Disfarce com segredos
O Banquete das Sombras e o Despertar da Rainha Vermelha
O salão nobre do Grêmio Estudantil estava imerso em uma atmosfera de opulência sufocante. Velas de cera de abelha queimavam em candelabros de prata, e a mesa de mogno maciço estava posta com o que havia de mais fino na culinária internacional. No entanto, ninguém ali parecia interessado na comida. Os membros do Grêmio — Kaede Manyuda, Midari Ikishima, Yumemi Yumemite e os demais — mantinham posturas rígidas, trocando olhares furtivos.
A cadeira à direita da Presidente, geralmente ocupada pelo vazio ou por uma pilha de documentos de Sayaka, estava posta de forma diferente naquela noite. Havia um lugar marcado com um cartão de linho, mas o nome estava escrito em uma caligrafia dourada que ninguém conseguia ler de longe.
— Presidente — começou Kaede, ajustando os óculos com um movimento seco —, posso perguntar quem é o convidado de tamanha importância que nos obrigou a adiar a revisão do orçamento semestral?
Kirari, sentada em seu trono na cabeceira, brincava com uma taça de vinho tinto, observando o reflexo das chamas no líquido escuro.
— Alguém que está acima de orçamentos, Kaede — respondeu ela, sua voz soando como um sussurro perigoso. — Alguém que, por cortesia, decidiu nos agraciar com sua verdadeira face.
Nesse momento, as grandes portas duplas de carvalho se abriram. O som não foi o de um anúncio estridente, mas o de um silêncio que parecia devorar o ruído ambiente.
Uma figura entrou no salão. Não era a "Milli Sato" desajeitada que muitos ali tinham visto tropeçar nos próprios pés no pátio. A garota que caminhava agora possuía uma elegância que fazia a própria arquitetura da escola parecer pequena. Seus cabelos brancos, desprovidos da peruca opaca, brilhavam como fios de lua sob a luz das velas, caindo em ondas perfeitas até a cintura. Ela usava um vestido de seda negra que abraçava seu corpo com a precisão de uma segunda pele, com detalhes em renda que lembravam teias de aranha.
Mas foram os olhos que paralisaram o Grêmio. Sem as lentes de contato, as íris de Jackie Novark eram de um vermelho tão profundo e vibrante que pareciam conter o fogo primordial.
— Boa noite a todos — disse Jackie. Sua voz não era mais o tom agudo e hesitante de Milli, mas uma melodia rica, calma e carregada de uma autoridade ancestral.
Ela caminhou até a mesa, cada passo exalando a confiança de quem nasceu para governar impérios. Ao chegar ao lado de Kirari, Jackie não fez uma reverência. Em vez disso, ela pousou uma mão delicada no ombro da Presidente. O toque foi recebido por Kirari com um inclinar de cabeça quase imperceptível, um sinal de submissão mútua que fez Sayaka, ao fundo, perder o fôlego.
— Esta é Jackie Novark — anunciou Kirari, seus olhos azuis brilhando com um orgulho possessivo. — Única herdeira do clã Novark e minha noiva.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Kaede Manyuda deixou sua caneta cair sobre a mesa. Yumemi Yumemite esqueceu de manter seu sorriso de ídolo, sua boca abrindo-se em choque. Midari, por outro lado, soltou uma gargalhada histérica, seus olhos arregalados de excitação.
— Novark? — murmurou Kaede, a voz falhando. — O clã que financia os conglomerados europeus? A linhagem que... que a família Momobami jurou lealdade em segredo há séculos?
Jackie sentou-se graciosamente na cadeira ao lado de Kirari, cruzando as pernas e observando os membros do Grêmio como se fossem peças de um jogo que ela já havia vencido.
— Os termos "lealdade" e "segredo" são tão arcaicos, não acha, Manyuda-san? — Jackie sorriu, e seus olhos vermelhos pareceram pulsar. — Digamos apenas que nossas famílias têm um entendimento profundo sobre quem realmente move as cordas deste mundo.
— Mas... você era a garota nova! — exclamou Yumemi, perdendo a compostura. — A Milli! Eu vi a Emi ganhar de você! Eu vi você quase chorar no Clube de Cultura Tradicional!
Jackie soltou uma risada curta e cristalina, um som que enviou arrepios pela espinha de todos.
— Atuar é uma forma de arte, Yumemi-san. E para entender a podridão de um jardim, às vezes é preciso fingir ser uma das flores mais fracas. Foi fascinante observar como vocês tratam aqueles que consideram inferiores.
Kirari serviu um pouco de vinho para Jackie, um gesto de serviço que ninguém jamais imaginaria ver a Presidente realizar.
— Jackie queria uma experiência autêntica — explicou Kirari. — Mas temo que a mediocridade de alguns alunos tenha começado a entediá-la. Especialmente a tentativa de trapaça de Yuriko hoje à tarde.
— Ela não trapaceou — disse Jackie, levando a taça aos lábios e bebendo um gole lento. — Ela tentou usar física básica contra alguém que entende as leis da probabilidade em um nível celular. Foi... fofo.
Midari inclinou-se sobre a mesa, sua língua passando pelos lábios de forma errática.
— Então você é a verdadeira dona do jogo? Aqueles olhos... eles parecem que podem ver o momento exato em que meu coração vai parar! Aposte comigo, Novark! Aposte sua alma!
Jackie olhou para Midari com uma indiferença que era mais cortante que qualquer insulto.
— Ikishima-san, eu não aposto minha alma com quem já a perdeu há muito tempo. Além disso, você não tem nada que eu deseje. Tudo o que existe nesta escola, desde os tijolos até as vidas de vocês, tecnicamente, já está sob a sombra do meu nome.
