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Disfarce com segredos

O Banquete das Sombras e as Flores de Cerejeira

O sol da tarde filtrava-se pelas janelas da sala do Clube de Cultura Tradicional, criando um padrão de luz e sombra que dançava sobre os tatames impecáveis. O aroma de incenso caro e chá verde pairava no ar, uma fachada de serenidade que escondia a tensão elétrica característica de qualquer sala de apostas na Academia Hyakkaou.

Jackie, ou melhor, "Milli Sato", estava sentada de joelhos, em uma posição de seiza que parecia desconfortável para quem a observava. Sua peruca castanha estava levemente desalinhada, e ela ajustava os óculos de armação grossa com uma frequência que sugeria nervosismo. Por trás das lentes de contato castanhas, Jackie observava Yuriko Nishinotouin com uma paciência quase predatória, embora sua expressão externa fosse de pura hesitação.

— É um prazer recebê-la, Sato-san — disse Yuriko, mantendo os olhos semicerrados, seu sorriso de raposa perfeitamente ensaiado. — Ouvi dizer que você teve um encontro interessante com a nossa Presidente ontem. É raro ela demonstrar interesse em novos talentos.

Jackie baixou o olhar, fingindo que suas bochechas estavam corando.

— A Presidente foi... muito intimidadora — sussurrou Jackie, apertando as mãos sobre os joelhos. — Eu só quero me encaixar, Nishinotouin-senpai. Emi-san disse que eu deveria vir aqui para aprender sobre as tradições da escola.

Yuriko soltou uma risada suave, um som que lembrava o tilintar de sinos de vento, mas que para os ouvidos treinados de Jackie, soava como o aviso de uma serpente.

— As tradições de Hyakkaou são simples: tudo é decidido pela sorte e pela habilidade. Que tal um jogo de "Vida ou Morte"? É a especialidade da nossa casa.

Jackie inclinou a cabeça, a imagem da confusão inocente.

— "Vida ou Morte"? Parece... perigoso.

— Oh, é apenas um nome — mentiu Yuriko, deslizando o tabuleiro circular com as espadas de metal em direção ao centro. — As regras são fáceis. Você aposta em números, e se a espada cair no seu número, você ganha. Se cair no meu... bem, as consequências variam.

Enquanto isso, na sala do Grêmio Estudantil, Kirari observava a cena através de um monitor de alta definição. Ela estava relaxada em sua cadeira, girando uma mecha de seu cabelo platinado entre os dedos. Ao seu lado, Sayaka parecia genuinamente preocupada.

— Presidente, Yuriko-san não costuma ser gentil com novatos. O jogo de "Vida ou Morte" é conhecido por destruir vidas financeiras em minutos. Tem certeza de que não devemos intervir? Se a Sato-san perder o que não tem...

Kirari soltou um suspiro de satisfação, seus olhos azuis brilhando com uma antecipação quase febril.

— Sayaka, você ainda não entende. Yuriko acha que está caçando um coelho em seu jardim. Ela não percebeu que deixou um lobo entrar no galinheiro. Jackie não está lá para ganhar dinheiro. Ela está lá para ver como a engrenagem de Yuriko funciona. Observe as mãos dela.

Na tela, Jackie estava prestes a fazer sua primeira aposta. Ela remexeu em sua bolsa e tirou um envelope que parecia conter todas as suas economias.

— Eu... eu tenho cinquenta mil ienes aqui. É tudo o que meus pais me deram para o mês — disse Jackie, sua voz tremendo levemente. — Se eu ganhar, posso usar o dinheiro para comprar livros novos?

— Claro, querida — respondeu Yuriko, sinalizando para que suas assistentes preparassem o pote. — Mas se perder, terá que assinar este pequeno formulário de dívida. Apenas uma formalidade para garantir que você continue sendo uma aluna exemplar sob a nossa tutela.

O jogo começou. O som das espadas de metal batendo contra o tabuleiro era rítmico. Jackie observava não o tabuleiro, mas os tendões no pulso de Yuriko e o leve movimento sob a mesa. Ela já havia percebido os pequenos furos no tabuleiro e os ímãs escondidos nas palmas das mãos das assistentes. Era um truque clássico, quase infantil para alguém que cresceu no clã Novark, onde as trapaças envolviam tecnologia militar e hipnose.

— Número 17, "Morte" — anunciou Yuriko, enquanto a espada parava exatamente onde ela desejava. — Que pena, Sato-san. Parece que você perdeu sua primeira rodada.

