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Duas

Marcas na Terra e no Sangue

O sol da manhã de sábado estava impiedoso, refletindo-se no capô do SUV luxuoso de Emanuel enquanto ele dirigia em direção à reserva florestal nos arredores da cidade. O plano era uma trilha com um grupo selecionado de amigos e parceiros de negócios, uma tentativa de Emanuel de desanuviar a mente do estresse dos estúdios. No entanto, o clima dentro do veículo era tudo, menos relaxante.

No banco do passageiro, Sara exibia um conjunto de ginástica de grife, rosa choque e extremamente justo, que deixava muito pouco à imaginação. Ela retocava o batom enquanto falava sem parar ao celular com suas amigas, que seguiam em outro carro logo atrás. No banco de trás, Eduarda mantinha-se encolhida, vestindo roupas de trilha simples e funcionais, segurando uma garrafa de água como se fosse um escudo.

— Vai ser incrível, meninas! — exclamava Sara ao telefone, rindo alto. — O Emanuel reservou a área VIP do mirante. E sim, a "estagiária de santa" veio junto. Tentem não assustar a coitadinha, ela se magoa com o vento.

Eduarda olhou pela janela, sentindo o nó na garganta apertar. Ela sabia que as amigas de Sara — um grupo de mulheres tão artificiais e agressivas quanto a própria loira — estavam ali por um único propósito: tornar o dia dela um inferno.

— Sara, já chega — Emanuel disse, a voz grave e cansada. — Eu não quero intrigas hoje. Estamos aqui para relaxar.

— Relaxar? — Sara guardou o batom e lançou um olhar malicioso para ele. — Eu estou ótima, amor. São as suas outras companhias que parecem estar indo para um funeral.

Ao chegarem ao ponto de encontro, o grupo de amigos de Emanuel já os esperava. Entre eles, três amigas de Sara: Jéssica, uma loira de voz estridente; e as irmãs Paula e Bianca, conhecidas por serem as maiores fofoqueiras do círculo social de luxo. Assim que Eduarda desceu do carro, os olhares de desdém foram instantâneos.

— Nossa, Emanuel, você trouxe sua sobrinha? — Jéssica perguntou, soltando uma risadinha venenosa enquanto apontava para Eduarda.

— Ela é minha namorada, Jéssica. Você sabe disso — Emanuel respondeu friamente, colocando a mão possessivamente na base das costas de Eduarda.

— Ah, claro! — Paula interveio, aproximando-se de Sara e trocando um beijinho no ar. — É que ela é tão... discreta. Quase some perto da Sara, não é?

O grupo começou a caminhada pela trilha. O caminho era íngreme, cercado por pedras e raízes expostas. Emanuel liderava o grupo, mas frequentemente parava para olhar para trás, garantindo que Eduarda estava bem. Sara, percebendo a atenção dele, fazia questão de se pendurar no braço do tatuador, forçando-o a acelerar o passo e deixando Eduarda para trás, à mercê das outras mulheres.

— Então, Eduarda — começou Bianca, cercando a jovem junto com Jéssica em um trecho mais estreito da trilha —, ouvimos dizer que você fez uma tatuagem nova. Em um lugar bem... específico.

Eduarda sentiu o rosto queimar de vergonha. Ela sabia que Sara tinha espalhado o segredo para humilhá-la.

— Isso é assunto meu e do Emanuel — Eduarda respondeu, tentando manter a voz firme, embora seus passos estivessem ficando incertos no terreno acidentado.

— Que fofa! Ela acha que tem segredos — zombou Jéssica. — Querida, a Sara nos contou tudo. Um coelhinho? Sério? Você é tão infantil que chega a dar pena. O Emanuel gosta de mulheres que sabem o que fazem na cama, não de bichinhos de pelúcia.

— Me deixem em paz — sussurrou Eduarda, tentando apertar o passo para alcançar Emanuel, que estava alguns metros à frente, distraído por uma pergunta de um dos sócios.

— Onde você pensa que vai? — Sara, que tinha desacelerado para observar a cena, entrou na frente de Eduarda. — A conversa ainda não acabou.

