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Destiny

O Eco do Aço e a Solidão do Lobo

A nevasca lá fora não dava tréguas. O vento uivava contra as paredes de couro da tenda, um som constante que Mulan aprendera a odiar nos últimos três dias. Ela estava sentada sobre as peles, as pernas cruzadas, observando Shan Yu. Ele estava do outro lado da fogueira central, ocupado em consertar uma sela de couro com uma agulha de osso e fios de tendão.

Mulan sentia a força retornar aos poucos, mas com a força vinha a inquietação. Seu flanco ainda latejava, mas a febre havia cedido. Ela era como um animal enjaulado, os olhos castanhos rastreando cada movimento do líder huno.

— Você olha para mim como se esperasse que eu fosse mordê-la a qualquer momento — comentou Shan Yu, sem levantar a cabeça. Sua voz era um barulho baixo, quase fundindo-se ao som do vento.

— Você é um invasor. Um assassino — respondeu Mulan, a voz firme apesar da fraqueza. — O que mais eu deveria esperar?

Shan Yu soltou um riso seco e finalmente ergueu os olhos amarelos. A luz do fogo realçava as linhas duras de seu rosto, as cicatrizes que contavam histórias de batalhas que Mulan só podia imaginar.

— Eu sou um conquistador. Existe uma diferença. Eu não minto sobre minhas intenções. O seu Imperador constrói muros e diz que é para a paz, enquanto envia homens para morrer em desertos que ele nunca pisou. Quem é o verdadeiro assassino?

— Ele protege o povo! — Mulan rebateu, sentindo o sangue subir ao rosto. — Ele mantém a ordem.

— A ordem dele quase a matou — Shan Yu apontou a agulha de osso para ela. — A ordem dele diz que você é uma abominação porque sabe manejar uma espada melhor do que um leque. Diga-me, Mulan... se a sua "ordem" é tão perfeita, por que você está aqui, comigo, e não sendo celebrada em Pequim?

Mulan desviou o olhar, o silêncio caindo sobre a tenda como uma mortalha. A pergunta era uma adaga que ele girava na ferida de sua alma. Ela não tinha resposta. Em vez disso, ela se levantou, cambaleando levemente.

— Onde pensa que vai? — perguntou ele, voltando ao trabalho na sela.

— Preciso de ar.

— Há uma tempestade de gelo lá fora que arrancaria a carne dos seus ossos em minutos. Mas vá em frente. Se quiser morrer de forma tão medíocre depois de sobreviver a uma avalanche, a escolha é sua.

Mulan ignorou o aviso e caminhou até a abertura da tenda. Ao afastar a aba de couro, o frio a atingiu como um soco. A brancura era absoluta; não havia céu, não havia terra, apenas um turbilhão de neve que cegava e sufocava. Ela deu um passo para fora, sentindo o gelo entrar em seus pulmões, e imediatamente seus joelhos cederam. O mundo girou. Antes que pudesse atingir o chão congelado, uma mão massiva agarrou seu braço e a puxou de volta para dentro com uma força bruta.

Shan Yu a jogou de volta sobre as peles. Ele não parecia furioso, apenas entediado, como um mestre lidando com um filhote teimoso.

— A persistência é uma virtude, mas a estupidez é um vício — disse ele, voltando para o seu lugar.

— Eu não vou ficar aqui como sua prisioneira — ela sibilou, recuperando o fôlego.

— Você não é uma prisioneira. As montanhas são suas carcereiras. Eu sou apenas o único que lhe oferece fogo. — Ele jogou um pedaço de carne seca em direção a ela. — Coma. Você vai precisar de energia para sua próxima tentativa de suicídio.

Mulan pegou a carne, mas não comeu de imediato. Ela o observou por um longo tempo.

— Por que me pergunta coisas? — questionou ela, de repente. — Desde que acordei, você me provoca, me questiona sobre o exército, sobre minha família... sobre como eu fiz aquilo na montanha. Se você quer me usar como arma, por que não apenas me quebra?

Shan Yu parou o que estava fazendo. Ele largou a sela e se inclinou para frente, as sombras da tenda fazendo-o parecer ainda maior.

