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Destiny

O Labirinto de Cinzas e a Liberdade dos Párias

A Grande Muralha era agora apenas uma linha pálida e distante no horizonte, uma cicatriz de pedra que tentava, inutilmente, separar o mundo civilizado do caos indomado. Para Mulan, aquela visão trazia um aperto no peito que não vinha apenas do ferimento em cicatrização, mas de um luto silencioso. Atrás daquela muralha estava tudo o que ela conhecia; à frente, estava apenas a vastidão das estepes e a sombra constante do homem que a levava para o desconhecido.

Eles haviam deixado as montanhas geladas há dois dias. O cavalo de Shan Yu, uma besta negra e musculosa que parecia feita de fumaça e fúria, avançava com passadas firmes sobre a grama seca e rasteira que começava a surgir onde a neve derretia. Mulan era forçada a seguir a pé, amarrada pelo pulso a uma corda longa presa à sela do líder huno.

— Já chega — ela parou abruptamente, cravando os calcanhares na terra batida. — Eu não vou dar mais nem um passo.

Shan Yu puxou as rédeas, fazendo o cavalo relinchar e girar. Ele olhou para trás, a expressão ilegível sob a pele de lobo que cobria seus ombros. O sol pálido de fim de inverno refletia-se em seus olhos amarelos, dando-lhe uma aparência ainda mais predatória.

— O seu corpo diz que você pode andar, mas o seu orgulho diz que você deve parar — disse ele, a voz rouca cortando o silêncio da planície. — Sugiro que ouça o seu corpo. Estamos longe de qualquer lugar onde seus gritos possam ser ouvidos.

— Você disse que eu não era uma prisioneira — Mulan sentiu o calor da raiva subir pelo pescoço, ignorando o tremor em suas pernas exaustas. — Mas aqui estou eu, amarrada como um animal de carga, sendo levada para um lugar onde serei apenas um troféu de guerra.

Shan Yu desceu do cavalo com uma agilidade que sempre surpreendia Mulan. Ele caminhou até ela, a presença dele achatando qualquer tentativa de resistência física que ela pudesse planejar. Ele era vasto, uma montanha de músculos e cicatrizes que exalava o cheiro de couro, suor e fumaça.

— Você é amarrada porque, se eu a soltar, você tentará correr de volta para as pessoas que tentaram executá-la — ele se aproximou, invadindo o espaço pessoal dela até que Mulan pudesse sentir o calor emanando de seu peito. — Diga-me, pequena loba, o que espera encontrar se conseguir cruzar aquela muralha de novo? O perdão do Imperador? O abraço de um General que a deixou para morrer no gelo?

Mulan desviou o rosto, os lábios tremendo.

— Eu prefiro morrer na China do que viver como uma escrava nas suas terras.

— Escrava? — Shan Yu soltou uma risada sombria, um som que parecia vir do fundo de uma caverna. — Minha tribo não tem escravos como os seus mandarins têm. No meu mundo, se você pode segurar uma lâmina e caçar sua própria comida, você é livre. Eu a estou levando para onde sua força não será um crime, mas uma moeda de troca.

— Eu não pedi por isso! — ela gritou, tentando puxar o pulso amarrado.

— Você pediu no momento em que decidiu que não era uma boneca de porcelana — ele rebateu, apertando os olhos. — Você provou que é maior que o destino que lhe deram. Agora, ande.

— Não.

Mulan sentou-se no chão, uma postura de desafio infantil que contrastava com a gravidade da situação. Ela estava exausta, com fome e profundamente ferida emocionalmente. A ideia de ser levada para além das fronteiras do mundo conhecido, para as terras bárbaras dos Hunos, parecia o prego final no caixão de sua identidade.

Shan Yu observou-a por um longo momento. O vento soprava seus cabelos longos e negros, e por um segundo, Mulan viu algo que não era crueldade em seu rosto. Era uma paciência perigosa, a paciência de um caçador que sabe que a presa não tem para onde ir.

— Você é teimosa — ele murmurou, dando um passo à frente. — Eu respeito a teimosia. Mas eu tenho um cronograma a cumprir e minha paciência tem limites que você não quer testar.

