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O Labirinto de Emoções e a Tensão do Gelo

A manhã na casa da Briar U começou com o aroma inconfundível de café forte e bacon, um contraste gritante com o silêncio sagrado da noite anterior. Kellen acordou sentindo-se como se estivesse envolta em um casulo de calor humano. De um lado, o braço pesado de Garrett repousava sobre sua cintura; do outro, Logan respirava de forma rítmica, o rosto enterrado na curvatura do seu pescoço. Aos seus pés, Dean ainda ressonava baixinho, uma visão rara de vulnerabilidade para o homem que geralmente exalava uma confiança inabalável.

Ela tentou se mexer, mas o movimento fez com que Logan apertasse o abraço, mesmo dormindo.

— Nem pense nisso — murmurou uma voz vinda da porta.

Kellen levantou a cabeça e viu Tucker. Ele já estava vestido com seu agasalho de treino, segurando duas canecas de cerâmica. Ele se aproximou da cama com passos de gato, entregando uma das canecas para ela.

— Café. Preto, como você gosta para acordar o cérebro — ele sussurrou, sentando-se na beirada da cama que ainda sobrava. — Como se sente?

— Como se tivesse sido atropelada por um caminhão de ternura — Kellen respondeu em um sussurro, dando o primeiro gole e sentindo a cafeína despertar seus sentidos. — Obrigada, Tuck. Por ontem. Por tudo.

Tucker sorriu, aquele sorriso calmo que sempre parecia dizer que ele tinha o controle de tudo.

— Você merecia. Mas agora, o mundo real chama. Garrett e Dean têm treino extra hoje, e Logan... bem, Logan tem aquela aula de filosofia que ele odeia.

Como se o som de seu nome fosse um gatilho, Logan abriu um dos olhos.

— Eu não odeio a aula. Eu odeio o professor. É diferente — ele resmungou, a voz rouca de sono enviando arrepios pela espinha de Kellen. Ele se inclinou e beijou a bochecha dela antes de se sentar. — Bom dia, Kel.

A manhã seguiu em um turbilhão. Kellen observou-os partirem, cada um deixando uma marca diferente nela antes de cruzar a porta: o beijo protetor de Tucker, o abraço firme de Garrett, o olhar intenso de Logan e o tapa atrevido de Dean. Sozinha, ela se sentou à mesa da cozinha com seus livros de anatomia, mas sua mente teimava em vagar para o jogo decisivo de sábado. A pressão sobre eles era imensa; olheiros da NHL estariam nas arquibancadas, e o futuro do grupo dependia daquele desempenho.

Por volta do meio-dia, o celular de Kellen vibrou. Era uma mensagem no grupo que os cinco compartilhavam.

— Dean: Kel, se você não trouxer comida pro vestiário, eu vou comer o protetor bucal do Garrett. Ele tá insuportável hoje.

— Logan: Eu só quero ver você.

Kellen riu e fechou o livro. Ela pegou a bolsa térmica que Tucker havia deixado preparada e dirigiu-se para a arena. O frio do ringue sempre a atingia como um choque, mas o som dos patins cortando o gelo era hipnótico. Ela se sentou nas arquibancadas vazias, observando-os. Eles eram uma máquina perfeita: Garrett liderava, Dean era a velocidade, Logan o estrategista e Tucker a muralha.

Quando o treino terminou, Dean foi o primeiro a pular a mureta, deslizando até onde ela estava.

— Minha salvadora! — ele exclamou, tentando abraçá-la enquanto ainda estava com o equipamento suado.

— Sai, Dean! Você está nojento! — Kellen riu, empurrando-o, mas ele conseguiu roubar um beijo rápido.

— Deixa ela em paz, Di Laurentis — Logan disse, aproximando-se com mais calma e tirando as luvas. Ele subiu os degraus e sentou-se ao lado dela, exausto. — Como foi o estudo?

— Produtivo, até vocês começarem a me inundar de mensagens — ela respondeu, entregando a ele uma garrafa de água.

Garrett e Tucker chegaram logo atrás. Havia uma energia elétrica entre eles, uma mistura de adrenalina e o peso da expectativa.

— O clima está ficando tenso para sábado — Garrett comentou, sua expressão ficando séria. — Os olheiros não vão perdoar erros bobos. Logan, você precisa estar afiado naquele flanco esquerdo.

— Eu sei, G. Eu estou nele — Logan respondeu, mas Kellen notou a rigidez em seus ombros.

Kellen colocou a mão sobre a de Logan, sentindo-o tremer levemente.

— Você vai ser incrível — ela disse suavemente. — Todos vocês vão.

— Com você na primeira fila? — Dean interveio. — Eu sou capaz de marcar três gols só para ver você comemorar.

A conversa fluiu, mas Kellen notou que Logan permanecia quieto demais. Quando eles voltaram para o vestiário, ela esperou no corredor. Tucker saiu primeiro e, ao ver a expressão dela, entendeu imediatamente.

— Ele está na cabeça dele de novo, não está? — Tucker perguntou, beijando a têmpora dela. — Dê um tempo a ele. Traga-o para casa quando ele estiver pronto para falar.

