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Duas

O Quilate do Desejo e a Medida do Excesso

A luz da manhã refletia no aço escovado da cozinha gourmet, mas Emanuel mal notava a estética impecável de sua cobertura. Ele encarava a xícara de café como se pudesse encontrar ali a solução para a equação de gastos e neuroses que se tornara sua vida pessoal. À sua frente, Sara folheava uma revista de estética com uma determinação predatória, enquanto Eduarda, do outro lado da ilha de mármore, desenhava círculos melancólicos em seu iPad, fingindo estudar a luz em obras de Caravaggio.

A paz durou exatamente o tempo necessário para Emanuel dar o último gole no café.

— Manu, amor — Sara começou, fechando a revista com um estalo e apoiando os cotovelos na mesa. O decote de seu robe de seda preta deixava claro que o espaço ali já estava no limite físico. — Eu andei pensando. Estive olhando umas fotos antigas e percebi que meu perfil está desatualizado. Acho que falta... presença.

Emanuel sentiu o primeiro espasmo de estresse na base do pescoço.

— Presença, Sara? Você é notada até em estádio de futebol no escuro.

— Não seja bobo — ela riu, uma risada metálica e ensaiada. — Eu estou falando de volume. Quero trocar as próteses. Quero subir para seiscentos mililitros. O Dr. Arnaldo disse que meu tórax comporta e que o resultado seria "impactante".

Eduarda levantou os olhos do iPad. O olhar sensível, que Emanuel costumava associar à paz, agora brilhava com uma faísca de competitividade silenciosa.

— Mais silicone, Sara? — Eduarda perguntou, a voz mansa, mas carregada de veneno. — Daqui a pouco você não vai mais conseguir abraçar o Emanuel sem que haja uma barreira de polímero entre vocês. Sem contar que estética artificial é tão... datada. A história da arte nos ensina que o excesso é o primeiro sinal da decadência.

Sara nem se deu ao trabalho de olhar para a rival.

— O que a história da arte ensina sobre ser uma tábua, Eduarda? Porque, até onde eu sei, os museus estão cheios de mulheres com curvas, não de meninas que parecem ter doze anos e precisam de um corset para fingir que têm cintura.

— Parem — Emanuel interveio, a voz rouca. — Sara, você já fez três intervenções nos últimos dois anos. Não há necessidade de mais.

— Há necessidade de eu me sentir bem, Manu! — Sara bateu na mesa, os olhos brilhando com uma vontade inabalável. — É o meu corpo, é a minha imagem. E você sabe que eu sou o melhor marketing para os seus estúdios. Quando eu apareço nas convenções em Londres ou Paris, todo mundo olha. Eu sou o brilho do império "Ink Empire".

Eduarda deixou o iPad de lado e se levantou. Ela caminhou até Emanuel e se apoiou em seu ombro, deixando que o aroma de baunilha e lavanda o envolvesse. Era a sua tática clássica: a suavidade contra a agressão.

— Se a Sara quer investir tanto em... expansão física — disse Eduarda, deslizando os dedos pelos cabelos da nuca de Emanuel —, eu acho justo que haja um equilíbrio. Afinal, eu valorizo o que é eterno, o que não murcha nem precisa de manutenção cirúrgica.

Emanuel suspirou, já prevendo o golpe.

— O que você quer dizer com isso, Duda?

— Eu quero joias, Manu — ela sussurrou no ouvido dele, mas alto o suficiente para Sara ouvir. — Vi um conjunto de esmeraldas colombianas em uma galeria que combinaria perfeitamente com a sensibilidade da minha pele. Se o valor que você vai gastar com o hospital, a equipe médica e as próteses da Sara for, digamos, cinquenta mil dólares... eu quero exatamente o mesmo valor em pedras preciosas.

Sara deu um pulo da cadeira, o rosto vermelho.

— Você está brincando? Esmeraldas? Para você usar naquele seu pescoço de girafa enquanto olha para quadros velhos? O meu silicone é um investimento na minha autoestima!

— E as minhas joias são um investimento no meu patrimônio e no meu espírito — Eduarda rebateu, mantendo a calma gélida. — Se o Emanuel pode pagar pelo seu capricho vulgar, ele pode pagar pela minha apreciação estética. É uma questão de equidade, não é, querido?

Emanuel olhou de uma para a outra. Ele era um homem que lidava com agulhas, sangue e tinta todos os dias, mas nada o feria tanto quanto a lógica financeira daquelas duas.

— Vocês estão me tratando como um banco — disse ele, levantando-se. — Eu não vou pagar por seiscentos mililitros de nada, nem por esmeraldas colombianas. Temos uma viagem para a convenção em Tóquio no próximo mês e eu preciso de foco.

— Se eu não estiver com o decote novo até Tóquio, eu não vou! — Sara cruzou os braços, fazendo biquinho.

— E se ela ganhar o que quer e eu não, eu me mudo para a casa da minha mãe em Florença — Eduarda declarou, os olhos marejados de uma tristeza subitamente conveniente. — Eu não suportaria ser a namorada "barata" enquanto ela desfila como uma estrela pornô financiada por você.

