Dois pra lá, dois pra cá.
O Vidro e o Asfalto
O sobrado na Barra Funda era um organismo vivo, pulsante e, para os padrões de Gabriele, ligeiramente hiperativo. Nas semanas que se seguiram à sua chegada, a rotina de "esposa de mentira" — como Hylda adorava proclamar para quem quisesse ouvir — tornou-se o novo normal. No entanto, por trás da fachada de elegância resiliente e das tentativas desajeitadas de aprender a usar o transporte público, uma sombra familiar começou a rastejar pelos cantos da mente de Gabriele.
Não era apenas a falta de emprego ou o choque cultural. Era o peso cíclico que ela conhecia tão bem. O transtorno bipolar, que Gabriele sempre tratou como um segredo de Estado guardado sob sete chaves e medicações rigorosas, estava entrando em uma fase de baixa. O brilho do sol na janela parecia agressivo demais, e o barulho das risadas dos amigos de Hylda na sala soava como estática de rádio, irritante e distante.
Hylda, com sua percepção aguçada de quem já tinha visto o fundo de muitos poços, notou a mudança. Ela via Gabriele passar horas olhando para a mesma página de um livro sem virá-la, ou o jeito como ela se encolhia no sofá quando Mirtes tentava brincar. Hylda sabia que aquele silêncio não era o de uma "bruxa amarga", mas o de uma mulher lutando contra a própria gravidade.
— Ei, duquesa — disse Hylda certa manhã, entrando no quarto com duas canecas de café fumegante. — O dia está bonito lá fora. Que tal a gente dar uma saída?
Gabriele, sentada na beira da cama com seu robe de seda ainda impecável, embora seus olhos estivessem opacos, mal levantou a cabeça.
— Eu não me sinto muito... apresentável hoje, Hylda. Acho que vou ficar por aqui, lendo.
— Ler faz bem pra alma, mas mofar faz mal pro corpo — insistiu Hylda, sentando-se ao lado dela e respeitando o espaço, mas deixando o calor de sua presença preencher o vácuo. — Vamos ao shopping. Você precisa de ar condicionado de elite e eu preciso gastar um pouco desse bônus que recebi da fábrica.
— Hylda, eu não tenho dinheiro para luxos agora — murmurou Gabriele, a voz falhando levemente.
— Quem disse que o dinheiro é seu? — Hylda deu uma piscadela, o tipo de gesto que normalmente faria Gabriele revirar os olhos, mas que agora só lhe trouxe um aperto de gratidão no peito. — Hoje o marido leva a patroa para passear. É protocolo oficial.
Enquanto isso, no andar de baixo, a "corte" de Hylda — Beto, Blue e outros frequentadores assíduos — terminava de organizar algumas doações de agasalhos. Assim que ouviram os passos de Hylda e Gabriele no corredor, o tom de voz baixou para um sussurro conspiratório.
— Você viu a cara da Gabriele? — cochichou Beto, ajeitando um boné. — Parece que ela carregou o mundo nas costas e o mundo era feito de chumbo.
— É a fase dela, Beto — Blue respondeu, limpando as mãos sujas de graxa em um pano. — Mas você viu como a Hylda olha para ela? Ontem, no bar do seu Zé, a Hylda passou meia hora falando de como a Gabriele corrigiu a gramática de um panfleto político. Ela brilha quando fala da "bruxa".
— Elas estão dormindo juntas, certeza — afirmou outro amigo, rindo baixo. — Ninguém cuida de uma ex-amiga desse jeito a troco de nada. Aquilo ali é amor antigo, mal resolvido e agora... bem servido.
— Shhh! Elas estão descendo! — alertou Blue.
Hylda passou pela sala conduzindo Gabriele pelo braço, como se protegesse uma joia rara de um ambiente hostil. Gabriele acenou com um sorriso fraco, que não chegou aos olhos, mas foi o suficiente para manter as aparências.
No shopping, o contraste entre as duas era quase cômico. Hylda, com sua jaqueta de couro gasta e botas pesadas, caminhava com a confiança de quem era dona do lugar. Gabriele, mesmo em seu estado melancólico, mantinha o porte, embora se sentisse como um fantasma flutuando entre as vitrines de grife.
— Aquela ali — apontou Hylda, parando em frente a uma vitrine de uma loja de roupas de alto padrão. — Aquele casaco de lã batida, cor de vinho. Combina com aquele seu olhar de quem vai mandar decapitar alguém.
— É lindo, Hylda, mas é um absurdo de caro — Gabriele tentou recuar, mas Hylda já a estava puxando para dentro da loja.
— Mas isso é muito caro, Hylda! Eu não posso aceitar, não posso levar — protestou Gabriele, enquanto a vendedora trazia a peça.
Hylda não hesitou. Ela pegou o cartão de crédito e olhou fixamente para Gabriele, um olhar que misturava a dureza da vida na fábrica com uma doçura que só Gabriele conseguia extrair dela.
— Eu tenho dinheiro de sobra, Gabi. Eu vou dar tudo o que você quiser porque eu quero... — Ela parou por um segundo, a frase pendurada no ar como uma confissão incompleta. — Porque eu quero ver esse seu sorriso de volta. Aquele que você dá quando acha que ninguém está olhando.
Gabriele sentiu o rosto esquentar. O perfume de Hylda — tabaco, madeira e algo intensamente humano — parecia ser a única coisa que a mantinha ancorada na realidade.
— Por que você faz tanto por mim? — perguntou Gabriele, já dentro do carro, cercada por sacolas que ela não pediu, mas que Hylda insistiu em comprar. — Eu sou difícil, Hylda. Eu sou... quebrada em lugares que você nem imagina.