— Então me deixe aqui — disse ela, olhando para o horizonte. — Deixe-me para os lobos. Seria mais honroso.

— Honra de novo — ele sibilou, a voz carregada de desprezo. — Você se apega a palavras vazias como se fossem escudos. A honra não vai mantê-la aquecida à noite, nem vai enchê-la de propósito.

Sem qualquer aviso, Shan Yu moveu-se. Antes que Mulan pudesse reagir ou tentar golpeá-lo, ele se inclinou e a agarrou pela cintura com um braço só. Ele a levantou do chão como se ela não pesasse mais que um fardo de feno.

— Me solte! — Mulan começou a se debater, golpeando as costas dele com os punhos. — Seu bárbaro! Me coloque no chão!

— Como desejar — disse ele, mas em vez de soltá-la, ele a jogou por cima do ombro direito.

A cabeça de Mulan ficou pendurada para baixo, e ela viu o chão se movendo enquanto ele caminhava de volta para o cavalo. O sangue subiu para sua cabeça, aumentando sua fúria. Ela continuou a chutar e a xingar, usando todas as palavras que ouvira os soldados usarem no acampamento e que sua mãe teria desmaiado ao ouvir.

— Você não pode me levar assim! — ela protestou, a voz abafada contra as peles que cobriam as costas dele.

— Eu posso e estou fazendo — Shan Yu respondeu calmamente.

Ao chegar ao lado do cavalo, em vez de montá-la na sela, ele a manteve sobre o ombro por um segundo extra. Em um gesto puramente provocativo, ele desferiu um tapa firme e sonoro em sua nádega. Não foi um golpe destinado a causar dor real, mas o som ecoou na planície aberta, carregado de uma insolência que fez o coração de Mulan parar por um milésimo de segundo antes de disparar.

Mulan congelou. O choque daquele contato físico, tão casual e ao mesmo tempo tão dominante, tirou-lhe as palavras. O rosto dela, já vermelho pelo esforço e pela posição, atingiu um tom de carmesim que rivalizava com o estandarte imperial.

— Isso foi para você se lembrar de que, no meu mundo, ações têm consequências — disse Shan Yu, o tom de voz tingido por um divertimento cruel. — E para que pare de gritar. Você está assustando o cavalo.

Ele a colocou transversalmente sobre a sela, de bruços, e montou atrás dela, prendendo-a com um braço poderoso que cruzava suas costas, mantendo-a firme contra o corpo do animal.

— Eu odeio você — ela sussurrou, as lágrimas de humilhação finalmente vencendo a barreira de seus olhos.

— Eu sei — ele respondeu, dando um comando baixo ao cavalo, que começou a trotar em direção ao norte. — Mas o ódio é uma emoção honesta. É muito melhor do que a falsa piedade que seus amigos lhe deram quando a deixaram sangrando na neve. O ódio mantém você viva. O ódio faz você afiar a faca. Use-o, Mulan. Use-o contra mim, se precisar. Mas use-o para sobreviver.

O balanço do cavalo era rítmico. Mulan, incapaz de lutar naquela posição sem cair e se machucar seriamente, acabou sucumbindo ao cansaço. O calor do corpo de Shan Yu atrás dela era uma constante irritante, um lembrete de que ela estava à mercê de um homem que destruíra exércitos. No entanto, havia algo naquela jornada que ela não ousava admitir para si mesma.

Pela primeira vez em sua vida, ela não precisava fingir. Ela não era o filho que seu pai queria, nem a noiva que a casamenteira exigia, nem o soldado que Shang esperava. Ela era apenas Mulan — uma mulher ferida, furiosa e perigosa. E para Shan Yu, isso parecia ser o suficiente.

— Para onde estamos indo, realmente? — ela perguntou após um longo tempo, a voz cansada e despojada de sua agressividade anterior.

— Para as Terras Altas — ele respondeu, olhando para o horizonte onde as nuvens se acumulavam. — Para o lugar onde o vento nunca para e onde os fracos perecem. Minha tribo está esperando por seu líder. Eles esperam que eu traga glória. Em vez disso, estou levando a pessoa que me tirou essa glória.