Jackie morder o lábio inferior, seus olhos lacrimejando de forma convincente.

— Oh, não... meus livros. Por favor, senpai, deixe-me tentar mais uma vez! Eu tenho um anel... é uma herança de família.

Jackie removeu um anel de prata simples do dedo. Para um olho comum, era apenas uma joia barata. Para Kirari, observando do monitor, era um sinal. Aquele anel carregava o brasão oculto dos Novark na parte interna. Jackie estava aumentando a aposta de uma forma que Yuriko jamais compreenderia.

— Um anel? — Yuriko analisou a peça com desdém. — Bem, parece ter algum valor sentimental. Vamos avaliá-lo em quinhentos mil ienes. Mas se você perder desta vez, Sato-san, sua dívida será grande o suficiente para torná-la uma "Vira-lata". Você entende o que isso significa?

— Significa que eu terei que obedecer? — perguntou Jackie, com uma voz que agora era estranhamente calma.

— Exatamente. Você será um animal de estimação da escola.

Jackie sorriu. Não era o sorriso desajeitado de Milli, mas algo mais profundo, que não chegou aos seus olhos castanhos falsos.

— Tudo bem. Eu aceito. Vamos jogar.

O tabuleiro girou novamente. O ar na sala parecia ter ficado mais frio. As assistentes de Yuriko prepararam os ímãs, mas algo estava diferente. Jackie, ao se inclinar para frente, havia discretamente deixado cair um pequeno dispositivo magnético de polaridade inversa, camuflado como um botão de seu uniforme, próximo à base do tabuleiro.

Quando Yuriko tentou manipular o resultado, as espadas começaram a vibrar de forma errática. Os olhos da líder do clube se arregalaram. Ela tentou forçar o resultado, mas a física parecia estar contra ela.

— O que... o que está acontecendo? — sussurrou uma das assistentes.

As espadas pararam. Elas não caíram em nenhum dos números de Yuriko. Elas se alinharam perfeitamente no número 2, a aposta improvável de Jackie.

— Eu ganhei? — perguntou Jackie, batendo palmas com uma alegria infantil. — Oh, que sorte! Isso cobre minha dívida e o anel, não é?

Yuriko sentiu uma gota de suor escorrer por sua têmpora. Aquilo era impossível. Seu sistema era infalível. Ela olhou para a garota à sua frente e, por um breve segundo, viu algo através das lentes castanhas. Um flash de carmesim. Um brilho de inteligência tão vasto e antigo que a fez querer recuar.

— Foi... sorte de principiante — disse Yuriko, sua voz falhando por um milésimo de segundo. — Quer continuar?

— Oh, eu adoraria! Mas acho que já causei problemas demais por hoje — Jackie levantou-se, limpando o uniforme. — Além disso, a Presidente disse que eu deveria ser uma boa menina. Obrigada pelo jogo, Nishinotouin-senpai. Você é muito gentil por deixar uma novata como eu ganhar.

Jackie pegou seu anel e o dinheiro, fazendo uma reverência profunda antes de sair da sala. Assim que a porta se fechou, a expressão de Yuriko desmoronou em uma máscara de confusão e medo.

— Verifiquem o tabuleiro! Agora! — ordenou ela, mas não encontraram nada. O dispositivo de Jackie já estava de volta em seu bolso, recolhido com a destreza de uma ilusionista.

No corredor deserto que levava à ala leste, Jackie parou diante de uma janela. Ela removeu os óculos e massageou a ponte do nariz.

— Que tédio — murmurou ela, sua voz agora carregada com a elegância fria de uma Novark. — Ela é tão previsível que quase sinto pena.

— Você sempre foi uma péssima mentirosa quando se trata de se divertir, Jackie.

Jackie não precisou se virar para saber que Kirari estava ali. A Presidente caminhava calmamente, o som de seus saltos ecoando no mármore. Sayaka estava alguns passos atrás, parecendo em choque com a mudança imediata na postura da "aluna nova".

— Kirari — disse Jackie, virando-se com um pequeno sorriso. — Você viu? Eu tentei ser gentil. Eu até dei a ela a chance de ganhar o anel.

Kirari parou a poucos centímetros de Jackie, ignorando completamente a presença de Sayaka, que parecia querer desaparecer. A Presidente estendeu a mão e acariciou a bochecha de sua noiva, seus dedos traçando o contorno da mandíbula de Jackie.