Hylda deu partida no carro, mas não saiu da vaga imediatamente. Ela segurou o volante com força, as tatuagens nos nós dos dedos saltando.
— Todo mundo é quebrado, Gabi. Alguns escondem as rachaduras com maquiagem cara, outros com tatuagens e jaquetas de couro. Eu conheço os seus "lugares". Eu estava lá quando você teve sua primeira crise, lembra? Eu estava lá quando você achou que nunca mais ia conseguir sair de casa.
— Você se lembra disso? — Gabriele sussurrou, surpresa.
— Eu nunca esqueci nada sobre você, Gabriele. Nem o jeito que você toma chá, nem a sua mania de organizar os livros por cor quando está nervosa.
O jantar foi em um restaurante italiano pequeno e acolhedor, longe do burburinho das praças de alimentação. Hylda pediu um vinho caro — para Gabriele, já que ela mesma permanecia firme em sua sobriedade — e observou a amiga relaxar minimamente sob o efeito da música suave.
— Sabe, eu falei de você hoje na reunião da fábrica — comentou Hylda, brincando com o guardanapo.
— Falou o quê? Que eu sou um fardo aristocrático no seu sofá? — Gabriele tentou brincar, mas o tom ainda era amargo.
— Não — Hylda riu, um som rouco e caloroso. — Falei que tenho uma "esposa" que é tão inteligente que me faz sentir um bicho do mato. Falei que você tem uma coragem que ninguém percebe, porque é uma coragem silenciosa. A coragem de continuar tentando, mesmo quando a cabeça diz para desistir.
Gabriele baixou os olhos para a taça de vinho. As palavras de Hylda eram como bálsamo em uma ferida aberta. Ela percebeu que, em todos aqueles anos de isolamento em seu apartamento nos Jardins, ela nunca fora realmente "vista". As pessoas viam o cargo, o Chanel, a elegância. Hylda via a estrutura, as falhas e a beleza que residia justamente na imperfeição.
— Você me chama de sua esposa para todo mundo — disse Gabriele, a voz agora mais firme. — Por que essa brincadeira, Hylda?
Hylda ficou em silêncio por um longo tempo. O restaurante parecia ter desaparecido, deixando apenas as duas em uma bolha de luz de velas e confissões latentes.
— Talvez porque, no fundo, eu sempre quis que fosse verdade — confessou Hylda, a voz baixa, quase um segredo. — Eu passei anos fingindo que você era apenas uma lembrança de uma juventude confusa. Mas aí você aparece na minha porta com aquela gata e aquele olhar de desamparo... e eu percebi que o meu peito ainda bate no ritmo dos seus passos.
Gabriele sentiu o coração acelerar. A depressão, aquela névoa cinzenta, pareceu recuar um pouco, empurrada pela força daquela declaração.
— Eu sempre achei que você me desprezasse — admitiu Gabriele. — Pela minha rigidez, pelo meu jeito...
— Eu nunca te desprezei, Gabi. Eu só tinha inveja da sua capacidade de se manter inteira, enquanto eu me despedaçava. Mas agora eu vejo que a gente se completa. Eu te dou um pouco do meu caos, e você me dá um pouco da sua ordem.
Ao voltarem para casa, a atmosfera entre elas havia mudado. Não era mais apenas a dinâmica de uma hóspede e uma anfitriã, ou de "marido e mulher" de brincadeira. Havia uma eletricidade estática, um reconhecimento de que o fio invisível que as unia estava sendo puxado.
Quando entraram no sobrado, encontraram um bilhete de Blue na mesa da cozinha: "Fomos para o bar do Zé. Não queríamos atrapalhar o jantar romântico. Juízo, Hylda!".
Hylda riu e amassou o papel.
— Essa gente não tem o que fazer.
Gabriele não riu. Ela se aproximou de Hylda, ficando a poucos centímetros da jaqueta de couro que cheirava a noite e a segurança.
— Obrigada por hoje — disse Gabriele. — E por não ter medo da minha sombra.
Hylda estendeu a mão e, com uma delicadeza que contrastava com sua aparência bruta, acariciou o rosto de Gabriele, o polegar traçando a linha da mandíbula.
— Eu não tenho medo de sombras, Gabi. Eu morei nelas por muito tempo. Eu prefiro mil vezes estar na sombra com você do que no sol com qualquer outra pessoa.
Gabriele fechou os olhos, permitindo-se sentir o toque. Pela primeira vez em semanas, a sensação de estar "presa" em suas regras e rotinas parecia irrelevante. Ela não era apenas a mulher do mercado editorial ou a "bruxa" da Barra Funda. Ela era Gabriele, e estava sendo amada por quem realmente era.
— Você ainda quer brincar de marido e mulher? — perguntou Gabriele, abrindo os olhos, onde um brilho de provocação — e de algo muito mais profundo — começava a surgir.
Hylda sorriu, aquele sorriso que iluminava os cantos escuros da alma de Gabriele.
— Eu acho que a gente pode subir o nível do jogo, duquesa. O que você acha de a gente começar a falar sério?
Naquela noite, sob o teto barulhento daquela casa cheia de histórias, Gabriele descobriu que a vida não precisava ser um romance clássico com um final previsível. Poderia ser um samba atravessado, uma feira caótica ou uma jaqueta de couro dividida. E, enquanto Mirtes dormia tranquilamente no pé da cama, as duas entenderam que, às vezes, é preciso perder tudo para finalmente encontrar o que realmente importa.