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Destinados

O Peso da Armadura e o Gosto do Suor

O silêncio do meu quarto não é um refúgio, é uma escolha. As paredes são cinzas, despidas de qualquer ostentação que grite o nome Carter para quem quer que entre aqui. Não há quadros renascentistas ou relíquias de família em pedestais iluminados. Apenas uma cama larga, uma escrivaninha de madeira escura e o essencial. A organização não é obsessiva, é funcional. Eu preciso saber onde cada coisa está para não perder tempo com o que não importa.

Acordo antes do despertador, como de costume. O corpo já está programado para a rotina, mesmo que a mente, às vezes, deseje um pouco mais de caos.

Desço as escadas e o som ambiente da casa já está em pleno funcionamento. A mansão Carter é um organismo vivo, movido a prazos e expectativas. Na sala de jantar, o cheiro de café forte e torradas se mistura ao perfume floral discreto de Margaret. Minha madrasta está sentada à cabeceira lateral, impecável em um conjunto de seda creme, revisando algo no celular. Meu pai, Vincent, está na outra ponta, o jornal digital aberto à sua frente e uma expressão que sugere que ele já resolveu três crises globais antes das sete da manhã.

— Bom dia — digo, puxando a cadeira.

— Bom dia, Damon — Margaret responde com um sorriso suave. Ela sempre tenta manter uma nota de leveza na mesa, o que eu aprecio, mesmo que raramente retribua com a mesma energia. — Você vai passar na sede da logística hoje ou vai direto para a empresa principal?

— Vou passar na logística primeiro — respondo, servindo-me de café preto. — A frota nova está com um atraso na homologação. Quero ver isso de perto.

Vincent levanta os olhos do tablet. O olhar dele é como um scanner, avaliando meu nível de prontidão.

— Faça isso. Precisamos de tudo rodando perfeitamente até o final do mês — ele faz uma pausa, tomando um gole de café. — E não se esqueça do jantar dos Bennett na quinta-feira.

O nome Bennett paira sobre a mesa como uma névoa fria.

— Eu sei, pai. Você já mencionou isso três vezes esta semana.

— Mencionei porque é vital, Damon — a voz dele endurece um pouco, o tom de comando que ele usa nas salas de reuniões. — Os Bennett são tradicionais, influentes e controlam o porto que precisamos para a expansão internacional. Silas Bennett não é um homem que gosta de informalidades. Ele espera ver um sucessor à altura do que a nossa família representa.

— Eu vou estar lá — respondo, mantendo a voz neutra. — Vou usar o terno certo, apertar as mãos certas e dizer as frases certas. Não precisa se preocupar.

— Não se trata apenas de "estar lá" — Vincent rebate, fechando o tablet com um estalo seco. — Trata-se de mostrar que a Carter Logística está em mãos firmes. Eles têm uma filha, a herdeira. A imagem da família é impecável. Espero que a nossa também seja.

Eu odeio essa parte. A ideia de que minha vida é uma peça de teatro onde o roteiro já foi escrito por gerações de homens de terno que nunca sentiram o cheiro de óleo de motor ou o peso de uma caixa. Para meu pai, o jantar é um tabuleiro de xadrez. Para mim, é apenas mais uma noite em que terei que fingir que me importo com o preço do cristal da taça de champanhe.

— Vou me trocar — digo, levantando-me antes que a conversa se torne um interrogatório.

Duas horas depois, estou no armazém da zona portuária. O contraste com a mansão é o que me mantém são. Aqui, o ar é denso, carregado com o som de empilhadeiras e o bipe constante dos caminhões em marcha à ré.

Caminho pelo pátio e vejo um dos supervisores, um homem chamado Jorge, discutindo com um motorista sobre uma nota fiscal.

— O problema é a conferência no terminal quatro, Damon — diz Jorge assim que me aproximo. Ele nem usa o meu sobrenome, porque sabe que eu não ligo para isso. — Eles estão segurando os contêineres por causa de uma vírgula errada no manifesto.

— Deixe-me ver — pego o tablet da mão dele, analiso os dados por trinta segundos e identifico o gargalo. — Jorge, ligue para o despachante do terminal. Diga que eu autorizei a reclassificação sob o código de urgência 8-B. Se ele reclamar, diga para me ligar diretamente. E avise ao pessoal da manutenção que o caminhão 42 precisa de revisão nos freios antes de pegar a estrada para o Oregon.

— Obrigado, sr. Carter — o motorista diz, parecendo aliviado.

— Damon — corrijo, com um aceno de cabeça. — Me chame de Damon. Bom trabalho.

Eu gosto da eficiência. Gosto de resolver problemas que têm soluções reais, palpáveis. No mundo corporativo de luxo, os problemas são subjetivos, baseados em egos e aparências. Aqui, ou a carga se move ou não se move. É simples. É honesto.

Perto do meio-dia, o peso mental da manhã começa a cobrar seu preço. Eu preciso de outra coisa. Dirijo até a academia de boxe que frequento há anos. Não é um desses lugares de elite com toalhas aromatizadas com eucalipto e água mineral importada. É um galpão com cheiro de couro velho, suor seco e determinação.

