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A Sinfonia Silenciosa da Madrugada

A luz prateada da lua atravessava as cortinas entreabertas do quarto de Dean, banhando o emaranhado de corpos sobre a cama king-size com uma suavidade quase irreal. Kellen estava no centro, o ponto de gravidade absoluto de quatro planetas que orbitavam ao seu redor. O silêncio da casa da Briar U não era vazio; era preenchido pelo ritmo sincopado de cinco respirações que, após meses de convivência, pareciam ter encontrado uma frequência única.

Ela sentiu o calor de Garrett contra suas costas, uma presença sólida e constante que servia como seu suporte mais firme. O braço dele rodeava sua cintura com uma possessividade gentil, os dedos morenos roçando a pele da sua barriga por baixo da camiseta de Tucker. À sua frente, Logan dormia com o rosto a centímetros do dela. Mesmo em repouso, as sobrancelhas dele mantinham um leve vinco de preocupação, um resquício da melancolia que Kellen se esforçava diariamente para dissipar.

— Você está acordada.

A voz de Dean veio dos pés da cama, um sussurro rouco que vibrou no ar frio. Kellen inclinou a cabeça para trás, vendo o brilho dos olhos azuis dele na penumbra. Dean estava esparramado, uma perna jogada por cima das de todos, recusando-se a aceitar qualquer limite de espaço, fiel à sua natureza expansiva.

— Como você sabe? — sussurrou ela de volta, tentando não despertar Garrett ou Logan.

— Eu conheço o ritmo da sua respiração, boneca — Dean respondeu, esticando o braço para acariciar o tornozelo dela. — Você está pensando demais de novo. Consigo ouvir as engrenagens do seu cérebro girando daqui.

Kellen soltou um suspiro longo, sentindo o peso do dia anterior — a anatomia, a pressão dos jogos, o futuro incerto — assentar-se em seus ombros.

— É difícil desligar, Dean. Às vezes parece que estou vivendo um sonho que pode evaporar se eu piscar rápido demais.

— Não vai evaporar — a voz de Tucker surgiu do outro lado de Logan. Ele estava deitado de lado, apoiado em um cotovelo, observando-a com aquela calma profunda que o tornava o "papai" do grupo. — Nós somos reais, Kel. E nós não vamos a lugar nenhum.

Logan se mexeu, despertado pelo som das vozes. Ele abriu os olhos lentamente, a escuridão neles suavizando-se ao encontrar o rosto de Kellen. Sem dizer uma palavra, ele se aproximou mais, escondendo o rosto na curva do pescoço dela e inspirando profundamente.

— Fica quieta — Logan resmungou, a voz carregada de sono e de uma ternura crua. — O mundo pode esperar até o amanhecer.

Garrett apertou o abraço por trás, deixando um beijo na nuca de Kellen.

— Ele tem razão — disse o capitão, a voz vibrando contra as costas dela. — O gelo só nos espera às oito. Até lá, o universo se resume a este quarto.

Kellen fechou os olhos, permitindo-se ser consumida por eles. Para qualquer pessoa de fora, aquela dinâmica era um escândalo ou uma impossibilidade. Mas ali, entre os lençóis de fios egípcios de Dean e o cheiro de sabonete de Tucker, tudo fazia sentido. Ela não precisava escolher entre o amor protetor de Garrett, a intensidade silenciosa de Logan, o charme magnético de Dean ou o cuidado meticuloso de Tucker. Ela era o elo que transformava quatro homens competitivos em uma unidade inquebrável.

A manhã chegou com a sutileza de um segredo compartilhado. O despertador de Garrett tocou às seis e meia, um som baixo que foi prontamente esmagado pela mão de Dean.

— Só mais cinco minutos — Dean protestou, puxando o edredom sobre a cabeça.

— Dean, temos treino de patinação de velocidade hoje — Garrett disse, já se sentando e passando as mãos pelo rosto. — O treinador vai nos matar se chegarmos atrasados.