A tensão na sala era tão espessa que poderia ser cortada com uma faca. Jackie voltou sua atenção para Kaede, que tentava recuperar sua lógica fria.
— Por que revelar-se agora? — perguntou ele. — Se o seu plano era observar das sombras, por que este banquete? Por que este anúncio?
Jackie olhou para Kirari, e um olhar de ternura genuína suavizou suas feições por um momento, antes de se tornar novamente gélido ao encarar o resto da mesa.
— Porque descobri que há pessoas nesta academia que pensam que podem usar minha noiva como um degrau para suas ambições — disse Jackie, sua voz baixando uma oitava, tornando-se perigosamente suave. — Kirari ama o caos, ela ama o risco. Eu, por outro lado, não gosto de desordem quando ela ameaça o que é meu.
Ela colocou a taça de prata sobre a mesa com um clique seco.
— A partir de amanhã, "Milli Sato" continuará existindo. Mas saibam disto: cada vez que um de vocês tentar conspirar contra a Presidente, ou cada vez que tentarem transformar este lugar em algo que fuja do controle dela, vocês não estarão lidando apenas com o clã Momobami. Estarão lidando com o sangue Novark.
— E acreditem — interveio Kirari, levantando-se e caminhando até ficar atrás da cadeira de Jackie, envolvendo o pescoço da noiva com os braços —, vocês preferem mil vezes a minha crueldade do que a gentileza da Jackie quando ela é provocada.
Jackie estendeu a mão para trás, acariciando o rosto de Kirari. A imagem das duas — a lua azul e o sol carmesim — juntas no topo da hierarquia era algo que nenhum dos presentes jamais esqueceria. Era uma aliança que transcendia o dinheiro e o poder; era algo predestinado.
— O jantar está excelente — comentou Jackie, olhando para o prato de cordeiro à sua frente como se o assunto anterior já tivesse sido encerrado. — Mas Manyuda-san, seus cálculos sobre os juros das dívidas dos alunos do terceiro ano estão errados em 0,4%. Eu sugiro que corrija isso antes que eu mesma tenha que auditar seus livros.
Kaede empalideceu, suas mãos tremendo levemente sob a mesa.
— C-como você sabe...?
— Eu li os relatórios enquanto você piscava — respondeu Jackie com um sorriso doce e letal. — Os Novark têm olhos em todos os lugares, Kaede. Até mesmo nos seus pensamentos mais gananciosos.
O restante do banquete transcorreu em um silêncio sepulcral, interrompido apenas pelo som dos talheres. Jackie e Kirari conversavam entre si em tons baixos, compartilhando piadas internas e olhares que excluíam o resto do mundo. Elas eram as únicas divindades naquele templo de apostas.
Quando o jantar finalmente terminou, e os membros do Grêmio foram dispensados com um gesto displicente de Kirari, Jackie permaneceu sentada, observando as chamas das velas se apagarem uma a uma.
— Você foi um pouco dura com eles, não acha? — perguntou Kirari, sentando-se no braço da cadeira de Jackie.
— Eles precisavam de um lembrete — respondeu Jackie, puxando Kirari para mais perto. — Eu não gosto do jeito que aquele Manyuda olha para você. Como se você fosse um problema a ser resolvido em uma planilha.
Kirari riu, encostando a testa na de Jackie.
— Ele é apenas um contador com ilusões de grandeza. Mas eu admito... ver o medo nos olhos deles quando você entrou foi o melhor espetáculo que tive em anos.
Jackie envolveu a cintura de Kirari, seu olhar vermelho brilhando com uma intensidade amorosa.
— Eu farei qualquer coisa por você, Kirari. Serei a sua vira-lata, serei a sua Milli, serei a sua sombra. Mas nunca se esqueça de que, se o mundo tentar nos separar, eu não jogarei conforme as regras. Eu simplesmente destruirei o tabuleiro.
— Eu sei — sussurrou Kirari, selando seus lábios nos de Jackie. — É por isso que eu escolhi você. Porque você é a única pessoa que pode me manter presa, e a única que eu desejo que nunca me solte.
Lá fora, a noite em Hyakkaou estava calma, mas o equilíbrio de poder havia mudado irrevogavelmente. No dia seguinte, Milli Sato voltaria a usar sua peruca castanha e seus óculos de armação grossa. Ela voltaria a tropeçar nos corredores e a perder pequenas quantias para alunos arrogantes.
Mas agora, o Grêmio Estudantil sabia a verdade. Eles sabiam que, por trás daquela garota gentil e desajeitada, escondia-se uma rainha de olhos de sangue que observava cada movimento, cada trapaça e cada suspiro.
O jogo continuava, mas agora as regras eram ditadas por uma voz que sussurrava no escuro, uma voz que carregava o peso de milênios de poder. E enquanto Jackie Novark estivesse ao lado de Kirari Momobami, a Academia Hyakkaou não seria apenas um lugar de apostas. Seria o palco privado de duas deusas que decidiram, por puro capricho, brincar com os destinos dos mortais.
— Vamos dormir? — perguntou Jackie, levantando-se e estendendo a mão para a noiva.
— Sim — respondeu Kirari, entrelaçando seus dedos nos dela. — Amanhã, Milli Sato tem uma aula de história. E eu tenho um Grêmio para governar.
— E eu — disse Jackie, com um brilho travesso nos olhos vermelhos antes de colocar novamente suas lentes castanhas — terei que fingir que não sei a resposta para todas as perguntas do professor. É exaustivo ser comum, sabia?
Kirari riu, e as duas deixaram o salão, o som de seus passos desaparecendo na escuridão, deixando para trás apenas o perfume de rosas e a promessa de um caos que estava apenas começando a florescer.