Diddy Kong e King K.rool
O Segredo sob a Armadura Dourada
A manhã na Ilha Donkey Kong avançava com um calor tropical que fazia a umidade subir do solo em pequenas nuvens de vapor. Na casa da árvore, o clima era de festa e alívio. Donkey Kong estava ocupado devorando um cacho inteiro de bananas, enquanto Dixie Kong tentava, sem muito sucesso, pentear os pelos bagunçados de Diddy, que ainda parecia um pouco aéreo após sua aventura na fortaleza dos Kremlings.
— Eu ainda não entendo — disse Dixie, puxando um nó teimoso no ombro de Diddy. — Você disse que ele não te machucou, mas você passou a noite inteira lá. O que o K. Rool queria, afinal? Ele pediu um resgate? Ele tentou te interrogar sobre o estoque secreto de bananas?
Diddy soltou um pequeno guincho quando o pente prendeu.
— Ai! Cuidado, Dixie! — Ele se ajeitou no banco de madeira. — E não, ele não perguntou nada disso. Ele só... queria conversar. E me usar de apoio para as mãos. Foi a coisa mais bizarra que já aconteceu comigo, e olha que a gente já lutou contra polvos gigantes e abelhas mecânicas.
Donkey Kong parou de mastigar, olhando para o parceiro com uma expressão de dúvida genuína.
— — Conversar? — Donkey engoliu a banana de uma vez. — O K. Rool não conversa, Diddy. Ele grita, ele atira coroas e ele tenta esmagar a gente com aquela barriga de metal.
Diddy sentiu um calafrio e, ao mesmo tempo, uma vontade incontrolável de rir ao lembrar da cena na sala do trono.
— — Pois é, Donkey, mas a barriga não é só de metal — Diddy baixou o tom de voz, como se as paredes da selva tivessem ouvidos. — Por baixo daquela placa dourada, ele é... bem, ele é mole. E muito, muito sensível.
Enquanto isso, de volta à fortaleza dos Kremlings, o clima era consideravelmente menos festivo. King K. Rool estava andando de um lado para o outro em seus aposentos privados, o som de suas botas de metal batendo contra o chão de pedra como marteladas. Ele ainda estava sem sua capa, e a armadura dourada estava ligeiramente desalinhada.
— — Inaceitável! — rosnou o rei, parando diante de um espelho de corpo inteiro feito de prata polida. — Eu sou o Terror dos Sete Mares! O Soberano das Escamas! Como um projeto de macaco conseguiu me reduzir a um monte de gargalhadas histéricas?
Ele tocou a lateral de sua barriga, onde as escamas verdes eram mais finas e macias. Apenas o toque de seus próprios dedos o fez estremecer levemente. Ele soltou um suspiro pesado, que saiu como um assobio por entre seus dentes afiados.
— — Majestade? — Uma voz tímida veio da porta. Era Klump, o comandante dos Kremlings, segurando um relatório de danos.
K. Rool se virou bruscamente, tentando cobrir a lateral do corpo com o braço.
— — O que é, seu idiota?! Não vê que estou em meio a uma profunda meditação tática?
— — Perdão, General... quer dizer, Majestade! — Klump bateu continência, fazendo sua barriga militar balançar. — Os Kritters estão comentando... bem, eles disseram que ouviram sons estranhos vindo da sala do trono hoje cedo. Sons que pareciam... risadas? Eles estão preocupados que o senhor tenha sido infectado por alguma febre tropical ou, pior, por alguma piada de macaco.
K. Rool sentiu o rosto esquentar sob as escamas. Ele deu um passo à frente, sua sombra cobrindo o pequeno soldado.
— — Risadas? — K. Rool soltou um rosnado baixo e perigoso. — O que eles ouviram foi o som do meu triunfo! Uma risada de vitória absoluta! O macaquinho estava implorando por misericórdia, e eu estava... celebrando a minha superioridade!
— — Oh! Entendido, senhor! — Klump parecia aliviado, embora ainda confuso. — Devo punir os guardas que espalharam os boatos?
— — Mande-os para a limpeza dos pântanos por uma semana! — ordenou K. Rool, apontando para a saída. — E Klump...
— — Sim, senhor?
— — Mande o ferreiro real vir aqui. Eu preciso de... ajustes na minha armadura. Quero placas extras nas laterais. E que sejam forradas com couro grosso. Nada de aberturas!
