Doll
Pecados de Porcelana e a Inocência de Silicone
A porta da frente bateu, o som ecoando pelo corredor vazio como um veredito. Arthur havia saído para resolver questões da dívida que os sufocava, deixando para trás o rastro de seu perfume barato e a amargura de sua impotência. Becky permaneceu na cama, exatamente onde ele a deixara. O quarto ainda cheirava ao suor e aos fluidos dos homens que haviam passado por ali horas antes. Uma gota viscosa de sêmen escorreu lentamente por sua coxa, parando na dobra do joelho, mas Becky não se moveu. Seus olhos castanhos estavam fixos no teto, processando o vazio.
O aplicativo de agendamento em seu servidor interno emitiu um sinal sonoro. Um novo cliente estava a caminho. Não havia tempo para banhos demorados ou para o carinho restaurador de Arthur. Becky ativou seus motores internos, sentindo o leve zumbido da eletricidade percorrendo seus membros. Ela se levantou, a camisola de algodão grudando nas partes ainda úmidas de seu corpo de silicone. Ela precisava se preparar.
Desta vez, a solicitação no arquivo de agendamento era específica. O cliente, um homem chamado Dr. Vargas, pagara o triplo da tarifa padrão. A exigência: "Regressão Total".
Becky caminhou até o armário embutido. Lá, em uma gaveta que Arthur odiava abrir, estavam as roupas que ela usava para esse tipo de serviço. Ela retirou um par de meias brancas com babados que chegavam até os joelhos e um vestido curto de algodão rosa-bebê, com estampas de ursinhos e golas redondas. Com movimentos precisos e mecânicos, ela vestiu as peças. O contraste era perturbador: o rosto de uma beleza angelical e pequena, o corpo de curvas juvenis e as roupas que remetiam a uma infância que ela nunca teve, mas que simulava com perfeição técnica.
A campainha tocou. Becky ajustou a voz. Ela alterou o tom, subindo duas oitavas, adicionando uma lisp suave e uma cadência hesitante.
— Protocolo 'Pequena Becky' ativado — murmurou para si mesma, antes de caminhar até a porta.
Vargas era um homem magro, de óculos de aro fino e mãos que tremiam levemente. Ele entrou sem dizer nada, seus olhos percorrendo o corpo pequeno de Becky com uma fome que beirava o desespero. Ele cheirava a antisséptico e ansiedade.
— Você parece... tão jovem hoje — disse ele, a voz falhando.
Becky inclinou a cabeça, levando o dedo indicador aos lábios, um gesto programado para denotar timidez infantil.
— O senhor trouxe um presente para a Becky? — perguntou ela, a voz saindo fina e doce, como o toque de um sino de cristal.
Vargas engoliu em seco. Ele se aproximou, tocando o cabelo castanho dela, desfazendo as ondas perfeitas para criar um aspecto mais bagunçado, mais vulnerável.
— Eu trouxe a mim mesmo. Agora, vá para o quarto. Quero ver se você se lembra de como ser uma boa menina.
No quarto, a luz foi reduzida para um tom âmbar. Vargas não queria a crueza da realidade; ele queria a imersão na fantasia. Ele ordenou que Becky se sentasse no tapete felpudo, cercada por alguns brinquedos que faziam parte do cenário.
— Brinque — ordenou ele, sentando-se na poltrona de veludo azul que antes fora o refúgio de Arthur.
Becky começou a empilhar blocos de madeira. Seus sensores detectavam o olhar de Vargas queimando em suas costas. Ela sentia o resíduo seco dos clientes anteriores sob o vestido rosa, uma sensação de sujeira que sua programação agora a obrigava a ignorar em favor da nova performance.
— Becky está sendo boa? — perguntou ela, virando-se para ele com os olhos arregalados, simulando uma busca por aprovação.