— O treinador não tem uma Kellen na cama dele — rebateu Dean, surgindo debaixo das cobertas com o cabelo loiro completamente bagunçado. — Ele é um homem triste e amargo. Eu sou um homem feliz e... bem, eu sou eu.

Tucker já estava de pé, vestindo uma calça de moletom. Ele olhou para o grupo com um sorriso contido.

— Vou fazer o café. Logan, você precisa levar a Kel para a faculdade hoje, o carro dela está com aquele barulho estranho no motor de novo.

Logan, que ainda estava abraçado a Kellen como se ela fosse sua âncora pessoal, soltou um grunhido de concordância.

— Eu levo. E vou buscar também.

— Não precisa, Logan — disse Kellen, sentando-se e tentando ajeitar o cabelo. — Eu posso pegar um ônibus.

— Não, você não pode — Logan cortou, finalmente sentando-se. Ele segurou o queixo dela, forçando-a a encará-lo. — Eu não quero você andando sozinha com aquele bando de calouros idiotas olhando para você. Eu te levo.

— Ele só quer uma desculpa para te beijar na frente do prédio de medicina e marcar território — Dean provocou, pulando da cama e exibindo o físico musculoso sem a menor modéstia.

— E se for? — Logan rebateu, arqueando uma sobrancelha.

Kellen riu, sentindo o calor espalhar-se por seu peito. Era sempre assim: uma mistura de possessividade, humor e um cuidado que beirava o obsessivo. Ela se levantou e foi em direção à cozinha, seguindo o cheiro de café que Tucker já estava preparando.

A cozinha da casa da Briar U era o coração da rotina deles. Tucker estava diante do fogão, fritando ovos com a precisão de um cirurgião. Kellen sentou-se na bancada, observando-o.

— Você dormiu bem? — Tucker perguntou, entregando-lhe uma caneca de café preto.

— Dormi. Com quatro aquecedores humanos, é impossível passar frio — ela brincou, soprando o vapor da caneca.

Tucker parou o que estava fazendo e olhou para ela. Havia uma seriedade em seus olhos que sempre fazia Kellen prestar atenção.

— Kel, eu sei que as provas finais estão chegando. E sei que você está se pressionando para ser a melhor da turma. Mas não se esqueça de respirar. Nós estamos aqui para carregar o peso por você quando ficar demais.

— Eu sei, Tuck. Eu só... eu quero orgulhar vocês.

— Você já orgulha a gente só por existir, pequena — disse Garrett, entrando na cozinha e beijando a têmpora dela antes de pegar sua própria caneca.

O café da manhã foi o caos organizado de sempre. Dean tentava roubar o bacon de Logan, que respondia com olhares mortais; Garrett revisava táticas de jogo no tablet enquanto mastigava uma torrada; e Tucker garantia que todos estivessem devidamente alimentados. Kellen observava a cena, sentindo-se a mulher mais sortuda do mundo.

— Certo, hora de ir — anunciou Garrett, pegando sua bolsa de equipamentos. — Dean, se você demorar mais um segundo para calçar os sapatos, eu vou te deixar para trás.

— Você não teria coragem, G. Você me ama demais — Dean disse, piscando para Kellen e roubando um beijo rápido e molhado dela antes de sair correndo pela porta.

Garrett aproximou-se de Kellen por último. Ele a envolveu em um abraço apertado, daqueles que pareciam realinhar todos os seus ossos no lugar.

— Tenha um bom dia nas aulas, Kel. Se precisar de qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, me mande uma mensagem.

— Eu vou ficar bem, capitão. Vá ganhar deles no gelo.

Depois que Garrett e Dean saíram, e Tucker subiu para tomar banho antes de suas próprias aulas, o silêncio caiu sobre a cozinha. Logan continuava sentado à mesa, terminando seu café com uma expressão pensativa.

— Logan? — chamou Kellen, aproximando-se dele.

Ele a puxou para o seu colo, escondendo o rosto em sua barriga.