— Eles vão me matar — disse ela, uma constatação simples.

— Eles vão tentar — Shan Yu corrigiu, e Mulan pôde sentir a vibração de sua voz em suas próprias costas. — Mas você vai mostrar a eles o que mostrou para mim. Você vai mostrar que o aço mais forte é aquele que foi dobrado e martelado no fogo mais quente.

— E se eu não quiser mostrar nada?

— Então você morrerá, e eu terei me enganado sobre você. Mas eu raramente me engano sobre a natureza do metal.

Eles cavalgaram até o anoitecer, quando o céu se transformou em um manto de violeta e ouro. Shan Yu parou perto de um pequeno riacho que serpenteava pela planície. Ele a desceu do cavalo com a mesma facilidade bruta, mas desta vez não a amarrou.

— Vá se lavar — ele ordenou, apontando para a água. — Eu vou preparar o fogo. Se tentar correr, lembre-se de que eu posso rastrear um lobo ferido em uma tempestade de areia. Você não terá chance no escuro.

Mulan caminhou até o riacho. A água estava congelante, mas a sensação do líquido em seu rosto ajudou a clarear seus pensamentos. Ela olhou para o próprio reflexo na superfície trêmula. O cabelo curto, cortado às pressas com uma espada, estava emaranhado; seu rosto estava marcado pela sujeira e pelo cansaço. Ela não se reconhecia mais como a garota que pintava o rosto de branco para encontrar a casamenteira.

Ela olhou para trás. Shan Yu estava agachado, acendendo uma pequena fogueira com movimentos precisos. Ele parecia perfeitamente em casa naquela vastidão desolada. Ele era o rei de um império de nada, um homem que não precisava de palácios para se sentir poderoso.

Mulan tocou o lugar onde ele a havia provocado mais cedo. A indignação ainda estava lá, mas havia algo mais — uma centelha de reconhecimento. Ele a estava despindo de todas as suas camadas de civilização, de todas as regras que a sufocavam. Ele a estava forçando a ser crua.

Ao voltar para o fogo, ela se sentou à distância, observando-o assar um pedaço de carne de caça.

— Por que você faz isso? — ela perguntou subitamente. — Por que me provoca? Por que me carrega como se eu fosse... algo que pertence a você?

Shan Yu ergueu os olhos, o brilho das chamas refletido neles.

— Porque você ainda está tentando ser educada, Mulan. Você ainda está tentando ser a "boa moça" que segue regras, mesmo quando as regras a traíram. Eu provoco você para que você esqueça suas maneiras. Eu quero a guerreira que derrubou a montanha sobre meu exército, não a prisioneira que pede permissão para respirar.

Ele estendeu um pedaço de carne para ela na ponta de uma faca.

— No meu mundo, ninguém pertence a ninguém, a menos que seja forte o suficiente para manter o que conquistou. Eu conquistei sua vida na neve. Agora, cabe a você decidir se quer conquistá-la de volta.

Mulan pegou a carne, seus dedos roçando os dele. O contato foi breve, mas eletrizante.

— Eu vou — disse ela, os olhos fixos nos dele. — Eu vou conquistar minha vida de volta. E quando eu fizer isso, você será o primeiro a saber.

Shan Yu sorriu de verdade pela primeira vez. Não era um sorriso gentil; era o sorriso de um predador que encontrara um rival à altura.

— Eu não esperaria nada menos.

Naquela noite, sob o céu imenso das estepes, Mulan não sonhou com a casa de seu pai ou com o templo dos ancestrais. Ela sonhou com o som do aço, com o cheiro do vento e com a sensação de uma liberdade selvagem que começava a queimar em suas veias, tão implacável quanto o homem que a guiava para as sombras. A muralha estava longe, e a garota que ela fora estava morrendo. Mas a mulher que estava surgindo... essa mulher era algo que nem mesmo a China, em toda a sua sabedoria milenar, estava preparada para enfrentar.