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Diária de outro mundo

O Ritmo da Vitória e o Sangue nas Sombras

A escuridão ainda abraçava os jardins da Academia Itachiyama quando o despertador de Izabelle vibrou sob o travesseiro às três horas da manhã. O silêncio do dormitório era absoluto, mas no peito de Iza, o coração batia como um bumbo de hip-hop. Ela cutucou Íris, que dormia em sua forma de coelho, e em poucos minutos as quatro — Izabelle, Íris, Hannah e Stay — estavam reunidas no Clube de Culinária.

— Café. Eu preciso de café ou vou virar um demônio antes mesmo do sol nascer — resmungou Stay, bocejando enquanto começava a organizar as caixas de doces.

— Nada de virar demônio hoje, temos um festival para ganhar — rebateu Izabelle, já verificando as embalagens personalizadas com o logo do coelhinho. — Vamos, meninas! Últimos retoques.

Elas trabalharam freneticamente. O cheiro de açúcar e frutas frescas preenchia o ar enquanto o céu lá fora começava a mudar do preto para um azul profundo. Por volta das cinco e meia, levaram tudo para o dormitório de Izabelle, que por ser individual e mais espaçoso, serviu de quartel-general. Lá, elas passaram as roupas a ferro, perfumaram os casacos de beisebol e ajudaram umas às outras com o cabelo. Izabelle usou um modelador para deixar seus fios cacheados e volumosos, exatamente como o visual de Danielle na era *Supernatural* do New Jeans.

— Estamos impecáveis — disse Hannah, olhando-se no espelho. — Se a comida for metade do que o nosso visual promete, a Aurora vai ter um colapso.

O relógio marcou seis horas e o sinal tocou, convocando todos ao ginásio.

— Droga, temos que ir, mas não podemos ser vistas saindo juntas daqui agora, vai parecer estranho — sussurrou Izabelle.

Elas saíram furtivamente, mas ao dobrarem o corredor entre os blocos de dormitórios, Izabelle avistou duas figuras altas e familiares: Oikawa e Kageyama estavam voltando de algum compromisso do conselho.

— Escondam-se! — sibilou Izabelle, empurrando as meninas para um beco estreito entre as construções.

— Iza, você tem que distrair eles! — sussurrou Stay, empurrando-a de volta para o caminho principal.

Izabelle respirou fundo e "surgiu" das sombras bem na frente dos dois, tentando parecer a pessoa mais casual do mundo.

— Oh! Oi! Bom dia, meninos! — disse ela, forçando um sorriso radiante. — Que coincidência encontrar vocês aqui.

Oikawa arqueou uma sobrancelha, olhando para ela de cima a baixo.

— Izabelle-chan? O que faz acordada tão cedo? E por que parece que saiu de um esconderijo ninja?

— Eu... eu estava caminhando! O ar da manhã é ótimo para a memória — mentiu ela descaradamente. — Falando nisso, boba eu, né? Esqueci completamente onde fica o ginásio. Vocês estão indo para lá?

Kageyama a encarou com aquele olhar intenso e confuso que sempre a deixava nervosa.

— Você está aqui há quase um mês, Izabelle — disse ele, com sua voz rouca matinal. — Já foi ao ginásio dezenas de vezes. Como pode ter esquecido?

— Ah, sabe como é, Kageyama-kun... memória de peixinho dourado. — Ela deu uma risadinha nervosa e começou a caminhar ao lado deles, puxando qualquer assunto bobo que vinha à mente para garantir que eles não olhassem para trás, onde as outras três meninas corriam agachadas entre os arbustos.

No ginásio, a diretora deu as instruções finais. O festival abriria às nove. Das sete às oito, todos deveriam montar suas barracas e vestir os trajes oficiais. Assim que foram liberadas, o quarteto correu para a cozinha.

Izabelle ligou a caixa de som, e o remix de *Better Off Alone* começou a ecoar, dando o ritmo para a montagem. Elas arrumaram os balões azuis, os vinis decorados e os expositores de acrílico. Izabelle retocou o babyliss, colocou o boné e sentiu-se pronta.

— Está faltando o estoque reserva de guardanapos e os toppers de coelho! — exclamou Hannah. — Ficou lá na dispensa do clube!

— Eu busco! — disse Izabelle, correndo pelo pátio.

No caminho de volta, carregando as caixas, ela deu de cara com Aurora e sua comitiva. Aurora usava um vestido de época pesado e cheio de babados, parecendo uma boneca de porcelana antiga.

— Olhem só — disse Aurora, apontando para as roupas de Izabelle e rindo com desdém. — É assim que você pretende me vencer? Usando essas roupas ridículas de rua? Eu acho que até a faxineira da escola tem um uniforme mais elegante do que esse trapo.

Izabelle parou, olhou para Hannah, Stay e Íris, que haviam acabado de chegar, e as quatro simplesmente caíram na gargalhada. Foi uma risada genuína, de quem achava aquela arrogância infantil demais para ser levada a sério.

