destino de milhares de dólares em cada gole de champanhe.
Sinto um aperto familiar no peito. A sensação de que sou apenas mais um detalhe na decoração, tão estática e polida quanto os vasos de porcelana da dinastia Ming que minha mãe exibe na sala de estar.
Caminho até a minha estante e pego o livro de sebo. Abro-o na página onde o marcador de Melissa está guardado. As estrelas desenhadas por ela, agora desbotadas, são o meu único norte. Penso no desenho da menina da fundação, no dinossauro de pelúcia do Leo, no gosto do almoço compartilhado.
Fecho os olhos e tento segurar essas memórias, tentando impedir que o azul-marinho do vestido e o peso do sobrenome Bennett as apaguem.
O jantar está chegando. A família Carter está chegando. O mundo lá fora parece estar prendendo a respiração, esperando por esse encontro que, segundo meus pais, mudará tudo.
Mas para mim, enquanto fecho as cortinas e apago a luz, é apenas mais uma noite em que preciso me esconder para conseguir existir. Eu não sei quem são os Carter, e honestamente, não me importo. Só espero que, quando as luzes do salão se apagarem e o último convidado for embora, eu ainda consiga encontrar o caminho de volta para quem eu sou de verdade.
O problema é que, às vezes, as máscaras que usamos acabam se fundindo à pele, e eu temo que, neste jantar, a pressão seja forte demais para que eu saia ilesa.
Lá fora, o vento de Seattle sopra contra o vidro, trazendo o presságio de uma tempestade que ninguém na mansão parece notar, ocupados demais com o brilho das flores de vidro e o som do próprio poder.