Dois pra lá, dois pra cá.
O Perfume do Tabaco e o Toque da Seda
O silêncio na casa de Hylda era uma entidade rara, quase mística. Após a saída dos amigos e o encerramento daquela conversa carregada de eletricidade na sala, cada uma se retirou para o seu respectivo canto, mas as paredes de alvenaria antiga pareciam finas demais para conter o que pulsava entre elas.
No quarto de hóspedes, que já começava a ter o cheiro característico de Gabriele — uma mistura de lavanda francesa e papel antigo —, a ex-editora encarava seu reflexo no espelho do guarda-roupa. Ela desabotoava a blusa de seda com dedos levemente trêmulos. A depressão ainda estava lá, uma névoa baixa no horizonte, mas o toque de Hylda em seu rosto havia criado uma fenda por onde a luz insistia em entrar.
Gabriele sentia-se como uma adolescente. Aos cinquenta e cinco anos, com uma carreira sólida e um divórcio civilizado no currículo, ela nunca imaginou que o simples convite implícito de uma mulher de jaqueta de couro a deixaria tão desarmada.
— Controle-se, Gabriele — sussurrou para si mesma, enquanto passava o creme noturno com movimentos circulares e precisos. — Você é uma mulher madura, não uma personagem de um romance barato de banca de jornal.
Mas, ao deitar-se e sentir o lençol frio, seus pensamentos traíram sua disciplina. Ela pensava nos calos das mãos de Hylda, na maneira como o grisalho do cabelo dela parecia uma coroa de prata sob a luz da lua e, principalmente, na palavra "esposa". O que antes soava como uma provocação irritante, agora ecoava como um desejo secreto que ela mal ousava admitir.
Enquanto isso, no bar do seu Zé, a poucos quarteirões dali, o clima era bem menos introspectivo. O grupo de amigos de Hylda ocupava a mesa de sempre, cercado por garrafas vazias e o som de um rádio de pilha que tocava um samba chorado.
— Eu estou falando, a Hylda está em outra — disse Beto, virando o último gole de sua cerveja. — Ela não fala de outra coisa. É a Gabriele pra cá, a Gabriele pra lá. A mulher nem sabe onde fica o ponto de ônibus e a Hylda trata ela como se fosse a Rainha da Inglaterra perdida na Barra Funda.
— Elas se completam, pô — comentou Blue, rindo. — A Hylda é o asfalto, a Gabriele é o vidro. Se você souber como juntar, dá um mosaico bonito.
— Eu não acho tudo isso — interrompeu uma voz cortante, carregada de um veneno que fez a mesa silenciar por um segundo.
Era Amanda. Mais jovem, com o corpo moldado por anos de academia e um estilo que tentava emular a rebeldia de Hylda, mas sem a mesma alma. Ela já havia tido um caso passageiro com a chefe de operações da fábrica, algo que Hylda sempre deixou claro ser apenas físico, mas que Amanda interpretara como o início de um império compartilhado.
— Aquela mulher não tem nada a ver com a Hylda — continuou Amanda, batendo o copo na mesa com força excessiva. — É uma rabugenta amarga que tem cara de mulher de político ou de advogado de porta de cadeia. Ela olha para a gente como se fôssemos germes. O que a Hylda vê nela? Aquela postura rígida? Aquele cabelinho de madame?
Beto soltou uma gargalhada alta, batendo na mesa.
— Ih, Amanda! Tá com ciúme da "bruxa"? — Ele provocou, limpando as lágrimas do canto dos olhos. — Aceita, fia. A Gabriele tem classe. E a Hylda sempre teve uma queda por quem é difícil de ler. Você é um livro aberto com as páginas rasgadas, a Gabriele é uma primeira edição autografada que a Hylda está doida para ler do começo ao fim.
— Ela não vai aguentar uma semana na rotina da Hylda — resmungou Amanda, cruzando os braços e desviando o olhar para a rua, onde a garoa paulistana começava a cair. — Aquela ali não sabe nem o que é uma graxa de motor.
De volta ao sobrado, Hylda estava em seu quarto, mas a paz passava longe. Ela já havia tomado banho, vestindo uma calça de moletom velha e uma camiseta preta desbotada, mas não conseguia pregar o olho. O cheiro de Gabriele parecia ter impregnado a casa inteira. Ela pegou o celular, hesitou, bloqueou a tela, suspirou e, finalmente, cedeu ao impulso.
No quarto ao lado, o celular de Gabriele vibrou sobre o criado-mudo. Ela o pegou rapidamente, o coração dando um salto desajeitado.
"Oi, eu sei que estamos na mesma casa, mas me sinto sozinha. Posso ir ficar com você?"
Gabriele leu a mensagem três vezes. Um sorriso involuntário, daqueles que iluminam o rosto e apagam as rugas de preocupação, surgiu em seus lábios. Ela sentiu uma pontada de vergonha, uma timidez que não sentia há décadas.
"Hylda, são quase uma da manhã. Você deveria estar descansando para o turno da fábrica", digitou Gabriele, tentando manter sua fachada de racionalidade.
A resposta veio em segundos.
"O turno da fábrica é fichinha perto do turno de pensar em você. Deixa eu entrar?"
