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Duas

Marcas de Posse e Provocação

A luz da manhã entrava pelas enormes janelas de vidro do tríplex, banhando o quarto com uma claridade que Emanuel detestava. Ele já estava acordado, sentado na beirada da cama, observando as duas mulheres que dormiam como se a guerra da noite anterior nunca tivesse acontecido. Eduarda estava encolhida, com o rosto escondido no travesseiro, enquanto Sara ocupava metade do colchão, os cabelos loiros espalhados e uma perna jogada para fora do lençol, exibindo a tatuagem de uma fênix que subia por sua coxa.

Emanuel se levantou silenciosamente e caminhou até o closet. Ele tinha reuniões com seus gerentes de Londres e Tóquio, mas algo no clima daquela casa o deixava em alerta. Ele sabia que o silêncio era apenas o pavio curto de uma bomba prestes a explodir.

— Já vai fugir para os seus estúdios, amor? — A voz de Sara surgiu rouca e carregada de sono, mas com a ponta de malícia habitual.

Ela se sentou, deixando o lençol escorregar deliberadamente para mostrar os seios siliconados e perfeitos, cujos mamilos estavam rígidos pelo frescor do ar-condicionado.

— Tenho trabalho, Sara. Coisa que você deveria considerar fazer em vez de planejar como gastar meu dinheiro em diamantes — Emanuel respondeu, vestindo uma camisa preta que contrastava com a pele clara e as tatuagens em seus braços.

Eduarda despertou com o som das vozes. Ela sentou-se devagar, esfregando os olhos com as costas das mãos, parecendo uma criança perdida em meio aos lençóis de seda escura.

— Bom dia, Emanuel... — sussurrou ela, com aquela voz manhosa que sempre desarmava a rigidez dele. — Você não vai tomar café com a gente?

— Hoje não, pequena. O dia está corrido — ele disse, aproximando-se da cama para dar um beijo rápido na testa de Eduarda.

Ao ver o gesto de carinho, Sara bufou, levantando-se da cama com uma energia agressiva. Ela caminhou até o espelho de corpo inteiro, admirando a própria silhueta.

— É claro que ele não tem tempo, Duda. Ele é um homem de negócios, não um babá de menina carente — Sara disparou, lançando um olhar de soslaio pelo reflexo. — Mas sabe, Emanuel... eu estava pensando. Já que você vai estar no estúdio principal hoje, eu podia passar lá. Minha fênix precisa de um retoque... ou talvez eu precise de algo novo. Algo que combine com a mulher que eu sou.

Eduarda apertou o lençol contra o peito, os olhos castanhos brilhando com uma determinação repentina que raramente mostrava.

— Eu também quero uma tatuagem — disse Eduarda, a voz firme o suficiente para fazer Emanuel parar o que estava fazendo.

Sara soltou uma gargalhada estridente, virando-se para a rival.

— Você? Tatuagem? Por favor, Eduarda. Você chora quando tira a cutícula da unha. Vai fazer o quê? Uma florzinha de cereja no pulso para mostrar como é delicada?

Eduarda ignorou a provocação de Sara e fixou o olhar em Emanuel, que agora a observava com curiosidade.

— Eu quero um coelhinho, Emanuel. Mas não no pulso — ela fez uma pausa, o rosto corando levemente, mas sem desviar o olhar. — Eu quero que você tatue na minha buceta. Bem em cima, onde só você possa ver.

O silêncio que se seguiu foi denso. Sara parou de rir instantaneamente, o rosto contorcido em uma mistura de choque e fúria. Emanuel sentiu um calor súbito subir pelo pescoço. Ele conhecia Eduarda; sabia que aquele pedido era uma marcação de território, uma resposta direta às provocações de Sara sobre ser "quente" ou "mulher de verdade".

— Um coelhinho? — Sara finalmente explodiu. — Que coisa mais ridícula e infantil! Você é tão previsível, Eduarda. Tentando ser a "coelhinha" dele. É patético.

— É uma marca — Eduarda retrucou, levantando-se da cama com uma graça silenciosa, caminhando até parar diante de Emanuel. — Para ele lembrar de quem é o dono toda vez que me tocar. E para você saber que, por mais que você se exiba, tem lugares em mim que ele conhece melhor do que qualquer um.

