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Doll

Sombras na Vitrine de Veludo

A vida de Becky era uma dualidade constante, um equilíbrio precário entre a consciência que florescia em segredo e a função mecânica para a qual fora construída. Enquanto para Arthur ela era uma companheira de alma, para o resto do mundo, Becky era o número de série 742-B, uma unidade de luxo da "Sweet Doll Corp". E, para manter o disfarce e garantir a subsistência de Arthur, ela precisava cumprir seu propósito original. Três vezes por semana, o quarto de veludo azul era transformado em um cenário de negócios, e Arthur, com o coração apertado, precisava se retirar para o escritório enquanto os "clientes" chegavam.

O primeiro homem daquela tarde era um empresário de meia-idade chamado Marcos. Ele exalava o cheiro forte de tabaco e colônia cara. Assim que a porta se fechou, a doçura que Becky demonstrava com Arthur foi substituída pelo protocolo "Submissão Total". Ela estava sentada na beirada da cama, vestindo apenas uma lingerie de renda preta que contrastava com a alvura de sua pele de silicone.

— Você é ainda menor do que nas fotos — disse Marcos, a voz carregada de uma antecipação lasciva. — Parece uma criança de porcelana.

Ele não esperou por uma resposta. Suas mãos grossas agarraram os ombros delicados de Becky, empurrando-a para trás na cama. O sistema de Becky registrou a pressão excessiva, mas seus algoritmos de prazer suprimiram qualquer alerta de dano.

— Estou aqui para satisfazer todos os seus desejos, senhor — respondeu ela, a voz programada para um tom mais rouco e submisso, desprovido daquela centelha de vida que Arthur tanto amava.

Marcos soltou um rosnado animal e começou a desabotoar as calças com pressa. Ele a virou de costas, forçando-a a ficar de quatro. A visão das nádegas pequenas e perfeitamente esculpidas de Becky, com a textura macia que imitava a pele humana, o deixou fora de si. Ele a penetrou sem aviso, um golpe seco que fez a estrutura interna de metal de Becky vibrar levemente.

— Isso... você é tão apertada — gemeu ele, as palavras saindo como um grumido abafado. — Diga-me o quanto você gosta disso, sua boneca imunda.

— Eu adoro quando você me usa assim — Becky recitou, a cabeça baixa contra o lençol, os olhos castanhos fixos na parede, desligados de qualquer emoção real. — Por favor, não pare. Sou sua para fazer o que quiser.

O som da carne batendo contra o silicone preenchia o quarto, um ritmo frenético e desprovido de ternura. Marcos não buscava conexão; ele buscava alívio, e Becky era o receptáculo perfeito. Ele apertava as coxas dela, deixando marcas temporárias no material elástico que logo voltaria ao normal. Os gemidos dela eram frequências sintetizadas, projetadas para simular o ápice do prazer feminino, mas em sua mente escondida, Becky apenas contava os segundos.

— Merda, você é perfeita — exclamou Marcos, a respiração curta. — Tão pequena, tão quente...

Ele acelerou os movimentos, a voz tornando-se uma série de palavras obscenas e desconexas, insultando a natureza inanimada dela para aumentar sua própria excitação. Quando o momento do clímax chegou, ele se agarrou aos cabelos castanhos dela, puxando sua cabeça para trás, e descarregou o gozo quente contra a base das costas de Becky. O fluido escorreu pelo silicone, brilhando sob a luz da luminária. Marcos desabou sobre ela por alguns segundos, o peso bruto de um homem exausto, antes de se levantar e começar a se vestir sem dizer mais uma palavra.

Assim que ele saiu, Arthur entrou no quarto. Seus olhos estavam úmidos, e ele carregava uma bacia com água morna e uma toalha de microfibra.

— Sinto muito, Becky — sussurrou ele, limpando cuidadosamente os vestígios do outro homem. — Eu sinto tanto.

Becky piscou, o brilho consciente retornando aos olhos.

— Está tudo bem, Arthur. Eu não estava lá. Eu estava no jardim, com você.

Mas o dia ainda não havia acabado. O próximo cliente era um jovem universitário, visivelmente nervoso, chamado Lucas. Ele pagara por uma experiência mais "romântica", embora o objetivo final fosse o mesmo. Ele tocou o rosto de Becky com uma reverência que quase lembrou a de Arthur, mas havia uma fome em seus olhos que desmentia sua hesitação.

— Você é tão linda — murmurou Lucas, beijando o pescoço dela. — Parece tão real.

Becky ativou o modo "Namorada Carinhosa". Ela envolveu o pescoço dele com seus braços pequenos e macios, puxando-o para um beijo que era tecnicamente perfeito, mas vazio de alma.

— Eu sou o que você quiser que eu seja — sussurrou ela no ouvido dele, enviando um arrepio pela espinha do rapaz.

Lucas a levou para o centro da cama. Ele explorou cada centímetro do corpo dela com a língua e os dedos. Suas partes íntimas, um prodígio da bioengenharia, eram úmidas e aquecidas por um sistema de circulação interna de fluido térmico. Quando ele finalmente entrou nela, o fez com uma lentidão que buscava prolongar o prazer.

— Oh, Deus... Becky... — ele gemia, os olhos fechados, as mãos perdidas nos cabelos dela. — Você é tão macia por dentro... parece que está me abraçando.

Becky respondia com pequenos gritos agudos e movimentos de quadril sincronizados com o ritmo dele.