— Do que vocês estão rindo, suas insolentes? — gritou Aurora, ficando vermelha.

— De você, Aurora — disse Izabelle, limpando uma lágrima de riso do canto do olho. — O que veremos hoje? O que veremos? Apenas observe e aprenda.

Elas passaram por Aurora como se ela fosse invisível, deixando a garota bufando de raiva.

Nove horas. Os portões se abriram e uma multidão começou a inundar a Itachiyama. No início, a barraca "New Jeans & Old Flavors" estava recebendo visitas constantes, mas nada comparado às filas quilométricas do Clube de Teatro e do Clube de Esgrima.

— Iza, e se der tudo errado? — perguntou Hannah, olhando preocupada para a barraca de Aurora, que estava lotada. — E se a cara que vai quebrar for a nossa?

Izabelle olhou para a multidão, depois para as amigas. O plano era dançar apenas no final, mas o desespero exigia medidas drásticas.

— Esqueçam o cronograma. Vamos dançar agora! — ordenou Izabelle.

Ela correu até a caixa de som e girou o volume até o máximo. O instrumental de *Attention* explodiu pelo pátio, tão alto que provavelmente foi ouvido até na China. O barulho fez cabeças virarem de todos os cantos.

— Fiquem naturais, meninas! — gritou Izabelle, posicionando-se. — Vamos mostrar para eles!

Elas começaram a coreografia de *How Sweet*. Os movimentos eram precisos, cheios de atitude e perfeitamente sincronizados com as batidas de hip-hop. Em menos de dois minutos, um círculo imenso de pessoas se formou ao redor delas.

— Olha aquilo! — disse um aluno na multidão. — Eu não sabia que tínhamos um clube de dança!

— Não é dança, é o Clube de Culinária! — respondeu outro, já pegando o celular para filmar.

Aurora, na sua barraca, viu seus clientes debandarem.

— Onde vocês pensam que vão? O show de teatro começa em dez minutos! — gritava ela, mas ninguém ouvia.

— Esquece o teatro, olha aquela batida! — disse um dos figurantes, puxando o amigo para ver Izabelle e as meninas.

Oikawa e Kageyama também apareceram, parando na primeira fila. Oikawa batia palmas, impressionado, enquanto Kageyama observava Izabelle com uma intensidade que a fazia dançar ainda melhor. Até a diretora parou para assistir, balançando levemente a cabeça no ritmo.

Quando a música acabou, Íris pegou o microfone.

— E se vocês gostaram do ritmo, esperem até provar o sabor! Nossa barraca está aberta com doces exclusivos e drinks especiais sem álcool! Venham conferir!

Foi uma loucura. A barraca foi inundada. Elas quatro não davam conta de atender tantos pedidos.

— Iza, precisamos de mais base para os drinks e mais torteletes! Acabou tudo aqui! — gritou Stay.

— Eu vou buscar na dispensa agora! — Izabelle saiu correndo pelo corredor da ala oeste, mas assim que entrou no prédio silencioso, seu corpo congelou.

Uma energia pesada, fria e carregada de uma raiva ácida emanava do final do corredor. Não era uma sombra comum. Era um Demônio da Raiva, uma massa de escuridão com olhos escarlates que parecia querer devorar a alegria do festival.

— Você não vai estragar o meu dia — sibilou Izabelle, sentindo a adrenalina mágica subir.

Ela o atraiu para a borda da floresta, longe dos olhos dos alunos.

— Reflexo da Alma, Brilho do Amanhã!

A transformação foi rápida, mas o demônio era forte. Ele atacava com garras que pareciam navalhas. Izabelle tentava proteger sua roupa de festival a todo custo, mas em um movimento brusco, a criatura conseguiu atingir seu braço.

— Ai! — Ela sentiu o corte profundo, mas não recuou. — Agora chega!

Izabelle concentrou sua energia, criando uma arma de cristal brilhante em suas mãos. Ela saltou, usando as árvores como impulso, e voou alto no céu, disparando um feixe de luz violeta pura que atingiu o núcleo do demônio. A criatura dissolveu-se em cinzas que desapareceram no ar.

Ofegante, Izabelle desfez a transformação. Seu braço ardia. Ela correu para a dispensa, pegou as caixas de suprimentos e voltou para a barraca.

— Iza! Por que demorou tanto? — perguntou Stay, pegando a caixa.

— Me desculpa, eu... — Izabelle parou ao ver a expressão de Hannah.

— Iza, o seu braço! — Hannah apontou para o ferimento que agora pingava sangue no chão.

— Ah, isso? — Izabelle olhou para o corte, tentando pensar rápido. — Eu tropecei na barra da calça descendo a escada e caí tentando proteger as caixas. É só um arranhão.

— Só um arranhão? Está pingando, Izabelle! — exclamou Hannah. — Vá para a enfermaria agora! Você vai assustar os clientes desse jeito. Vá! Nós damos conta aqui por dez minutos.