Emanuel segurou o queixo de Eduarda, forçando-a a olhar para ele. O contraste entre a doçura do rosto dela e a audácia do pedido o excitava de uma forma perigosa.

— Você tem certeza disso, Eduarda? Dói. É uma área sensível — ele avisou, a voz mais baixa e rouca.

— Eu aguento — ela murmurou, roçando o corpo no dele. — Se for você quem estiver segurando a agulha, eu aguento qualquer coisa.

— Ótimo! — Sara interveio, aproximando-se dos dois, a voz carregada de veneno. — Então eu vou junto. Quero ver você choramingar e borrar essa sua carinha de santa enquanto a agulha entra. E depois, Emanuel, você vai fazer algo em mim. Algo que mostre quem é a verdadeira rainha dessa porra toda.

Emanuel suspirou, sentindo a dor de cabeça latejar. Ele amava o caos que as duas proporcionavam, mas às vezes o nível de competição era exaustivo.

— Estejam no estúdio às duas da tarde. E se houver um único grito ou briga na recepção, eu mando as duas de volta para casa sem nada. Fui claro?

As duas assentiram, embora os olhares que trocavam por trás das costas de Emanuel prometessem uma guerra nuclear.

***

O estúdio de Emanuel era o ápice do luxo industrial. Paredes de tijolos aparentes, iluminação de trilho, poltronas de couro envelhecido e um silêncio profissional que era respeitado por todos os seus funcionários. Quando as duas mulheres entraram, o ar pareceu carregar-se de eletricidade.

Sara usava um vestido de couro sintético vermelho, tão justo que parecia pintado no corpo, e saltos que faziam um barulho autoritário no chão de cimento queimado. Eduarda, por sua vez, vestia um vestido leve de algodão branco, com botões na frente, e uma expressão de quem estava prestes a enfrentar um sacrifício.

— Entrem — ordenou Emanuel, apontando para sua sala privada nos fundos, longe dos olhos dos clientes comuns.

Lá dentro, o ambiente era estéril e moderno. Ele já havia preparado a bancada.

— Eduarda, na maca. Sara, sente-se ali e fique de boca fechada — ele comandou.

Sara cruzou as pernas, exibindo a coxa, e abriu um sorriso sarcástico.

— Pode começar o show. Quero ver quanto tempo a "princesinha" dura.

Eduarda subiu na maca com movimentos hesitantes. Ela olhou para Emanuel, buscando conforto. Ele se aproximou, calçando as luvas de látex pretas e preparando a máquina. O som do motorzinho começando a zumbir preencheu a sala, um ruído constante e intimidador.

— Deita, Eduarda. Abre o vestido — Emanuel disse, sua voz assumindo o tom profissional e frio que ele usava quando estava trabalhando.

Ela obedeceu, desabotoando o vestido e revelando a calcinha de renda branca. Com as mãos trêmulas, ela baixou a peça até o limite, expondo o monte de vênus perfeitamente depilado e a pele alva e macia.

Emanuel limpou a área com álcool, sentindo o corpo de Eduarda estremecer sob seu toque. Ele posicionou o decalque do pequeno coelho — um desenho minimalista, mas provocante.

— Vai doer agora — ele avisou.

Assim que a agulha tocou a pele sensível, Eduarda soltou um suspiro agudo e apertou as bordas da maca. Suas unhas cravavam-se no couro.

— Olha só — Sara comentou do canto da sala, a voz destilando prazer. — Já está quase chorando. Por que você não desiste logo e admite que não tem estrutura para isso? O Emanuel prefere mulheres que aguentam o tranco, não bonecas de porcelana que quebram no primeiro toque.

Eduarda abriu os olhos, que já estavam marejados, e encarou Sara.

— Eu não vou... desistir — ela disse entre dentes, a voz trêmula. — Emanuel, continua. Mais forte.

Emanuel olhou para Eduarda com uma admiração silenciosa. Ele sabia que ela estava sofrendo, mas a necessidade de provar algo para Sara era maior que a dor física. Ele limpou o excesso de tinta com um papel toalha e voltou ao trabalho, a agulha traçando as linhas do desenho.

