Voltar ao resumo

Dois pra lá, dois pra cá.

O Despertar da Madrasta e o Beijo de Graxa

A luz da manhã na Barra Funda não pedia licença; ela invadia as frestas das janelas de madeira com uma insistência quase agressiva. Gabriele despertou lentamente, sentindo um calor incomum e reconfortante que não vinha de suas mantas de linho. Ela estava encaixada, costas contra um peito largo, um braço pesado e tatuado circulando sua cintura com uma possessividade gentil. O cheiro de sabonete barato e pele quente de Hylda era o seu despertador.

Por um breve segundo, Gabriele permitiu-se fechar os olhos novamente, saboreando a quietude. Mas a quietude era uma ilusão naquela casa.

O som de passos pesados subindo a escada de madeira ecoou, seguido pelo rangido da porta que, apesar de encostada, não oferecia resistência aos invasores.

— Eu tô falando, Beto, ela nunca perdeu a hora! Vai ver teve um piripaque — a voz de Blue era um sussurro alto demais.

— Ou vai ver a "bruxa" transformou ela em sapo — rebateu a voz de Amanda, carregada de um sarcasmo ácido.

Gabriele congelou. Hylda, ao seu lado, soltou um resmungo baixo, apertando-a mais contra si no sono profundo de quem trabalhou turnos dobrados a vida inteira.

— Gente, olha lá... — Beto parou na entrada do quarto, a voz subindo uma oitava. — Elas tão... de conchinha?

Gabriele abriu os olhos abruptamente. Diante da cama, cinco pares de olhos a observavam. Blue, Beto, dois rapazes da fábrica e Amanda. O choque de realidade foi como um balde de gelo. Ela, Gabriele, a editora refinada, a mulher que não admitia um vinco na saia, estava sendo flagrada em trajes de dormir, despenteada, nos braços de uma operária grisalha.

— Mas o que é isso?! — O grito de Gabriele foi o que finalmente despertou Hylda.

Hylda sentou-se na cama como uma mola, os olhos semicerrados e o cabelo ainda mais espetado que o normal. Ao ver a plateia em seu quarto, sua expressão passou da confusão para uma fúria vulcânica em milissegundos.

— Mas que porra é essa no meu quarto?! — Hylda rugiu, a voz de trovão fazendo Beto pular para trás. — Vocês perderam o juízo ou a noção de perigo?

— Chefe! Calma! — Blue levantou as mãos em sinal de paz. — Você atrasou duas horas pro turno! A gente achou que você tinha morrido. Pegamos a chave reserva com o Seu Zé pra ver se estava tudo bem.

— Duas horas? — Hylda olhou para o relógio, atordoada. — Merda.

Enquanto Hylda tentava processar o horário, Amanda deu um passo à frente. Seus olhos percorriam Gabriele com uma mistura de inveja e uma curiosidade relutante. Gabriele, mesmo sentada na cama e visivelmente abalada, mantinha o queixo erguido e a expressão de quem estava prestes a demitir o mundo inteiro.

— Então é isso? — Amanda perguntou, a voz gotejando veneno. — A bruxa te enfeitiçou mesmo, Hylda? Você trocou a gente por... isso? Uma madame que não sabe fritar um ovo?

Hylda saltou da cama, vestindo apenas a calça de moletom, as tatuagens nos braços parecendo ganhar vida com a tensão de seus músculos.

— Saiam daqui — disse Hylda, a voz agora baixa e perigosa. — Agora. Se não quiserem que eu use essa bota pra dar um destino novo pro traseiro de vocês, saiam da minha casa.

O grupo recuou em debandada, exceto por Amanda, que lançou um último olhar de desprezo para Gabriele antes de ser puxada por Blue.

— Fora! — gritou Hylda, batendo a porta do quarto com tanta força que o quadro de Mirtes na parede entortou.

O silêncio que se seguiu foi pesado. Gabriele estava imóvel, os lençóis puxados até o queixo, o rosto ardendo de uma vergonha que ela não sentia desde a adolescência.

— Gabi, me desculpa — começou Hylda, passando a mão pelo cabelo grisalho. — Eles são uns idiotas, eu devia ter trocado aquela fechadura...

— Eu quero ficar sozinha, Hylda — interrompeu Gabriele, a voz gélida. — Por favor. Vá para o seu trabalho.

— Mas Gabi...

— Vá! — Gabriele não gritou, mas o comando foi absoluto.

Hylda suspirou, derrotada. Ela sabia que, naquele momento, qualquer tentativa de consolo seria como jogar gasolina no fogo da humilhação de Gabriele. Ela se vestiu rapidamente, pegou a jaqueta de couro e saiu, o som de sua moto rugindo na rua minutos depois como um adeus culpado.

As horas que se seguiram foram tortuosas para Gabriele. Ela se sentia exposta, ridicularizada. "A bruxa amarga", eles diziam. Ela se levantou, tomou um banho escaldante como se pudesse lavar os olhares daqueles jovens de sua pele, e vestiu um conjunto de seda cinza, sua armadura preferida.

À tarde, a solidão do sobrado começou a sufocá-la. Ela abriu uma garrafa de vinho tinto — um Malbec encorpado que guardava para uma ocasião especial que nunca chegou — e ligou o rádio antigo que ficava na cozinha. Por algum motivo, a única estação que pegava bem tocava clássicos de Roberto Carlos.

Quando Hylda voltou da fábrica, exausta e com o cheiro de óleo impregnado na pele, ela encontrou uma cena que não esperava. A cozinha estava na penumbra, iluminada apenas pela luz do exaustor. Gabriele estava sentada à mesa de fórmica, a garrafa de vinho pela metade, segurando a taça com uma elegância melancólica enquanto a voz do Rei ecoava: "Detalhes tão pequenos de nós dois...".