— Sara, por favor, eu só quero caminhar — pediu Eduarda, os olhos já começando a marejar.

— Você é tão sonsa — sibilou Sara, aproximando-se do ouvido dela. — Acha que esse seu jeitinho de vítima vai funcionar aqui no meio do mato? Aqui ninguém está olhando para te proteger.

O grupo chegou a uma parte da trilha que margeava um pequeno barranco de pedras soltas. Emanuel estava cerca de dez metros à frente, gesticulando enquanto falava sobre um novo projeto em Berlim. Foi o momento que Jéssica e Sara trocaram um olhar cúmplice.

— Ops! Cuidado com a raiz! — Jéssica exclamou, estendendo o pé de forma deliberada enquanto Eduarda tentava passar.

Ao mesmo tempo, Sara deu um empurrão lateral no ombro de Eduarda, um gesto que pareceu acidental para quem olhasse de longe, mas que carregava toda a força de seu desprezo.

— Sai da frente, lerda! — Sara disse em voz alta.

Eduarda perdeu o equilíbrio. Seu pé direito virou em falso sobre uma pedra úmida e ela caiu, escorregando pela lateral da trilha até que seu corpo foi parado por um tronco de árvore caído. Um estalo seco ecoou no ar, seguido por um grito de dor que rasgou o silêncio da floresta.

— Ai meu Deus! — Sara exclamou, fingindo surpresa enquanto ria baixinho com as amigas. — Que desastrada! Eu disse que ela não tinha coordenação para isso.

Emanuel girou o corpo no mesmo instante. O som do grito de Eduarda atingiu seus ouvidos como um tiro. Ele viu a namorada caída, segurando o tornozelo, o rosto pálido de agonia.

— Eduarda! — O grito de Emanuel foi um trovão.

Ele correu, empurrando quem estivesse no caminho. Ao chegar perto dela, ele se jogou no chão, ignorando a lama que manchava suas roupas caras.

— Não toca... dói muito... — Eduarda soluçou, as lágrimas escorrendo livremente enquanto ela tremia de choque.

Emanuel olhou para o tornozelo dela, que já começava a inchar de forma alarmante. Ele então ergueu o olhar para o grupo que estava parado no topo da trilha. Sara estava com a mão na boca, mas seus olhos brilhavam de divertimento, e suas amigas trocavam risadinhas abafadas.

— Quem foi? — A voz de Emanuel era baixa, mas carregada de uma fúria tão gélida que o riso das mulheres morreu instantaneamente.

— Foi um acidente, Emanuel! — Sara disse, tentando recuperar a compostura. — Ela tropeçou sozinha, você sabe como ela é desajeitada...

— Eu vi o que você fez, Sara — disse um dos amigos de Emanuel, um rapaz chamado Marcos, que vinha logo atrás. — Eu vi a Jéssica colocar o pé e você empurrar.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Emanuel se levantou lentamente, deixando Eduarda por um segundo. Ele subiu os dois metros de volta para a trilha, caminhando em direção a Sara. A expressão em seu rosto era algo que nenhum deles jamais vira: uma mistura de ódio puro e uma proteção feroz que beirava o perigoso.

— Emanuel, querido, não seja dramático... — Sara começou, dando um passo para trás conforme ele se aproximava.

— Cala a boca — ele disse, a voz vibrando de ódio. — Se você, ou qualquer uma dessas suas amigas medíocres, chegar a menos de cinco metros da Eduarda novamente, eu juro pela minha carreira que vocês nunca mais colocarão os pés em nenhum evento, clube ou restaurante desta cidade. Eu vou apagar vocês da vida social antes do pôr do sol.

— Você não faria isso por causa dessa... dessa coisinha — Jéssica tentou intervir, mas recuou quando Emanuel fixou os olhos nela.

— Sumam daqui. Agora! — Emanuel rugiu, e o som foi tão autoritário que as três amigas de Sara viraram as costas e começaram a descer a trilha em passo acelerado, sem olhar para trás.

Sara permaneceu, o rosto transfigurado pela indignação.

— Você está me expulsando? Na frente de todo mundo?