Klump saiu apressado, deixando o rei sozinho com seus pensamentos. K. Rool sentou-se em sua cama imensa, que rangeu sob seu peso monumental. Ele olhou para as próprias mãos garrafais e depois para a barriga que tanto o orgulhava, mas que agora parecia uma traidora.
— — Aquele Diddy Kong... — murmurou ele, uma ponta de admiração relutante surgindo em sua voz. — Ele tem coragem. Ou é completamente louco.
Na casa da árvore, a tarde caía e Diddy finalmente conseguiu se livrar dos cuidados de Dixie. Ele se sentou na beirada da varanda, olhando para o horizonte onde a fortaleza de K. Rool se erguia contra o céu escurecido. Ele ainda conseguia sentir a vibração da risada do rei em suas mãos.
Donkey Kong aproximou-se, sentando-se ao lado dele com um estrondo que fez a casa toda balançar.
— — Você está muito quieto, pequeno — disse Donkey, oferecendo uma banana para o amigo.
Diddy aceitou a fruta, mas não a descascou imediatamente.
— — Donkey, você acha que o K. Rool é realmente mau? Tipo, cem por cento mau?
Donkey coçou a cabeça, pensando seriamente.
— — Bem, ele roubou nossas bananas umas vinte vezes. Ele tentou explodir a ilha com um laser gigante. E ele usa uma coroa que nem é dele. Eu diria que ele é bem ruim, Diddy. Por que a pergunta?
— — É que... — Diddy hesitou. — Quando eu estava lá, preso com ele, não parecia que ele queria me machucar. Ele parecia só... solitário. Ele falou que os guardas dele são burros e que o Klump só pensa em comida.
Donkey soltou uma risada ruidosa.
— — Nisso ele tem razão! O Klump é um desastre. Mas não se engane, Diddy. O K. Rool é um crocodilo. E crocodilos têm dentes grandes por um motivo.
— — Eu sei, eu sei — concordou Diddy. — Mas eu descobri o segredo dele, Donkey. Eu vi o que está por trás daquela armadura dourada. E não é um monstro de pedra. É alguém que tem medo de cócegas.
Donkey Kong olhou para Diddy como se ele tivesse acabado de dizer que as bananas eram feitas de queijo.
— — Cócegas? O K. Rool? — Donkey começou a rir tão forte que quase caiu da varanda. — Imagine só! O Rei dos Kremlings sendo derrotado por dedinhos de macaco! Isso é a melhor coisa que eu já ouvi!
— — Não conte para ninguém! — pediu Diddy, ficando de pé rapidamente. — Eu prometi que não diria. Se ele souber que eu contei, ele vai ficar furioso de verdade.
Donkey tentou parar de rir, limpando uma lágrima do olho.
— — Tudo bem, tudo bem. Meu lábio é um túmulo. Mas da próxima vez que ele vier roubar nossas bananas, eu vou saber exatamente onde mirar os meus socos... ou melhor, os meus dedos!
Diddy sorriu, sentindo que a tensão da noite anterior finalmente estava desaparecendo. No entanto, algo no fundo de sua mente ainda o fazia pensar no rei solitário em seu trono de ouro.
Horas depois, quando a lua já estava alta e todos na casa da árvore dormiam, Diddy acordou com um som estranho. Era um assobio baixo, vindo da floresta abaixo. Ele se levantou silenciosamente e foi até a varanda.
Lá embaixo, na penumbra das árvores, ele viu uma silhueta massiva. Era inconfundível. O brilho da armadura dourada refletia a luz da lua, mesmo que estivesse parcialmente coberta por uma capa escura.
K. Rool estava lá, parado na borda da clareira. Ele não parecia estar atacando; ele estava apenas... olhando.
Diddy desceu a escada de corda com agilidade, parando a alguns metros de distância do grande crocodilo.
— — K. Rool? — sussurrou Diddy. — O que você está fazendo aqui? Eu disse que o Donkey ia ficar furioso se você voltasse.
O rei se sobressaltou, não esperando ser visto. Ele ajeitou a capa, tentando parecer imponente, mas a falta de sua coroa habitual (que ele provavelmente tinha deixado no trono) tirava um pouco do seu efeito ameaçador.
— — Eu não estou aqui, macaco — rosnou K. Rool, sua voz baixa para não acordar o resto da floresta. — Isso é apenas uma miragem da sua imaginação subdesenvolvida.
— — Uma miragem bem grande e que cheira a pântano — brincou Diddy, aproximando-se mais um pouco. — Você veio me levar de volta? Porque eu já avisei que não vou ser seu travesseiro de novo.
