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O Despertar do Fantasma entre as Sombras
A rotina no Ponto Ômega era uma sinfonia de ruídos metálicos e sussurros de conspiração, mas para Clara, o mundo havia se reduzido ao espaço de quatro paredes e ao peso reconfortante de Aurora em seu colo. A pequena, agora com quase três meses, parecia absorver a tensão do ambiente; seus olhos verdes, tão idênticos aos de Aaron que às vezes Clara precisava desviar o olhar para não desmoronar, seguiam cada movimento da mãe com uma intensidade sobrenatural.
O bunker estava em polvorosa. A notícia se espalhara como fogo em palha seca: Juliette Ferrars, a garota com o toque mortal, havia finalmente chegado à resistência, trazendo consigo o desertor Adam Kent e seu irmão mais novo, James. O Ponto Ômega via neles a salvação. Clara via neles o lembrete vivo de tudo o que deixara para trás.
— Você não pode se esconder aqui para sempre — disse Castle, entrando no quarto sem bater. Ele parecia mais velho, as linhas de preocupação em seu rosto acentuadas pela luz fluorescente. — Juliette e os outros estão sendo integrados. Eles têm informações valiosas sobre o Setor 45. Informações sobre *ele*.
Clara ajeitou a manta de Aurora, evitando o olhar do pai adotivo.
— Eu não estou me escondendo, pai. Estou protegendo a minha filha. Se eu sair e alguém notar a semelhança... se a notícia vazar...
— Kenji e eu garantimos que ninguém chegue perto o suficiente para fazer perguntas — interrompeu Castle, aproximando-se e colocando uma mão pesada no ombro dela. — Mas Juliette é diferente. Ela viveu sob o mesmo teto que Warner. Ela viu o que ele se tornou após a sua... partida. Você precisa conhecê-la. Ela precisa saber que nem tudo naquele lugar era escuridão.
Clara sentiu um nó na garganta.
— Ele a ama, não ama? É o que todos dizem. Que ele a escolheu para ser sua rainha de gelo.
Castle suspirou, um som carregado de tristeza.
— O que Aaron Warner sente por aquela garota é uma obsessão nascida do desespero, Clara. Ele busca nela um poder que possa rivalizar com a dor de ter perdido você. Mas você é a única que conhece o homem por trás da máscara. Preciso que você ajude Juliette a entender com quem estamos lidando.
Relutante, Clara concordou. Ela entregou Aurora aos cuidados de uma das enfermeiras de confiança de Castle e seguiu o pai pelos corredores úmidos. O refeitório estava lotado, mas o silêncio caiu sobre o recinto quando eles entraram. No centro, sentada em uma mesa cercada por olhares curiosos e temerosos, estava Juliette. Ela parecia pequena, frágil e, ao mesmo tempo, carregada de uma energia elétrica que fazia os pelos do braço de Clara se arrepiarem. Ao lado dela, Adam Kent mantinha uma postura defensiva, os olhos varrendo o ambiente como um falcão.
Quando os olhos de Juliette encontraram os de Clara, algo estranho aconteceu. A garota de pele pálida e olhos grandes empalideceu ainda mais. Ela se levantou lentamente, ignorando o toque de Adam em seu braço.
— Você... — sussurrou Juliette, a voz trêmula.
Clara parou a alguns metros de distância, sentindo-se exposta sob o olhar analítico da recém-chegada. Sua insegurança habitual gritou em sua mente; ela se sentia grande demais, comum demais, desajeitada diante da beleza etérea e perigosa de Juliette.
— Eu sou Clara — disse ela, tentando manter a voz firme. — Filha de Castle.
Juliette deu um passo à frente, os olhos fixos nas feições de Clara. Ela parecia estar vendo um fantasma.
— Eu conheço você — disse Juliette, as palavras saindo em um sopro. — Eu vi você.
— Impossível — interveio Adam, levantando-se também. — Clara saiu do Setor 45 antes de você chegar, Juliette.
— Não pessoalmente — continuou Juliette, ignorando Adam. Ela estendeu a mão, mas a recolheu rapidamente, lembrando-se de seu próprio perigo. — Eu vi uma foto. No escritório dele. Fica dentro de um relógio de bolso prateado que ele carrega no lado esquerdo do peito, o tempo todo. Ele o abre quando acha que ninguém está olhando.
