Diddy Kong e King K.rool
O Despertar do Rei e a Fuga das Cócegas
A luz pálida do amanhecer começou a se infiltrar pelas frestas das rochas da fortaleza, tingindo o ouro do trono de King K. Rool com um brilho alaranjado e suave. O silêncio da madrugada ainda pairava sobre a sala, quebrado apenas pelo ronco profundo e rítmico do Rei dos Kremlings. A cada exalação, o peito e a barriga imensa de K. Rool subiam e desciam como uma maré poderosa, e sobre esse oceano de escamas verdes e placas douradas, Diddy Kong ainda dormia, profundamente alheio ao perigo que o cercava.
Diddy se mexeu em sonhos, esfregando o rosto contra a superfície macia da barriga do rei. Em seu subconsciente, ele achava que estava descansando em uma rede especialmente confortável na casa da árvore, mas o cheiro de pântano e o som metálico da armadura começaram a despertar seus sentidos. Ele abriu um olho, depois o outro, e deu de cara com a mão gigantesca de K. Rool, que ainda repousava sobre suas costas como um cobertor vivo.
O macaquinho congelou. A ficha caiu instantaneamente. Ele não estava em casa; ele era o "convidado de honra" do maior vilão da ilha.
— Pelas bananas de ouro... — sussurrou Diddy para si mesmo, tentando se desvencilhar sem fazer barulho.
Ele tentou rastejar para o lado, mas a pele de K. Rool era levemente pegajosa e o peso da mão do rei era considerável. Cada vez que Diddy se movia, a barriga de K. Rool soltava um som de sucção ou um ruído gástrico que parecia um trovão distante. Diddy parou, prendendo a respiração, observando o olho enorme e fechado do rei. As pálpebras do crocodilo tremeram.
— O que foi, pequeno...? — A voz de K. Rool saiu como um rosnado matinal, carregada de sono, mas ainda autoritária.
Diddy parou de se mexer imediatamente, fingindo-se de morto. K. Rool não abriu os olhos, mas sua mão se fechou um pouco mais sobre o macaquinho, puxando-o de volta para o centro de seu ventre protuberante.
— Já querendo fugir antes do café da manhã? — perguntou K. Rool, finalmente abrindo o olho esbugalhado, que parecia injetado de sangue pela falta de sono. — Que falta de modos, Diddy Kong.
— K. Rool, me solta! — Diddy começou a lutar de verdade agora, empurrando a barriga macia com os pés. — Já é de manhã! O Donkey já deve estar derrubando a sua porta da frente!
K. Rool soltou uma risada seca e se sentou no trono, mantendo Diddy preso contra o peito com um braço só. O movimento fez o estômago do rei roncar de forma audível, uma vibração que Diddy sentiu em todo o seu corpo.
— Deixe que ele venha — disse o rei, bocejando e exibindo fileiras de dentes afiados que poderiam triturar um barril de aço. — Meus guardas estão em alerta máximo. E enquanto ele se ocupa com os Kritters, nós temos assuntos a tratar.
— Que assuntos? — perguntou Diddy, desconfiado. — Você já me sequestrou, já me usou de travesseiro... o que mais você quer?
K. Rool inclinou a cabeça, olhando para o pequeno primata com uma curiosidade quase científica. Ele levou a mão livre até a barriga e começou a dar tapinhas rítmicos nela, fazendo Diddy balançar para cima e para baixo.
— Você é uma criatura fascinante, Diddy. Tão pequeno, tão ágil... e tão irritante. Eu estava pensando em como tornar sua estadia aqui mais... memorável.
— Eu prefiro ser esquecido, obrigado! — rebateu Diddy, tentando morder um dos dedos do rei, mas K. Rool foi mais rápido e afastou a mão, rindo.
— Oh, temos garras e dentes, não é? — K. Rool sorriu de forma maliciosa. — Sabe, os Kremlings não são conhecidos pela sua sensibilidade, mas eu descobri algo interessante sobre essa minha armadura dourada. Ela protege o meu ponto mais fraco, mas também esconde uma verdade terrível.
— Que você é um molenga? — provocou Diddy.
K. Rool estreitou o olho.
— Que eu sou extremamente sensível ao toque.
