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Duas

O Labirinto de Barbatanas e a Obsessão de Seda

A cobertura de Emanuel, que outrora fora um santuário de minimalismo e sofisticação industrial, estava se transformando em um depósito de tecidos caros e tensões acumuladas. O silêncio da manhã foi quebrado não por uma briga de gritos, mas pelo som rítmico e persistente de algo sendo puxado. Emanuel, com uma caneca de café preto na mão e as olheiras de quem não dormia bem desde a "crise do biquíni de crochê", caminhou até o quarto de Eduarda.

A cena que encontrou era digna de um quadro barroco, se o barroco tivesse sido financiado pelo limite de seus cartões Black. Eduarda estava de costas para a porta, segurando-se nas colunas da cama de dossel, enquanto tentava, desesperadamente, puxar os cordões de um corset de renda branca que parecia ter sido desenhado por um sádico francês do século XVIII.

— Duda, o que você está fazendo? — Emanuel perguntou, a voz carregada de uma exaustão que beirava a derrota.

— Manu! — Ela se virou, ou tentou se virar, com a mobilidade de uma estátua de mármore. O rosto estava levemente corado, os lábios entreabertos pela dificuldade de respirar. — Eu não consigo... alcançar os cordões de trás. Você pode apertar para mim?

Emanuel deixou a caneca sobre a cômoda e aproximou-se. O corset era uma peça de engenharia têxtil impressionante: barbatanas rígidas, renda chantilly e uma estrutura que reduzia a cintura de Eduarda a algo que ele poderia envolver com as duas mãos.

— Você não acha que isso está um pouco apertado demais? — Emanuel questionou, segurando os laços de seda. — Você mal consegue terminar uma frase sem perder o fôlego.

— É uma questão de silhueta, Manu — Eduarda sussurrou, a voz saindo pequena. — Eu andei pesquisando na faculdade... a estrutura dos corsets vitorianos era uma forma de arte. É sobre contenção e exibição. Aperta, por favor.

Emanuel puxou os cordões. Ele sentiu a resistência do corpo dela contra a peça rígida. Era uma sensação estranha e controladora que, por um momento, alimentou seu próprio instinto protetor e possessivo, mas a racionalidade logo retomou o lugar.

— Isso vai acabar te machucando, Eduarda.

— Não machuca — ela mentiu, soltando um suspiro agudo quando o nó foi finalizado. — Faz eu me sentir... segura. Como se eu estivesse protegida por uma armadura de beleza.

A porta do quarto foi chutada — não aberta, chutada — e Sara entrou, ostentando um robe de seda carmim que deixava muito pouco para a imaginação e um par de saltos que faziam barulho suficiente para acordar os vizinhos do andar de baixo.

— Mas o que é isso? — Sara parou no meio do quarto, cruzando os braços e soltando uma gargalhada que transbordava veneno. — Agora a santinha resolveu virar uma personagem de filme de época? O que vem a seguir, Eduarda? Um desmaio ensaiado e um leque de penas?

— É um corset, Sara — Eduarda respondeu, mantendo a postura ereta, em parte pela dignidade, em parte porque a peça a impedia de se curvar. — É clássico. É elegante. Coisas que você não entenderia, já que sua ideia de moda é qualquer coisa que tenha elastano e brilhe no escuro.

— Elegante? — Sara aproximou-se, circulando Eduarda como um tubarão. — Você parece um rolo de carne amarrado com barbante caro. Emanuel, você vai mesmo deixar ela gastar o seu dinheiro com essas coisas que deformam os órgãos internos? Eu uso silicone, pelo menos ele fica no lugar e não me impede de comer uma salada!

— Eu não estou deformando nada — Eduarda rebateu, a voz ganhando uma força inesperada. — Eu estou apenas acentuando a minha feminilidade. O Manu gosta, não gosta, querido?

Emanuel olhou de uma para a outra. Ele estava no centro de um furacão de vaidades.

— Eu gosto que vocês estejam vivas e respirando — Emanuel disse, tentando ser a voz da razão. — Sara, não comece. Eduarda, se você passar mal por causa dessa coisa, eu vou cortá-la com a minha tesoura de costura.

