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O Peso do Ouro e o Calor do Sangue
O sábado amanheceu com um céu cinzento e metálico, o tipo de clima que parecia carregar a eletricidade estática da expectativa. Na casa da Briar U, a atmosfera era diferente de qualquer outro dia. O caos habitual de Dean fora substituído por um silêncio focado, e a cozinha de Tucker não cheirava a bacon, mas sim a carboidratos complexos e shakes de proteína. O ar estava espesso com a tensão pré-jogo, aquela vibração invisível que precede as grandes batalhas.
Kellen observava-os da soleira da porta da cozinha. Os quatro estavam em estágios diferentes de preparação. Garrett revisava mentalmente as jogadas com um tablet na mão; Logan estava sentado no canto, enfaixando os pulsos com uma precisão cirúrgica, os olhos perdidos em algum lugar escuro de sua própria mente; Tucker verificava cada item das bolsas de equipamento pela terceira vez; e Dean, curiosamente, era o único que não conseguia ficar parado, andando de um lado para o outro enquanto mastigava uma maçã.
— Vocês parecem gladiadores se preparando para o Coliseu — comentou Kellen, tentando quebrar o gelo.
Garrett levantou os olhos do tablet e sorriu, mas era um sorriso tenso, que não chegava totalmente aos olhos.
— Às vezes parece exatamente isso, Kel. Especialmente hoje. A Michigan não joga limpo, e os olheiros da NHL não estão interessados em ver "gentileza" no gelo. Eles querem ver quem sobrevive à carnificina.
— E nós vamos sobreviver — Dean interveio, jogando o resto da maçã no lixo com um movimento brusco. — Nós vamos esmagá-los.
Kellen caminhou até Logan. Ele era o que mais a preocupava. O silêncio dele não era o de Tucker, que era reconfortante, mas sim um silêncio de panela de pressão. Ela colocou as mãos sobre os ombros dele, sentindo os músculos trapézios tão rígidos quanto pedras.
— Respira, Logan — sussurrou ela, inclinando-se para perto do seu ouvido. — É só hóquei. Você faz isso desde que aprendeu a andar.
Logan soltou um suspiro longo, deixando a cabeça pender para a frente por um segundo. Ele soltou a faixa de proteção e segurou as mãos de Kellen, puxando-as para seus lábios.
— Não é só hóquei hoje, Kel. É o bilhete de saída. Para todos nós, mas... eu sinto que se eu errar um passe, o chão se abre.
— Eu não vou deixar você cair — disse ela com firmeza, repetindo a promessa da noite anterior. — E eles também não.
— Grupo, vamos nos reunir — chamou Tucker, sua voz de "mãe da casa" assumindo um tom de comando que até Dean respeitava.
Eles se aproximaram, formando um círculo no meio da cozinha. Kellen foi puxada para o centro. Era um ritual deles, algo que havia se formado organicamente desde que ela se tornara o eixo daquele grupo.
— Nós sabemos o que fazer — começou Garrett, a voz de capitão ecoando com autoridade. — Nós cuidamos uns dos outros. Se um cair, o outro cobre. Dean, nada de penalidades estúpidas só para se exibir. Logan, confie no seu instinto. Tucker, você é a nossa parede. E Kel...
Ele olhou para ela, e os outros três seguiram o olhar.
— Kel é a razão pela qual voltamos inteiros para casa — completou Dean, com uma seriedade rara que fez o coração dela disparar.
Eles se abraçaram, um emaranhado de braços musculosos e respirações sincronizadas. Naquele momento, Kellen não era apenas a namorada deles; ela era a âncora que impedia que o ego e a pressão os levassem para longe.
A arena da Briar U estava lotada. O barulho era ensurdecedor, um mar de azul e branco gritando e batendo nos vidros de proteção. Kellen estava sentada na seção reservada para as famílias, logo atrás do banco de reservas. Ela conseguia ver a nuca de Garrett e o brilho do capacete de Logan.
O jogo começou com uma violência que Kellen raramente via. A Michigan era física, agressiva e claramente tinha uma estratégia: tirar os jogadores principais da Briar do sério.
No primeiro período, Dean foi jogado contra a proteção com tanta força que o som do impacto ecoou por toda a arena. Kellen se levantou, o coração na garganta, mas Dean apenas se levantou, cuspiu um pouco de sangue e deu uma piscadela na direção dela antes de voltar para o centro do gelo. Ele estava em seu elemento; o caos o alimentava.
No segundo período, a tensão aumentou. O placar estava empatado em 2 a 2. Logan estava sendo marcado de perto por dois defensores que não o deixavam respirar. Kellen via a frustração crescendo nele. Em um lance rápido, um jogador da Michigan deu um golpe baixo com o taco no tornozelo de Logan, longe da visão do árbitro. Logan tropeçou, e o adversário aproveitou para gritar algo em seu ouvido.
