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A Anatomia da Permanência

A luz da manhã de domingo filtrava-se pelas cortinas da sala, iluminando a poeira que dançava no ar e o campo de batalha de caixas de pizza vazias e latas de energético. Kellen foi a primeira a despertar, sentindo o peso familiar de corpos masculinos ao seu redor. Dean estava jogado no tapete, usando o braço de Garrett como travesseiro, enquanto Logan e Tucker dividiam o sofá menor, um emaranhado de pernas e braços que desafiava a lógica da física.

Ela se espremeu para sair do meio deles, tomando cuidado para não chutar o tornozelo enfaixado de Logan. Na cozinha, o silêncio era um alívio momentâneo. Enquanto a cafeteira começava a borbulhar, Kellen apoiou as mãos no balcão e fechou os olhos. A conversa da noite anterior sobre o futuro na NHL ainda ecoava em sua mente. O sacrifício que eles estavam dispostos a fazer por ela era imenso, e uma parte de sua mente lógica — a parte que decorava ossos e nervos — tentava racionalizar se aquilo era amor ou apenas a loucura coletiva que os unia.

— Você pensa demais quando está sozinha — a voz de Tucker, suave e rouca de sono, a trouxe de volta.

Ele apareceu na cozinha vestindo apenas uma calça de moletom cinza, o cabelo escuro bagunçado de um jeito que Kellen sempre sentia vontade de puxar. Ele caminhou até ela e a envolveu por trás, descansando o queixo em seu ombro.

— Estava pensando no que vocês disseram — admitiu ela, relaxando contra o peito quente dele. — Sobre os contratos. Sobre ficarmos juntos.

— É a única opção, Kel — Tucker murmurou, depositando um beijo em seu pescoço. — Não existe um cenário onde a gente segue em frente e deixa o nosso coração para trás na Briar.

— Mas e se os times não aceitarem? — perguntou ela, virando-se nos braços dele. — E se o Garrett for para Boston e você para Chicago?

— Então a gente faz funcionar — disse Garrett, entrando na cozinha com os olhos semicerrados pela claridade. Ele se aproximou e beijou a testa de Kellen antes de pegar uma caneca. — O Logan já está mapeando os aeroportos regionais e as distâncias entre os centros de treinamento. Ele entrou em "modo missão". Quando ele fica assim, nada o detém.

— Onde ele está? — perguntou Kellen.

— No quintal — respondeu Dean, surgindo logo atrás, bocejando tão alto que parecia um leão. Ele passou por Kellen e deu um tapa leve e carinhoso em seu quadril. — Diz que o tornozelo precisa de ar fresco, mas eu acho que ele só está tentando processar o fato de que a gente realmente ganhou ontem. Bom dia, boneca. Preparada para o café da manhã dos campeões? Que, no meu caso, é qualquer coisa que o Tucker não tenha queimado.

— Eu nunca queimei nada nesta casa, Di Laurentis — retrucou Tucker com um sorriso de lado.

Kellen riu, sentindo a tensão se dissipar. Ela pegou sua caneca e foi para o quintal. Logan estava sentado nos degraus da varanda, observando a grama coberta de orvalho. O tornozelo estava devidamente elevado, e ele tinha um caderno de anotações no colo.

— Você deveria estar descansando — disse ela, sentando-se ao lado dele —, não planejando a logística de cinco vidas.

Logan fechou o caderno, mas não antes que Kellen visse uma lista de cidades e nomes de hospitais universitários. Ele a olhou, e a intensidade de suas íris escuras sempre a deixava sem fôlego.

— Eu não consigo evitar — disse Logan. — Pela primeira vez na vida, eu sinto que tenho algo que vale a pena proteger a qualquer custo. O hóquei é o que eu faço, Kellen. Mas vocês... vocês são o que eu sou.

— Logan...

— É sério — ele a interrompeu, pegando a mão dela e entrelaçando os dedos. — Eu passei anos sendo o cara que ninguém conseguia alcançar. O cara problemático com o pai pior ainda. Mas aí o Garrett me puxou, o Tucker me deu um teto, o Dean me irritou até eu começar a rir e você... você me deu um motivo para querer ser alguém melhor. Se eu tiver que jogar na liga secundária só para garantir que você termine sua residência médica perto de nós, eu jogo.