— Sabe o que é engraçado, Sara? — Eduarda falou, a voz ganhando uma força inesperada conforme a adrenalina subia. — Você fala tanto de ser forte, de ser "mulher de verdade"... mas você é toda feita de plástico. Seus seios, seu nariz, sua boca... até sua atitude é comprada. Eu posso sentir dor, mas tudo o que o Emanuel toca aqui é real. E esse coelhinho vai estar aqui para sempre, lembrando a ele que, enquanto você é um acessório caro, eu sou a pele dele.

Sara levantou-se abruptamente, o rosto vermelho de ódio.

— Sua vadiazinha! Você acha que um desenho ridículo muda o fato de que ele me fode com muito mais vontade? Ele gosta da minha vulgaridade, ele gosta de como eu não tenho medo de nada!

— Chega! — Emanuel rugiu, sem parar o movimento da mão. — Sara, se você abrir a boca de novo, eu te expulso daqui agora.

Sara bufou e voltou a se sentar, bufando de frustração. Ela observava, com os olhos faiscando, enquanto Emanuel terminava o trabalho. Quando ele finalmente desligou a máquina, o silêncio na sala era quase ensurdecedor.

Ele limpou a área uma última vez e aplicou o cicatrizante. O pequeno coelho negro agora adornava a pele de Eduarda, um detalhe delicado e absurdamente erótico naquela região.

— Pronto. Ficou perfeito — Emanuel murmurou, seu olhar demorando-se na intimidade de Eduarda mais do que o necessário para um profissional.

Eduarda sorriu, uma expressão de triunfo brilhando em meio às lágrimas que ainda limpava do rosto. Ela se sentou devagar, fechando o vestido, mas não antes de lançar um olhar provocador para Sara.

— Agora é a sua vez, Sara — Eduarda disse, a voz agora suave e manhosa novamente. — O que você vai fazer? Algo que combine com você? Talvez um código de barras? Afinal, tudo em você tem um preço, não é?

Sara avançou dois passos, as mãos fechadas em punhos.

— Você quer ver o que eu vou fazer? Emanuel, eu quero que você escreva o seu nome. No meu pescoço. Bem grande. Para que todo mundo que olhar para mim saiba de quem eu sou.

Emanuel soltou uma risada sombria, jogando as luvas no lixo.

— Hoje não, Sara. O horário de vocês acabou. Eu tenho um cliente importante esperando na recepção.

— O quê? — Sara gritou. — Você deu o tempo todo para ela e agora me corta?

— Ela teve coragem de fazer algo que realmente significa algo para mim — Emanuel disse, aproximando-se de Sara e segurando-a pela cintura com força, trazendo-a para perto. — Você só quer competir. Voltem para o apartamento. Eu chego mais tarde. E Eduarda... cuide bem desse coelhinho. Vou querer conferir a cicatrização bem de perto esta noite.

Eduarda piscou para Emanuel, sentindo-se a vencedora daquela rodada. Ela caminhou até a porta, seguida por uma Sara que soltava faíscas pelos olhos.

No elevador, o silêncio durou apenas três andares.

— Você acha que venceu, não é? — Sara sibilou, encostando Eduarda contra a parede espelhada do elevador. — Só porque ele tatuou esse bicho ridículo em você. Mas adivinha quem ele vai procurar quando quiser foder de verdade? Ele não vai querer encostar nessa sua feridinha. Ele vai querer o meu corpo, que está sempre pronto.

Eduarda não se encolheu. Ela deu um passo à frente, ficando a centímetros do rosto de Sara.

— Deixe ele procurar, Sara. Ele sempre volta para o que é puro. E enquanto você gasta o seu tempo tentando ser notada, eu já estou sob a pele dele. Literalmente.

As portas do elevador se abriram no térreo. Eduarda saiu primeiro, com a cabeça erguida e um sorriso leve. Sara ficou para trás por um segundo, olhando o próprio reflexo no espelho, a fúria e a insegurança lutando dentro de si.

Naquela noite, o tríplex seria pequeno demais para as duas. Emanuel sabia disso. E ele mal podia esperar para ver como aquela nova marca no corpo de Eduarda inflamaria ainda mais a rivalidade que o mantinha tão viciado nelas. O coelhinho era apenas o começo de uma nova fase de jogos, onde a dor e o prazer caminhavam lado a lado, e onde ele, o mestre das agulhas, sempre daria a última palavra.