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Ecos de um Berço de Prata
O silêncio do Ponto Ômega nunca fora tão barulhento. Quatro meses haviam se passado desde que Clara ouvira as fofocas de Kenji nos corredores, quatro meses de uma agonia silenciosa que culminou em um choro agudo e transformador. Agora, o bunker subterrâneo não era apenas uma base de resistência; era o lar de uma pequena vida que carregava o sangue do homem mais temido do mundo.
Clara estava sentada na penumbra de seu quarto, observando a pequena criatura em seus braços. A bebê, que ela nomeara de Aurora — um nome que significava o nascer do sol, algo que Clara sentia que nunca mais veria de verdade —, tinha apenas dois meses, mas já exibia traços inegáveis. A pele era alva como a de Clara, mas os olhos... os olhos eram de um verde cristalino e afiado que faziam o coração de Clara parar toda vez que a pequena despertava.
Ela ajeitou a manta de lã, sentindo o peso do próprio corpo. Clara ainda se sentia insegura com as mudanças físicas pós-parto, a barriga ainda macia, as curvas que pareciam maiores sob as roupas largas da resistência. Ela se sentia vulnerável, mas ao olhar para Aurora, uma força feroz e protetora emanava de seus ossos.
A porta do quarto rangeu suavemente. Kenji entrou, trazendo uma bandeja com sopa quente e um olhar carregado de preocupação.
— Ela dormiu? — sussurrou ele, aproximando-se com cautela, como se temesse quebrar o ar pesado do cômodo.
— Finalmente — respondeu Clara, a voz rouca pelo desuso. — Ela tem os pulmões do pai. Quando começa a reclamar, parece que quer derrubar as paredes deste bunker.
Kenji soltou um riso curto, mas seus olhos não brilharam como de costume. Ele se sentou na beira da cadeira de metal ao lado da cama.
— Clara, eu preciso te contar uma coisa. E, por favor, não jogue essa sopa em mim.
Clara endureceu os ombros, apertando Aurora contra o peito.
— É sobre o Setor 45? Sobre a Juliette?
— As notícias que chegam são... confusas — começou Kenji, hesitando. — Todo mundo aqui está convencido de que o Warner está obcecado por ela. Eles os viram juntos nos campos de treinamento. Ele a leva para jantar, ele a mantém sob guarda máxima. O Castle está usando isso para motivar as tropas, dizendo que o monstro encontrou uma noiva à altura de sua crueldade.
Clara sentiu a bile subir pela garganta. A imagem de Aaron, com seus dedos longos e elegantes, tocando a pele de outra mulher, era uma tortura que ela não conseguia descrever.
— Mas — continuou Kenji, inclinando-se para frente — eu estive analisando os relatórios de inteligência que interceptamos ontem. Relatos de criados, de soldados de baixa patente. Clara... ele está agindo como um lunático. Ele não toca na Juliette. Ele a usa como um experimento de laboratório. Ele a isola, ele a manipula, ele a tortura psicologicamente para que ela use os poderes. Mas não há amor ali. Há um vazio.
— O que você está tentando dizer, Kenji? — perguntou ela, as lágrimas começando a embaçar sua visão.
— Estou dizendo que nós fomos idiotas. Eu fui um idiota por acreditar nos boatos de superfície. Warner não seguiu em frente. Ele está usando a Juliette para tentar preencher um buraco que não fecha. Nossos informantes dizem que ele ainda entra no seu antigo quarto todas as noites. Ele fica lá, no escuro, por horas. Ele não mudou nada. Ele não deixou ninguém tocar nas suas coisas.
Clara soluçou, um som abafado que fez Aurora se mexer inquietamente no berço improvisado.
— Ele acha que eu morri, Kenji. Ele acha que eu fui pulverizada naquela explosão. Como ele pode estar no meu quarto se ele acha que eu sou cinzas?
— Porque ele é louco por você, Clara — disse Kenji com uma seriedade que raramente mostrava. — Ele é um psicopata, um assassino e um tirano, mas ele é absolutamente, irremediavelmente louco por você. Ele não está apaixonado pela Juliette. Ele está tentando transformar a Juliette em uma arma para destruir o mundo que, na cabeça dele, tirou você dele.
Clara olhou para o pingente de prata que agora estava pendurado na cabeceira da cama, o par do que ela deixara cair no Setor 45.
— Se ele soubesse... — sussurrou ela.
— Se ele soubesse que você está viva e que tem uma filha dele, ele reduziria o Ponto Ômega a pó em dez minutos para chegar até vocês — afirmou Kenji. — E é por isso que você tem que continuar sendo um fantasma.
***
Enquanto isso, a quilômetros dali, no coração gélido do Setor 45, Aaron Warner estava parado diante do espelho de seu banheiro privativo. Ele não vestia a túnica militar. Estava sem camisa, as cicatrizes em suas costas parecendo mais profundas sob a luz fria. Em seu pescoço, pendurado por uma corrente de aço, estava o pingente de fênix retorcido e enegrecido pelo fogo.
Ele fechou os olhos e, por um momento, não estava no quartel-general. Ele estava no jardim de inverno, sentindo o cheiro de baunilha e sabão que emanava da pele de Clara. Ele sentia a maciez dos braços dela, a força que ela tentava esconder por vergonha, mas que ele adorava.
