Distorção
O Gosto Metálico da Obediência
A noite na residência dos irmãos era um organismo vivo, pulsante e sufocante. O cheiro de álcool barato e madeira velha parecia impregnado nas cortinas pesadas da sala de jantar. Sua estava parada a um canto, as mãos entrelaçadas atrás das costas, tentando ao máximo tornar-se invisível. Era o jantar com os sócios, o evento que Ivan havia mencionado com tanto desdém e ameaça.
O pai, com o rosto avermelhado e os olhos turvos pela quarta dose de uísque, ria alto de uma piada sem graça de um dos convidados. A mãe, sempre impecável e com um sorriso gélido que nunca atingia os olhos, servia o vinho com uma elegância performática. Ivan estava sentado à mesa, o filho prodígio, o orgulho da casa, mantendo uma conversa inteligente sobre economia enquanto cortava sua carne com precisão cirúrgica.
Sua cometeu o erro de tropeçar. Foi um movimento mínimo, um desequilíbrio causado pelo cansaço extremo que fazia suas pernas pesarem como chumbo. O som do seu sapato raspando no tapete foi o suficiente.
O olhar do pai mudou instantaneamente. A diversão ébria deu lugar a uma irritação latente.
— Inútil — resmungou ele, baixo o suficiente para os convidados não ouvirem, mas alto o bastante para que o corpo de Sua travasse.
Quando os convidados finalmente saíram, o silêncio que se seguiu foi pior do que o barulho. A mãe subiu as escadas sem olhar para trás, retirando-se para seu santuário de indiferença. Ivan permaneceu na sala, encostado no batente da porta, observando com um sorriso de expectativa.
— Eu disse para você não ser um estorvo hoje — a voz do pai saiu arrastada, perigosa.
— Eu... eu sinto muito, pai — sussurrou Sua, recuando um passo.
O golpe veio rápido. Não foi refinado como as torturas psicológicas de Ivan; foi bruto e carregado de frustração acumulada. A mão pesada do pai atingiu o rosto de Sua, jogando-a contra a parede. Antes que ela pudesse processar a dor latejante na bochecha, ele a agarrou pelo braço, arrastando-a escada acima.
— Você não sabe se comportar como uma pessoa normal! É um peso morto nesta casa! — Ele a empurrou para dentro do quarto com tanta força que ela caiu de joelhos sobre o carpete. — Fique aí e não ouse sair até amanhã. Você me dá nojo.
A porta foi batida com violência e a chave girou na fechadura. Sua ficou ali, no escuro, o gosto metálico de sangue invadindo sua boca. Ela não chorou. O medo era grande demais para permitir o alívio das lágrimas.
Alguns minutos depois, ouviu-se o clique suave da tranca. Não era o pai.
Ivan entrou no quarto. Ele não acendeu a luz principal, apenas fechou a porta atrás de si e caminhou lentamente até onde ela estava caída. Ele se agachou, ficando na altura dela, o rosto iluminado apenas pela luz da lua que filtrava pelas cortinas.
— Olhe para você — Ivan disse, a voz suave, quase carinhosa, o que a tornava mil vezes mais aterrorizante. — Papai tem razão, sabia? Você estraga tudo o que toca. Olhe esse estado. Patética.
Ele estendeu a mão e tocou o local onde o rosto dela estava inchando. Sua estremeceu, fechando os olhos com força.
— Você acha que alguém lá fora se importa? — Ivan continuou, inclinando-se para sussurrar no ouvido dela. — A Hyuna? A Mizi? Elas só te aguentam porque eu permito que você faça parte do grupo. Se eu estalar os dedos, você volta a ser o nada que sempre foi. Você é uma falha, Sua. Uma falha genética que eu sou obrigado a carregar.
Ele se levantou, limpando os joelhos da calça como se o chão do quarto dela estivesse contaminado.
— Durma bem, irmãzinha. Tente não feder a fracasso amanhã cedo.
Ele saiu, trancando a porta novamente por fora. Sua arrastou-se até a porta e colou o ouvido na madeira. Lá embaixo, a "reunião" continuava de forma privada. Ela ouvia o som de garrafas batendo, a voz grossa do pai reclamando de negócios e a voz polida de Ivan concordando, moldando o humor do velho, manipulando o monstro que acabara de agredi-la como se fosse um mestre de marionetes. Sua era apenas o dano colateral de uma engrenagem que ela nunca entenderia.
***
Na manhã seguinte, o ambiente na Anakt High School estava carregado. O corredor do terceiro ano parecia um campo minado.
Sua usava o cabelo propositalmente solto e um pouco mais de base do que o normal para esconder a marca no rosto, mas seus movimentos eram lentos, protegendo as costelas que doíam.
O estopim aconteceu perto dos armários. Till estava em seu limite, a jaqueta de couro puída e os olhos injetados de quem não dormia. Ivan, com sua audácia habitual, passou por ele e deixou cair uma frase curta, algo sobre como a mãe de Till devia se sentir envergonhada de ter um filho que cheirava a fumaça e fracasso.
Foi o fim. Till não gritou desta vez; ele simplesmente avançou como um animal encurralado. O som do primeiro soco ecoou pelo corredor, um baque seco contra a mandíbula de Ivan.
