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Distorção

Ecos de Neon e Lábios de Fel

A noite de sábado nos subúrbios americanos tinha um cheiro específico: grama cortada, fumaça de cigarro barato e o perfume doce demais das bebidas destiladas que circulavam livremente. A casa onde ocorria a festa estava pulsando. O grave da música eletrônica fazia as janelas vibrarem, um ritmo cardíaco artificial que tentava esconder as tensões reais que fervilhavam sob o teto.

Sua estava sentada em um sofá de couro surrado num canto da sala, tentando fundir-se às sombras. Cada respiração era um lembrete físico do que acontecera poucas horas antes. Suas costelas protestavam sob o tecido da blusa larga, e a lateral de sua coxa ardia onde Ivan a chutara para "garantir que ela não fizesse cena" na frente dos amigos. O pai, em seu habitual estado de fúria líquida, apenas observara, rindo quando ela caiu.

Ela segurava um copo de plástico com água, recusando qualquer gota de álcool. Sua precisava de todos os seus sentidos alertas. Precisava vigiar os passos de Ivan. Precisava estar pronta para fugir se ele decidisse que a festa era o lugar perfeito para uma nova rodada de humilhações silenciosas.

— Você está parecendo um fantasma, Sua — comentou Hyuna, aproximando-se com um andar levemente instável. Ela balançava um copo vermelho e tinha um sorriso brilhante, embora seus olhos azuis estivessem um pouco nublados pelo álcool. — Vamos, beba alguma coisa! A música está ótima e o Luka nem veio para nos dar sermão sobre os danos cerebrais da bebida.

— Estou bem, Hyuna — respondeu Sua, a voz saindo mais fraca do que pretendia. — Só estou com um pouco de dor de cabeça.

— Você está sempre com dor de cabeça — Hyuna suspirou, sentando-se ao lado dela e passando um braço pelos seus ombros. Sua soltou um arquejo baixo de dor, que Hyuna, em seu estado de embriaguez, confundiu com um suspiro de cansaço. — Você precisa se soltar. Olhe para o Till, ele está vivendo o melhor momento da vida dele. Ou o pior.

No centro da sala, Till estava visivelmente alterado. O cabelo cinza estava ensopado de suor e ele segurava uma garrafa de cerveja como se fosse um microfone, discutindo agressivamente com alguém sobre uma banda de punk que ninguém ali conhecia.

Perto dele, encostado em uma mesa de pingue-pongue, estava Ivan. Ele segurava um copo, mas bebia pouco. Seus olhos pretos estavam fixos em Till com uma intensidade predatória. Ele parecia um cientista observando uma reação química volátil, esperando o momento exato em que o experimento explodiria. Ivan estava bêbado o suficiente para baixar um pouco a guarda, mas não o bastante para perder o controle. Ele sorria, um sorriso que Sua conhecia bem: o sorriso de quem já havia planejado como destruiria a noite de alguém.

Mizi, por outro lado, era a alma da festa. Ela dançava, ria alto e tropeçava propositalmente, fazendo todos acreditarem que estava completamente fora de si. Seus olhos dourados brilhavam sob as luzes de neon, mas, para quem olhasse com atenção — o que ninguém fazia, exceto Sua —, veria que seus movimentos eram precisos demais para alguém embriagado.

De repente, uma garota de cabelos brancos longos e olhos azuis penetrantes, Lexy, aproximou-se de Mizi. Ela sussurrou algo no ouvido da garota de rosa e fez um sinal discreto com a cabeça em direção aos fundos da casa.

Mizi soltou uma risada afetada, deu um tchauzinho para o grupo e seguiu Lexy. Ninguém pareceu notar a saída deliberada, exceto Sua, que sentiu uma pontada estranha no peito ao ver as duas desaparecerem pelo corredor que levava ao quintal.

Atrás da casa, longe do barulho ensurdecedor, o ar estava frio. Lexy empurrou Mizi contra a parede de madeira da garagem.

— Achei que você nunca ia sair daquela sala — disse Lexy, a voz carregada de segundas intenções.

— Ah, você sabe como eu sou... gosto de atenção — respondeu Mizi, a voz doce e falsa ainda presente, mas perdendo a força conforme ela analisava a garota à sua frente.

Lexy não esperou. Ela avançou e selou seus lábios nos de Mizi. O beijo era técnico, úmido e cheio de urgência. Lexy beijava bem, era bonita e exalava uma confiança que costumava atrair Mizi. No entanto, enquanto as mãos de Lexy exploravam sua cintura, Mizi sentia um vazio absoluto. Ela não sentia a faísca, não sentia o desafio. Era apenas carne contra carne. Um tédio profundo começou a se instalar em sua mente.

Mizi se afastou suavemente, limpando o canto da boca com o polegar.

— Você é adorável, Lexy — disse Mizi, voltando instantaneamente para sua máscara de garota fofa. — Mas acho que deixei meu drink lá dentro e estou morrendo de sede!

— Já? — Lexy pareceu confusa, mas Mizi já estava caminhando de volta, balançando os quadris com uma indiferença calculada.

Ao entrar novamente na casa, Mizi escaneou o ambiente. Ivan ainda estava obcecado por Till, que agora tentava escalar uma cadeira para gritar algo. Hyuna estava dançando sozinha no meio da sala, rindo de si mesma. E Sua... Sua continuava no mesmo lugar, parecendo uma boneca de porcelana quebrada e esquecida.

Mizi sentiu um formigamento nas mãos. O tédio desapareceu.

Ela caminhou até o sofá e parou na frente de Sua.

— Vem comigo — disse Mizi. Não era um pedido.

Sua olhou para cima, os olhos roxos cheios de hesitação.

— Mizi, eu não estou me sentindo muito bem...