— Às vezes eu sinto que não te mereço — ele murmurou, a voz abafada pelo tecido da camiseta dela. — Você é tão... brilhante. E eu sou apenas o Logan. O cara com problemas.

Kellen passou os dedos pelos cabelos escuros dele, sentindo a vulnerabilidade que ele raramente mostrava aos outros.

— Logan Sanders, você é a pessoa mais inteligente e profunda que eu conheço. Você não é os seus problemas. Você é o homem que me faz sentir segura apenas com um olhar. E eu te amo exatamente por quem você é.

Ele levantou o rosto, e Kellen viu o brilho de gratidão em seus olhos. Logan não era de muitas palavras, mas o beijo que ele deu nela naquele momento disse tudo o que ele não conseguia verbalizar. Era um beijo lento, carregado de uma necessidade que sempre a deixava sem fôlego.

— Vamos — ele disse, levantando-se com ela ainda nos braços antes de colocá-la no chão. — Tenho que te levar para a faculdade antes que eu decida te trancar neste quarto e não te deixar sair nunca mais.

O caminho para a Universidade Briar foi feito em um silêncio confortável. Logan dirigia com uma mão no volante e a outra firmemente entrelaçada na de Kellen. Quando pararam em frente ao prédio de anatomia, ele cumpriu a promessa de Dean.

Ele a puxou para um beijo intenso, ignorando os estudantes que passavam e olhavam com curiosidade para o jogador de hóquei famoso e a estudante de medicina.

— Te busco às cinco — Logan disse, o polegar roçando o lábio inferior dela.

— Estarei esperando.

Kellen entrou no prédio sentindo-se invencível. As aulas de anatomia eram exaustivas, repletas de nomes latinos e funções complexas, mas sempre que sentia o cansaço chegar, ela tocava o anel que Garrett lhe dera, ou lembrava-se de uma piada suja de Dean, ou da calma de Tucker, ou do olhar de Logan. Eles eram o seu combustível.

No meio da tarde, enquanto estava na biblioteca revisando o sistema nervoso, seu celular vibrou. Era uma mensagem no grupo que eles compartilhavam.

*Dean: O treino foi um inferno. O treinador está possuído. Kel, por favor, me diga que você vai usar aquela lingerie preta hoje para me recompensar por quase morrer no gelo.*

*Garrett: Dean, comporte-se. Kel, ignore-o. Mas, falando sério, o treino foi pesado. Estamos todos exaustos.*

*Tucker: Já estou preparando um jantar reforçado. Logan está saindo agora para te buscar, Kel. Cuidado no caminho.*

*Logan: Já estou no estacionamento. Saia logo, estou com saudades.*

Kellen sorriu para a tela, sentindo o coração aquecer. Ela guardou seus livros e desceu as escadas, encontrando o carro de Logan parado exatamente onde ele dissera que estaria. Ele estava encostado na porta, os braços cruzados, atraindo olhares de todas as direções, mas seus olhos estavam fixos apenas na porta de saída.

Ao vê-la, o rosto de Logan se iluminou com aquele meio sorriso que ele reservava apenas para ela.

— Como foi o dia, futura doutora? — perguntou ele, abrindo a porta para ela.

— Cansativo. Mas agora está melhor.

Quando chegaram em casa, a cena era de puro relaxamento. Garrett e Dean estavam jogados no sofá, assistindo a um jogo da NHL e discutindo jogadas. Tucker estava na cozinha, o aroma de manjericão e alho preenchendo o ar.

— Kel! — Dean exclamou, estendendo os braços. — Venha aqui. Eu preciso de contato humano que não envolva o suor de jogadores de hóquei.

Kellen riu e jogou-se entre ele e Garrett no sofá. Dean imediatamente a puxou para o seu colo, enquanto Garrett passava o braço por cima dos seus ombros.

— Você está pálida — Garrett notou, estudando o rosto dela com preocupação. — Estudou demais de novo?