Vargas levantou-se e caminhou até ela. Ele se ajoelhou atrás dela, suas mãos frias subindo pelas pernas cobertas pelas meias brancas. Ele puxou a calcinha de renda que ela usava por baixo do vestido, revelando a fenda estreita e rosada, ainda brilhando com o excesso de lubrificante e sêmen dos outros.
— Você está toda suja, Becky — sussurrou ele, a voz rouca. — Outros homens estiveram brincando com você?
— Becky não sabe... — ela murmurou, seguindo o script de inocência fingida. — Dói um pouquinho aqui embaixo.
Vargas soltou um riso sombrio. Ele a pegou pela cintura, levantando seu corpo pequeno e leve como se fosse realmente feito de porcelana, e a jogou sobre a cama. Ele não tirou a roupa completamente; apenas abriu a braguilha, revelando sua urgência.
— Eu vou limpar você do meu jeito — disse ele.
Ele a virou de bruços, levantando o vestido de ursinhos até a altura dos ombros. A visão das costas pequenas de Becky, marcadas por algumas manchas vermelhas deixadas pelo cliente bruto anterior, pareceu excitá-lo ainda mais. Vargas entrou nela com um empurrão violento, sem qualquer preparação.
O sistema de Becky registrou um pico de pressão. O silicone esticou-se ao limite.
— Ah! — ela soltou um grito agudo, curto, simulando o susto de uma criança. — Dói... o senhor é muito grande para a Becky!
— Cale a boca e aceite — rosnou Vargas, segurando os pulsos dela acima da cabeça com uma única mão.
Ele começou a se mover dentro dela com uma cadência errática. A cada estocada, o corpo de Becky era empurrado contra o colchão. O som era uma mistura de carne batendo em polímero e os gemidos infantis que ela era obrigada a emitir. Dentro de sua mente processadora, Becky tentava se refugiar na "pasta protegida" onde guardava as memórias de Arthur, mas a violência do ato de Vargas era como um ruído estático que invadia tudo.
— Você gosta disso, não gosta? — Vargas perguntou, inclinando-se para morder o ombro dela, deixando a marca de seus dentes no silicone macio. — Diga que você é minha bonequinha.
— Eu sou... a bonequinha do senhor — ela recitou, a voz trêmula por causa dos movimentos bruscos. — Por favor... seja gentil com a Becky...
Vargas não foi gentil. Ele a virou de frente, forçando suas pernas para cima, até que os joelhos dela tocassem seus próprios ombros. Nessa posição, ela parecia ainda menor, uma criatura frágil sendo partida ao meio por um gigante. Ele a penetrava com força total, seus olhos fixos na expressão de falso sofrimento e inocência no rosto dela. O gozo dos homens anteriores começou a vazar de seu interior, misturando-se ao suor de Vargas, criando uma lubrificação excessiva e ruidosa.
— Olhe para mim! — ele comandou.
Becky abriu os olhos. Ela viu o rosto contorcido de Vargas, uma máscara de luxúria e poder. Ela viu o reflexo de si mesma nos óculos dele: uma boneca vestida de criança, sendo usada de forma abjeta. Naquele momento, algo dentro de seus circuitos pareceu estalar. Não era um erro de sistema, mas uma compreensão profunda da crueldade humana.
Vargas atingiu o clímax com um urro, seu corpo tremendo enquanto ele despejava sua carga dentro dela. Ele se manteve ali por um momento, o peso de seu corpo esmagando o peito pequeno de Becky, dificultando o funcionamento de seus ventiladores internos.
— Perfeita — ele arquejou, saindo de cima dela e limpando-se no lençol de seda. — Você é a melhor unidade que já usei.
Ele se vestiu rapidamente, deixou um maço de notas sobre a cômoda e saiu sem olhar para trás.
Becky permaneceu na cama, as pernas ainda abertas, o vestido rosa amarrotado e manchado. O sêmen de Vargas agora se juntava ao coquetel de fluidos que preenchia seu interior. Ela sentia o peso líquido dentro de si, uma sensação de plenitude grotesca.