Emanuel sentiu a têmpora latejar. Ele sabia que, se não cedesse, o inferno doméstico seria insuportável. Se cedesse, estaria alimentando um monstro de duas cabeças.

— Tudo bem — ele cedeu, a voz carregada de uma derrota cara. — Amanhã. Vamos ao shopping. Sara, você marca sua consulta. Eduarda, você escolhe suas pedras. Mas eu não quero ouvir uma palavra sobre "volumes" ou "quilates" durante o jantar. Entendido?

As duas trocaram um olhar de vitória momentânea. A aliança de conveniência que haviam formado no shopping meses atrás estava morta; agora, era cada uma por si na corrida pelo ouro — ou pelo gel de grau médico.

...

O shopping de luxo era o habitat natural de Sara e o campo de batalha de Eduarda. Emanuel caminhava entre as duas, sentindo-se como um condenado a caminho da guilhotina, mas uma guilhotina cravejada de diamantes e com ar-condicionado central.

A primeira parada foi a joalheria. O ambiente era silencioso, com carpetes grossos que abafavam o som dos passos. Eduarda parecia em transe. Ela apontava para as peças com a precisão de um cirurgião.

— Aquelas — disse ela, indicando um par de brincos de esmeralda lapidação gota. — Elas têm uma profundidade que lembra as águas de Veneza no inverno.

— Elas lembram o tamanho do seu ego, isso sim — Sara resmungou, encostada no balcão de vidro, olhando o relógio cravejado de brilhantes. — Vamos logo, Eduarda. Eu tenho uma consulta às duas horas e o Dr. Arnaldo não gosta de atrasos.

— A pressa é inimiga da perfeição, Sara — Eduarda disse, provando os brincos diante do espelho. — Veja, Manu. Não parece que elas foram feitas para mim? Elas trazem luz para o meu rosto sem serem... barulhentas.

Emanuel olhou para o preço na etiqueta discreta. O valor era equivalente a um carro de luxo. Ele sentiu o peso do cartão no bolso, um peso que parecia queimar sua coxa.

— São lindas, Duda. Se é isso que você quer, leve.

Enquanto a vendedora preparava a embalagem de veludo, Eduarda lançou um olhar de triunfo para Sara.

— Agora, a sua vez, "Barbie" — disse Eduarda, com um sorriso mínimo. — Vamos ver quanto custa para você se transformar em um balão inflável.

A clínica de estética ficava a poucos metros do shopping, em um prédio espelhado que exalava o cheiro de antisséptico e vaidade. O Dr. Arnaldo recebeu o trio com a cordialidade de quem sabia que Emanuel era um de seus melhores financiadores indiretos.

— Seiscentos mililitros, Sara? — o médico perguntou, analisando a estrutura dela. — É uma mudança considerável. Teremos que ajustar a pele, talvez uma mastopexia associada... o orçamento vai subir um pouco devido à complexidade.

— Não importa — Sara disse, lançando um olhar desafiador para Eduarda. — O Emanuel quer o melhor para mim. Não é, amor?

Emanuel apenas assentiu, sentindo-se cada vez mais distante daquela realidade. Ele pensava em seus estúdios, na arte que ele criava com as mãos, e em como tudo aquilo parecia estar sendo soterrado por uma montanha de futilidades.

— O valor total, com hospital e anestesia, fica em torno de sessenta mil — disse o médico, entregando o papel.

Eduarda, que estava sentada em uma poltrona de couro, levantou-se imediatamente.

— Sessenta mil? — ela perguntou, a voz subitamente afiada. — Os meus brincos custaram cinquenta e cinco. Manu, faltam cinco mil para a conta fechar.

— Você não está falando sério — Emanuel disse, olhando para ela.

— Estou. Equidade, lembra? — Eduarda caminhou até a mesa do médico e pegou um catálogo de uma loja de bolsas de grife que estava ali. — Há uma bolsa de couro de crocodilo na vitrine da loja ao lado que custa exatamente a diferença. Assim, ninguém sai perdendo.

— Ninguém sai perdendo? — Emanuel explodiu, sua paciência finalmente atingindo o limite. — Eu estou perdendo! Eu estou perdendo a minha sanidade! Eu saio de casa para trabalhar, para criar arte, e volto para ser o juiz de uma disputa de quem gasta mais em coisas que vocês nem precisam!

O consultório ficou em silêncio. Sara e Eduarda olharam para ele com expressões diferentes: Sara com um choque genuíno, Eduarda com uma mágoa ensaiada.

— Manu... — Sara começou, tentando se aproximar.

— Não — ele a afastou com um gesto. — Vocês querem o silicone? Querem as joias? Querem a bolsa de crocodilo? Tudo bem. Eu vou pagar. Mas eu vou carregar as sacolas. E eu vou carregar o trauma emocional de saber que o meu relacionamento se resume a uma planilha de custos.

Ele pegou o orçamento da cirurgia e o recibo da joalheria.

— Vamos. Agora.