— Só o necessário, G.

— O necessário para ela é o triplo do que qualquer pessoa normal faria — Logan comentou, sentando-se no braço do sofá ao lado de Kellen.

— Jantar em dez minutos! — Tucker anunciou da cozinha.

A refeição foi, como sempre, o momento em que eles se reconectavam. Entre garfadas de massa e risadas, os problemas do mundo exterior pareciam não existir. Eles eram uma ilha, um ecossistema próprio onde a lealdade era a moeda principal.

Após o jantar, a exaustão do treino e das aulas começou a cobrar seu preço. Eles se dirigiram para a sala, onde o grande sofá modular era o cenário perfeito para as noites de filmes que raramente terminavam com alguém assistindo ao final.

Kellen estava sentada no chão, entre as pernas de Garrett, que massageava seus ombros com mãos habilidosas. Logan estava deitado com a cabeça no colo dela, enquanto ela passava os dedos por seus cabelos. Dean estava esticado no outro canto, com os pés sobre o colo de Tucker, que lia um livro enquanto descansava a mão sobre o tornozelo de Dean.

— Às vezes eu me pergunto — começou Dean, a voz sumindo no tom baixo da TV — como a gente teve tanta sorte.

— Sorte? — perguntou Garrett.

— Sim. De encontrar a Kel. E de não termos nos matado por causa disso no início.

— A gente quase se matou — Logan lembrou, sem abrir os olhos. — Eu lembro de querer socar a cara do Dean pelo menos três vezes por semana.

— Só três? Você estava sendo generoso — brincou Tucker.

Kellen inclinou a cabeça para trás, olhando para Garrett.

— Eu não mudaria nada — ela disse suavemente. — Nem as brigas, nem a confusão. Nada.

Garrett inclinou-se e beijou o topo da cabeça dela.

— Nem nós, Kel. Você é a nossa melhor jogada.

A noite avançou e, um a um, eles começaram a cochilar ali mesmo. Kellen sentiu o peso reconfortante deles, a prova física de que não estava sozinha. Ela olhou para cada um deles — a força de Garrett, a beleza de Dean, a profundidade de Logan e a bondade de Tucker — e percebeu que a anatomia que ela estudava nos livros era limitada. O coração humano, ela descobriu, não tinha apenas quatro câmaras. O dela tinha quatro nomes, quatro almas e um espaço infinito para amar todos eles.

— Vamos para a cama — Tucker sussurrou, sendo o primeiro a se levantar e estender a mão para Kellen.

Eles subiram as escadas em silêncio, uma procissão de sombras e afeto. Naquela noite, o quarto de Garrett foi o escolhido. A cama era grande o suficiente para abrigar todos, um arranjo que eles haviam aperfeiçoado com o tempo.

Kellen ficou no meio, como sempre. Logan e Garrett de cada lado, Dean e Tucker nas extremidades. Antes de fechar os olhos, ela sentiu a mão de cada um deles tocá-la de alguma forma — um braço sobre a cintura, uma mão segurando a sua, um pé roçando o dela.

— Boa noite, Kel — sussurrou Garrett.

— Boa noite, boneca — Dean murmurou.

— Durma bem — disse Tucker.

Logan apenas apertou a mão dela um pouco mais forte, um gesto que valia por mil palavras.

— Boa noite, meus meninos — Kellen respondeu, sentindo o sono finalmente levá-la.

Enquanto a lua continuava sua jornada pelo céu da Briar U, dentro daquele quarto, o tempo parecia parar. Não havia gelo, não havia exames, não havia expectativas. Havia apenas a sinfonia silenciosa de cinco corações batendo em uníssono, protegidos pelo amor que, contra todas as probabilidades, os tornara inteiros. Kellen adormeceu sabendo que, não importa o que o amanhã trouxesse, ela teria quatro pilares de aço para sustentá-la e quatro corações de ouro para amá-la. E isso era tudo o que ela precisava para enfrentar o mundo.

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