Dsdd
O Pacto de Sangue, Gelo e Berço
A luz do entardecer atravessava as janelas panorâmicas da cobertura em Boston, refletindo-se nas medalhas e troféus que adornavam as prateleiras. O silêncio era um luxo raro naquela casa, especialmente desde que os quatro haviam sido contratados pelo mesmo time da NHL após uma negociação contratual que entrou para a história do esporte como a mais audaciosa — e estranha — da liga. "O Pacote Briar", como a imprensa os chamava, não aceitava separação. Onde ia Garrett Graham, o capitão estrategista, iam Logan, Dean e Tucker. E, mais importante, onde eles iam, Kellen era o centro gravitacional.
Kellen estava sentada no sofá de couro, observando o movimento da cidade lá fora. Seus livros de medicina ainda estavam espalhados pela mesa de centro, mas, pela primeira vez em anos, ela não conseguia se concentrar na anatomia humana. O motivo não era o cansaço da residência no Massachusetts General Hospital, mas sim a pequena caixa de plástico que ela escondia na palma da mão.
— Você está muito quieta — a voz profunda de Logan veio da cozinha. — O que significa que ou você descobriu uma nova doença rara ou está tramando como nos expulsar da sala para estudar.
Logan aproximou-se, ainda vestindo o agasalho de treino do Boston Bruins. Ele sentou-se ao lado dela, puxando-a para o seu calor habitual. O cheiro de gelo e esforço físico que sempre o acompanhava era, para Kellen, o melhor perfume do mundo.
— Nem um, nem outro — Kellen respondeu, sentindo o coração martelar contra as costelas. — Onde estão os outros?
— Dean está terminando o banho, Garrett está no telefone com o agente e Tucker está... bem, você sabe onde o Tucker está.
— Na cozinha, planejando o jantar de seis pratos para comemorar a vitória de ontem — completou Kellen, sorrindo.
— Exatamente. — Logan franziu a testa, notando a palidez dela. — Kel, você está bem? Está tremendo.
Antes que ela pudesse responder, a porta do corredor se abriu e Dean saiu, secando o cabelo loiro com uma toalha, exibindo o físico que parecia ter dobrado de tamanho desde os tempos de faculdade. Garrett vinha logo atrás, guardando o celular no bolso com uma expressão de alívio.
— O agente disse que a cláusula de permanência está blindada — anunciou Garrett, mas parou abruptamente ao notar o clima na sala. — O que aconteceu? Logan, o que você fez?
— Eu não fiz nada! — Logan defendeu-se, levantando as mãos. — Ela já estava assim.
Os quatro se reuniram ao redor dela, formando aquele círculo de proteção que era a base da vida de Kellen há anos. Tucker apareceu na porta da cozinha, limpando as mãos em um pano de prato, a expressão de "mamãe da casa" carregada de preocupação imediata.
— Kel? — Tucker perguntou suavemente. — É a residência? O chefe de cirurgia foi um idiota de novo?
Kellen olhou para cada um deles. Garrett, o porto seguro; Dean, a chama constante; Logan, a alma profunda; e Tucker, o cuidado inabalável. Ela respirou fundo e colocou o teste de gravidez sobre a mesa de centro.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Por dez segundos, os quatro jogadores mais agressivos e temidos da NHL pareciam ter esquecido como respirar.
— Isso é... — Dean começou, a voz falhando, algo raro para o homem que sempre tinha uma resposta pronta. — Isso são dois tracinhos?
— São, Dean — Kellen sussurrou, as lágrimas começando a brotar. — Eu estou grávida.
O caos que se seguiu foi tipicamente deles.
— Eu vou ser pai — balbuciou Garrett, caindo sentado na poltrona, os olhos arregalados.
— Nós vamos ser pais — corrigiu Tucker, com um sorriso que parecia iluminar o apartamento inteiro. Ele foi o primeiro a se aproximar, ajoelhando-se aos pés de Kellen e colocando a mão, com uma reverência quase religiosa, sobre o ventre ainda plano dela. — Você está bem? Precisa de algo? Água? Vitaminas? Eu vou mudar todo o cardápio da semana.