Enrolo as bandagens nas mãos com movimentos mecânicos e precisos. Cada volta no pulso é um pensamento sobre a empresa que eu deixo para trás.

— Olha só quem resolveu aparecer para apanhar um pouco — uma voz rouca e divertida ecoa atrás de mim.

É Leo. Meu melhor amigo desde os tempos em que eu era apenas um garoto magricela tentando provar que não era apenas o "filho do dono". Leo trabalha como engenheiro civil, vem de uma família de classe média e é a única pessoa no mundo que não me olha como se eu fosse um cifrão ambulante.

— Você está muito confiante para alguém que quase beijou a lona na semana passada — respondo, terminando de prender a bandagem e calçando as luvas.

— Aquilo foi um tropeço estratégico, Carter. Hoje eu vou desarrumar esse seu cabelo de comercial de shampoo.

Nós subimos no ringue. O treinador, um ex-pugilista que mal fala mas enxerga tudo, faz o sinal.

Começamos o sparring. Leo é rápido, provocador. Ele lança jabs rápidos, testando minha guarda.

— E aí? — ele diz entre um movimento e outro. — Soube que tem um evento de gala essa semana. Vai ter que usar aquela gravata borboleta que te deixa parecendo um pinguim engravatado?

— Pior — respondo, esquivando-me de um gancho de esquerda. — Jantar na mansão Bennett. O ápice do tédio em Seattle.

— Dizem que os Bennett são um saco — Leo ri, circulando o ringue. — Muita etiqueta e pouca alma.

— A maioria dessas famílias é assim. Eles vivem em redomas de vidro, preocupados se a prataria está brilhando o suficiente.

— E a herdeira? — Leo lança um direto que eu bloqueio com o antebraço. — Dizem que ela é o troféu da família. A boneca perfeita da vitrine.

— Provavelmente é só mais uma pessoa vazia seguindo ordens — digo, e sinto uma pontada de irritação que não sei de onde vem. Lanço uma sequência de golpes rápidos, forçando Leo a recuar.

Eu não luto com raiva. A raiva te faz cometer erros. Eu luto com controle. É o único momento do dia em que eu não preciso ser o "Sr. Carter" ou o "herdeiro estratégico". Sou apenas um homem tentando manter o equilíbrio enquanto o mundo tenta me derrubar.

O treino termina e estou encharcado de suor, os pulmões ardendo, mas a mente finalmente limpa.

— Você está ficando mais forte, Damon — Leo diz, enquanto bebemos água encostados nas cordas. — Ou talvez esteja apenas com mais vontade de bater em alguma coisa.

— Talvez os dois.

— Sério, cara. Boa sorte naquele jantar. Se ficar muito insuportável, me manda uma mensagem e eu invento que uma das suas obras desabou ou algo assim.

— Vou manter o celular por perto — sorrio, pela primeira vez no dia de forma genuína.

Volto para casa no fim da tarde. A chuva de Seattle começa a cair, fina e persistente, lavando o asfalto. Ao entrar na mansão, o silêncio é diferente do da manhã. É um silêncio de expectativa.

Margaret me encontra no corredor.

— Você jantou, Damon? O chef preparou um risoto maravilhoso.

— Não estou com muita fome, Margaret. Comi algo rápido depois do treino. Mas obrigado.

— Seu pai está no escritório — ela avisa, com um tom de voz que diz "ele está esperando por você".

Caminho até a porta de carvalho e bato. Vincent está sentado atrás da mesa, a luz de um abajur de latão iluminando apenas suas mãos e os documentos à sua frente.

— Quinta-feira, Damon — ele diz, sem levantar os olhos. — Às oito. O motorista estará pronto às sete e meia.

— Eu estarei pronto — respondo. A frase sai automática, uma promessa vazia que faço para manter a paz.

Subo para o meu quarto. Em cima da escrivaninha, repousa o convite. É um papel de gramatura pesada, com bordas douradas e o brasão dos Bennett em relevo. É elegante, caro e, para mim, parece uma sentença.

Pego o convite e o jogo em cima de uma pilha de relatórios técnicos. Não sinto curiosidade sobre a casa deles, nem sobre a comida, muito menos sobre Mikaela Bennett. Para mim, ela é apenas um nome em um roteiro de negócios, uma peça no tabuleiro que meu pai tanto preza.

Caminho até a janela e observo as luzes da cidade refletidas nas poças de água lá embaixo. Seattle parece fria, distante.

Dizem que os Bennett são impecáveis. Dizem que Mikaela é a filha perfeita.

Eu só espero que a comida seja boa o suficiente para compensar as três horas de conversas sobre o mercado de ações que eu terei que suportar.

Suspiro, apagando a luz do quarto. Amanhã será mais um dia de logística, problemas reais e suor no ringue. Mas a quinta-feira... a quinta-feira será o dia de vestir a armadura azul-marinho e entrar no teatro.

O problema é que eu nunca fui um bom ator. E tenho a sensação de que, nesta peça específica, os Bennett não fazem ideia do tipo de convidado que estão prestes a receber.