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O Peso do Sangue e das Sombras
A luz bruxuleante das lâmpadas fluorescentes do Ponto Ômega sempre pareceu insuficiente para Clara. O subsolo era úmido, frio e cheirava a metal oxidado, mas o verdadeiro peso que ela carregava não vinha das toneladas de terra acima de sua cabeça. Vinha de dentro.
Clara sentou-se na beira da cama estreita, soltando um suspiro longo e cansado. Suas mãos, que antes eram firmes o suficiente para empunhar armas e mapas, agora repousavam sobre a curva acentuada de seu ventre. Sete meses. Sete meses desde que o mundo explodira e ela fora arrancada do Setor 45. Sete meses desde que vira Aaron Warner pela última vez.
A bebê chutou, um movimento vigoroso que fez a pele de Clara esticar. Ela fechou os olhos, uma lágrima solitária escapando.
— Você tem a força dele — sussurrou ela para o vazio do quarto. — Espero que não tenha a mesma escuridão.
Clara estava se isolando. Castle, seu pai, tentava ser compreensivo, mas ele não entendia. Ninguém entendia. Para os outros rebeldes, ela era a filha do líder que sobrevivera a uma infiltração perigosa. Para Kenji, ela era a amiga que carregava o fardo de um segredo explosivo. Mas, para si mesma, Clara sentia-se como uma traidora de dois mundos.
Sua mente, traiçoeira, a levou de volta para uma noite chuvosa no Setor 45, cerca de dois meses antes de sua fuga.
*Flashback*
O escritório de Aaron estava na penumbra, iluminado apenas pelo brilho suave de alguns monitores e pela lareira elétrica que ele insistia em manter ligada. Clara estava parada perto da janela, observando as gotas de chuva baterem contra o vidro blindado.
Sentiu a presença dele antes mesmo de ouvi-lo. O perfume cítrico, tão característico, envolveu-a como um abraço invisível.
— Você está pensando em ir embora — a voz de Aaron foi um sussurro baixo contra a nuca dela.
Clara gelou.
— O senhor sabe que eu não posso ir a lugar nenhum sem sua permissão.
Aaron a virou com delicadeza, segurando seus ombros. Seus olhos verdes, geralmente tão frios quanto esmeraldas lapidadas, estavam nublados por algo que beirava o desespero.
— Não me chame de senhor. Nunca quando estamos assim. — Ele deslizou a mão para o rosto dela, o polegar traçando o contorno de seu lábio inferior. — Eu sinto o seu distanciamento, Clara. É como se você estivesse aqui, mas sua alma estivesse a quilômetros de distância, em um lugar onde eu não posso te alcançar.
— Eu só... eu me sinto deslocada, Aaron. Olhe para mim. Eu não sou como os soldados daqui. Eu não sou elegante, eu não sou fria.
Aaron soltou uma risada curta e sem humor, puxando-a para mais perto, forçando-a a sentir a solidez de seu peito.
— Você é a única coisa que me impede de queimar este lugar até as cinzas — disse ele, a voz carregada de uma intensidade assustadora. — Se você me deixar, Clara... se você desaparecer... eu não terei mais motivos para fingir que sou humano.
Naquela noite, ele a amou com uma urgência que ela agora entendia como um presságio. Ele a via não como a espiã gordinha e insegura, mas como sua âncora. E ela, em resposta, entregara-se a ele sabendo que cada beijo era uma mentira e cada carícia era uma traição ao seu pai.
*Fim do Flashback*
Um som de passos no corredor a trouxe de volta ao presente. Clara rapidamente puxou o suéter largo sobre a barriga, tentando esconder o que já era óbvio para qualquer um que olhasse com atenção. Ela ainda não tinha contado a verdade para a maioria das pessoas no Ponto Ômega. Apenas Castle e Kenji sabiam a identidade do pai.
Ela saiu do quarto, sentindo uma necessidade súbita de ar — ou o que passava por ar naquele bunker. Enquanto caminhava pelos corredores, notou um movimento incomum perto da sala de estratégia. A porta estava entreaberta, e vozes abafadas ecoavam lá de dentro.
Clara parou, escondendo-se atrás de uma pilastra de suporte. Ela sabia que seu pai a proibira de participar das reuniões que envolviam o Setor 45. Castle dizia que era para "preservar sua saúde mental", mas ela sabia que era medo. Medo de que ela vacilasse. Medo de que ela ainda o amasse.
— ... a obsessão dele mudou de foco — era a voz de Kenji. Ele parecia exausto. — Os relatórios dizem que o Warner está obcecado pela Juliette. Ele a mantém por perto o tempo todo. Dizem que ele a leva para testar os poderes, mas o jeito que ele olha para ela...
Clara sentiu o coração despencar. O ar pareceu sumir de seus pulmões.
— Ele acredita que a Juliette é a chave para o que ele quer — a voz de Castle soou ponderada, mas firme. — Talvez ele tenha finalmente encontrado alguém que o espelhe. Alguém que tenha o mesmo tipo de poder destrutivo.