Kellen viu o exato momento em que Logan perdeu o controle. Ele se virou, largando o taco, e avançou contra o jogador.
— Logan, não! — gritou ela, embora soubesse que ele não podia ouvi-la.
Garrett interveio instantaneamente, patinando entre Logan e o adversário, empurrando Logan para trás enquanto Tucker, do outro lado do gelo, batia o taco no gelo para chamar a atenção do árbitro e esfriar os ânimos.
Logan foi mandado para o banco de penalidades por dois minutos. Quando ele se sentou, furioso, ele olhou para cima e encontrou os olhos de Kellen. Ela não parecia decepcionada, apenas preocupada. Ela fez um gesto de "respira" com a mão. Ele fechou os olhos, encostou a cabeça no vidro e forçou o peito a subir e descer devagar.
O terceiro período foi uma obra-prima de resiliência. Com apenas cinco minutos para o fim, a Briar estava perdendo por 3 a 2. O cansaço era visível em cada movimento.
Foi então que a mágica aconteceu. A sincronia que eles cultivavam em casa, naquelas noites de sono compartilhado e conversas na cozinha, traduziu-se para o gelo.
Tucker fez uma defesa acrobática, espalmando o disco para Garrett. Garrett, sem olhar, fez um passe longo e preciso para Dean, que cruzava a zona central. Dean, em vez de tentar o gol sozinho como costumava fazer para brilhar, viu Logan se desmarcando na esquerda. Com um toque sutil, ele desviou o disco.
Logan recebeu o disco. O mundo parecia ter ficado em câmera lenta. Os olheiros, a torcida, a dor no tornozelo... tudo desapareceu. Ele disparou. O som do disco batendo no fundo da rede foi o som mais doce que Kellen já ouvira.
Empate.
E nos segundos finais, em um contra-ataque fulminante, foi a vez de Garrett marcar, selando a vitória por 4 a 3.
A arena explodiu. Os jogadores pularam no gelo, amontoando-se sobre Tucker e Garrett. Mas Kellen viu Logan patinar lentamente para o canto, exausto, sendo logo alcançado por Dean, que o envolveu em um abraço de urso, sacudindo-o com alegria.
Quando eles finalmente saíram do vestiário, horas depois, pareciam ter passado por uma guerra. Logan mancava levemente, Dean tinha um corte no lábio, Garrett estava com um saco de gelo no ombro e Tucker parecia ter envelhecido cinco anos.
Mas quando viram Kellen esperando no corredor, a exaustão pareceu evaporar.
— Nós conseguimos, boneca — disse Dean, aproximando-se primeiro e levantando-a do chão, apesar da dor que devia estar sentindo. — Você viu aquele passe? Eu fui um santo. Um verdadeiro cavalheiro do gelo.
— Você foi um exibido, como sempre — brincou ela, beijando o corte em seu lábio.
Garrett se aproximou, envolvendo os dois em seus braços longos.
— Os olheiros falaram com a gente, Kel. Eles amaram a química. Disseram que nunca viram quatro jogadores tão sintonizados.
— É porque eles não sabem o que acontece na nossa cozinha às duas da manhã — comentou Tucker, sorrindo cansado enquanto passava o braço pelos ombros de Kellen.
Logan foi o último a se aproximar. Ele estava quieto, mas o brilho em seus olhos era diferente. Não era mais o brilho do medo, mas o da realização. Ele não disse nada, apenas puxou Kellen para um beijo longo e profundo, ignorando os assobios de Dean e os risos de Garrett.
— Obrigado — ele sussurrou contra os lábios dela. — Por não me deixar cair.
— Nunca — prometeu ela.
A volta para casa foi silenciosa, mas não era o silêncio tenso da manhã. Era o silêncio da vitória. No entanto, quando entraram na sala, a adrenalina começou a baixar e a realidade física da batalha os atingiu.
— Tudo bem, soldados — decretou Kellen, assumindo o controle da situação. — Dean, gelo no lábio. Garrett, direto para o chuveiro quente para esse ombro não travar. Tucker, você vai sentar naquele sofá e não vai cozinhar nada hoje, nós vamos pedir pizza. E Logan... você vem comigo. Eu preciso examinar esse tornozelo.
— Sim, senhora doutora — Dean brincou, mas obedeceu prontamente.
Kellen levou Logan para o quarto. Ela o fez sentar na beirada da cama e começou a tirar seus patins e meias com cuidado. O tornozelo estava inchado e começando a ficar roxo.
— Logan, isso deve estar doendo horrores. Por que você não pediu para sair?
— Porque eu tinha que terminar o que comecei — ele respondeu, observando-a trabalhar. — E porque eu sabia que você estaria aqui no final para cuidar de mim.