Kellen acenou e esperou. Por fim, Logan apareceu, a bolsa de equipamentos pendurada no ombro como se pesasse uma tonelada. Eles caminharam em silêncio pelo campus enquanto o ar da noite esfriava.

— Às vezes — começou Logan, a voz quase sumindo no vento — eu sinto que se eu falhar no sábado, tudo o que eu construí desmorona. Parece que eu estou andando em gelo fino.

Kellen parou de caminhar e o forçou a encará-la sob a luz de um poste.

— Logan, olhe para mim. O gelo não é fino. Você tem o Garrett, o Dean e o Tucker patinando logo atrás de você. E você tem a mim na borda, pronta para te puxar se você cair. Mas você não vai cair.

Logan suspirou, puxando-a para um abraço apertado. Ele escondeu o rosto no pescoço dela, inspirando o perfume que o acalmava.

— Eu não sei o que fiz para merecer você. Para merecer todos nós.

— Você não "fez" nada, Logan. Você apenas é quem é. E nós te amamos por isso.

Quando chegaram em casa, o caos doméstico ajudou a dissipar a melancolia. Dean e Garrett estavam em uma disputa acirrada de videogame, enquanto Tucker comandava o fogão.

— Finalmente! — Dean gritou sem tirar os olhos da tela. — Logan, vem aqui me ajudar, o Garrett está trapaceando!

— Eu não estou trapaceando, eu estou ganhando! — Garrett rebateu, rindo.

O jantar foi uma celebração antecipada. Eles riram, discutiram táticas e, por um momento, a NHL parecia a quilômetros de distância. Mais tarde, enquanto se acomodavam na sala para assistir a um filme, a dinâmica natural deles se manifestou. Kellen estava sentada no chão, entre as pernas de Tucker, que trançava seus cabelos. Garrett e Logan ocupavam o sofá atrás dela, e Dean estava deitado no tapete, com a cabeça apoiada no colo de Kellen.

— Sabe — disse Dean, quebrando o silêncio —, as pessoas acham que a gente é louco por viver assim.

— E elas estão erradas? — Logan perguntou, arqueando uma sobrancelha.

— Talvez um pouco — admitiu Garrett, passando a mão pelo ombro de Logan. — Mas eu não trocaria isso por nada. Ter a Kel... ter vocês. É a única coisa que faz sentido.

Kellen olhou para cada um deles. O brilho da TV refletia nos olhos de todos, mostrando uma unidade que nenhuma equipe profissional poderia replicar. Ela percebeu que, embora o futuro fosse incerto, ali, naquela sala, ela tinha tudo.

— Eu também não trocaria — ela sussurrou, sentindo a mão de Tucker apertar seu ombro.

A noite avançou e o cansaço venceu. Eles subiram para o quarto de Logan, o espaço mais apertado da casa, o que os forçava a ficar ainda mais próximos. Kellen ficou no centro, sentindo a respiração de cada um deles se tornar pesada com o sono.

Horas depois, Kellen acordou sobressaltada. O quarto estava mergulhado em sombras, mas ela sentiu uma inquietação vinda de Logan ao seu lado. Ele estava se revirando, murmurando nomes e datas, preso em um pesadelo sobre sua bolsa de estudos e seu pai.

— Logan... — ela sussurrou, tocando o rosto dele.

Imediatamente, Garrett e Tucker se mexeram. Dean, que dormia aos pés da cama, sentou-se num salto.

— O que foi? — Dean perguntou, os olhos alertas.

— Logan está tendo um pesadelo — Kellen explicou, puxando a cabeça de Logan para o seu peito.

Garrett aproximou-se, colocando uma mão firme nas costas de Logan, enquanto Tucker segurava a mão dele. Lentamente, Logan despertou, os olhos arregalados e a respiração ofegante.

— Eu... eu perdi o disco — ele balbuciou, ainda desorientado. — O olheiro riscou meu nome.

— Ei, olha para mim — Garrett disse, a voz de capitão assumindo o controle. — Isso não aconteceu. E não vai acontecer. Nós somos uma unidade, Sanders. Se você perder o disco, eu vou estar lá para recuperá-lo. Se você cair, o Dean vai atropelar quem estiver na frente. E o Tucker não vai deixar nada entrar naquele gol.

Logan olhou para os amigos, e depois para Kellen. A tensão em seu rosto começou a ceder.

— Nós não vamos deixar você falhar, Logan — Tucker afirmou com serenidade. — Nunca.

Dean arrastou-se para cima, apertando-se no espaço minúsculo para envolver os braços em volta das pernas de todos.

— E se você falhar, a gente abre um bar na praia e a Kel vira a médica da ilha. Mas a gente fica junto. Esse é o pacto.

Logan soltou um riso trêmulo, encostando a testa na de Kellen.

— Um bar na praia não parece tão ruim.

— Mas o hóquei é melhor — Kellen disse, beijando-o. — Agora durmam. Vocês têm um jogo para ganhar no sábado.