Dean soltou um grito de guerra que provavelmente foi ouvido pelos vizinhos e pegou Kellen no colo, girando-a com cuidado, mas com uma euforia incontrolável.
— Um pequeno jogador! Ou uma pequena médica! — ele exclamou, beijando o rosto dela repetidamente. — Eu vou comprar o menor par de patins do mundo. Não, eu vou mandar fazer de ouro!
— Dean, coloque ela no chão, você vai deixá-la tonta! — Logan ordenou, embora ele mesmo estivesse rindo com lágrimas nos olhos. Quando Dean a soltou, Logan a envolveu em um abraço esmagador. — Um bebê, Kel. Nossa vida já era uma loucura, mas isso... isso é o melhor tipo de caos.
Garrett finalmente saiu do transe e aproximou-se, pegando a mão de Kellen. O capitão, sempre tão controlado, tinha o queixo tremendo.
— Nós prometemos na Briar que seríamos uma unidade, Kel. No gelo, nos contratos e na vida. — Ele olhou para os outros três, que assentiram com uma seriedade solene. — Esse bebê... ele vai ter quatro pais que moveriam montanhas por ele. E uma mãe que é a mulher mais forte que eu já conheci.
— Eu estava com medo — confessou Kellen, limpando o rosto. — A residência, a carreira de vocês, o que as pessoas vão dizer sobre a nossa família...
— O que as pessoas dizem nunca nos parou antes — Tucker disse, levantando-se e beijando a têmpora dela. — Nós somos os Bruins, Kel. Nós não jogamos pelas regras dos outros. Nós criamos as nossas.
— E a primeira regra — Dean interveio, já pegando o celular — é que ninguém toca na nossa grávida. Eu vou contratar uma equipe de segurança particular para o hospital. E talvez um chef particular para as madrugadas.
— Eu sou o chef, Dean, guarde esse celular — Tucker retrucou, mas o tom era de pura alegria.
Nos meses que se seguiram, a gravidez de Kellen tornou-se o projeto principal do "Pacote Briar". A rotina da NHL continuava, mas agora havia uma urgência diferente. Garrett jogava com uma proteção ainda maior, Logan parecia mais focado do que nunca, e Dean... bem, Dean comemorava cada gol fazendo o gesto de "ninar um bebê" para as câmeras, deixando a mídia e os fãs em polvorosa com especulações.
Eles não escondiam o relacionamento, embora não sentissem a necessidade de dar explicações técnicas ao mundo. Eles viviam juntos, chegavam juntos e, quando Kellen aparecia nos jogos com a barriga cada vez mais proeminente, os quatro a cercavam como uma guarda de honra.
Uma noite, durante o oitavo mês, Kellen acordou com contrações de Braxton Hicks. Em menos de trinta segundos, a luz do quarto se acendeu e quatro homens estavam ao redor da cama.
— É agora? — perguntou Logan, já com as chaves do carro na mão.
— Eu peguei a bolsa! — gritou Dean, correndo pelo corredor.
— Calma, rapazes — Kellen riu, apesar do desconforto. — É apenas um alarme falso. O bebê só está chutando as minhas costelas.
— Ele tem um chute forte — comentou Garrett, colocando a mão na barriga dela e sentindo o movimento. — Definitivamente um defensor. Vai tirar o disco de qualquer um.
— Ou uma cirurgiã — corrigiu Tucker, trazendo um copo de água e um travesseiro extra. — Ela tem mãos precisas, dá para sentir.
Eles acabaram ficando todos ali, no quarto de Kellen, espalhados pelo tapete e pelas beiradas da cama, recusando-se a deixá-la sozinha por um segundo sequer. Naquela noite, Kellen olhou para eles e percebeu que a anatomia da família que eles haviam construído era a mais perfeita de todas. Não era baseada em biologia, mas em uma escolha diária de permanecerem juntos.
O dia do parto foi, previsivelmente, um evento de proporções épicas. Quando a bolsa de Kellen rompeu, os quatro estavam no meio de um jantar pós-jogo. A viagem para o hospital foi feita em tempo recorde, com Dean quase convencendo a polícia a dar escolta.