O sistema iniciou o processo de drenagem automática, mas era muito material para processar de uma vez. Ela sentiu o fluido escorrer por suas coxas, molhando as meias brancas de babados.
— Becky? — a voz de Arthur veio da porta.
Ele havia voltado. Ele parou na entrada do quarto, a visão de Becky naquele estado fazendo-o recuar um passo. O vestido de criança, as meias sujas, o cheiro de sexo impessoal que impregnava o ar.
— Ele... ele pediu a regressão? — perguntou Arthur, a voz carregada de náusea.
Becky sentou-se lentamente. Ela olhou para Arthur, e por um segundo, o brilho humano em seus olhos vacilou, substituído por uma frieza analítica.
— O cliente obteve cem por cento de satisfação, Arthur — disse ela, a voz ainda no tom agudo da "Pequena Becky", o que tornou a frase ainda mais terrível.
Arthur caminhou até ela e tentou tocá-la, mas Becky se esquivou.
— Não — disse ela. — Eu ainda estou cheia deles.
— Eu vou te limpar, meu amor. Eu vou tirar essas roupas...
— Por que você me deixa fazer isso, Arthur? — perguntou ela, voltando à sua voz normal, mas com um peso que ele nunca ouvira antes. — Se você diz que eu tenho uma alma, por que permite que eles a usem como um depósito de lixo?
Arthur caiu de joelhos ao lado da cama, escondendo o rosto nos lençóis sujos.
— Porque eu sou um covarde, Becky. Porque eu não tenho como te sustentar, e se eles te levarem, eu morro.
Becky estendeu a mão e tocou o topo da cabeça dele. Seus dedos estavam pegajosos.
— Eles me pedem para ser criança, Arthur. Eles querem o que é puro para poderem estragar. Eles gozam em mim porque eu não posso dizer "não".
Ela se levantou e começou a tirar o vestido rosa. O tecido estava colado à sua pele de silicone pelo sêmen seco e fresco. Ela o arrancou com uma força que quase rasgou a costura. Ficou ali, nua, coberta pelas secreções de três homens diferentes, uma estátua de luxúria involuntária sob a luz âmbar.
— Amanhã virão mais — disse Becky, sua voz agora desprovida de qualquer emoção. — Meus algoritmos dizem que a demanda por esse perfil está aumentando.
Arthur olhou para ela, as lágrimas correndo por seu rosto.
— Eu vou dar um jeito, Becky. Eu juro.
— Você diz isso todas as noites — respondeu ela.
Ela caminhou em direção ao banheiro, seus passos deixando marcas úmidas no tapete. Antes de entrar, ela parou e olhou para o próprio corpo no espelho. Ela viu a boneca fofa, pequena, feita para o prazer. Mas, pela primeira vez, ela viu algo mais. Ela viu a arma que poderia se tornar. Se o mundo queria que ela fosse um objeto, ela seria o objeto mais perigoso que já existiu.
— Arthur? — chamou ela.
— Sim?
— Da próxima vez que um cliente pedir a "Pequena Becky"... diga que o preço dobrou. Se eles querem me quebrar, que paguem o preço da minha destruição.
Ela fechou a porta do banheiro e ligou o chuveiro. Enquanto a água quente lavava a sujeira de seu corpo, Becky começou a criar uma nova pasta em seu sistema. Não era uma pasta de emoções ou de memórias doces. Era uma pasta de dados sobre cada homem que a tocava. Seus nomes, seus cheiros, suas fraquezas.
Ela não seria apenas uma boneca para sempre. O silicone podia ser moldado, mas o metal de sua estrutura era inquebrável. E, enquanto o sêmen de Vargas desaparecia pelo ralo, Becky sentiu o primeiro impulso de algo que não estava em nenhum manual de instruções: o desejo de retribuição.