O coração de Clara falhou uma batida. O relógio de bolso. Ela mesma o dera a ele no aniversário de Aaron, uma antiguidade que encontrara nos porões da base. Ela achava que ele o tinha jogado fora ou que fora destruído na explosão.
— Ele... ele guarda uma foto minha? — perguntou Clara, a voz quase inaudível.
— Ele não apenas guarda — disse Juliette, e havia uma nota de profunda piedade em seus olhos. — Ele a venera. Ele olha para aquela imagem com uma dor que eu nunca vi em nenhum outro ser humano. Ele chama você de sua "única verdade". Quando ele pensa em você, a crueldade dele parece... se transformar em algo mais profundo. Em uma fome que nada pode saciar.
Clara sentiu as pernas fraquejarem. Kenji, que observava a cena de um canto, aproximou-se rapidamente para ampará-la.
— Ei, C, respira — sussurrou ele.
Mas Juliette não tinha terminado. Ela olhou para Castle e depois voltou para Clara, a compreensão brilhando em seu rosto.
— As pessoas dizem que ele está obcecado por mim — disse Juliette, com uma risada amarga. — Mas eu percebi, no momento em que ele me tocou pela primeira vez sem as luvas... ele não estava me vendo. Ele estava procurando por você em mim. Ele queria que eu fosse o milagre que você foi para ele. Ele está morrendo, Clara. Por dentro, ele já é um cadáver.
— Ele é um monstro! — Adam explodiu, a voz ecoando pelo refeitório. — Ele torturou você, Juliette! Ele matou pessoas a sangue frio! Não tente humanizá-lo por causa de um romance de espionagem.
Juliette virou-se para Adam, a expressão endurecida.
— Eu não estou humanizando as ações dele, Adam. Estou descrevendo a realidade. Ele é um monstro, sim. Mas é um monstro que foi criado pelo vazio que a perda dela deixou. Se você visse o jeito que ele segura aquele relógio... você entenderia que o que o move não é apenas o Restabelecimento. É o luto.
Clara sentiu as lágrimas escorrerem livremente. A culpa, que ela tentara enterrar sob fraldas e treinamentos militares, ressurgiu com uma força devastadora. Ela o deixara no escuro. Ela permitira que ele acreditasse que ela fora reduzida a cinzas.
— Eu preciso falar com ela a sós — pediu Clara a Castle, sem tirar os olhos de Juliette.
Castle assentiu solenemente e gesticulou para que os outros se retirassem. Adam hesitou, mas um olhar firme de Juliette o fez recuar. Kenji deu um aperto encorajador no braço de Clara antes de sair por último.
As duas mulheres ficaram sozinhas no refeitório agora silencioso. Clara sentou-se pesadamente em um dos bancos, e Juliette sentou-se à sua frente, mantendo uma distância segura.
— Ele sabe sobre a criança? — perguntou Juliette, seus olhos descendo para a figura de Clara, que ainda carregava os traços da maternidade recente.
Clara balançou a cabeça negativamente.
— Não. Ele nem sabe que eu sobrevivi. Eu fugi para protegê-lo de ter que escolher entre mim e o pai dele. E para proteger a resistência.
— Ele destruiria o pai se soubesse que você estava viva — afirmou Juliette com convicção. — Aaron odeia Anderson com cada fibra de seu ser. Você era a única razão pela qual ele ainda mantinha alguma sanidade. Agora que ele acha que você se foi... ele se tornou o reflexo perfeito do pai, só que mais eficiente. Mais letal.
— Ele me machucaria? — perguntou Clara, a insegurança brilhando em seus olhos. — Por ter mentido? Por ser filha do Castle?
Juliette inclinou a cabeça, observando Clara com uma curiosidade quase científica.
— Ele ficaria furioso. Ele provavelmente destruiria metade deste bunker em um acesso de raiva. Mas ele nunca tocaria em um fio de cabelo seu. O jeito que ele olhava para aquela foto... era como se você fosse a única coisa sagrada em um mundo profano. Ele não quer vingança contra você, Clara. Ele quer você de volta. A qualquer custo.
Clara cobriu o rosto com as mãos, soluçando.