— Eu estou te salvando de mim mesmo, Sara — Emanuel sibilou, aproximando-se tanto que ela podia sentir o calor de sua raiva. — Porque se eu olhar para você por mais um segundo enquanto ela está ali sentindo dor, eu não respondo pelo que posso fazer. Pegue a chave do outro carro com o motorista e vá embora. Agora.

Sara, percebendo que tinha passado de todos os limites e que Emanuel não estava blefando, soltou um som de desprezo, mas suas mãos tremiam enquanto ela pegava a bolsa e se afastava, bufando.

Emanuel voltou imediatamente para Eduarda. Ele se ajoelhou novamente e, com uma delicadeza que contrastava brutalmente com a fúria de segundos atrás, passou o braço por baixo dos joelhos dela e o outro pelas costas.

— Vai ficar tudo bem, pequena. Eu estou aqui — ele sussurrou contra o cabelo dela.

— Desculpa... eu estraguei o dia... — Eduarda murmurou, escondendo o rosto no pescoço dele, buscando o cheiro que a ancorava.

— Você não estragou nada — Emanuel disse, levantando-a com facilidade, carregando-a no colo como se ela não pesasse nada. — Eu é que peço desculpas por ter deixado aquelas hienas chegarem perto de você.

Ele começou a descer a trilha, carregando-a com passos firmes e cuidadosos. Seus amigos abriam caminho, olhando com respeito e um pouco de temor para o homem que normalmente era a personificação do controle, mas que agora agia movido por um instinto protetor primitivo.

Ao chegar ao carro, ele a acomodou no banco de trás, usando seu próprio paletó para elevar o pé machucado dela.

— Dói muito? — ele perguntou, limpando uma lágrima do rosto dela com o polegar.

— Um pouco menos agora que você está aqui — ela respondeu, dando um sorriso fraco, embora ainda estivesse pálida.

Emanuel fechou a porta e deu a volta para o banco do motorista. Antes de dar a partida, ele olhou pelo retrovisor e viu o grupo de Sara se afastando ao longe. Ele sentia uma satisfação sombria. Eduarda era frágil, sim, e muitas vezes manhosa, mas era a sua fragilidade que despertava nele a necessidade de ser o muro que a protegia do mundo.

— Emanuel? — a voz dela veio suave do banco de trás.

— Oi, pequena.

— Você... você realmente expulsou a Sara?

Emanuel ligou o motor, as mãos apertando o volante com força.

— Ninguém toca no que é meu, Eduarda. Especialmente quando esse alguém não tem um décimo da sua importância para mim.

Ele dirigiu em silêncio em direção ao hospital particular, mas sua mente já trabalhava em como compensar Eduarda. Naquela noite, não haveria brigas, não haveria Sara, não haveria provocações. Haveria apenas o cuidado dele, a devoção dele e a certeza de que, no mundo de Emanuel, Eduarda era a única que ele realmente se daria ao trabalho de carregar no colo, não importa o quão íngreme fosse o caminho.

Ao chegarem ao hospital, Emanuel não permitiu que nenhum enfermeiro a levasse na cadeira de rodas até que ele mesmo a colocasse nela. Ele preencheu a papelada com uma impaciência autoritária, exigindo os melhores especialistas.

Enquanto esperavam pelo raio-X, Eduarda segurou a mão dele.

— Ela vai ficar furiosa. Você sabe que a Sara não aceita perder.

— Ela já perdeu, Eduarda. Ela só ainda não percebeu — Emanuel respondeu, beijando os nós dos dedos da namorada. — Hoje ela entendeu que existem marcas que não são feitas com tinta, mas com respeito. E ela não tem nenhum dos dois.

Eduarda encostou a cabeça no ombro dele, sentindo-se, apesar da dor física, mais segura do que nunca. O jogo de poder no apartamento de Emanuel tinha mudado de patamar. Sara podia ter o silicone, a vulgaridade e a voz alta, mas Eduarda tinha o que realmente importava: o controle absoluto sobre o coração e a fúria do homem que todos temiam, mas que apenas ela conseguia dobrar com um simples olhar marejado.