— Você não teria coragem! — Eduarda exclamou, horrorizada. — Custou uma fortuna!

— Exatamente por isso — Emanuel suspirou. — Agora, por favor, vamos tentar ter um dia normal. Eu tenho uma reunião no estúdio com um fornecedor de tintas de Londres e não quero sair de casa com a sensação de que vou voltar e encontrar uma de vocês asfixiada.

— Ah, não se preocupe, Manu — Sara disse, passando a mão pelo braço dele e lançando um olhar vitorioso para Eduarda. — Eu vou cuidar muito bem da nossa "boneca de porcelana". Vou garantir que ela não quebre enquanto tenta fingir que tem cintura.

...

O dia de Emanuel foi um borrão de estresse. Cada vez que seu celular vibrava, ele temia ser uma ligação do hospital ou do síndico. A obsessão de Eduarda pelos corsets havia escalado rapidamente. O que começara como uma curiosidade histórica tornara-se uma coleção. Havia corsets de cetim, de couro, de brocado e, o favorito dela, o de renda francesa com barbatanas de aço.

Quando ele finalmente retornou à cobertura, esperando o silêncio da exaustão, encontrou o caos em um novo patamar de luxo e vulgaridade.

A sala estava repleta de sacolas. Sara e Eduarda estavam no meio de uma disputa de territórios no sofá principal. Sara havia comprado cinco pares de sapatos novos — todos com saltos que pareciam agulhas de tatuagem — e Eduarda, em uma espécie de retaliação silenciosa e cara, havia encomendado mais três corsets sob medida.

— Emanuel! — Sara gritou assim que ele cruzou a porta. — Você precisa falar com ela! Ela se recusa a tirar essa armadura de renda nem para sentar à mesa! Ela está há seis horas sem comer porque diz que "o estômago não tem espaço"!

— É uma dieta estética, Sara — Eduarda disse, a voz agora visivelmente mais fraca. Ela estava sentada na ponta da poltrona, as costas retas como uma régua, o rosto pálido. — A beleza exige sacrifícios.

Emanuel soltou as chaves na mesa e caminhou até Eduarda. Ele notou que a respiração dela estava curta e superficial.

— Chega, Eduarda. Tira isso agora.

— Não, Manu... eu quero que você me veja assim no jantar. Eu agendei aquele restaurante no Soho...

— Você não vai a restaurante nenhum nesse estado — Emanuel disse, a autoridade de quem geria impérios finalmente transbordando. — Sara, ajude-a a ir para o quarto.

— Com prazer — Sara sorriu, mas havia uma sombra de preocupação real em seus olhos que ela tentava esconder com sarcasmo. — Vamos, Cinderela, antes que sua carruagem de renda vire uma maca de hospital.

No quarto, a cena foi de uma tortura compartilhada. Sara, com suas unhas longas e decoradas, lutava contra os nós que Emanuel havia apertado de manhã.

— Meu Deus, Eduarda, você é louca? — Sara resmungava enquanto puxava os cordões. — Pra que tudo isso? O Emanuel já te ama, sua tonta. Ele gosta desse seu jeito de bicho do mato sensível. Você não precisa se espremer até virar um palito de dente.

— Você... você não entende — Eduarda arfava a cada centímetro de cordão liberado. — Você é... expansiva. Você toma o espaço todo. Se eu não me moldar, se eu não for... perfeita... eu sinto que desapareço perto de você.

Sara parou por um segundo, as mãos paradas nas costas de Eduarda. O silêncio que se seguiu foi desconfortável.

— Você é uma idiota — Sara disse, a voz subitamente baixa, sem o brilho irônico habitual. — Eu tomo espaço porque eu grito, Eduarda. Eu sou barulhenta porque se eu não for, ninguém me vê. Mas você... você não precisa de nada disso. O Emanuel olha para você como se você fosse a última gota de água no deserto. Eu é que tenho que me entupir de silicone e usar roupas que brilham para competir com esse seu olhar de coitada.

Eduarda virou a cabeça, surpresa pela confissão.

— Você sente isso?

— Cala a boca e respira — Sara puxou o último laço e o corset se abriu.