— Gabi? — Hylda chamou suavemente, deixando as chaves sobre o balcão.

Gabriele não se virou. Ela tomou um gole longo, os olhos fixos na parede.

— Eles riram de mim, Hylda. Eles entraram aqui e me viram como se eu fosse uma atração de circo. Uma velha decadente nos braços da "chefe".

— Ninguém riu de você, meu amor — Hylda aproximou-se, mas Gabriele se levantou bruscamente, a cadeira arrastando no chão com um som estridente.

— Não me chame assim! — Gabriele virou-se, os olhos brilhando com a mistura do álcool e da raiva. — Isso tudo foi um erro. Eu não pertenço a este lugar, a essa sua vida barulhenta, a esses seus amigos marginais que me detestam. Eu deveria ter ido para um hotel, deveria ter mantido minha dignidade!

— Dignidade? — Hylda sentiu a própria raiva borbulhar. — Você chama aquela sua vida de museu de dignidade? Você estava morrendo de fome de vida, Gabriele! Aqueles garotos são minha família. Eles se preocupam comigo.

— Eles me chamam de bruxa! — Gabriele deu um passo em direção a Hylda, o dedo em riste. — E você deixa! Você brinca de "marido e mulher" para zombar da minha rigidez, para mostrar como eu sou patética tentando me encaixar no seu mundo de graxa e samba!

— Eu brinco porque é o único jeito que eu encontrei de chegar perto de você sem que você me desse um tapa com essas suas luvas de pelica! — rebateu Hylda, encurtando a distância. — Eu te amo, sua idiota sofisticada! Eu sempre te amei, mesmo quando você me olhava como se eu fosse o lixo da rua.

— Mentira! — Gabriele tentou empurrar Hylda, um gesto desajeitado e carregado de frustração. — Você só quer me desestruturar. Você quer me transformar em algo que eu não sou!

Gabriele começou a desferir tapas fracos no peito de Hylda, uma reação física ao turbilhão emocional que a consumia. Era uma luta de gato e rato, um embate entre a seda e o couro.

— Me solta! — Gabriele sibilou, embora Hylda não a estivesse segurando. — Eu vou embora amanhã. Eu vou...

Hylda não a deixou terminar. Em um movimento rápido e firme, ela segurou os pulsos de Gabriele, prendendo-os contra o peito dela. O contraste era absoluto: as mãos sujas de trabalho de Hylda contra a pele alva de Gabriele.

— Você não vai a lugar nenhum — disse Hylda, a respiração ofegante.

— Me solte, sua bruta... — Gabriele tentou desviar o rosto, mas a proximidade era magnética.

— Cala a boca, Gabriele — ordenou Hylda, e antes que a outra pudesse protestar, ela selou seus lábios nos dela.

O beijo não teve nada de refinado. Tinha o gosto do vinho tinto, o sal das lágrimas de raiva e o calor bruto de décadas de desejo reprimido. Gabriele parou de lutar instantaneamente. Seus dedos, antes fechados em punhos, relaxaram e subiram para agarrar a gola da jaqueta de couro de Hylda, puxando-a para mais perto, como se sua vida dependesse daquele contato.

Hylda aprofundou o beijo, uma mão subindo para a nuca de Gabriele, desmanchando o corte Chanel impecável. Era um beijo que exigia respostas, que derrubava as paredes de vidro que Gabriele construíra ao redor de si.

Quando se separaram, ambas estavam sem fôlego. Gabriele encostou a testa no ombro de Hylda, soltando um suspiro trêmulo que parecia carregar todo o peso das últimas semanas.

— Você está suja de óleo — murmurou Gabriele, a voz rouca, sem nenhuma amargura.

Hylda soltou uma risada baixa, sentindo o coração martelar contra as costelas. Ela ergueu o queixo de Gabriele, forçando-a a olhá-la.

— E você está com o batom borrado, duquesa.

Gabriele olhou para as mãos de Hylda, que haviam deixado pequenas manchas escuras em seu conjunto de seda cinza. Em qualquer outro momento de sua vida, ela teria tido um colapso nervoso. Agora, ela apenas deu um sorriso discreto, quase imperceptível.

— Acho que essa mancha não sai — disse Gabriele.

— Algumas coisas não foram feitas para sair, Gabi — Hylda respondeu, envolvendo-a em um abraço apertado. — Elas foram feitas para ficar.

No rádio, Roberto Carlos continuava a cantar sobre amores e detalhes, mas ali, naquela cozinha com cheiro de Malbec e fábrica, Gabriele finalmente entendeu que a sua rigidez não era um escudo, era uma prisão. E Hylda, com sua jaqueta de couro e seu jeito torto, era a única pessoa no mundo que possuía a chave.

— O que vamos fazer com seus amigos? — perguntou Gabriele, ainda escondida no pescoço de Hylda.

— Amanhã eu dou uma bronca neles — prometeu Hylda. — Mas hoje... hoje o "marido" chegou cansado e quer apenas ficar com a esposa. Sem plateia. Sem bruxaria. Só nós duas.

Gabriele riu, um som cristalino que parecia iluminar a cozinha. Ela se afastou um pouco, limpando o canto da boca com o polegar.

— Tudo bem, Hylda. Mas se a Amanda aparecer aqui de novo... eu juro que aprendo a fazer um feitiço de verdade.

Hylda sorriu, beijando a ponta do nariz de Gabriele. A noite estava apenas começando na Barra Funda, e pela primeira vez, o barulho da rua parecia uma canção de ninar.