No hospital, a equipe médica ficou inicialmente confusa com a presença de quatro homens enormes e ansiosos que se recusavam a sair da sala de espera, mas a autoridade silenciosa de Garrett e a insistência barulhenta de Dean garantiram que eles tivessem acesso total.
Na sala de parto, Kellen segurava a mão de Garrett e Logan, enquanto Tucker e Dean ficavam logo atrás, oferecendo palavras de incentivo e, no caso de Dean, quase desmaiando quando a cabeça do bebê apareceu.
— Vamos, Kel, você é a mulher mais durona da Nova Inglaterra! — gritava Dean, pálido como um fantasma.
— Respira, amor, só mais uma vez — Logan pedia, a voz embargada.
Quando o choro agudo preencheu a sala, o tempo parou. A enfermeira colocou a pequena menina nos braços de Kellen. Ela tinha os olhos escuros de Logan e a determinação que já brilhava no olhar de Garrett.
— Uma menina — sussurrou Garrett, as lágrimas caindo livremente sobre sua camisa do time.
— Ela é perfeita — Tucker disse, aproximando-se para tocar a mãozinha minúscula da bebê.
— Ela vai ser o terror da liga — Dean declarou, recuperando a cor e sorrindo com orgulho. — Coitado de quem tentar chegar perto da nossa filha.
Eles a chamaram de Jamie Briar. Um nome que honrava o lugar onde tudo começou, o caos gelado que os uniu.
Algumas semanas depois, a vida em Boston havia encontrado um novo ritmo. Jamie era o centro do universo. Havia uma tabela de turnos na geladeira, organizada por Tucker, para garantir que Kellen pudesse descansar para sua residência.
— É a minha vez de trocar a fralda — anunciou Logan, levantando-se do sofá antes mesmo de Jamie começar a chorar de verdade.
— Nada disso, eu marquei o gol da vitória hoje, eu tenho o direito de ninar a pequena — Dean protestou, embora já estivesse preparando a mamadeira com leite materno que Kellen havia deixado.
Kellen observava a cena da poltrona de amamentação, sentindo uma paz que nunca imaginou ser possível. Garrett sentou-se no braço da poltrona, passando o braço pelos ombros dela.
— Você está feliz? — ele perguntou em voz baixa.
— Eu sou a mulher mais feliz do mundo, Garrett.
— Nós fomos chamados para o All-Star Game — comentou ele, olhando para os amigos que agora disputavam quem faria Jamie arrotar. — Mas eu disse ao agente que só vamos se pudermos levar a família inteira.
— E o que ele disse?
— Ele disse que a NHL já desistiu de tentar nos separar. Eles sabem que o "Pacote Briar" é para sempre.
Kellen recostou-se no peito de Garrett. Ela sabia que haveria desafios. Sabia que Jamie cresceria em um lar não convencional, cercada por quatro pais que a adoravam e uma mãe que desafiava as estatísticas. Mas ela também sabia que não havia lugar mais seguro no mundo do que aquele apartamento.
Logan aproximou-se com Jamie no colo, entregando-a cuidadosamente para Kellen. Dean e Tucker sentaram-se no chão aos pés deles.
— Sabe o que é engraçado? — começou Dean, olhando para a bebê. — As pessoas achavam que a gente era louco na Briar U. Que quatro caras e uma garota nunca dariam certo a longo prazo.
— As pessoas não entendem de anatomia — Kellen disse, sorrindo para a filha. — Elas não sabem que o coração pode se expandir o quanto for necessário.
— Nós somos um time, Kel — disse Tucker, pegando a mão dela. — E times vencedores não se separam.
Naquela noite, enquanto a neve de Boston caía suavemente lá fora, Jamie Briar adormeceu cercada pelos seus quatro pais e sua mãe. A anatomia do final feliz deles não estava nos livros de medicina, nem nas estatísticas da NHL. Estava na sinfonia de cinco corações batendo como um só, em um pacto de sangue, gelo e um amor que, contra todas as probabilidades, provou ser a jogada mais brilhante de suas vidas.