Eduarda soltou um suspiro profundo, o peito subindo e descendo com força enquanto o oxigênio finalmente retornava aos seus pulmões em abundância. Ela se sentia leve, mas também vulnerável. Sem a estrutura rígida, ela era apenas Eduarda novamente.

Emanuel entrou no quarto no momento em que a peça de renda caía no chão como uma casca de cobra descartada.

— Melhor? — ele perguntou, aproximando-se e sentando-se na beira da cama ao lado delas.

— Sim — Eduarda murmurou, encostando a cabeça no ombro dele. — Mas eu ainda quero o de seda azul que chega amanhã.

Emanuel fechou os olhos e soltou um riso amargo.

— Eu desisto. Eu vou comprar uma loja de roupas e trancá-las lá dentro.

— Se for para comprar, Manu — Sara disse, recuperando seu tom provocador e sentando-se do outro lado de Emanuel —, eu vi uma bota de cano alto, de couro de cobra, que ficaria maravilhosa com o meu novo biquíni.

— E eu vi um corset de veludo bordado que combinaria com o meu estágio na galeria... — Eduarda completou, a manha retornando à sua voz com força total.

Emanuel sentiu as duas se apoiando nele. De um lado, o perfume doce e a fragilidade calculada de Eduarda; do outro, o cheiro de loção bronzeadora e a energia vulcânica de Sara. Ele era o eixo de um mundo que girava em torno de futilidades caras e carências profundas.

— Amanhã — Emanuel começou, a voz firme — nós vamos ao shopping.

As duas se animaram instantaneamente.

— Mas — ele continuou — eu vou carregar as sacolas. Eu vou pagar as contas. E eu vou decidir quando o corset está apertado demais. E se eu ouvir mais uma briga sobre quem é mais "elegante" ou quem "toma mais espaço", eu juro que mando as duas para um retiro espiritual na Índia onde só se usa túnicas de algodão cru.

— Algodão cru não combina com o meu tom de pele — Sara reclamou, fazendo biquinho.

— E túnicas não têm estrutura — Eduarda lamentou.

Emanuel levantou-se, deixando as duas na cama. Ele caminhou até a sala, olhou para as quinze sacolas espalhadas e para o corset de renda jogado no chão do quarto. O trauma emocional era uma constante, uma dor latente que ele já aceitara como parte de sua rotina de luxo.

Ele pegou seu celular e viu a notificação da fatura do cartão. O valor era obsceno.

— É o preço da paz — ele mentiu para si mesmo, sabendo que a paz naquela cobertura era apenas o intervalo entre um biquíni de crochê e um corset de barbatanas de aço.

Naquela noite, o jantar foi silencioso. Eduarda comeu, finalmente recuperando a cor no rosto. Sara bebeu champanhe e criticou a decoração da sala. E Emanuel, o tatuador rico e renomado, percebeu que sua pele estava marcada por coisas que nenhuma agulha poderia desenhar: a exaustão de amar duas mulheres que se odiavam, mas que eram unidas pelo desejo insaciável de serem o centro de seu universo.

— Manu? — Eduarda chamou, após o jantar.

— Sim, Duda.

— O corset azul... ele tem detalhes em prata. Você acha que eu deveria usar com o colar que você me deu ou com um novo que vi na vitrine?

Emanuel olhou para Sara, que já abria a boca para sugerir algo três vezes mais caro e chamativo.

— Com o que você quiser, Eduarda — Emanuel disse, levantando-se e indo em direção ao escritório. — Desde que você consiga respirar para me dar boa noite.

Ele fechou a porta, mas ainda podia ouvir as vozes delas na sala. Não estavam brigando. Estavam discutindo a gramatura da seda. Emanuel sorriu, um sorriso cansado e resignado. No labirinto de barbatanas e rendas, ele era o fio condutor, o homem que carregava o peso de um triângulo que nunca fecharia, mas que brilhava com o brilho caro e estéril de sua própria destruição.

Amanhã seriam mais quinze sacolas. Mais trauma emocional. E, possivelmente, mais um corset que ele teria que desamarrar enquanto o mundo lá fora achava que ele tinha o controle de tudo. Mal sabiam eles que, na cobertura de Emanuel, quem comandava o espetáculo eram os cordões de seda que ele mesmo insistia em apertar.