— Porque armas quebradas são inúteis — explicou ele. — Eu quero entender a têmpera do seu aço. Eu já vi muitos homens morrerem por honra, e todos eles tinham o mesmo olhar vazio nos olhos. Mas você... você não lutou por honra no desfiladeiro. Você lutou por desespero. Por amor, talvez? Ou talvez apenas para provar que existia.

— Eu lutei para salvar meu pai — confessou ela, a voz falhando por um breve segundo. — E para proteger meu país.

— E no fim, o seu país a cuspiu fora. — Shan Yu levantou-se e caminhou até um suporte de armas, pegando uma espada curva. Ele a jogou aos pés de Mulan. — Pegue.

Mulan olhou para a lâmina de aço escuro, o gume afiado refletindo o brilho alaranjado das brasas.

— O quê?

— Levante-se. Se você tem força para tentar fugir na nevasca, tem força para segurar uma espada. Mostre-me o que o "Capitão Shang" lhe ensinou. Ou melhor, mostre-me o que você aprendeu sozinha enquanto fingia ser um homem.

Mulan hesitou, mas o instinto de guerreira falou mais alto. Ela agarrou o punho da espada. Era mais pesada que a de seu pai, equilibrada de forma diferente, feita para cortes brutais em vez de estocadas precisas. Ela se levantou, ignorando a dor no flanco, e assumiu uma posição de guarda.

Shan Yu desembainhou sua própria espada imensa. Ele não usava armadura, apenas as vestes de pele, mas sua presença preenchia todo o espaço.

— Ataque-me — ordenou ele.

Mulan não esperou. Ela avançou com um movimento rápido, tentando uma finta que aprendera no acampamento, mas Shan Yu bloqueou o golpe com uma facilidade insultante. O impacto do metal contra o metal vibrou pelos braços de Mulan, quase desarticulando seus ombros.

— Fraco — rosnou ele. — Você está tentando lutar como um soldado imperial. Quadrados, linhas, disciplina... Isso é para homens que têm medo de morrer sozinhos. Você é uma loba, Mulan. Lute como uma.

Ele contra-atacou, um arco descendente que a obrigou a rolar para o lado. Mulan recuperou o equilíbrio e tentou um corte baixo, visando as pernas dele. Shan Yu saltou por cima da lâmina e, com um movimento fluido, usou o punho da espada para atingir o ombro dela, derrubando-a.

— De novo — ele ordenou.

Mulan rosnou, a frustração borbulhando. Ela se levantou, o cabelo negro chicoteando seu rosto. Desta vez, ela não seguiu as formas tradicionais. Ela usou sua agilidade, movendo-se de forma errática, usando o ambiente limitado da tenda a seu favor. Ela chutou uma pilha de lenha em direção a ele e aproveitou a distração para desferir um golpe lateral.

As lâminas se encontraram com um som estridente. Por um momento, eles ficaram travados, rosto a rosto, a respiração de um misturando-se à do outro.

— Melhor — sussurrou Shan Yu, um brilho de aprovação em seus olhos selvagens. — Você tem fogo, garota. Mas o fogo sem controle apenas consome quem o carrega.

Ele aplicou uma pressão súbita, desarmando-a com uma torção de pulso que enviou a espada de Mulan voando para o canto da tenda. Ele não parou por aí; agarrou-a pela frente da túnica e a prensou contra o mastro central da tenda.

Mulan arquejou, as mãos agarrando os pulsos dele, tentando se soltar.

— Por que você se importa? — ela gritou. — Por que não me mata e acaba com isso?

— Porque você é a única coisa neste mundo que é real para mim agora — respondeu Shan Yu, sua voz subitamente baixa e intensa. — Meus homens estão mortos ou perdidos na neve. Meu império está além das montanhas. E você... você é a única que me enfrentou e sobreviveu. Você não é uma mulher, Mulan. Você não é um soldado. Você é uma força. E eu não destruo forças da natureza. Eu as domino. Ou eu as sigo.