Eles se acomodaram novamente, mas desta vez o silêncio era diferente. Era um silêncio carregado de uma promessa silenciosa de lealdade. Kellen fechou os olhos, sentindo os quatro batimentos cardíacos ao seu redor.

Ela sabia que o jogo de sábado seria brutal. Sabia que a pressão externa tentaria despedaçá-los, oferecendo contratos individuais em cidades distantes. Mas, enquanto sentia o calor de Garrett e a firmeza de Logan, ela teve uma certeza absoluta.

A anatomia do relacionamento deles não era baseada em conveniência ou luxúria passageira. Era baseada em uma interdependência vital. Eles eram as quatro câmaras do seu coração, e ela era o sangue que os mantinha vivos e em movimento.

— Kel? — a voz de Tucker soou baixinho, quase inaudível.

— Sim, Tuck?

— Obrigado por ser o nosso norte.

— Eu não sou o norte, Tucker — ela respondeu, sentindo o sono levá-la. — Eu sou apenas a bússola. Vocês são o caminho.

Na manhã de sábado, o clima na Briar U era de eletricidade pura. O ônibus da equipe de Michigan chegou sob vaias, e o ginásio começou a lotar horas antes do disco cair. Kellen estava no vestiário, um privilégio concedido pelo treinador que sabia o efeito que ela tinha sobre seus quatro melhores jogadores.

Ela parou diante deles, que já estavam com metade do equipamento vestido. Garrett parecia uma estátua de foco; Dean estava pulando de um lado para o outro; Tucker verificava suas proteções pela décima vez; e Logan... Logan estava sentado, olhando para os próprios patins.

Kellen caminhou até o centro do grupo.

— Escutem aqui — ela disse, a voz firme o suficiente para silenciar o burburinho do vestiário. — Aquelas pessoas lá fora querem ver um show. Os olheiros querem ver estatísticas. Mas eu só quero ver vocês jogarem como se amam. Porque é isso que assusta o adversário. A conexão de vocês é a única coisa que ninguém pode treinar contra.

Dean sorriu, aquele sorriso safado que sempre precedia uma grande jogada.

— Ouviu a doutora, rapazes. Vamos assustar esses caras.

Garrett levantou-se e estendeu a mão para o centro. Um a um, os outros colocaram as mãos por cima. Kellen colocou a sua por último.

— Por nós — Garrett rugiu.

— Por nós! — eles responderam em uníssono.

Kellen saiu do vestiário e foi para o seu lugar na arquibancada, logo atrás do banco de reservas. Quando as luzes se apagaram e o hino começou, ela sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ela viu Logan olhar para trás, procurando por ela. Ela apenas assentiu, um gesto simples que dizia tudo o que precisava ser dito.

O disco caiu. O jogo começou com uma violência física que fez Kellen prender a respiração. A Michigan era um time sujo, usando provocações e golpes baixos para tentar desestabilizar a Briar. No segundo período, um jogador adversário atingiu Logan pelas costas, jogando-o contra a proteção.

Kellen levantou-se de um salto, o coração na garganta. Logan ficou no gelo por alguns segundos, e a arena silenciou. Mas antes que o juiz pudesse intervir, Dean já estava em cima do agressor, e Garrett estava lá para puxar Logan para cima.

Logan sacudiu a cabeça, cuspiu um pouco de sangue e olhou para a arquibancada. Ele viu o medo nos olhos de Kellen, mas também viu a confiança. Ele se levantou, recusando-se a ir para o banco.

O que se seguiu foi uma aula de hóquei. Movidos por uma raiva fria e uma sincronia perfeita, os quatro dominaram o gelo. Tucker fez defesas que desafiavam a gravidade; Dean marcou dois gols em jogadas individuais brilhantes; Garrett coordenou a defesa como um general; e, no último minuto, Logan marcou o gol da vitória com um passe de letra de Dean.

O ginásio explodiu. Kellen sentiu lágrimas de alívio correrem por seu rosto.

Após o jogo, no meio da comemoração no gelo, os quatro patinaram até a borda onde ela estava. Eles estavam suados, machucados e exaustos, mas os olhos brilhavam com o triunfo.

— Nós conseguimos, Kel! — Dean gritou, puxando-a por cima da mureta para o gelo.

Ela escorregou e caiu nos braços de Garrett, que a segurou com força. Logan aproximou-se, beijando-a no meio da confusão de câmeras e torcedores.

— Eu não andei em gelo fino — Logan sussurrou no ouvido dela. — Eu voei sobre ele.

Tucker abraçou todos eles, formando um círculo fechado no centro do ringue. Naquele momento, cercada pelo cheiro de gelo e vitória, Kellen soube que não importava o que os olheiros decidissem ou para onde a vida os levasse após a formatura.

Eles haviam criado algo que transcendia o esporte e as convenções sociais. Eles eram um labirinto de emoções, sim, mas era um labirinto onde ninguém jamais se sentiria perdido. E enquanto patinavam juntos para fora do gelo, Kellen percebeu que a anatomia da permanência era simples: era feita de quatro homens, uma mulher e a promessa inabalável de que, no gelo ou fora dele, eles sempre seriam um só.

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