Antes que Diddy pudesse processar aquela informação, K. Rool o posicionou de forma que o macaquinho ficasse sentado diretamente sobre a curva mais alta de sua barriga. O rei começou a fazer movimentos rápidos com os dedos nas costelas de Diddy, mas o macaquinho, em um reflexo de puro desespero, começou a debater as pernas e as mãos, acabando por atingir as laterais desprotegidas da barriga do rei, logo abaixo da placa dourada.
O efeito foi imediato. King K. Rool soltou um som que Diddy nunca esperaria ouvir: um guincho agudo e estrangulado, seguido por uma gargalhada histérica que quase o derrubou do trono.
— Pare! — gritou K. Rool, retorcendo o corpo massivo, o que fez o trono de ouro ranger sob seu peso. — O que você está fazendo, seu macaco atrevido?!
Diddy paralisou por um segundo, percebendo que havia encontrado a "Kryptonita" do Rei dos Kremlings.
— Espera aí... — Diddy abriu um sorriso largo. — O grande e terrível King K. Rool tem cócegas?
— Eu não tenho cócegas! — mentiu o rei, tentando recuperar a compostura, mas sua barriga ainda tremia involuntariamente. — Eu apenas... tive um espasmo muscular real!
Diddy não perdeu tempo. Ele sabia que aquela era sua chance de criar uma distração. Com a agilidade de quem vive saltando entre galhos, ele começou a movimentar os dedos freneticamente contra as escamas macias do abdômen do rei, logo onde a armadura terminava.
— Peguei você! — exclamou Diddy.
K. Rool desabou em gargalhadas profundas e incontroláveis. Ele tentava segurar as mãos de Diddy, mas o macaquinho era rápido demais, deslizando pela superfície da barriga real como se estivesse em um tobogã. O rei, o terror dos mares e das selvas, estava agora contorcendo-se em seu trono, as lágrimas começando a brotar em seu olho saudável.
— Pare! Eu ordeno! — K. Rool tentava falar entre os acessos de riso. — É traição! É... é... hahahaha! Pare com isso agora mesmo!
— Só se você prometer me deixar ir! — disse Diddy, intensificando o ataque nas laterais do rei.
A cena era absurda. Os guardas Kritters que passavam pelo corredor paravam e espiavam pela porta entreaberta, trocando olhares confusos. Eles nunca tinham visto o seu soberano naquele estado de vulnerabilidade absoluta. K. Rool, percebendo que sua dignidade estava escorrendo pelo ralo, tentou agarrar Diddy com um abraço de urso, mas o movimento só fez com que o macaquinho ficasse mais pressionado contra sua barriga, o que resultou em mais cócegas.
— Tudo bem! Tudo bem! — gritou K. Rool, perdendo o fôlego. — Eu te solto! Só pare de me torturar com essas mãos minúsculas!
Diddy parou imediatamente, mas permaneceu sentado na barriga do rei, pronto para atacar novamente se necessário. K. Rool ofegava, o peito subindo e descendo freneticamente, o rosto verde agora um pouco mais escuro pelo esforço.
— Você... — K. Rool apontou um dedo trêmulo para Diddy. — Você é um demônio disfarçado de macaco.
— Eu sou apenas um Kong — corrigiu Diddy, ajustando seu boné. — Agora, cumpra sua palavra. Abra as portas e me deixe sair.
K. Rool limpou o olho e soltou um suspiro longo. Ele olhou para Diddy, e por um momento, a malícia voltou ao seu olhar, mas foi rapidamente substituída por uma resignação cansada.
— Eu sou um rei de palavra, infelizmente — resmungou ele. — Mas não pense que isso acabou aqui. Se você contar a alguém sobre... sobre o que aconteceu hoje, eu juro que transformo toda a Ilha Donkey Kong em um estacionamento para barcos piratas.
— Meu segredo está guardado com você — disse Diddy, saltando da barriga do rei para o chão de pedra. — Mas só porque ninguém acreditaria em mim se eu contasse que o grande vilão ri como uma hiena quando tocam na barriga dele.
K. Rool rosnou, mas não se levantou. Ele parecia exausto.
— Guardas! — gritou o rei, sua voz recuperando um pouco da força habitual. — Escoltem este... este hóspede para fora. E se ele tentar tocar em qualquer um de vocês, têm minha permissão para... bem, apenas tirem-no daqui antes que eu mude de ideia!