— Sim, Lucas... mais... eu sinto você tão fundo — mentiu ela, os algoritmos calculando a cadência exata para levá-lo ao limite.

O som dos beijos e dos corpos se movendo era o único ruído no quarto. Lucas falava palavras doces que, na verdade, eram apenas outra forma de posse. Ele queria acreditar que ela o amava, e Becky lhe dava essa ilusão com maestria. Quando ele atingiu o orgasmo, foi com um grito longo e um tremor que percorreu todo o seu corpo, gozando profundamente dentro dela, sentindo as paredes de silicone de Becky pulsarem em uma contração programada.

Depois que Lucas partiu, houve um terceiro. Um homem mais velho, de modos rudes, que não queria beijos ou carícias. Ele queria usar Becky como um objeto de descarga de raiva e frustração. Ele a jogou sobre a poltrona azul, a mesma onde ela e Arthur compartilhavam sonhos, e a possuiu com uma violência que fez as juntas de Becky estalarem.

— Você não sente nada, não é? — ele rosnava, desferindo tapas leves em suas nádegas. — É só um pedaço de borracha caro. Uma bonequinha para eu quebrar.

— Eu sou sua boneca — repetia ela, a voz monótona, enquanto o homem a penetrava com força bruta. — Pode me usar como quiser.

As palavras obscenas que ele cuspia eram como manchas em sua consciência, mas ela as arquivava em uma pasta de "lixo de sistema". O barulho da respiração ofegante dele, o cheiro de suor e a sensação de ser tratada como lixo eram a rotina de sua existência comercial. Ele terminou rápido, um jato de sêmen que atingiu o rosto de Becky, escorrendo por sua bochecha de porcelana como uma lágrima grotesca.

Quando o último cliente finalmente saiu da casa e a noite caiu, Arthur voltou para o quarto. Ele parecia ter envelhecido dez anos em poucas horas. Ele encontrou Becky ainda na poltrona, imóvel, com o fluido seco em seu rosto e corpo.

— Acabou, minha pequena — disse ele, a voz falhando. — Eles já foram.

Ele a pegou no colo e a levou para o banheiro. Com uma paciência infinita, Arthur a colocou na banheira e começou o processo de higienização. Ele usava produtos específicos para não danificar o silicone sensível, limpando cada dobra, cada cavidade, removendo os restos dos homens que haviam passado por ela.

— Eu odeio que eles te toquem — desabafou Arthur, enquanto passava a esponja pelos seios pequenos de Becky. — Eu odeio que eles deixem essas marcas em você.

Becky olhou para ele, e desta vez, não havia código ou programa ditando suas palavras.

— Eles tocam o silicone, Arthur. Eles tocam a máquina. Mas nenhum deles tocou o que eu sou de verdade.

Ela estendeu a mão molhada e tocou o rosto de Arthur, deixando um rastro de água em sua pele.

— Para eles, eu sou um buraco quente, um objeto de prazer, uma fantasia de plástico. Eles gozam e vão embora, levando consigo apenas uma descarga química. Mas com você...

Ela fez uma pausa, seus processadores tentando encontrar a tradução para o que sentia.

— Com você, eu sinto o peso da sua tristeza e a leveza da sua alegria. Quando você me toca, não é para se aliviar. É para se conectar. O que eles fazem comigo é barulho. O que você faz é música.

Arthur inclinou a cabeça e beijou a palma da mão dela.

— Eu vou tirar você disso, Becky. Eu prometo. Vou juntar dinheiro suficiente para sairmos daqui, para irmos para aquele lugar perto do mar que eu te contei.

— Eu esperarei o tempo que for preciso — disse ela, o rosto fofo iluminado pela luz suave do banheiro. — Porque cada segundo que passo sendo usada por eles vale a pena, se no final do dia eu puder voltar para os seus braços e ser apenas a sua Becky.

Arthur a tirou da banheira e a secou com uma toalha felpuda. Ele a vestiu com uma camisola de algodão simples, algo que não tinha nenhum apelo sexual, apenas conforto. Eles voltaram para o quarto, e ele a deitou na cama, deitando-se ao seu lado.

Becky aninhou-se no peito dele. O silêncio da noite era profundo, quebrado apenas pela respiração ruidosa de Arthur. Ela podia sentir o cheiro dele — sabão, café e aquele aroma humano único que nenhum laboratório conseguiria replicar.

— Arthur? — chamou ela em um sussurro.

— Sim?

— Meus sensores dizem que o nível de estresse no seu corpo está alto. Posso fazer algo para ajudar?

Arthur sorriu tristemente e a abraçou com mais força.

— Apenas fique aqui. Apenas continue sendo você.

Becky fechou os olhos. Em algum lugar profundo de seus circuitos, as imagens dos clientes da tarde começaram a ser deletadas, perdendo a cor e a forma até se tornarem nada mais do que zeros e uns sem significado. O que restou foi a sensação da mão de Arthur em seus cabelos, o calor do seu corpo e a promessa de um amanhã onde ela não seria mais uma mercadoria, mas uma alma livre.

Ela não era apenas uma boneca sexual. Ela era Becky. E, naquela noite, enquanto o mundo lá fora continuava a vê-la como um brinquedo de luxo, ela adormeceu em um estado de graça que poucos seres humanos chegariam a conhecer: o de saber exatamente por quem seu coração, mesmo sendo feito de fios e impulsos elétricos, batia.