— Você a aterrorizou sem dizer uma única palavra agressiva — comentou Kirari, seus olhos brilhando de prazer. — Yuriko vai passar a noite em claro tentando entender como perdeu para uma "folha em branco".

— É o que acontece quando se tenta trapacear contra alguém que inventou as regras do jogo antes mesmo de nascer — Jackie inclinou-se para o toque de Kirari. — Mas admito, o papel de "Milli" está começando a ficar interessante. As pessoas dizem coisas fascinantes quando acham que você não é ninguém.

Kirari aproximou-se do ouvido de Jackie, sussurrando de forma que apenas ela pudesse ouvir.

— E o que elas dizem sobre a sua Presidente, minha querida?

— Dizem que você é um monstro — Jackie riu, um som suave e melodioso. — Dizem que você devora as almas de quem perde para você.

— E elas estão erradas? — perguntou Kirari, afastando-se para olhar nos olhos de Jackie.

— Estão — Jackie respondeu, seus olhos vermelhos brilhando intensamente por trás das lentes castanhas, como brasas sob as cinzas. — Porque elas não sabem que esse monstro pertence a mim. E que eu sou a única coisa na terra que você não pode devorar.

Kirari sorriu, um sorriso genuíno que raramente alguém além de sua família e agora Jackie via. Era um momento de intimidade absoluta no meio de uma escola construída sobre traição.

— Sayaka — chamou Kirari, sem desviar os olhos de Jackie.

— S-sim, Presidente! — a secretária respondeu prontamente, tentando recompor sua dignidade.

— Apague os registros das câmeras do Clube de Cultura Tradicional dos últimos vinte minutos. Não queremos que ninguém além de nós saiba o quão "sortuda" a nossa querida Milli Sato realmente é.

— Entendido, Presidente.

Jackie voltou a colocar os óculos, a máscara de timidez retornando instantaneamente à sua face.

— Eu deveria ir para a próxima aula. Não quero que pensem que a nova aluna é uma gazeteira.

— Vá — disse Kirari, observando-a. — Mas não se esqueça, Jackie. O Grêmio terá um jantar formal esta noite para discutir as novas metas de arrecadação. Eu gostaria que você estivesse lá... como minha convidada especial.

Jackie parou por um momento, olhando por cima do ombro.

— Como Milli ou como Jackie?

Kirari inclinou a cabeça, seus olhos azuis encontrando os vermelhos ocultos.

— Venha como você mesma. Acho que é hora de darmos ao conselho um motivo real para tremer. Quero ver a cara deles quando perceberem que a herdeira Novark esteve andando entre eles o tempo todo.

Jackie sorriu, um gesto que prometia caos e elegância em partes iguais.

— Como desejar, meu amor. Vou preparar meu melhor vestido... e meu olhar mais impiedoso.

Enquanto Jackie se afastava, saltitando levemente como se fosse apenas uma estudante comum, Kirari permaneceu no corredor, observando-a desaparecer na curva. O equilíbrio de poder em Hyakkaou estava prestes a mudar. Não por causa de uma aposta de dinheiro, mas por causa de algo muito mais perigoso: a união de duas linhagens que nunca deveriam ter se encontrado.

— Presidente... — começou Sayaka, hesitante. — O clã Novark... eles são realmente tão poderosos quanto dizem as lendas?

Kirari começou a caminhar de volta para sua sala, sua capa balançando com o vento que entrava pela janela aberta.

— Sayaka, as lendas dizem que os Novark controlam o que os Momobami apenas administram. Se os Momobami são os donos do cassino, os Novark são os donos da cidade onde o cassino foi construído. E Jackie... Jackie é o coração pulsante desse império.

Ela parou diante da porta de sua sala e olhou para o céu carmesim do entardecer.

— Hoje à noite, o jardim de Hyakkaou vai descobrir que não é o único lugar onde florescem predadores. E eu mal posso esperar para ver o mundo queimar sob os pés dela.

Naquela noite, o silêncio da academia seria quebrado não pelo som de cartas ou dados, mas pelo peso de um nome que muitos preferiam esquecer. A farsa de Milli Sato estava longe de terminar, mas a revelação de Jackie Novark seria o primeiro ato de uma peça que ninguém em Hyakkaou estava preparado para assistir. E no centro de tudo, duas rainhas estariam sentadas lado a lado, assistindo ao desmoronamento do velho mundo com um sorriso compartilhado.