— Não é só poder, Castle — rebateu Kenji. — Nossos informantes dizem que ele está... diferente. Ele ainda é um monstro, claro, mas há um interesse pessoal ali. Um interesse amoroso. Parece que ele esqueceu a Clara mais rápido do que imaginávamos. Ele acha que ela morreu, e agora a Juliette é a nova prioridade dele.
— Isso é bom para nós — disse Castle. — Se ele estiver distraído com a garota, não estará procurando por brechas em nossa segurança. Precisamos manter a Clara longe disso. Ela não pode saber que ele seguiu em frente. Ela já está sofrendo o suficiente com essa gravidez.
Clara pressionou as costas contra a parede fria, sentindo as lágrimas arderem. "Interesse amoroso". "Seguiu em frente".
As palavras de Aaron no flashback ecoaram em sua mente: *Você é a única coisa que me impede de queimar este lugar até as cinzas.*
Mentiroso.
Ele não estava queimando o mundo por causa dela. Ele estava apenas encontrando uma nova arma, uma nova obsessão. A insegurança que Clara sempre sentira sobre seu corpo, sobre sua aparência, voltou com força total. Juliette era magra, misteriosa, letal. Ela tinha poderes que podiam mudar o curso da história. O que era Clara perto disso? Apenas a filha do inimigo que ele usara para passar o tempo.
Ela se afastou da sala de estratégia, os passos pesados e trôpegos. A dor em seu peito era física, competindo com o desconforto da gravidez.
— Clara?
Ela se sobressaltou ao ver Kenji saindo da sala logo atrás dela. Ele a viu, e a expressão de culpa em seu rosto confirmou que ele sabia que ela ouvira tudo.
— Clara, espera — ele disse, aproximando-se rapidamente.
— Ele a ama, Kenji? — a voz dela saiu pequena, embargada.
Kenji suspirou, passando a mão pelo cabelo.
— Eu não sei, C. O Warner é um psicopata. Ele não ama ninguém da forma que as pessoas normais amam. Ele está obcecado pela Juliette porque ela é poderosa. É só isso.
— Você disse que ele olha para ela de um jeito diferente — ela o acusou, as lágrimas finalmente caindo. — Você disse que ele esqueceu de mim.
— Eu disse o que os relatórios dizem, Clara! — Kenji falou com suavidade, segurando os braços dela. — Mas escute, isso é melhor para você. Se ele esquecer você, você está segura. Sua filha está segura. Você quer que ele venha atrás de você? Quer que ele descubra sobre o bebê e a leve para aquele inferno?
Clara olhou para baixo, para suas mãos trêmulas.
— Eu queria que o que tivemos fosse real — sussurrou ela. — Eu queria que ele sentisse a minha falta tanto quanto eu sinto a dele. É egoísta, eu sei. Mas dói saber que eu sou apenas um fantasma substituível.
— Você não é substituível — disse Kenji, puxando-a para um abraço desajeitado por causa da barriga. — Você é a pessoa mais forte que eu conheço. Você sobreviveu a ele. E agora você vai sobreviver a isso.
Clara chorou silenciosamente no ombro do amigo. Mas, no fundo de sua mente, a determinação sombria que sentira dias atrás começou a se transformar. Se Aaron Warner estava interessado na "nova arma" do Ponto Ômega, então ele teria uma surpresa.
Ela não era mais a garota que se escondia nas sombras de seu escritório. Ela era a mulher que carregava o herdeiro dele, a mulher que conhecia cada fraqueza, cada segredo e cada cicatriz que ele escondia sob os uniformes impecáveis.
Se ele queria a Juliette, ele poderia tentar. Mas Clara sabia de algo que Juliette ainda não sabia: o toque de Aaron Warner era viciante, mas o seu amor era uma sentença de morte.
— Kenji — ela disse, afastando-se e limpando o rosto com determinação.
— O quê?
— Eu quero começar a treinar de novo. Amanhã.
Kenji arregalou os olhos, olhando para a barriga dela.
— Você está de sete meses, Clara! O Castle me mata se eu te deixar levantar um peso de papel.
— Eu não vou lutar boxe, Kenji. Mas eu preciso estar pronta. Se o Warner vier atrás da Juliette, ele vai acabar encontrando o Ponto Ômega. E quando esse dia chegar, eu não vou estar escondida em um quarto chorando.
Ela se virou e caminhou de volta para seu isolamento, mas desta vez, sua postura estava reta. A insegurança ainda estava lá, um monstro familiar em seu peito, mas agora havia algo novo. Uma centelha de raiva.
Aaron Warner achava que ela estava morta. Ele achava que podia substituí-la.
Ele estava prestes a descobrir que algumas cinzas ainda guardam brasas prontas para incendiar tudo novamente. E Clara, com o peso de sua filha no ventre e a traição no coração, seria o incêndio que ele não veria chegar.