Ela aplicou uma pomada anti-inflamatória e começou a enfaixar o local. A concentração dela era absoluta, a luz do abajur criando sombras suaves em seu rosto. Logan a observava com uma intensidade que o tornava quase etéreo.
— Sabe — disse ele, a voz baixa e rouca —, eu passei a vida inteira achando que o sucesso era algo que eu tinha que alcançar sozinho. Que se eu dependesse de alguém, eu seria fraco.
Kellen parou o que estava fazendo e olhou para ele.
— E agora?
— E agora eu percebo que ser amado por você... e ter esses caras comigo... é o que me torna forte. Eu não marquei aquele gol sozinho, Kel. Eu marquei porque o Tucker defendeu, o Garrett passou e o Dean confiou em mim. E porque você estava lá.
Kellen sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos. Ela terminou o curativo e subiu no colo dele, circulando seu pescoço com os braços.
— Vocês são uma unidade, Logan. E eu sou a sorteada que consegue fazer parte disso.
A porta do quarto se abriu e os outros três entraram. Dean já estava de pijama, Garrett com uma toalha em volta do pescoço e Tucker trazendo cinco copos de água e alguns comprimidos de ibuprofeno.
— A pizza chega em vinte minutos — anunciou Tucker, sentando-se na poltrona. — E o Dean já escolheu um filme de ação horrível que nós vamos fingir que assistimos enquanto dormimos no sofá.
— Ei! O filme é um clássico! — protestou Dean, jogando-se na cama ao lado de Logan e Kellen. — Tem explosões, perseguições e o protagonista é quase tão bonito quanto eu.
— Quase — riu Garrett, sentando-se do outro lado de Kellen, puxando-a para encostar em seu peito.
Eles ficaram ali, amontoados na cama de Logan por um momento, apenas sentindo a presença uns dos outros. A tensão do jogo, a pressão dos olheiros, o medo do futuro... tudo parecia insignificante diante daquele calor compartilhado.
— Kel? — chamou Garrett, sua voz suave preenchendo o quarto.
— Oi, G?
— Nós estávamos conversando no vestiário. Sobre o ano que vem. Sobre a NHL e para onde podemos ir.
Kellen sentiu um aperto no peito. A ideia de que eles poderiam ser separados por times diferentes em cidades distantes era o seu maior medo silencioso.
— E o que decidiram? — perguntou ela, tentando manter a voz estável.
— Decidimos que não importa para onde formos — disse Tucker, olhando-a nos olhos. — Nós vamos juntos. E você vem com a gente. Se um time quiser um de nós, vai ter que entender que somos um pacote completo. E que a nossa prioridade é onde você puder continuar sua residência médica.
Kellen ficou sem palavras. A dedicação deles era algo que ela ainda custava a processar.
— Vocês não podem fazer isso... a carreira de vocês...
— A nossa carreira não vale nada sem a nossa base — cortou Dean, segurando a mão dela. — Nós já conversamos com nossos agentes. Estamos focando em times que fiquem na mesma região ou que tenham centros médicos de excelência por perto.
— Nós somos um time, Kellen — Logan reforçou, apertando a cintura dela. — Dentro e fora do gelo.
As lágrimas finalmente caíram, mas eram lágrimas de alívio e de um amor tão vasto que parecia transbordar as paredes daquele quarto.
A campainha tocou lá embaixo.
— Pizza! — gritou Dean, sendo o primeiro a pular da cama, apesar do lábio inchado. — O último a chegar na sala come a borda de queijo do Logan!
— Nem pensar! — Logan exclamou, levantando-se com cuidado, mas com agilidade, sendo ajudado por Tucker e Garrett.
Kellen os seguiu, observando as costas daqueles quatro homens. Eles eram imperfeitos, problemáticos, competitivos e, às vezes, absolutamente insuportáveis. Mas eram dela. E ela era deles.
Naquela noite, enquanto comiam pizza no chão da sala e Dean fazia comentários sarcásticos sobre o filme, Kellen olhou para o diagrama de anatomia que deixara sobre a mesa lateral. O sistema circulatório, com o coração no centro bombeando vida para todas as extremidades.
Ela sorriu, percebendo que sua vida era exatamente assim. O coração não era apenas um órgão em seu peito; eram quatro homens morenos e loiros, com cicatrizes de hóquei e corações de ouro, que mantinham seu mundo pulsando, não importava o quão frio o gelo pudesse ser.
E enquanto Logan encostava a cabeça em seu ombro e Garrett entrelaçava seus dedos aos dela, Kellen soube que, não importa para qual cidade o destino os levasse, ela já tinha encontrado seu verdadeiro lar. E ele cheirava a gelo, pizza e a promessa de que nunca, jamais, ela teria que caminhar sozinha.