Dois Kritters entraram correndo e, com uma mistura de medo e confusão, indicaram o caminho para Diddy. O macaquinho começou a caminhar em direção à saída, mas antes de atravessar o portal, ele parou e olhou para trás.
K. Rool estava sentado no trono, massageando a própria barriga com uma expressão pensativa.
— Ei, K. Rool! — chamou Diddy.
O rei olhou para cima.
— O que é agora?
— Da próxima vez que quiser companhia, tente pedir educadamente. E talvez use uma armadura que cubra as laterais.
K. Rool pegou um dos seus sapatos de metal e o arremessou na direção de Diddy, mas o macaquinho se esquivou facilmente, rindo enquanto corria pelo corredor.
— Fora daqui! — berrou o rei, embora houvesse um traço de diversão em seu tom.
Diddy correu pelos túneis da fortaleza, passando pelos guardas que pareciam mais interessados em comer sanduíches de peixe do que em impedi-lo. Ele logo sentiu o ar fresco da selva e o cheiro de terra úmida. O sol agora estava alto, e o som familiar dos pássaros e insetos da ilha o saudou como um velho amigo.
Ele não tinha corrido nem cinco minutos quando ouviu um som que fez seu coração saltar de alegria.
— DIDDY! DIDDY, ONDE VOCÊ ESTÁ?
Era a voz de Donkey Kong. O grandalhão estava abrindo caminho pela vegetação, derrubando árvores pequenas como se fossem gravetos. Atrás dele, Dixie Kong vinha flutuando com seu cabelo de helicóptero, parecendo igualmente preocupada.
— Donkey! Aqui! — gritou Diddy, saltando em um arbusto e correndo para os braços do seu melhor amigo.
Donkey Kong pegou Diddy e o apertou em um abraço esmagador, soltando um grito de vitória que ecoou por toda a floresta.
— Nós estávamos indo para a fortaleza do K. Rool agora mesmo! — disse Dixie, pousando ao lado deles. — Você está bem? Ele te machucou? Ele te deixou com fome?
Diddy olhou para trás, na direção da fortaleza escondida entre as rochas. Ele pensou na noite passada, no calor da barriga do rei, nas conversas estranhas e no acesso de riso que quase derrubou o vilão.
— Eu estou bem — disse Diddy com um sorriso misterioso. — Na verdade, o K. Rool não é tão ruim quanto parece quando está dormindo.
Donkey Kong inclinou a cabeça, confuso.
— O que você quer dizer com isso?
— Nada, Donkey. Vamos para casa. Eu estou morrendo de fome, e acho que tive o suficiente de "hospitalidade real" por uma vida inteira.
Enquanto os três macacos se afastavam, voltando para a segurança de sua casa na árvore, King K. Rool observava de uma das janelas altas de sua fortaleza. Ele cruzou os braços sobre a barriga, sentindo o lugar onde Diddy o tinha feito rir.
— Macaco atrevido — murmurou K. Rool para si mesmo. — Ele realmente é macio.
O rei deu meia-volta e caminhou de volta para o seu trono. A fortaleza estava silenciosa novamente, mas o eco daquela risada inesperada parecia ainda flutuar no ar. K. Rool sabia que a próxima batalha seria feroz, e que as bananas seriam roubadas e recuperadas muitas vezes mais. Mas, por um breve momento, a rivalidade tinha dado lugar a algo diferente, algo que nenhum dos dois jamais admitiria em voz alta.
K. Rool sentou-se, fechou o olho e, pela primeira vez em muito tempo, não pensou em planos de dominação mundial. Ele apenas pensou que, talvez, ter um "convidado" de vez em quando não fosse uma ideia tão ruim. Desde que, é claro, ele mantivesse as mãos longe de suas costelas.
A paz, por enquanto, tinha voltado à Ilha Donkey Kong. Mas todos sabiam que, com K. Rool e os Kongs, o próximo capítulo de suas aventuras estava sempre a apenas um esbarrão de distância. E Diddy, agora seguro em sua rede, adormeceu com um sorriso, sabendo que tinha derrotado o rei não com força, mas com o segredo mais bem guardado de todo o reino Kremling.