— Eu sei que não está. Por isso mesmo, vem.

Mizi segurou a mão de Sua. Diferente do toque de Lexy, o contato com a pele pálida e fria de Sua fez algo disparar no cérebro de Mizi. Ela a conduziu para o andar de cima, entrando em um quarto de hóspedes vazio e trancando a porta atrás de si.

O silêncio do quarto era quase tão pesado quanto a música lá embaixo.

— O que estamos fazendo aqui? — perguntou Sua, abraçando os próprios braços, uma postura defensiva que não passou despercebida por Mizi.

Mizi caminhou até a janela, observando o reflexo das duas no vidro.

— Eu acabei de estar lá fora com aquela garota, a Lexy — começou Mizi, a voz agora totalmente desprovida de qualquer falsidade. Era fria, direta e perigosamente honesta. — Ela é bonita, não é? E beija muito bem.

Sua baixou o olhar, sentindo um aperto desconfortável no estômago.

— Por que está me dizendo isso?

— Porque eu estava lá, sendo beijada por alguém que todo mundo quer, e tudo o que eu conseguia pensar era em como aquilo era irrelevante — Mizi se virou, aproximando-se de Sua com passos lentos. — Eu não queria estar com ela. Eu queria estar com quem realmente me intriga. Com quem me faz querer arrancar todas as camadas até encontrar o que está escondido lá no fundo.

Mizi parou a centímetros de Sua. O cheiro de morango da maquiagem de Mizi misturava-se ao cheiro de sabonete neutro de Sua.

— Sabe, Sua... o Ivan gasta tanto tempo tentando te convencer de que você é nada, que você acabou acreditando. Mas ele só faz isso porque tem medo do que acontece se você perceber que não precisa dele.

— Você não entende... — sussurrou Sua. — Ele é meu irmão. Ele vive comigo. Ele sabe tudo sobre mim.

— Ele não sabe nada — Mizi estendeu a mão e tocou a lateral do rosto de Sua, onde a maquiagem escondia a marca do golpe do pai. — Ele só conhece a dor que ele mesmo causa. Ele não conhece a Sua que eu vejo.

A tensão no quarto subiu drasticamente. Sua sentia que não conseguia se mexer, hipnotizada pelo brilho predatório e, ao mesmo tempo, estranhamente acolhedor dos olhos de Mizi.

Mizi inclinou-se. Seus lábios encontraram os de Sua em um toque hesitante no início, mas que rapidamente se transformou em algo profundo. Foi um beijo de língua, intenso e carregado de uma fome que Mizi não sabia que possuía até aquele momento.

Sua congelou por um milésimo de segundo. O choque de ser beijada por Mizi — a garota que ela pensava ser apenas uma máscara de alegria — foi avassalador. Mas então, o calor do corpo de Mizi contra o seu, a firmeza com que ela a segurava, fez algo dentro de Sua se quebrar. Ela devolveu o beijo. Foi um ato de desespero, de busca por algo que não fosse dor ou humilhação.

Mizi explorava a boca de Sua com uma curiosidade quase científica, mas temperada com uma possessividade que a assustava. Quando se afastaram por um momento para respirar, as testas continuaram coladas.

— Pare de dar ouvidos a ele — disse Mizi, a voz rouca, os dedos agora enterrados nos cabelos pretos de Sua. — O Ivan é um parasita. Ele se alimenta da sua tristeza porque ele mesmo é vazio por dentro. Mas você... você tem algo que ele nunca vai ter.

— O que? — perguntou Sua, a voz falhando.

— Você tem a mim — Mizi deu um sorriso pequeno, um sorriso que Sua nunca tinha visto antes. Não era fofo, não era falso. Era o sorriso de alguém que tinha acabado de reivindicar um território. — E eu sou muito mais perigosa do que o seu irmão jamais sonhou ser. Ele te machuca para se sentir grande. Eu vou te proteger para mostrar para ele que ele é pequeno.

Sua olhou para Mizi, sentindo um misto de terror e uma esperança doentia. Ela sabia que Mizi não era uma "boa pessoa" no sentido tradicional. Ela via a manipulação, via a frieza. Mas, naquele momento, estar sob o controle de Mizi parecia a única forma de escapar do controle de Ivan.

— Por que eu? — Sua perguntou.

Mizi deu mais um beijo curto em seus lábios, um selinho que selava uma promessa silenciosa.

— Porque você é a única peça nesse tabuleiro que eu ainda não consegui prever totalmente. E eu adoro um desafio, Sua.

Lá embaixo, a música continuava. Ivan provavelmente ainda estava provocando Till, e Hyuna ainda devia estar dançando. Mas naquele quarto escuro, a hierarquia do grupo havia mudado silenciosamente. Mizi tinha encontrado seu novo foco, e Sua, pela primeira vez em anos, sentiu que talvez — apenas talvez — houvesse uma sombra maior e mais poderosa para protegê-la da sombra que a assombrava em casa.

***

**Opções de continuação:**

1. **Consequências da festa:** No dia seguinte, Ivan percebe que Sua está agindo de forma diferente e começa a suspeitar de Mizi, iniciando um jogo de espionagem e manipulação entre os dois.

2. **O segredo de Mizi e Sua:** As duas começam a se encontrar secretamente na escola, mas Hyuna começa a notar o comportamento estranho de ambas e tenta descobrir o que está acontecendo.

3. **A obsessão de Ivan por Till:** A briga na festa tem desdobramentos sérios na escola, e Ivan usa sua influência para colocar Till em uma situação desesperadora, forçando Mizi a intervir para manter o equilíbrio do grupo.

4. **Passado de Mizi:** Um capítulo focado no POV da Mizi, revelando por que ela criou sua personalidade falsa e qual é o seu objetivo final com o grupo e, especialmente, com a Sua.