Kellen sentiu um nó na garganta. Ela se inclinou e o beijou, um beijo que carregava toda a gratidão e o temor que ela sentia.

— Nós vamos dar um jeito — sussurrou ela contra os lábios dele.

— Com certeza vamos — a voz de Dean veio da porta, e logo os outros três estavam se juntando a eles na varanda, transformando o pequeno espaço em um reduto de testosterona e afeto.

O restante do domingo passou em uma névoa de preguiça e planejamento. Eles se revezavam entre estudar e assistir a vídeos de jogadas do jogo de sábado. Mas, conforme a noite caía, a atmosfera mudou. Havia uma necessidade silenciosa de proximidade física, um efeito colateral da adrenalina que ainda corria em suas veias.

— Quarto do Dean hoje? — sugeriu Garrett, sabendo que a cama de Dean era a maior de todas, um exagero de luxo que ele insistira em comprar no início do semestre.

— Finalmente — Dean comemorou. — Já estava cansado daquele colchão de solteiro do Logan. Minhas costas de atleta merecem respeito.

Eles subiram as escadas, uma procissão familiar. O quarto de Dean era o oposto do de Logan; era espaçoso, cheirava a perfume caro e couro, e tinha uma iluminação suave. Kellen se trocou, vestindo uma camiseta velha de Tucker que chegava até a metade de suas coxas. Quando voltou para o quarto, os quatro já estavam acomodados.

Ela se deitou no meio, o lugar que eles sempre reservavam para ela. Dean e Garrett ocuparam as extremidades, enquanto Logan e Tucker se encaixaram entre eles, criando uma barreira de proteção ao redor de Kellen.

— Sabe o que é engraçado? — começou Dean, olhando para o teto. — Se alguém contasse isso para o Dean do primeiro ano, ele diria que era um sonho erótico muito específico. Mas agora... é só o que eu preciso para conseguir fechar os olhos.

— É porque você finalmente amadureceu, Dean — provocou Logan. — Só demorou vinte e dois anos.

— Parem com isso — pediu Kellen, rindo. Ela sentiu a mão de Garrett acariciando seu cabelo e o braço de Tucker repousando sobre sua cintura. — Eu estava pensando... sobre a anatomia.

— Lá vem ela com os termos médicos — resmungou Dean, mas havia carinho em sua voz.

— Não, é sério — continuou ela, a voz ficando mais baixa conforme o sono começava a envolvê-la. — Nos livros, o coração é descrito como uma bomba muscular dividida em quatro câmaras. Átrios e ventrículos. Eles trabalham juntos para manter o corpo vivo. Se uma câmara falha, o sistema inteiro entra em colapso.

Houve um silêncio breve na sala, preenchido apenas pelo som da respiração deles.

— Você está dizendo que nós somos as suas quatro câmaras? — perguntou Garrett, sua voz vibrando contra o ombro de Kellen.

— Eu estou dizendo que vocês são o meu sistema circulatório — respondeu ela, fechando os olhos. — O Garrett é a força que impulsiona, o Tucker é o oxigênio que me acalma, o Logan é a resistência que me mantém de pé e o Dean... o Dean é a adrenalina que me faz sentir viva.

— E você, Kel? — perguntou Tucker suavemente.

— Eu sou o que mantém o sangue correndo no ritmo certo.

Dean soltou um suspiro satisfeito.

— Droga, isso foi muito profundo. Agora eu me sinto na obrigação de ser poético também, mas meu cérebro só pensa em como você fica bem naquela camiseta.

— Cala a boca, Dean — disseram os outros três em uníssono, mas todos estavam sorrindo.

A escuridão do quarto era total, mas Kellen não sentia medo. Ela sentia o calor de Garrett à sua esquerda, a firmeza de Logan à sua direita, a presença protetora de Tucker acima e a energia vibrante de Dean aos seus pés.

Horas depois, quando a lua já estava alta, Kellen acordou sobressaltada por um pesadelo passageiro — algo sobre corredores de hospital vazios e o som de patins no gelo que se distanciavam. Ela se sentou na cama, o peito arfando levemente. Imediatamente, quatro pares de mãos se moveram. Mesmo dormindo, eles estavam sintonizados com ela.