Um batida seca na porta o trouxe de volta.
— Entre — ordenou ele, sua voz uma lâmina de gelo.
Delalieu entrou, a postura curvada pelo peso da idade e do medo.
— Senhor... a senhorita Ferrars está aguardando no salão de testes. Ela está... instável hoje.
Aaron virou-se lentamente. Seus olhos verdes estavam opacos, desprovidos de qualquer brilho de humanidade.
— Deixe-a esperar — disse ele. — Juliette é uma ferramenta, Delalieu. Nada mais. Se ela não conseguir controlar seus próprios espasmos de poder, ela não tem utilidade para mim.
— Mas, senhor, os boatos no setor... as pessoas acham que o senhor e ela...
Aaron atravessou o quarto em dois passos rápidos, agarrando o colarinho do homem mais velho. A fúria em seu rosto era tão súbita que Delalieu engasgou.
— O que as pessoas acham não me interessa — sibilou Aaron. — Eles acham que eu a amo porque não conseguem conceber que eu possa ser devoto a um fantasma. Eles precisam de uma narrativa de poder. Deixe que pensem o que quiserem. Mas se eu ouvir qualquer soldado comparando-a a *ela*... eu mesmo cortarei a língua do infeliz.
Ele soltou Delalieu, que recuou tremendo. Aaron voltou-se para a pequena mesa de cabeceira, onde um único objeto permanecia fora de lugar naquele quarto militarmente organizado: um pequeno prendedor de cabelo que Clara esquecera meses atrás.
Ele o pegou, fechando a mão com força sobre o plástico barato.
— Ela era a única coisa real — sussurrou Aaron para as paredes vazias, ignorando a presença de Delalieu. — E eu vou queimar cada célula da resistência, cada centímetro deste mundo miserável, até que eu sinta que a dívida de sangue pela morte dela foi paga.
Ele nunca faria mal a ela. Se Clara estivesse ali, ele cairia de joelhos. Mas ela não estava. E, em sua mente distorcida, a dor era a única forma de manter a memória dela viva.
***
De volta ao Ponto Ômega, Clara tomou uma decisão. Ela não podia mais viver nas sombras da dúvida.
— Kenji — disse ela, enquanto ele se levantava para sair do quarto. — Eu preciso de um favor. Um favor que o meu pai não pode saber.
Kenji parou na porta, desconfiado.
— Clara, se isso envolver você saindo daqui, a resposta é não.
— Não é sair. Eu quero que você use seus contatos infiltrados. Eu quero que você envie algo para o Setor 45. Não uma mensagem, não um mapa.
Ela se levantou, caminhando até uma pequena caixa onde guardava as poucas lembranças que conseguira trazer. De lá, tirou um pequeno pedaço de fita de cetim azul, a mesma cor que ela usava no cabelo quando eles se encontravam às escondidas na biblioteca da base.
— Entregue isso no escritório dele. Apenas deixe em cima da mesa. Sem notas. Sem explicações.
Kenji olhou para a fita e depois para os olhos determinados de Clara.
— Você está brincando com fogo, C. Se ele perceber que você está viva, ele vai vir como um furacão.
— Deixe que ele venha — disse ela, olhando para o berço onde Aurora dormia tranquilamente. — Ele está destruindo o mundo porque acha que não tem nada a perder. Eu vou dar a ele um motivo para parar. Ou um motivo para lutar por algo que não seja a morte.
— E se ele achar que é uma armadilha da resistência? — questionou Kenji. — Ele pode ficar ainda pior.
— Ele conhece o meu cheiro. Ele conhece cada detalhe do que é meu. Ele saberá.
Kenji suspirou, pegando a fita e guardando-a no bolso.
— Você é tão louca quanto ele, sabia? Talvez seja por isso que vocês funcionavam.
Quando Kenji saiu, Clara sentou-se novamente ao lado de Aurora. Ela sabia que o que estava fazendo era perigoso. Sabia que Castle ficaria furioso. Mas ela não suportava mais ver, através dos relatórios, o homem que ela amava se transformar em um demônio completo.
Ela sabia que Aaron nunca faria mal a ela ou ao bebê. O amor dele era possessivo, cruel para os outros, mas para ela, era um santuário.
— Seu pai está vindo, pequena — sussurrou Clara, acariciando a bochecha de Aurora. — Ele só ainda não sabe o caminho de casa.
Naquela noite, pela primeira vez em meses, Clara não teve pesadelos com explosões e sangue. Ela sonhou com olhos verdes e com a promessa de um reencontro que abalaria os alicerces do Restabelecimento.
O Ponto Ômega achava que tinha uma arma em Juliette. Mas a verdadeira força capaz de dobrar o monstro do Setor 45 estava ali, em um berço de metal, protegida por uma mulher que o mundo subestimara.
A guerra estava longe de terminar, mas as regras haviam mudado. Aaron Warner achava que lutava por um cadáver. Clara estava prestes a mostrar a ele que a vida era muito mais aterrorizante e bela do que a morte jamais poderia ser.
— Espere por mim, Aaron — murmurou ela, fechando os olhos enquanto o frio do bunker parecia diminuir. — Espere por nós.