— Eu vou te matar! — gritava Till, enquanto rolavam pelo chão. — Eu vou apagar esse sorriso da sua cara de uma vez por todas!
Ivan não revidava com a mesma força bruta, ele usava os cotovelos para se proteger e tentava atingir pontos sensíveis, mantendo uma expressão de choque fingido para quem olhasse de longe, como se ele fosse a vítima de um ataque maníaco.
— Alguém chame o diretor! — gritava um aluno.
Hyuna surgiu do nada, tentando separar os dois, mas a fúria de Till era incontrolável. Foi necessário que dois professores aparecessem para arrancar Till de cima de Ivan. Ambos estavam desgrenhados, Ivan com o lábio cortado e Till com o supercílio sangrando.
— Para a diretoria! Os dois! Agora! — berrou o supervisor.
Sua assistia a tudo de longe, encostada na parede, sentindo uma náusea crescente. Ela viu Hyuna parada na porta da diretoria, o rosto tenso, as mãos na cintura, esperando para ver o que aconteceria com os dois. Luka não estava lá; ele havia faltado naquele dia para uma competição de robótica ou algo que o mantinha longe daquele caos.
Mizi apareceu logo depois, caminhando com uma leveza que contrastava com o desespero do ambiente. Ela carregava duas mochilas — a de Ivan e a sua própria — e se aproximou de Sua, que ainda estava em transe.
— Oi, Sua — disse Mizi, a voz doce, mas os olhos dourados fixos na marca mal escondida sob a base no rosto da outra. — Que dia agitado, não é? O Till realmente perdeu a cabeça hoje.
Sua não conseguiu responder. Ela sentia que se abrisse a boca, tudo o que aconteceu na noite anterior sairia em forma de gritos.
— O sinal já vai bater para irmos embora, os meninos vão ficar lá por um bom tempo — Mizi continuou, aproximando-se mais. Ela invadiu o espaço pessoal de Sua, obrigando-a a encostar as costas totalmente na parede fria. — Eu fui buscar os materiais de vocês na sala. Achei que seria gentil da minha parte.
Mizi estendeu a mão e, de forma audaciosa, tocou o queixo de Sua, levantando seu rosto. A proximidade era desconfortável, mas paralisante.
— Você sabe, Sua... — Mizi sussurrou, a voz agora caindo para aquele tom gélido e real que ela revelara no banheiro. — Tudo o que o Ivan te diz... sobre você ser inútil, sobre ninguém te amar... é mentira.
Sua arregalou os olhos. O choque percorreu seu corpo como uma corrente elétrica.
— Como você...
— Eu ouvi tudo ontem no corredor. E eu sei o que acontece quando as luzes se apagam naquela casa bonita de vocês — Mizi deu um sorriso que não tinha nada de inocente. Era predatório. — Ele é um mentiroso medíocre. Ele te diz essas coisas para que você nunca perceba o poder que tem sobre ele. Você é a única coisa que ele não consegue controlar totalmente, e isso o apavora.
Mizi deslizou a mão do queixo de Sua para o seu pescoço, os dedos frios traçando a linha da mandíbula. O toque não era apenas reconfortante; havia uma intenção por trás, algo que fez o estômago de Sua dar voltas, mas não de medo. Era uma tensão nova, uma eletricidade que subia pela espinha.
— Você é linda, Sua — murmurou Mizi, inclinando o rosto até que seus lábios quase roçassem a orelha de Sua. — E você é minha agora. Eu não vou deixar ele te quebrar antes que eu termine de brincar com você.
Mizi respirou fundo contra o pescoço de Sua, um gesto deliberadamente íntimo que fez as pernas de Sua tremerem. A provocação era clara, um jogo de poder que misturava proteção com uma possessividade sensual e sombria. Sua sentiu o rosto esquentar, uma reação física que ela não conseguia controlar, uma mistura de choque e uma excitação confusa e proibida que a deixava sem ar.
Mizi se afastou subitamente, voltando à sua expressão de "garota boba" em um piscar de olhos, como se nada tivesse acontecido.
— Bom! — Mizi exclamou, entregando a mochila de Ivan para Sua e pegando a mochila de Till que estava jogada no banco próximo. — Já que o Ivan vai ficar detido, eu levo a mochila do Till para a casa dele e você leva a do seu irmão. Vamos? A Hyuna parece que vai ter um colapso se a gente não tirar ela da frente daquela porta.
Sua ficou parada por um segundo, tentando recuperar o fôlego, o coração batendo contra as costelas como um pássaro enjaulado. Ela olhou para Mizi, que já caminhava em direção à saída, balançando a mochila de Till com indiferença.
Mizi sabia. Mizi tinha visto através de tudo. E, de alguma forma, o fato de Mizi ser tão perigosa quanto Ivan, mas de uma maneira que a fazia se sentir... vista... era a coisa mais assustadora e viciante que Sua já havia experimentado.
Ela ajeitou a mochila pesada de Ivan no ombro e começou a caminhar, seguindo a silhueta rosa de Mizi pelo corredor vazio, sabendo que, a partir daquele dia, o inferno em sua casa teria uma nova e complexa distração.