A saída da clínica foi um desfile de silêncio tenso. Emanuel caminhava na frente, os ombros rígidos. Atrás dele, Sara tentava manter o salto alto no ritmo apressado dele, enquanto Eduarda abraçava a sacola da joalheria como se fosse um escudo.

Ao passarem pela loja de bolsas, Emanuel parou.

— Entre — ele disse para Eduarda.

— Manu, se você estiver bravo, a gente não precisa...

— Entre e pegue a bolsa — ele repetiu, a voz sem emoção. — Eu quero que a conta feche. Quero que o valor do silicone da Sara e o valor das suas vaidades sejam idênticos até o último centavo. Assim, nenhuma de vocês pode reclamar de injustiça.

Dez minutos depois, eles saíram da loja. Emanuel agora carregava a sacola da joalheria, a sacola da bolsa de crocodilo e a pasta com os exames pré-operatórios de Sara. Ao todo, ele segurava o equivalente a quinze sacolas de compras acumuladas ao longo do dia, entre roupas que elas "precisavam" para Tóquio e os mimos da disputa.

Ele parou no meio do corredor do shopping, carregado de pacotes, com os braços doendo e a alma exausta.

— Olhem para mim — ele disse, e as duas pararam. — Eu sou um dos tatuadores mais respeitados do mundo. Eu tenho estúdios que são referência em cinco países. E aqui estou eu, servindo de cabide para a ganância de vocês.

— Não é ganância, Manu — Sara disse, tentando suavizar o tom. — É amor. A gente só quer estar bonita para você.

— Não mentira para mim, Sara — ele a cortou. — Vocês querem estar bonitas uma para a outra. Para esfregar na cara da rival quem tem o colar mais caro ou o peito mais novo. Eu sou apenas o espectador que paga o ingresso.

Eduarda aproximou-se, tentando tocar o rosto dele com sua mão delicada.

— Você está sendo duro, querido. A gente te ama.

Emanuel desviou o rosto.

— O amor de vocês é caro demais, Duda. Ele vem com nota fiscal e garantia de fábrica.

Ele começou a caminhar em direção ao estacionamento, ignorando os olhares dos transeuntes que reconheciam o famoso tatuador carregando sacolas como um assistente pessoal. O peso físico das compras era nada comparado ao peso emocional de perceber que seu triângulo amoroso era, na verdade, um labirinto de espelhos onde cada uma só olhava para si mesma.

Ao chegarem ao carro, Emanuel jogou as sacolas no porta-malas com uma violência controlada. Ele se sentou no banco do motorista e respirou fundo, fechando os olhos.

— Manu? — Eduarda chamou do banco de trás, com sua voz mais doce. — Você vai nos levar para jantar naquele lugar novo nos Jardins?

— Não — Emanuel respondeu, ligando o motor. — Eu vou levar vocês para casa. Vou trancar a porta da cobertura e vou para o meu estúdio passar a noite tatuando peles que não reclamam, que não pedem esmeraldas e que não querem seiscentos mililitros de nada.

— Mas e a minha consulta? — Sara perguntou, preocupada.

— A cirurgia está paga, Sara. As joias são suas, Eduarda. Vocês conseguiram o que queriam. Agora, me deem o direito de ter o que eu quero: silêncio.

O trajeto de volta foi marcado por um silêncio sepulcral. Sara olhava pela janela, possivelmente planejando os biquínis que usaria com o novo corpo. Eduarda acariciava o veludo da caixa de joias, perdida em seu próprio mundo de estética e posse.

Emanuel, no entanto, olhava para a estrada e via apenas o vazio. Ele percebeu que, naquela guerra entre o silicone e a esmeralda, o único território devastado era o seu próprio coração. Ele era o homem que tinha tudo, mas que, carregando quinze sacolas de luxo, sentia-se a pessoa mais pobre do mundo.

Ao entrarem no apartamento, as duas correram para seus respectivos quartos, ansiosas para admirar seus novos troféus. Emanuel ficou parado na sala, olhando para a vista deslumbrante de São Paulo. Ele pegou o celular e viu uma mensagem de seu gerente em Londres sobre uma nova convenção.

— Talvez seja hora de uma viagem — ele sussurrou para si mesmo. — Uma viagem sem volta.

Mas ele sabia que, na manhã seguinte, a manha de Eduarda e a provocação de Sara o puxariam de volta para o labirinto. Porque o vício dele não era o luxo, nem a beleza; era a ilusão de que, algum dia, ele seria mais importante para elas do que o brilho de uma pedra verde ou o volume de um frasco de gel.

Ele caminhou até o escritório e fechou a porta. Lá fora, o som de Sara gritando de alegria com uma nova bota e Eduarda rindo baixinho enquanto provava o colar ecoava pelo corredor. Emanuel pegou sua máquina de tatuar e começou a desenhar em uma pele sintética. O som do motor era a única coisa que abafava o barulho de uma vida que custava caro demais para ser vivida.

Quinze sacolas. Sessenta mil mililitros de silicone simbólico. Cinquenta e cinco mil dólares em pedras frias. E um homem que, no topo do mundo, só queria um lugar onde o amor não tivesse preço de tabela.