— Kel? — a voz de Logan foi a primeira. Ele se sentou ao lado dela, os olhos alertas apesar da sonolência. — O que houve?

— Só um sonho ruim — sussurrou ela, tentando controlar a respiração.

— Ei, boneca, olha para mim — Dean disse, puxando-a para o seu colo com uma delicadeza que ele raramente mostrava ao mundo. — Nós não vamos a lugar nenhum. Lembra do que combinamos? Pacote completo.

Garrett e Tucker também acordaram, formando um círculo apertado ao redor dela na cama.

— A gente não vai deixar o mundo nos separar, Kellen — afirmou Garrett, segurando o rosto dela entre as mãos. — Se a NHL quiser a gente, vai ter que aceitar a nossa rainha. E se não quiserem, a gente joga em qualquer liga, em qualquer lugar, desde que você esteja na arquibancada.

— Eu não quero ser o motivo de vocês desistirem dos seus sonhos — disse ela, as lágrimas finalmente transbordando.

— Você não é o motivo da desistência, Kellen — Tucker disse, limpando uma lágrima com o polegar. — Você é o sonho. O hóquei é só o que a gente faz para pagar as contas. Você é o que a gente faz para ser feliz.

Kellen olhou para eles, um por um. Garrett, o capitão que carregava o peso da responsabilidade; Dean, o playboy que descobriu que o prazer não era nada sem a entrega; Logan, o rebelde que encontrou paz no caos; e Tucker, o porto seguro que cuidava de todos eles. Ela percebeu, naquele momento, que o amor deles não era uma anatomia simples. Era algo novo, uma evolução do coração humano que os livros de medicina nunca seriam capazes de explicar.

— Deitem-se — pediu ela, a voz mais firme. — Eu estou bem agora.

Eles obedeceram, mas desta vez, a configuração mudou. Eles se apertaram ainda mais, formando uma massa compacta de calor e proteção. Kellen sentiu-se como o núcleo de um átomo, cercada por elétrons poderosos que a mantinham estável.

— Amanhã — começou Logan, já quase dormindo novamente — eu vou ligar para o meu agente. Vou dizer a ele que minha única exigência é uma cláusula de "proximidade familiar".

— Eu também — concordou Garrett.

— E eu — murmurou Tucker.

— Eu vou dizer que, se eles não me deixarem ficar perto da minha boneca, eu vou me aposentar e virar modelo de cuecas — Dean acrescentou, fazendo Kellen soltar uma risadinha entre o choro.

— Você faria isso mesmo — disse ela.

— Por você? Eu faria até comercial de iogurte diet — Dean brincou.

O silêncio voltou a reinar, mas agora era um silêncio carregado de promessas. Kellen ouviu o ritmo dos quatro corações ao seu redor. Um, dois, três, quatro. E o dela, o quinto, batendo em resposta. Ela sabia que a estrada à frente seria difícil. Haveria negociações de contrato, mudanças e a pressão da residência médica. As pessoas falariam, não entenderiam como uma mulher poderia amar quatro homens, ou como quatro homens poderiam compartilhar uma mulher com tanta devoção.

Mas, enquanto sentia o beijo de Logan em seu ombro e o aperto da mão de Garrett na sua, Kellen percebeu que a opinião do mundo era apenas ruído de fundo. A verdadeira melodia estava ali, naquela cama, naquela casa, naquela união improvável e absoluta.

Ela finalmente adormeceu, com a certeza de que, não importa o quão gelada fosse a arena da vida, ela sempre teria quatro pares de braços prontos para aquecê-la. E, no grande esquema da anatomia, o coração dela não tinha apenas quatro câmaras. Ele tinha quatro nomes, quatro almas e uma única direção: para sempre.

Na manhã seguinte, o sol brilharia, o gelo da arena esperaria por eles e os livros de medicina estariam abertos sobre a mesa. Mas, por agora, no silêncio daquela madrugada na Briar U, o mundo era perfeito. Porque no labirinto de emoções que era a vida de Kellen, todos os caminhos levavam de volta para eles. E ela nunca, em toda a sua existência, esteve tão perdida no lugar certo.

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