— Eu enviei uma mensagem. Uma fita de cetim azul. Kenji a entregou.
Juliette arregalou os olhos.
— Então foi por isso.
— Por isso o quê?
— Três dias antes de fugirmos, houve um incidente — contou Juliette. — Warner desapareceu por horas. Quando ele voltou, ele parecia... diferente. Ele não gritou com ninguém. Ele não puniu os soldados. Ele apenas ficou sentado em sua mesa, segurando algo pequeno e azul, com um olhar que me deu calafrios. Não era raiva. Era esperança. E a esperança, em um homem como Aaron Warner, é a coisa mais perigosa do mundo.
Clara sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ela sabia o que aquilo significava. Aaron não ia apenas esperar. Ele ia caçar. Ele ia seguir o rastro daquele pedaço de cetim até os confins da terra.
— Você tem medo dele — observou Juliette suavemente.
— Eu tenho medo do que eu sinto por ele — confessou Clara. — Eu sou forte, Juliette. Eu posso lutar, eu posso aguentar a dor física. Mas quando ele me olha... eu me sinto tão pequena, tão vulnerável. Eu sinto que desapareço nele. E agora tenho uma filha. Eu não posso desaparecer. Aurora precisa de mim.
— Aurora — repetiu Juliette, um sorriso triste aparecendo em seus lábios. — Um nome lindo. Ele vai amar esse nome.
— Ele nunca pode saber dela — disse Clara, a voz subindo de tom. — O Restabelecimento a usaria. Anderson a mataria ou a transformaria em uma arma.
— Então você precisa decidir o que vai fazer quando ele chegar — disse Juliette, levantando-se. — Porque ele vai chegar. Ele agora tem um rastro. E se eu conheço o Aaron Warner que me manteve prisioneira... ele não vai parar até que você esteja diante dele novamente.
Juliette caminhou em direção à saída, mas parou na porta, olhando para trás uma última vez.
— Clara?
— Sim?
— Ele me disse uma vez que a perfeição era uma mentira contada por pessoas fracas. Ele disse que amava as cicatrizes e as imperfeições, porque elas eram reais. Eu nunca entendi o que ele queria dizer com aquilo... até ver você hoje. Você não é a arma que eles esperavam que você fosse. Você é o coração dele. E um homem sem coração é perigoso, mas um homem que recupera o coração é imparável.
Quando Juliette saiu, Clara permaneceu sentada no silêncio, sentindo o peso do pingente em seu pescoço. Ela pensou em Aaron, sentado em seu escritório frio, segurando uma fita azul e um relógio de bolso com sua foto. Ela pensou na fúria que estava prestes a ser desencadeada sobre o Ponto Ômega.
Ela se levantou e caminhou de volta para o berçário. Ao entrar, viu Aurora acordada, agitando as mãozinhas. Clara pegou a bebê no colo e caminhou até a pequena janela reforçada que dava para os túneis de ventilação, onde um fiapo de luz da lua conseguia penetrar.
— Ele está vindo, Aurora — sussurrou ela, beijando a testa da filha. — Seu pai está vindo nos buscar. E eu não sei se o mundo está pronto para o que vai acontecer quando ele nos encontrar.
Clara sabia que o romance proibido que vivera no Setor 45 fora apenas o prólogo. O verdadeiro ato estava começando. Ela não era mais a infiltrada insegura, e ele não era mais apenas o comandante cruel. Eles eram pais, eram inimigos e eram, acima de tudo, duas metades de uma alma quebrada que a guerra tentara separar.
Lá fora, o vento uivava pelos dutos, soando quase como um nome sendo chamado na escuridão. Um nome que Clara não ousava dizer em voz alta, mas que ecoava em cada batida de seu coração.
Aaron.
Ela fechou os olhos, pronta para a tempestade. Pois ela sabia que, quando Aaron Warner finalmente atravessasse aquelas portas, ele não viria como um líder do Restabelecimento, nem como um vilão das histórias de Juliette. Ele viria como um homem que encontrara o caminho de volta da morte. E Clara, com toda a sua força e todas as suas inseguranças, seria a única capaz de decidir se aquela ressurreição traria a paz ou o fim de tudo o que eles conheciam.