Gabriele respirou fundo. Ela olhou para a porta, depois para Mirtes, que estava confortavelmente instalada nos pés da cama. A gata apenas piscou, como se desse sua bênção aristocrática.
"A porta está destrancada", respondeu Gabriele.
Poucos segundos depois, a maçaneta girou. A luz do corredor projetou a silhueta de Hylda no chão do quarto. Ela entrou devagar, fechando a porta atrás de si com um cuidado quase reverencial. Sem a jaqueta de couro e a postura de "dona da rua", Hylda parecia mais vulnerável, mais real.
— Você é uma péssima influência, sabia? — disse Gabriele, sentando-se na cama e ajeitando o robe sobre os ombros.
Hylda caminhou até a beira da cama e sentou-se, mantendo uma distância respeitosa, mas seus olhos brilhavam na penumbra.
— Eu sou a melhor influência que você já teve, Gabi. Só que você ainda não percebeu — Hylda sorriu, o canto da boca subindo naquele jeito cafajeste que Gabriele secretamente adorava. — Como você está? De verdade.
— Eu... eu estou bem — mentiu Gabriele, mas sua voz fraquejou no final.
— Mentira — disse Hylda, aproximando-se um pouco mais. — Eu sinto o peso daqui. A névoa está baixa hoje, não está?
Gabriele suspirou, deixando os ombros caírem. A fachada de madame desmoronou, revelando a mulher cansada e assustada que se escondia por trás do corte Chanel.
— Está. É como se tudo fosse um esforço hercúleo. Até respirar parece... opcional.
Hylda não disse nada. Ela apenas estendeu a mão e pegou a de Gabriele, entrelaçando seus dedos calejados aos dedos finos e macios da outra. O calor foi imediato.
— Eu não posso fazer a névoa sumir, Gabi. Mas eu posso sentar com você no escuro até o sol aparecer. O que você acha de a gente dormir juntas hoje?
Gabriele sentiu um frio na barriga. O nervosismo a atingiu como uma onda.
— Hylda, eu... eu não sei se estou pronta para... você sabe. Minha cabeça está uma confusão, e eu não quero que você pense que...
— Ei, calma — interrompeu Hylda, a voz descendo uma oitava, tornando-se um sussurro aveludado. — É só dormir, duquesa. Sem pressão, sem protocolo. Eu só quero sentir seu cheiro. Eu quero saber que você está aqui, sã e salva.
— Você é muito insistente — murmurou Gabriele, mas já estava se afastando para o lado, abrindo espaço no colchão.
Hylda deitou-se por cima da colcha, mas Gabriele, em um gesto de coragem inesperada, puxou o edredom para cobri-la também. Elas ficaram deitadas de lado, frente a frente, a respiração de uma misturando-se à da outra.
— Você me chamou de "amor" na mensagem — disse Gabriele, a voz quase inaudível.
Hylda deu um sorriso contido, observando os detalhes do rosto de Gabriele na escuridão.
— Chamei. Porque é o que você é, Gabi. Mesmo quando é uma bruxa amarga. Mesmo quando está triste. Você é o meu amor de muito tempo, que eu só tive a sorte de reencontrar agora que a vida resolveu me dar uma segunda chance.
Gabriele sentiu uma lágrima solitária escorrer e se perder no travesseiro. Ela não era de chorar na frente dos outros, mas com Hylda, as defesas pareciam inúteis.
— Eu tenho medo de te decepcionar — confessou Gabriele. — De que essa minha "rigidez" acabe afastando você, como afastou tantas outras pessoas.
Hylda se aproximou, selando o espaço entre elas. Ela passou um braço pela cintura de Gabriele e a puxou para perto, aninhando a cabeça da outra em seu ombro. O cheiro de Gabriele, agora misturado ao calor do corpo de Hylda, criou uma fragrância nova, única.
— Você não vai me afastar — prometeu Hylda, beijando o topo da cabeça de Gabriele. — Eu sou feita de graxa e metal, Gabi. Eu aguento o tranco. E, para ser sincera, eu gosto da sua rigidez. Dá um contraste bom com a minha bagunça. Agora dorme. O "marido" está aqui cuidando de você.
Gabriele relaxou o corpo pela primeira vez em dias. O peso em seu peito parecia mais leve, distribuído entre as duas.
— Boa noite, Hylda — sussurrou ela, fechando os olhos e deixando-se levar pelo ritmo calmo do coração de Hylda batendo contra seu ouvido.
— Boa noite, meu amor.
Enquanto a chuva lá fora lavava as ruas da Barra Funda e os amigos de Hylda ainda riam de Amanda no bar, dentro daquele quarto, o tempo parecia ter parado. Não havia demissão, não havia bipolaridade, não havia o julgamento do mundo. Havia apenas duas mulheres maduras, marcadas pela vida, descobrindo que o amor não era um romance clássico perfeito, mas sim o ato de dividir o silêncio e o cobertor no meio de uma tempestade.
E, pela primeira vez em muito tempo, Gabriele não sonhou com arquivos fechados ou escritórios vazios. Ela sonhou com cores vibrantes, com o som de uma fábrica pulsante e com uma mão áspera que nunca, por nada no mundo, a deixaria cair.