Mulan sentiu o coração martelar contra as costelas. Havia algo naqueles olhos amarelos que a aterrorizava mais do que a morte — um reconhecimento. Ele via a escuridão nela, a mágoa da rejeição, a fúria contra um sistema que a queria silenciosa e submissa.

— Eu nunca vou segui-lo — ela declarou, embora sua voz soasse menos confiante do que ela pretendia.

Shan Yu soltou-a lentamente, recuando um passo. Ele guardou sua espada com um movimento preciso.

— Veremos. A tempestade vai durar mais alguns dias. Até lá, você vai comer, vai treinar e vai aprender que a honra é uma mentira que os fracos contam para se sentirem seguros. A única verdade é quem permanece de pé quando a neve para de cair.

Ele voltou para o seu lugar perto do fogo, agindo como se o duelo nunca tivesse acontecido. Mulan permaneceu encostada no mastro, o corpo tremendo de exaustão e adrenalina. Ela olhou para a espada caída no canto e depois para o homem que deveria ser seu maior inimigo.

Pela primeira vez, ela começou a questionar não apenas o que lhe haviam ensinado, mas quem ela realmente queria ser. Se o Império a via como um erro, e o "monstro" a via como uma igual, onde residia a verdadeira justiça?

— Coma a carne — disse Shan Yu, sem olhar para ela. — Amanhã, tentaremos de novo. E desta vez, tente não ser derrubada tão rápido.

Mulan caminhou até a espada, pegou-a e sentou-se longe dele, mas perto do fogo. Ela começou a comer, em silêncio. Lá fora, o mundo era branco e mortal, mas dentro daquela tenda, entre as chamas e o aço, uma nova e perigosa aliança começava a ser forjada nas cinzas de tudo o que ela um dia acreditou ser verdade.

Os dias que se seguiram foram uma dança de hostilidade e aprendizado. Mulan tentou escapar mais duas vezes. Na primeira, Shan Yu a deixou chegar até a borda do acampamento antes de derrubá-la com um laço de corda, arrastando-a de volta pela neve enquanto ria de sua audácia. Na segunda, ela tentou roubar um de seus cavalos remanescentes, mas o animal, tão selvagem quanto o dono, recusou-se a obedecê-la, e Shan Yu apenas observou da entrada da tenda, cruzando os braços com um sorriso de escárnio.

— O cavalo sabe que você ainda está dividida — ele disse naquela noite, enquanto bebiam um caldo quente e gorduroso. — Você quer fugir para um lugar que não a quer mais. Por que luta tanto para voltar para a sua própria gaiola?

— Não é uma gaiola! É minha família! — Mulan rebateu.

— Sua família a ama? — Shan Yu perguntou, sua voz desprovida de sarcasmo pela primeira vez.

— Sim.

— Então eles amarão a mulher que derrotou o exército huno, ou amarão apenas a memória da filha obediente que você nunca conseguiu ser?

Mulan sentiu um nó na garganta. Ela pensou em seu pai, em seu olhar de decepção quando ela falhou com a Casamenteira. Pensou em Shang, no olhar de traição quando descobriu quem ela era.

— Eu fiz o que era certo — sussurrou ela.

— Você fez o que era necessário — corrigiu Shan Yu. — Há uma grande diferença. O "certo" é ditado pelos velhos em palácios. O "necessário" é decidido por aqueles de nós que têm sangue nas mãos.

Ele se levantou e caminhou até ela, entregando-lhe uma pequena pedra de amolar.

— Afie sua lâmina, Mulan. A nevasca está diminuindo. Em breve, as montanhas se abrirão. E você terá que decidir se quer ser a presa que foge ou o lobo que caça.

Mulan pegou a pedra, sentindo sua textura áspera. Ela olhou para Shan Yu e, pela primeira vez, não viu apenas um monstro. Viu um homem que, à sua maneira distorcida, estava lhe dando a única coisa que ninguém mais dera: a liberdade de ser perigosa.

O silêncio da montanha não era mais assustador. Era um convite. E enquanto o som da pedra deslizando contra o aço preenchia a tenda, Mulan soube que, quando a neve finalmente derretesse, a China não reconheceria a mulher que desceria daqueles picos.