Izabelle correu para a enfermaria, mas o local estava vazio — a enfermeira provavelmente estava aproveitando os shows. Ela sentou-se em uma maca e começou a tentar limpar o ferimento com gaze, mas suas mãos tremiam e ela não conseguia prender a faixa corretamente.

De repente, a porta se abriu. Izabelle, em alerta máximo, conjurou sua espada de luz por instinto.

— Quem está aí? — gritou ela, pronta para lutar.

— Sou eu — disse uma voz calma e profunda.

Era Kageyama. Izabelle desfez a arma em um milésimo de segundo, rezando para que ele não tivesse visto nada além de um brilho estranho. Ele entrou e seus olhos caíram imediatamente sobre o braço ensanguentado dela.

— Você está bem? — perguntou ele, aproximando-se com passos largos.

— Estou, é só um arranhão de nada... — tentou dizer, mas ele já estava pegando o kit de primeiros socorros da mão dela.

— Sente-se — ordenou ele.

Kageyama sentou-se em uma cadeira de frente para ela na maca e começou a limpar o ferimento com uma delicadeza que Izabelle nunca esperaria dele. Ele era concentrado, os dedos ágeis e firmes.

— Pelo visto — começou ele, sem desviar os olhos do braço dela —, a única coisa que você sabe fazer de verdade é dançar. Porque cuidar de si mesma não parece ser o seu forte.

Izabelle sentiu o rosto queimar, mas não de raiva.

— Você... você assistiu? — perguntou ela, em voz baixa.

— Assisti. Foi... impressionante. Nunca vi nada parecido em um festival escolar. — Ele terminou de passar o antisséptico e começou a enfaixar o braço com uma precisão cirúrgica.

— Você gostou da comida também? — Ela sorriu, observando o topo da cabeça dele.

— Estava boa. — Ele prendeu a fita da faixa perfeitamente. — Pronto.

— Como você é tão bom nisso? — perguntou ela, admirada com o curativo impecável.

— Eu me machuco toda hora na esgrima — respondeu ele, levantando os olhos para os dela. O contato visual durou um segundo a mais, um momento de silêncio natural onde o barulho do festival lá fora parecia distante. — Tente não cair mais de escadas, Izabelle.

Ela riu, um sorriso doce que fez Kageyama desviar o olhar, levemente sem jeito.

— Obrigada, Tobio.

Ela voltou para a barraca e o sucesso continuou até o pôr do sol. A comida acabou completamente, e o público não parava de elogiar a inovação do clube. No final da tarde, todos se reuniram no pátio para o anúncio dos vencedores.

— E em primeiro lugar, o grande vencedor do Festival da Primavera de Itachiyama é... o Clube de Culinária! — anunciou a diretora.

Izabelle, Hannah, Stay e Íris começaram a pular e a gritar, abraçando-se em um redemoinho de alegria. Aurora, no segundo lugar, olhava com desprezo.

— Que reação exagerada — resmungou Aurora. — Até parece que ganharam um prêmio Nobel.

Mas elas não se importavam. Subiram no palco, receberam um troféu de cristal e um buquê de flores. Foi o momento de glória que consolidou o lugar de Izabelle naquele mundo.

Quando o festival acabou e as barracas foram desmontadas, as quatro se reuniram na sala comum do dormitório de Izabelle para comemorar do jeito que mais gostavam: com drinks havaianos (desta vez com um pouquinho mais de "ânimo").

A música tocava baixo, e elas brindavam à vitória. Hannah e Stay, que não estavam acostumadas com o ritmo intenso e a bebida, acabaram ficando "soltinhas" demais e, em pouco tempo, desmaiaram de sono ali mesmo no tapete. Izabelle as cobriu com mantas, sorrindo para as amigas.

Ela ainda estava elétrica demais para dormir. Saiu para o corredor para tomar um pouco de ar fresco e deu de cara com Kageyama, que também parecia estar evitando o barulho dos outros dormitórios.

— Ainda acordada? — perguntou ele, encostado na parede.

— Comemorando a vitória — respondeu ela, aproximando-se. — Você foi ótimo hoje também, Tobio. Vi a fila da esgrima.

— Foi um dia longo — disse ele. Ele olhou para o braço enfaixado dela. — A faixa ainda está no lugar?

— Graças ao seu trabalho profissional, sim. — Ela deu um passo à frente, ficando perto dele. — Obrigada por hoje. Por tudo.

Kageyama olhou para ela, e por um momento, a tensão habitual dele desapareceu.

— Você é uma caixa de surpresas, Izabelle. — Ele estendeu a mão e, de um jeito totalmente natural e nada brega, bagunçou levemente os cachos dela. — Vá dormir. Amanhã você ainda é a líder do clube campeão.

Ela riu, sentindo um calor gostoso no peito.

— Boa noite, Tobio.

— Boa noite, Iza.

Izabelle voltou para o quarto, fechou a porta e suspirou. Ela tinha vencido a Aurora, derrotado um demônio, ganhado um troféu e, talvez, o coração do esgrimista mais difícil da escola. A vida na Itachiyama estava longe de ser monótona, e ela não mudaria nada.