K. Rool soltou um bufo de ar quente.
— — Eu vim apenas para... me certificar de que você não tinha espalhado mentiras sobre a minha pessoa. A reputação de um rei é algo frágil, sabia?
Diddy cruzou os braços, olhando para o vilão com um sorriso de canto.
— — Eu não contei para ninguém. Bem, quase ninguém. Mas o Donkey não conta para ninguém que importe. Por que você se importa tanto com o que os outros pensam, K. Rool?
O rei desviou o olhar, observando as copas das árvores.
— — O medo é a única coisa que mantém os Kremlings na linha, Diddy. Se eles souberem que eu sou... — ele hesitou, a palavra parecendo presa em sua garganta — ...humano, de certa forma, meu império desmorona.
— — Mas você não é humano. Você é um crocodilo gigante que usa armadura — disse Diddy, rindo baixinho. — E, para ser sincero, aquela gargalhada que você deu hoje cedo foi a coisa mais honesta que eu já vi vindo de você.
K. Rool olhou para o macaquinho, e por um momento, o brilho maníaco em seu olho desapareceu, sendo substituído por uma melancolia profunda.
— — A vida de um vilão é cansativa, pequeno Kong. Sempre planejando, sempre perdendo... Às vezes, o silêncio da fortaleza é demais até para mim.
Ele estendeu a mão e, por um segundo, Diddy achou que seria capturado novamente. Mas K. Rool apenas abriu a palma da mão, revelando uma pequena fruta silvestre, de um roxo intenso, que só crescia nas partes mais profundas e perigosas da ilha.
— — Tome — disse o rei, entregando a fruta a Diddy. — É um agradecimento. Pela... pela conversa. E por não ter me mordido enquanto eu dormia.
Diddy pegou a fruta, surpreso.
— — Obrigado, K. Rool.
— — Agora, vá dormir — ordenou o rei, recuperando sua postura autoritária. — Amanhã eu pretendo roubar pelo menos metade do seu estoque de bananas, e eu quero que você esteja bem descansado para que a perseguição seja minimamente interessante.
— — Pode vir — desafiou Diddy, começando a subir a escada de corda. — Mas lembre-se: eu sei onde estão os seus pontos fracos agora.
K. Rool soltou um rosnado que parecia uma risada abafada.
— — Você não ousaria, macaquinho.
— — Quer testar? — Diddy fez um movimento com os dedos no ar.
O rei deu um passo atrás, instintivamente protegendo as costelas, e depois soltou uma gargalhada genuína, embora contida.
— — Até a próxima, Diddy Kong.
Com um movimento rápido de sua capa, King K. Rool desapareceu nas sombras da floresta, movendo-se com uma agilidade que desmentia seu tamanho. Diddy ficou na varanda por um tempo, segurando a fruta roxa e olhando para a escuridão.
Ele sabia que, no dia seguinte, eles seriam inimigos novamente. O canhão de bananas estaria carregado, os Kritters estariam marchando e K. Rool estaria gritando ordens de cima de seu navio pirata ou de sua fortaleza voadora. Mas, por enquanto, havia um entendimento silencioso entre o pequeno macaco e o grande rei.
Diddy voltou para sua rede, deitando-se ao lado de Donkey Kong, que roncava alto o suficiente para espantar qualquer predador. Ele deu uma mordida na fruta — era a coisa mais doce que já tinha provado.
Enquanto fechava os olhos, Diddy pensou que a Ilha Donkey Kong era realmente um lugar estranho. Onde mais um herói e um vilão poderiam compartilhar um segredo tão ridículo quanto a sensibilidade de uma barriga real?
O sono veio rápido, e nos seus sonhos, Diddy não estava correndo de monstros ou coletando bananas. Ele estava sentado em um trono de ouro, rindo junto com um rei de escamas verdes, enquanto a selva inteira dançava ao ritmo de uma paz improvável.
Longe dali, em sua fortaleza, King K. Rool também dormia. Ele não tinha colocado as placas extras na armadura ainda. Talvez, pensou ele antes de apagar as tochas, não fosse tão ruim ter um ponto fraco, desde que a única pessoa que o conhecesse fosse um macaquinho de boné vermelho que sabia guardar um segredo.
A guerra das bananas continuaria, é claro. Mas a partir daquela noite, cada vez que K. Rool visse Diddy Kong no campo de batalha, ele sentiria uma pequena pontada nas costelas — não de dor, mas da lembrança de que, sob todo aquele ouro e escamas, ele ainda era capaz de rir. E para um rei solitário, isso valia mais do que qualquer tesouro.